Semanada – Muitas flores e poucos cheques na noite eleitoral

In Blog O Jumento,

Depois de muitos anos de muitos boatos sobre a orientação sexual de José Sócrates eis que a investigação que está sendo feita à vida do ex-primeiro-ministro já começou a dar frutos e temos de agradecer a Rosário Teixeira e ao inspector dos impostos o esclarecimento desta dúvida nacional, Sócrates não só não é gay como já teve pelo menos uma manita de mulheres. Parece que a investigação já deixou para trás muitas das suspeitas e agora toda a atenção da investigação vai para a ajuda financeira que teria chegado às ex mulheres, namoradas e amigas de Sócrates. Temos de ter esperança, O Rosário ainda vai conseguir provar alguma coisa.

A crer na comunicação da direita metade do mundo parou por causa do esboço do orçamento enviado para Bruxelas, as notícias multiplicam, por meio país já tomou posição e nunca um OE foi tão discutido como este esboço. Lá fora multiplicam-se as posições, desde as agências de rating até a fonte oficiosa de Berlim já tomaram posição. A direita parece rejuvenescida com a possibilidade de Bruxelas chumbar o OE ou de as agências baixarem ainda mais a nota da dívida portuguesa. A direita ainda não perdeu a esperança.
Passos Coelho desempenha tão bem o seu papel de primeiro-ministro no exílio, mantendo a sua postura pós-Tecnoforma, continuando a usar o pin que foi imagem de marca do governo, e a fazer acompanhar a todo o lado do seu ajudante de campo dos pontapés. O papel tem sido tão bem desempenhado que até António Costa anda meio confundido e trata-o por primeiro-ministro em pleno parlamento. Isto começa a lembrar Salazar, depois de ter caído na cadeira continuou convencido de que ainda era primeiro-ministro.
O governo anulou quase todos os concursos para chefias do Estado, os que conseguiram convencer o governo de que tinham padrinhos à esquerda sobreviveram, os outros terão de concorrer outra vez. Bilhim, o senhor que preside à CRESAP, foi reformatado e agora vai ter de abrir concursos e escolher candidatos do agrado do novo governo. Digamos que quem escolheu os candidatos sugeridos por um governo está mais do que habilitado para obedecer a outro governo.
Por onde andarão os apoiantes de Maria de Belém , os que a empurraram para uma candidatura presidencial com o objectivo de trocar as voltas a António Costa? A maioria deles despareceu mal as sondagens começaram a evidenciar o desastre, zangaram-se com a senhora por não ter convidado Seguro para a campanha. Na noite eleitoral eram apenas uns quantos e deram-lhe muitos beijinhos e palmadinhas. O problema é que o que a senhora precisa mais neste momento é de dinheiro para pagar as despesas de uma campanha que aprecia ser rica.

Fonte: Semanada

Excel, antílope e bala dundum

(Nicolau Santos, in Expresso, 30/01/2016)

nicolau

Quando a troika aterrou na Portela no longínquo ano de 2011 e em 15 dias impôs um programa de ajustamento detalhadíssimo, a saloiice nacional veio ao de cima. Como era possível que técnicos estrangeiros desenhassem, em tão pouco tempo, um caderno de encargos com tudo o que precisávamos fazer para sair da crise e para crescermos em bases sãs e fortes, enquanto hordas de economistas nacionais nunca se tinham sequer aproximado desse nirvana?

Pois bem, agora que a poeira assentou, passados quatro anos e meio, vem o Tribunal de Contas Europeu (TCE) dizer, fazendo a análise sobre o que se passou em cinco países (Portugal, Irlanda, Letónia, Roménia e Hungria), que a Comissão Europeia não só falhou na antevisão das razões que conduziram à crise como depois falhou na forma como lidou com ela em cada um destes Estados.

O primeiro erro, com consequências trágicas, foi o dos multiplicadores orçamentais. Os programas de ajustamento foram feitos com base no pressuposto de que por cada euro cortado na despesa pública o efeito recessivo no PIB era de 50 cêntimos. Reconheceu-se depois que era entre 90 cêntimos e 1,7 euros. Resultado: as recessões foram muito mais aprofundadas e longas do que o previsto. Segundo erro: a fé cega nas folhas de Excel. Diz o relatório do TCE: “Os erros nas folhas de cálculo foram, em alguns casos, substanciais. (…) A sua descoberta não teria necessariamente levado a um aumento do montante da assistência financeira (…) mas poderia ter resultado num conjunto diferente de políticas destinadas a cobrir o défice de financiamento.” O que poderia mudar substancialmente alguns efeitos da crise. Terceiro erro: a estimativa das necessidades de financiamento. No caso português, subestimaram-se 25 milhões de euros de que o sector público de transportes necessitava, obrigando o país a ir buscar dinheiro aos mercados a taxas proibitivas. Quarto erro: o desigual tratamento. Enquanto a Portugal foram impostas 400 medidas, a Hungria teve de satisfazer apenas 60. E isto sem qualquer ligação direta com a necessidade de reformas. Quinto erro: “Nem todas as revisões das metas foram coerentes com as revisões dos saldos cíclicos.” Portugal foi obrigado a um ajustamento maior, apesar de o saldo cíclico ter melhorado e de as perspetivas económicas permanecerem idênticas.

