Entre presépios e kalashnikovs, o postal da Venezuela

(Bruno Amaral de Carvalho, in Jornal de Notícias, 19/12/2025)

Nas ruas de Caracas, as lojas vão-se enchendo para as compras de Natal

Ameaça de uma invasão terrestre por parte dos EUA mobilizou milícias. Donald Trump tenta asfixiar economia com bloqueio a petroleiros.


A declaração de Donald Trump caiu como um balde de água fria sobre uma parte da oposição venezuelana que espera uma invasão. Depois de insistir no narcotráfico como razão para pressionar militarmente Caracas, o presidente norte-americano fala agora na devolução do petróleo “roubado” quando o ex-presidente Hugo Chávez nacionalizou as companhias petrolíferas.

A uma semana do Natal, ninguém parece estar mais preocupado com as ameaças dos Estados Unidos do que em encontrar os melhores presentes, no bulício das ruas do centro de Caracas. Enquanto Nicolás Maduro afirmava na televisão, na quarta-feira, que um governo imposto pelos Estados Unidos na Venezuela não duraria mais de 47 horas – numa referência ao tempo que durou o efémero golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002 -, as lojas estavam cheias de clientes. Parece tudo menos um país à beira de uma invasão. Na verdade, ninguém acreditava muito na possibilidade de uma declaração de guerra de Trump contra a Venezuela.

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Asfixia da economia

Contudo, um bloqueio naval é por si só suficiente para asfixiar uma economia no qual, em 2024, 58% das receitas estatais vinham da exportação de produtos do setor petrolífero. Sendo uma das principais economias em crescimento na América do Sul, depois de anos de profunda crise económica e social, devido às sanções impostas pelos Estados Unidos, as autoridades venezuelanas olham com preocupação para as consequências desta medida e ordenaram a escolta militar de petroleiros pela marinha. Simultaneamente, o presidente da Venezuela apelou à união dos exércitos da Colômbia e da Venezuela para fazer frente a uma possível agressão terrestre de Washington que, segundo uma sondagem publicada, na quarta-feira, pela empresa britânica de estudos de opinião YouGov, tem a oposição de 60% dos norte-americanos.

A expectativa numa parte da oposição venezuelana que esperava uma declaração de guerra por parte de Donald Trump acabou em desânimo quando o presidente norte-americano terminou o discurso na Casa Branca. As redes sociais encheram-se de memes de quem parece já não acreditar que os EUA possam efetivamente levar a cabo uma operação militar para derrubar o Governo venezuelano.

Milícias mobilizadas

No entanto, os diferentes setores do chavismo não desarmam e organizam-se para uma possível invasão. Em todo o país, para além das forças armadas, o Governo está a mobilizar a população civil para se juntar às milícias. Ontem, os principais dirigentes do movimento político-militar Tupamaro, herdeiro dos grupos de guerrilha urbana dos anos 80 em Caracas, estavam reunidos para preparar a resistência armada.

William Benevides, secretário-geral da organização, garantiu ao JN, rodeado de cerca de uma centena de militantes, que estão preparados para fazer da Venezuela um novo Vietname se os Estados Unidos decidirem atacar. “Temos experiência de combate, somos uma milícia revolucionária, e vamos defender cada palmo do nosso território ao lado do povo. [Se isso acontecer], vamos fazer uma guerra popular prolongada para fazer afundar o império norte-americano neste lamaçal”, advertiu. Este dirigente tupamaro insistiu que a Venezuela é “um país de paz”, mas que estão dispostos a tudo para defender o “legado de Simón Bolívar e de Hugo Chávez”. Com campos de treino em várias zonas do país, o grupo insiste que vai garantir a “soberania” da Venezuela. Sobre as acusações de violação dos direitos humanos e de falta de democracia feitas por vários países, William Benevides rejeitou o que considera ser uma ingerência e lembrou que o Ocidente nunca se preocupou com os direitos humanos em Gaza.

Entretanto, María Corina Machado, Nobel da Paz, que tem apoiado de forma entusiasta uma intervenção militar dos EUA no seu país, abandonou Oslo, fazendo crescer a expectativa sobre se tentará regressar a um país que parece estar mais preocupado com a consoada do que com a guerra.

