O Programa Eleitoral do PS

António Costa

                        António Costa

Acho que o Programa eleitoral do PS só peca por defeito relativamente às medidas que seriam necessárias para o País mudar de rumo. E por uma razão: se fosse mais além o PS teria que pôr em causa o Tratado Orçamental e renegociar a dívida, e sobre estas questões, o PS assobia para o ar e nada diz, a não ser que vai cumprir tudo o que a UE determinar.

A Direita, não tem nada para apresentar, a não ser mais do mesmo. Mais cortes, mais austeridade, mais miséria, mais desigualdade social, mais privatizações ao desbarato para apaniguados e companheiros de estrada.

A Direita já que nada tem para dizer, não anda a discutir o Programa do PS, em termos da valia de cada medida tomada de per si. Ou seja, não diz que as medidas sejam más, a maioria delas. Aquilo que imediatamente pergunta, sobre cada medida, é quanto custa, e questiona se a União Europeia nos vai deixar implementar as mesmas. O PSD não tem programa, a não ser o programa que a troika lhe deixou e impõe.  Quando vê qualquer coisa de novo, mesmo que seja tímido, olha para a troika e pergunta: “Será que isto vai ser possível de implementar? Nunca tínhamos pensado nisto.”

Só que há um problema. É um problema de contas e de macroeconomia. O programa do PS é um exercício de macroeconomia, com objetivos, e restrições que assume e pretende cumprir, mormente as restrições do Euro, da dívida e dos Tratados. Ora, a maioria, que nunca teve programa político que fosse além do governar à vista, gerindo o País como se fosse uma mercearia com um livro de fiados, fica aterrada.

Não percebe, que toda a ação económica se desenrola no tempo, sendo a resultante final um saldo que advém das interações variadas de múltiplos agentes. E, decorrendo no tempo, e fazendo uma aposta sobre o futuro, existem sempre riscos de falha na antecipação de cenários futuros, e a necessidade de ajustamentos.
Mas estes riscos, são os que derivam de qualquer cenário de investimento. Se as empresas privadas que o Governo tanto elogia tiverem tanto receio dos riscos do futuro, como o Governo, já que propagandeia o pavor desses riscos para destruir a valia do Programa do PS, nunca mais o País sairá do estado miserável em que se encontra.

A questão toda, portanto, é esta. Ao PS exigem-se contas. Quando as apresenta, não as entendem, nem as percebem, por incompetência, má-fé ou enviesamento ideológico. O PSD não tem, nem programa, nem contas, porque quem lhe faz o programa é a troika e o FMI.

A tristeza final, ainda assim, é que o PS precisou de justificar a sua “austeridade amenizada” com um modelo macroeconómico que lhe pretende sustentar a plausibilidade. Ou seja, teve que justificar as suas opções políticas com o tecnicismo dos modelos. Não para convencer os cidadãos, mas para convencer as instâncias europeias, obtendo assim luz verde para as propor e levar à prática.

Quanto ao PSD/CDS não precisa de dizer nada e nada tem a dizer. Basta-lhe olhar para a troika e para o FMI e pedir instruções. Não tem que apresentar contas. O seu único programa é acenar com o medo e o pavor de dias piores, dias que, em verdade, vai querer continuar a impor se os portugueses se assustarem e lhes confiarem o seu voto.

A falha do PS, é que julga que a Europa está de boa fé e vai ser sensível aos seus argumentos técnicos, permitindo-lhe, caso ganhe as eleições, levar avante o seu programa, por muitas limitações que possa ter no sentido de corrigir o atual quadro económico.

Eu até queria estar enganado mas duvido. O programa do PS, volta o enfoque da economia e da governação para os rendimentos do trabalho e para a procura. O enfoque da União Europeia sempre foi inverso e continua ainda a ser. É um enfoque que privilegia os rendimentos do capital e a oferta, pelo que, e ainda que o PS não seja Syriza, o choque será inevitável.

Estátua de Sal, 21/05/2015

Cinco conclusões das sondagens

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/05/2015)

         Daniel Oliveira

                        Daniel Oliveira

As sondagens dão a coligação PSD/CDS bastante próximo do Partido Socialista. Com o eleitorado bastante volátil – cerca de um quarto diz-se disponível para votar em novos partidos – e uma previsível abstenção bastante alta, é bom termos cuidado com crenças demasiado fortes nestas sondagens. Até porque os partidos que estão no poder tendem a sofrer mais com a abstenção, que não se faz sentir de forma tão clara nas sondagens. Ainda assim, estas pesquisas de opinião são bons elementos de análise. E dizem-nos cinco coisas.

A primeira: se as eleições fossem hoje, a direita teria, no seu conjunto, o pior resultado de sempre desde que há eleições livres. É que a esmagadora maioria das análises que vou lendo e ouvindo ignora este ponto. Se a coligação está a morder os calcanhares do PS é porque a direita se juntou toda para conseguir uns medíocres 36%.

A segunda: o PS não consegue descolar. Quem olhe para estas sondagens e diga que elas são um apelo ao voto útil, só pode estar a tresler os resultados. Se houvesse voto útil, não havia dois terços de pessoas contra este Governo e, no entanto, apenas um terço disponível para votar no principal partido da oposição. É exatamente porque o PS não está a conseguir afirmar-se como alternativa – o que teria de corresponder a um discurso claramente distintivo do do PSD e CDS – que muita gente não compreende a utilidade do voto nos socialistas.