Estamos conversados quanto à excelência do programa de ajustamento. Ah, mas os objetivos foram atingidos. Sim, mas à custa de um estrago muito maior do que seria necessário

Podem ainda acrescentar-se mais dois erros. Um tem a ver com o desconhecimento da forma de funcionamento das empresas portuguesas, muito baseado no crédito bancário. Ao obrigar os bancos a uma desalavancagem brutal num curto espaço de tempo, o resultado foi a falência de milhares de empresas e o disparo do desemprego. O outro resulta das sucessivas análises europeias e nacionais sobre a banca, enaltecendo reiteradamente a sua solidez. O resultado foi a resolução do terceiro e do sétimo maiores bancos portugueses e a necessidade de outros quatro recorrerem à ajuda pública.

Estamos, pois, conversados quanto à excelência do programa de ajustamento. Ah, mas os objetivos foram atingidos. Pois foram: quando se usa uma bala dundum para matar um antílope, o objetivo também é atingido. Mas o estrago é muito maior.


Antes que chegue a ladainha de sempre

Não tarda nada vai surgir a ladainha do costume: o Governo vai nomear os seus boys para a administração da Caixa Geral de Depósitos. É bom então lembrar que, com Passos Coelho, esta administração, liderada por José de Matos (que veio do Banco de Portugal), tinha os dias contados. Com efeito, foi o anterior primeiro-ministro que, no pleno uso das suas funções, criticou publicamente a CGD por não ter devolvido até então os €900 milhões de ajudas públicas que recebeu ao abrigo do programa de ajustamento; 2) Passos Coelho estava também irritado por a CGD não estar a financiar a economia e as pequenas e médias empresas como considerava que deveria estar a ser feito; 3) outro sinal de desconfiança foi a criação do banco de fomento, precisamente para facilitar o acesso das PME ao quadro comunitário 2020. O que se pede agora ao atual Executivo é que nomeie quem perceba a fundo de banca comercial e que o deixe escolher a sua equipa. Só uma equipa coesa, liderada por um nome de indiscutível prestígio, pode desenvolver todo o potencial da Caixa.


Bruxelas e o OE 2016

O Orçamento do Estado para 2016 é a grande batalha que neste momento o Governo tem pela frente. Bruxelas, que amochou perante as propostas orçamentais de França, Itália e Espanha, que desobedeceram frontalmente às suas diretivas, quer usar de novo Portugal como exemplo para todos os que não aceitam que o esmagamento do Estado social e os cortes em salários e pensões são a única saída para a crise. Os eurocratas de cartilha neoliberal exigem assim uma redução do défice estrutural em 0,6%.

Ora acontece, ponto um, que este indicador (o deficit estrutural) e a forma de o calcular são altamente discutíveis. E que, ponto 2, quando em 2015 o Governo do PSD/CDS não só não cumpriu a redução de meio ponto do défice estrutural como apostou num défice de 2,7% quando a Comissão queria 2,5%, Bruxelas fechou pudicamente os olhos. Por isso, este braço de ferro visa tão-somente encostar politicamente o Governo às cordas, para que os “maus” exemplos que desafiam a ortodoxia das couves de Bruxelas não medre.


filipa

O Ceaucescu é meu amigo no facebook e eu às vezes faço-lhe like porque tenho saudades dos tempos em que tomava conta de nós. Depois de o matarem emigrei para Portugal e aqui ninguém toma conta de nós. Falam dos romenos como se a Roménia fosse uma quadrilha organizada que só sabe vender hansaplast e matar velhinhos no Algarve.

Ando zangada com os portugueses, mas não ao ponto de os matar. Vou matando saudades do meu país no facebook. Às vezes faço like no Ceaucescu quando alguém partilha aqueles vídeos do Youtube com os discursos e com tanta gente na praça. O homem tinha jeito para agitar a massa. Pus um retrato dele na mesa-de-cabeceira. Está a olhar-me de lado como quem diz: come chocolates, pequena. Vou comendo oreos, gosto tanto de oreos, enquanto pinto as unhas de cor-de-rosa, a cor preferida do meu Nicolae, coitado, que nas fotografias ficava sempre assim com a carita meia descaída. Às vezes entra-me nos sonhos. Meço-lhe a tensão, pergunto-lhe se anda bem das costas, se quer que lhe pinte os lábios gordos, se foi muito difícil ser um ditador. Acaba sempre da mesma maneira: com ele a tentar pôr-me a mão nas maminhas. Ai, Nicolae, Nicolae. Imagino o trabalho que deve ter dado ordenhar um povo durante tantos anos. Alguns puseram-se contra ti mas eu cá não sou preconceituosa, dou-me com todos os ditadores da mesma maneira, até com os dos regimes democráticos.