Venezuela: agressão dos EUA contra espaço aéreo é “imoral” e exige o repúdio de governos soberanos

(Victoria Korn, in Diálogos do Sul, 01/12/2025)


O Governo de Maduro convocou também a ONU e a comunidade internacional a rejeitar a nova escalada de Trump, que atinge não apenas a Venezuela, mas todo o Caribe e o norte da América do Sul.


No último sábado (29), a Venezuela denunciou como uma ameaça colonialista à sua soberania a advertência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de um fechamento total do espaço aéreo venezuelano, indicou um comunicado da chancelaria, o que marca uma nova escalada de tensões com o presidente Nicolás Maduro.

Além disso, Trump anunciou que as Forças Armadas “começarão muito em breve” a frear os narcotraficantes da Venezuela por terra, após considerar exitosas as operações no mar. Em uma chamada de Ação de Graças com militares a partir de Mar-a-Lago, disse que por terra será mais fácil e que isso começará logo. Desde 1º de setembro, segundo a Casa Branca, as forças estadunidenses teriam matado mais de 80 pessoas e destruído mais de 20 embarcações supostamente vinculadas ao narcotráfico, a maioria com origem venezuelana, em operações no Caribe e no Pacífico. Além disso, o porta-aviões USS Gerald R. Ford opera na região desde 16 de novembro.

Reações do governo venezuelano

Diante da mais recente investida do governo dos Estados Unidos, que pretende bloquear o espaço aéreo venezuelano, Maduro ordenou a execução imediata de um plano especial para assegurar o retorno dos venezuelanos retidos no exterior e facilitar os itinerários de saída daqueles que precisam viajar para fora do país. A medida responde à necessidade de proteger os direitos de mobilidade dos venezuelanos diante de uma ação qualificada como ilegítima e ilícita. A vice-presidente executiva Delcy Rodríguez, por sua vez, afirmou que o governo dos EUA atende à solicitação da dirigente opositora María Corina Machado para tentar bloquear o espaço aéreo da Venezuela.

“A Venezuela denuncia e condena a ameaça colonialista que pretende afetar a soberania de seu espaço aéreo, uma nova agressão extravagante, ilegal e injustificada contra o povo da Venezuela”, assinalou um comunicado divulgado no Telegram pelo ministro das Relações Exteriores, Yván Gil. “Este tipo de declaração constitui um ato hostil, unilateral e arbitrário, incompatível com os princípios mais elementares do Direito Internacional e que se inscreve em uma política permanente de agressão contra nosso país, com pretensões coloniais sobre nossa região da América Latina”, destacou.

Outra medida tomada pelo governo de Nicolás Maduro foi a revogação, a seis empresas aéreas, da concessão para operar no espaço aéreo venezuelano. A determinação considera que as mesmas se somaram à campanha terrorista dos EUA. Em resposta, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), que engloba mais de 300 companhias aéreas de todo o mundo, pediu ao governo venezuelano que “reconsidere” a medida e disse que as empresas aéreas “reafirmam seu compromisso com a Venezuela” e manifestaram sua disposição de restabelecer os serviços de maneira segura, mas “tão logo as condições o permitam”. O governo não respondeu imediatamente a essa comunicação da IATA.

“A Venezuela saberá responder com dignidade”

O governo venezuelano denunciou que as afirmações de funcionários estadunidenses representam uma ameaça explícita do uso da força que, assegura, está claramente proibida pela Carta das Nações Unidas, e considerou que se trata de uma tentativa de intimidação. “A Venezuela exige respeito irrestrito a seu espaço aéreo, protegido pelas normas da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI)”, agregou a nota, que ressaltou igualmente que o país sul-americano não aceitará ordens, ameaças nem ingerências provenientes de qualquer poder estrangeiro. “Nenhuma autoridade alheia à institucionalidade venezuelana tem faculdade para interferir, bloquear ou condicionar o uso do espaço aéreo nacional”, acrescentou.

O governo assegurou que, com a declaração de Trump, os Estados Unidos suspenderam, de maneira unilateral, os voos de migrantes venezuelanos. “Até o momento foram realizados 75 voos de repatriação de 13.956 migrantes venezuelanas e venezuelanos que foram recebidos com amor e absoluta solidariedade”, mencionou a chancelaria, em referência ao acordo alcançado em janeiro passado por ambas as nações, que não mantêm relações diplomáticas desde 2019.

