A amnésia do dr. Passos e a modéstia da dra. Maria Luís

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 04/07/2016)

nicolau

Nos últimos dias, o dr. Passos Coelho e a dra. Maria Luís deram pujantes sinais de vida. O primeiro esclareceu-nos que o atual Governo está a dar cabo da bela obra que ele edificou. A segunda garantiu-nos que com ela ao leme das Finanças não estaríamos com o cutelo das sanções apontado ao pescoço.

Comecemos, por uma questão de educação, pela dra. Maria Luís. A ex-ministra das Finanças e atual vice-presidente do PSD teve um ataque de modéstia e disse para que não houvesse dúvidas: “Se eu fosse ministra das Finanças, a questão das sanções não se colocava”.

Maria Luís tem toda a razão. Se ela fosse ministra das Finanças, a questão das sanções não se colocava, mas não pelas razões que ela pretende que supostamente são as verdadeiras, ou seja, a gestão orçamental de 2015. Mesmo que fosse ela a ministra e o défice tivesse ficado em 3,2% (como ficou oficialmente, embora Maria Luís defenda que se quedou nos 3%) não haveria sanções porque não só existia (existe) uma enorme identidade do ponto de vista político e ideológico entre o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, e o seu pau mandado, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, com o anterior Governo PSD/CDS, como a ex-ministra era (é) muito apreciada e uma pupila dileta de Schäuble.

E que não haveria sanções prova-o o facto de, entre 2011 e 2014, o Governo PSD/CDS ter falhado sistematicamente as metas inscritas nas versões iniciais dos Orçamentos do Estado, e Bruxelas, Berlim e o Eurogrupo terem sempre acolhido com grande bonomia essas derrapagens, sem nunca terem colocado a questão das sanções em cima da mesa.

Mais ainda: o que Schäuble, Dijsselbloem e a ala dura da Comissão, liderada por Victor Dombrovski, querem sancionar não é o défice de 2015 mas a política económica de 2016 seguida pelo atual Governo português, com o qual não concordam e cuja alternativa orçamental não subscrevem.

Quanto ao dr. Passos Coelho, deu sinal de vida num artigo no “Diário de Notícias” onde diz que “se não fosse a política do BCE (…) Portugal já não teria condições para se financiar nos mercados externos”. Verdades como punhos, dr. Passos, verdades como punhos! O pequeno problema é que se não fosse o presidente do BCE, Mario Draghi, a declarar no verão de 2012 que utilizaria todos os instrumentos à sua disposição para salvar o euro e se não fosse a política de compra de ativos do BCE a partir de 2015, as taxas de juro para Portugal teriam passado todo esse período bem acima do que se verificou e, provavelmente, não teríamos tido sequer possibilidade de ter uma saída limpa do programa de ajustamento. É que as taxas de juro baixas, dr. Passos, não valem só para este Governo; valeram, e muito, para o Executivo que liderou. Mas isto já foi há tanto tempo que o dr. Passos, seguramente devido a uma amnésia seletiva, não se lembra de tal.

Diz também o dr. Passos que o atual Governo tratou “da pior maneira a situação do Banif”. Provavelmente é outra verdade como punhos. Mas não foi o Governo do dr. Passos que deixou arrastar a situação do Banif durante três anos, apesar dos sucessivos avisos da Comissão? E não foi o dr. Passos que permitiu que o banco enviasse oito planos de reestruturação para Bruxelas, todos chumbados, sem que a dra. Maria Luís tivesse feito algo que mudasse as águas em que navegava a instituição? É que foi o Governo do dr. Passos que “nacionalizou” o Banif – logo tinha responsabilidades decisivas no seu futuro. O dr. Passos não se lembra disto. É preciso cuidado com essa amnésia seletiva, porque se está a agravar.

E, finalmente, a frase definitiva: “O Governo e a sua base política de apoio têm exacerbado os riscos. E quando externamente algumas contingências previsíveis se materializam, como o resultado do referendo britânico mostra, o Governo atua como se tudo isto fosse inesperado e o limitasse injustamente”.