O que querem? I like Ceaucescu.

Ai, Nicolae, Nicolae, leva-me a andar de helicóptero.

(Filipa Leal, março de 2014, in “A (s)obra cáustica do renegado Gesta”, edição do próprio Autor, João Gesta (& os melhores Amigos do mundo). A mim, por deferência do excelentíssimo Autor, coube-me o exemplar nº 15 dos 200 que tem esta primeira edição. Na Ficha Térmica (não é gralha, é mesmo Térmica), o Autor revela o país para onde vai fugir depois de receber os dólares (Rabo Verde) e deixa, de forma lancinante, “Um pedido (quase) veemente: Varoufakis, dá-me a tua camisola!”)

Marcelo e a “geringonça”

(Daniel Oliveira, in Expresso, 30/01/2016)

Autor

                         Daniel Oliveira

Foi das poucas coisas que Marcelo Rebelo de Sousa foi deixando cair na campanha e que já voltou a dizer depois dela: que quer o regresso dos consensos e dos pactos de regime. Na realidade, a maioria que se formou no Parlamento construiu consensos e fez pactos de regime. Mas Marcelo quer que uns e outros se façam entre o PS e o PSD, não entre o PS, o BE e o PCP. Mas sabe que, para reconstruir o bloco central, não pode ter Passos a liderar o PSD. Ajudar a apear Passos é coisa que Marcelo fará, também por razões pessoais, com enorme prazer. Fabricando o seu sucessor a partir de Belém? Intrigando? Lançando farpas? Nada disso. Basta que se perceba que, com Passos Coelho a liderar um PSD encostado à direita, António Costa pode continuar o seu casamento à esquerda com a proteção do Presidente.

No momento em que os militantes do PSD e os interesses que em torno dele orbitam perceberem que estão reféns de Passos, que só sem ele terão um aliado em Belém, as coisas começarão a acontecer naturalmente. Lá para 2017, se o PSD não vencer as autárquicas. Em resumo, Marcelo não dará boas notícias ao PSD enquanto o PSD não as tiver para dar a Marcelo.

Deste ponto de vista, a sua vitória não foi um problema para Costa. Pelo contrário. Qual é o erro de cálculo do primeiro-ministro? É que depois de Passos cair Marcelo continuará em Belém.

Se a “geringonça” (afeiçoei-me ao nome) não será afetada pela vitória de Marcelo, tão cedo também não será beliscada dentro do PS. É verdade que os socialistas perderam muito voto de simpatia para Marcelo. Mas a oposição interna, que se meteu na aventura de lançar uma candidata presidencial própria, esturricou-se de forma espetacular. Assis pode fazer as tendências que quiser. A comer leitão são umas dezenas, nas urnas valem quase o mesmo que Tino de Rans. O problema para Costa pode mesmo vir a ser o PCP. Não porque o eleitorado comunista tenha debandando em zanga com os entendimentos com o PS, como li por aí. Os dados destas eleições, para quem se deu ao trabalho de os estudar, até dizem o contrário: a maioria do voto comunista perdido foi para Sampaio da Nóvoa, o candidato natural da “geringonça”. E o Comité Central confirmou, esta semana, essa evidência. O problema do PCP é o Bloco, como se tem visto pelas repetidas acusações de populismo a Marisa Matias. O problema é que o BE já vai na segunda vitória e fica permanentemente com os louros de cada conquista ao Governo. Nervoso e a lidar com conflitos internos, o PCP terá a tentação de o vencer ao Bloco no único tabuleiro em que este não conta: o da luta sindical. O que pode trazer muitos dias amargos a António Costa.

De resto, parecem-me infundadas as tentativas de fazer leituras partidárias da votação presidencial. A direita votou em quem tinha mesmo de votar e parte do centro-esquerda votou num Marcelo simpático que não parecia perigoso. A sondagem à boca de urna, da Aximage, que acertou nos resultados presidenciais, também explicou que está tudo na mesma: se as eleições legislativas fossem hoje a esquerda continuava em maioria e o PS empatava com o PSD. As eleições presidenciais tiveram e terão um efeito nulo na “geringonça”. Costa só tem de continuar preocupado com um problema que se agravou: a rivalidade entre o Bloco e o PCP. Em Belém e no Rato reina a paz absoluta.