PARA ALÉM DE SABER QUEM GANHA E PERDE, É BOM PERCEBER QUE PODEMOS VIR A ASSISTIR, EM VÁRIAS FRENTES, A MUDANÇAS DOS EQUILÍBRIOS POLÍTICO-PARTIDÁRIOS HABITUAIS

A terceira: PS, PSD e CDS, todos juntos, têm 70% dos votos. Ainda longe da razia em Espanha ou na Grécia, é, se retirarmos as eleições de 1985, em que se sentiu o epifenómeno do PRD, o pior resultado do erradamente chamado “arco da governação”, aproximando-se, mas para pior, dos resultados dos finais dos anos 70, quando o PCP tinha votações acima dos 15%. Apesar dos media teimarem em ignorar a realidade, é fora do espaço destes partidos que está a haver crescimento. E esta é a parte que me parece estar a ser mais negligenciada pelas sondagens, tal como já aconteceu nas europeias.

A quarta: nenhuma candidatura terá maioria absoluta. Pode ser que as juras de que não haverá bloco central tenham como função dramatizar a escolha, como último e único argumento para captar voto. Mas a verdade é que sem bloco central teremos duas situações diferentes. À esquerda, ou o PS governa em minoria, ou vai fazendo, conforme os casos, acordos à esquerda e à direita, ou faz um acordo com quem à esquerda ganhe força para isso – e isso obriga-o a mudanças substanciais no rumo programático que começou a definir e que não está a entusiasmar ninguém. Tirando o último caso, estamos a falar de um Governo para durar um ou dois anos. Caso seja a direita a vencer, excluindo o bloco central, não tem parceiro com quem conversar. Talvez Marinho Pinto, o que me parece arriscado e improvável que chegue. Ou seja, o Governo também durará um ou dois anos.

A quinta: há espaço de crescimento para os novos partidos. Diz a sondagem do Expresso que 66% acham positivo que surjam novos partidos (o que contraria a posição jocosa da maioria dos comentadores) e cerca de 23% dos portugueses estão disponíveis para votar num deles. Têm 4 ou 5 meses para se darem a conhecer.

Em resumo: para além de saber quem ganha e perde, é bom perceber que podemos vir a assistir, em várias frentes, a mudanças dos equilíbrios político-partidários habituais.

Nada menos exigente do que chumbar todos

(Mariana Mortágua, in Jornal de Notícias, 19/05/2015)

Mariana Mortágua

                     Mariana Mortágua

Pelo segundo ano consecutivo e a segunda vez em democracia, crianças de 9 ou 10 anos foram ontem chamadas para fazer um exame do 4.º ano. Não tenho nada de especial contra os exames. Eu própria já fiz muitos ao longo dos últimos anos. Coisa diferente é dizer que uma criança de 9 anos deve fazê-los.

Para fazer esta discussão é preciso antes desmontar os mitos que a rodeiam.

O primeiro é que é assim em todo o lado. Falso. Há apenas dois países em que crianças com esta idade fazem exames (Portugal e Áustria). Em muitos outros há provas de aferição, como acontecia em Portugal até Nuno Crato.

A semelhança entre uns e outros é que ambos aferem os conhecimentos dos alunos, as competências ensinadas por escolas e professores, e como é que estão a reagir. A diferença é que as provas de aferição aferem, os exames chumbam. As crianças sabem isso, como o sabem as escolas que passam os últimos dois meses não a ensinar, mas a preparar para o exame. O segundo mito é que, com exames ou sem exames, ninguém chumba em Portugal. Falso, tristemente falso. Portugal tem a terceira maior taxa de retenção dos alunos até aos 15 anos. Um em cada dez alunos, diz o Conselho Nacional de Educação, fica retido logo no 2.º ano. Ou seja, com sete anos já levam um ano de atraso. Não se pense que chumbar muito é ser mais exigente. Pelo contrário, é o mais fácil. Significa desistir, desde cedo, de quem tem dificuldades. É o triunfo da exclusão onde devia haver apoio e da desistência onde devia haver superação. Não há nada menos exigente do que chumbar toda a gente.

Terceiro mito. “No meu tempo, havia exame na quarta classe e sabia-se mais”. Pois é. Mas o exame, na ditadura, tinha lugar na 4.ª classe porque este era o patamar máximo a que era permitido ao povo estudar. Era uma prova de exclusão. Quem não tinha dinheiro, quase todos, dificilmente voltava a ver uma escola. A democracia, felizmente, acabou com esses tempos e abriu a escola a toda a gente.

Este exame tem o efeito de seriação social que tem sido uma das imagens de marca de Nuno Crato. Do ensino dual para quem chumbou dois anos, ao fim do Inglês no primeiro ciclo para 65 mil crianças, ou à substituição do programa de Matemática – contra todos os pareceres, sem estudar impacto e sem nenhuma formação específica para os docentes. Crato não é exigente. É desistente. De uma escola que integra e não deixa nenhuma criança para trás. Que, pelo meio, os resultados que tanto evoluíram nos últimos anos comecem a dar sinais de regressão não é de estranhar.

DEPUTADA DO BE