Ficamos, pois, a saber que para o dr. Passos o Brexit era uma “contingência previsível” – pena ter havido tanta gente, inclusive os famosos mercados, a não prever tal “contingência previsível”. E pena maior foi o dr. Passos não ter compartilhado esse facto com o mundo.

Regista-se, finalmente, que para o dr. Passos o Brexit não vai limitar Portugal, no sentido de ter impacto económico sobre o nosso retângulo. Ainda bem. Já tínhamos o otimismo esclarecido do Prof. Marcelo, o otimismo irritante do dr. Costa, passamos agora a ter o otimismo pessimista do dr. Passos. Otimismo porque, com ele, a situação há um ano era muito melhor do que agora – e se o voltarmos a chamar, a situação tornará a ser melhor do que agora. Pessimismo porque, sem ele e com este Governo, vamos a caminho de novo resgate. Ora, perante esta análise há que marcarmos dia e hora e gritarmos todos da janela: “Dr. Passos fur immer!” (o “fur immer” quer dizer “para sempre” e é para o dr. Schäuble não ter de se incomodar a mandar traduzir a nossa nova palavra de ordem). E nessa altura, com o regresso do dr. Passos a São Bento, voltaremos a dormir descansados. Oremos!

8 pensamentos sobre “A amnésia do dr. Passos e a modéstia da dra. Maria Luís

  1. Cabe às imprensa e aos jornalistas, formar/informar/relembrar a opinião pública deste país amorfo,confrontar o Passos Coelho com um conjunto de questões que atestam a sua corresponsabilidade com a situação atuação atual do país:
    Credibilidade do anterior governo? Qual a credibilidade de um governo de capachos e lambe-botas, sempre pronto a por-se de cócoras perante a Kesarina Merkel e os seus “pastores”? De um governo que doou empresas públicas a empresas falidas e que depois lhes encomendou dois barcos para a marinha, sem concurso público; um governo dos contratos dos usbmarinos e das pandur? Um governo dos contratos de contrapartidas não cumpridos? Um governo de ex-licenciados e das negociatas da Efisa, entre outras; Um governo de mentirosos e de homens de decisões irrevogáveis que, para defender interesses pessoais, amanhã deixam de o ser? Um governo que precarizou empregos, cortou salários, reformas, prestações sociais e apoios, nomeadamente materno/infanti e abono de família, que permite a discriminação, por parte das empresas, das grávidas ou na contratação de quem pretenda ter filhos; que aconselhou a geração mais bem preparada de sempre (a geração dos 500€) a sair da zona de conforto e migrar, gente que vai fazer falta ao desenvolvimento económico do país e do I&D; Um governo que cria instabilidade e incerteza nos jovens e que, agora, com Cristas Assumidas ou não, vem, hipocritamente expressar preocupações com as baixas taxas de natalidade (fazendo lembrar o bombeiro incendiário que põe o fogo e depois vai a correr para o quartel dos bombeiros tocar a sirene). Quem é o jovem, responsável, que não tendo perspetivas de vida se arisca a ter filhos, sabendo que não tem condições para lhes dar uma vida digna e formação? Um governo responsável por termos excedido os limites do déficit, com a palhaçada do BANIF, ao, apesar das insistências de Bruxelas (sem ameaças nem sanções. Vá-se lá saber porquê) e que depois se vem por em bicos de pés a meter farpas e a desculpar as declarações e as ameaças dos (ir)responsáveis de Bruxelas e/ou alemães. tal como Pilatos, lavando as mãos e culpabilizando o atual governo. Enfim um ex-governo composto pelas tais elites de traidores, de que o Presidente falou no 10 de junho. Enfim um ex-governo de PAF´s (Pantomineiros&Fantoches Associados).

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  2. Nada há a comentar , são ideias que os grandes sabedores da matéria julgam-se com direitos de ofenderem e machucar quem esteve quatro anos a tentar levantar o país duma possível e avassaladora banca rota. Agora tudo são rosa, vamos ver quantos espinhos sairão daqui. Nada mais há a acrescentar .

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