Marcelo e a “geringonça”

(Daniel Oliveira, in Expresso, 30/01/2016)

Autor

                         Daniel Oliveira

Foi das poucas coisas que Marcelo Rebelo de Sousa foi deixando cair na campanha e que já voltou a dizer depois dela: que quer o regresso dos consensos e dos pactos de regime. Na realidade, a maioria que se formou no Parlamento construiu consensos e fez pactos de regime. Mas Marcelo quer que uns e outros se façam entre o PS e o PSD, não entre o PS, o BE e o PCP. Mas sabe que, para reconstruir o bloco central, não pode ter Passos a liderar o PSD. Ajudar a apear Passos é coisa que Marcelo fará, também por razões pessoais, com enorme prazer. Fabricando o seu sucessor a partir de Belém? Intrigando? Lançando farpas? Nada disso. Basta que se perceba que, com Passos Coelho a liderar um PSD encostado à direita, António Costa pode continuar o seu casamento à esquerda com a proteção do Presidente.

No momento em que os militantes do PSD e os interesses que em torno dele orbitam perceberem que estão reféns de Passos, que só sem ele terão um aliado em Belém, as coisas começarão a acontecer naturalmente. Lá para 2017, se o PSD não vencer as autárquicas. Em resumo, Marcelo não dará boas notícias ao PSD enquanto o PSD não as tiver para dar a Marcelo.

Deste ponto de vista, a sua vitória não foi um problema para Costa. Pelo contrário. Qual é o erro de cálculo do primeiro-ministro? É que depois de Passos cair Marcelo continuará em Belém.

Se a “geringonça” (afeiçoei-me ao nome) não será afetada pela vitória de Marcelo, tão cedo também não será beliscada dentro do PS. É verdade que os socialistas perderam muito voto de simpatia para Marcelo. Mas a oposição interna, que se meteu na aventura de lançar uma candidata presidencial própria, esturricou-se de forma espetacular. Assis pode fazer as tendências que quiser. A comer leitão são umas dezenas, nas urnas valem quase o mesmo que Tino de Rans. O problema para Costa pode mesmo vir a ser o PCP. Não porque o eleitorado comunista tenha debandando em zanga com os entendimentos com o PS, como li por aí. Os dados destas eleições, para quem se deu ao trabalho de os estudar, até dizem o contrário: a maioria do voto comunista perdido foi para Sampaio da Nóvoa, o candidato natural da “geringonça”. E o Comité Central confirmou, esta semana, essa evidência. O problema do PCP é o Bloco, como se tem visto pelas repetidas acusações de populismo a Marisa Matias. O problema é que o BE já vai na segunda vitória e fica permanentemente com os louros de cada conquista ao Governo. Nervoso e a lidar com conflitos internos, o PCP terá a tentação de o vencer ao Bloco no único tabuleiro em que este não conta: o da luta sindical. O que pode trazer muitos dias amargos a António Costa.

De resto, parecem-me infundadas as tentativas de fazer leituras partidárias da votação presidencial. A direita votou em quem tinha mesmo de votar e parte do centro-esquerda votou num Marcelo simpático que não parecia perigoso. A sondagem à boca de urna, da Aximage, que acertou nos resultados presidenciais, também explicou que está tudo na mesma: se as eleições legislativas fossem hoje a esquerda continuava em maioria e o PS empatava com o PSD. As eleições presidenciais tiveram e terão um efeito nulo na “geringonça”. Costa só tem de continuar preocupado com um problema que se agravou: a rivalidade entre o Bloco e o PCP. Em Belém e no Rato reina a paz absoluta.

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