“Fazemos um chamado direto à comunidade internacional, aos governos soberanos do mundo, à ONU e aos organismos multilaterais correspondentes, para rejeitar com firmeza este ato de agressão imoral que equivale a uma ameaça contra a soberania e a segurança da nossa Pátria, do Caribe e do norte da América do Sul”, declarou. “A Venezuela saberá responder com dignidade, com legalidade e com toda a força que o direito internacional e o espírito anti-imperialista do nosso povo conferem”, enfatizou.

Entenda a nova ofensiva de Trump

A tensão envolvendo o espaço aéreo venezuelano avançou quando Trump escreveu em sua plataforma, Truth Social: “A todas as companhias aéreas, pilotos, narcotraficantes e traficantes de pessoas: rogamos que considerem que o espaço aéreo sobre a Venezuela e seus arredores permanecerá fechado em sua totalidade”, sem esclarecer nenhuma circunstância relacionada ao fechamento.

O mandatário republicano difundiu a mensagem após o jornal The New York Times informar sobre uma suposta conversa telefônica que manteve com Maduro para explorar um possível encontro. O diálogo foi confirmado por Trump. A notícia se tornou conhecida um dia após Trump advertir que suas Forças Armadas atuarão muito em breve em terra contra supostos narcotraficantes da Venezuela, enquanto mantém o deslocamento naval no Caribe.

Em 21 de novembro passado, a Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA instou a ampliar a precaução ao sobrevoar a Venezuela e o sul do Caribe diante do que considera “uma situação potencialmente perigosa” na região. A declaração desencadeou uma série de cancelamentos de voos desde e para a Venezuela, que, em resposta, revogou as concessões de operação de seis companhias aéreas internacionais.

A advertência de Trump ocorre no contexto dos bombardeios estadunidenses contra embarcações no Caribe, que causaram vários mortos e que Washington defende como parte de sua luta contra o narcotráfico, mas que Caracas denuncia como uma ameaça que busca propiciar uma troca de governo.

Monroe 2

Sergio Guzmán, cientista político e docente da Universidade Nacional de San Juan (UNSJ), na Argentina, explica que todas essas ações de Trump fazem parte de uma reformulação da Doutrina Monroe, versão Século 21. Essa doutrina, proposta pelo presidente dos EUA James Monroe em 1823, sustentava a ideia de uma “América para os americanos”, em rejeição à intervenção europeia nos assuntos do continente americano.

“É uma ingerência nos assuntos internos de outro país com a desculpa de sempre do narcotráfico, mas além disso, o que Trump tenta não é outra coisa senão a instalação de uma agenda internacional que ele sempre pretende conduzir”, afirma o analista. “Ele marca os temas: se não é Ucrânia, é Gaza, é Rússia, é China, mas ele sempre pretende levar toda a atenção da imprensa mundial a esse tipo de tema e não à gravíssima crise política que enfrenta internamente em razão de, por pressão, ter sido pressionado a desclassificar os arquivos que o envolvem com o caso de Jeffrey Epstein”, destaca.

Guzmán indicou que o fortalecimento de Trump é sempre nesta região do mundo e com adversários ou inimigos seletos, neste caso, Nicolás Maduro. “Há algumas semanas, ele se reuniu com o presidente chinês Xi Jinping para tratar questões comerciais e com o presidente russo Vladimir Putin, no Alasca: há alguns líderes aos quais ele enfrenta e outros que não, e a esses ele respeita”, afirma.

Denúncia dos democratas

Enquanto isso, um grupo de congressistas democratas acusou o secretário de Defesa, Pete Hegseth, de cometer homicídio e crime de guerra depois que, na sexta-feira (28), a imprensa estadunidense revelou que os Estados Unidos atacaram duas vezes a mesma embarcação no Caribe para matar sobreviventes.

Segundo o jornal The Washington Post, que citava duas fontes com conhecimento direto da operação, depois de o primeiro míssil impactar um barco, os comandantes perceberam que havia dois tripulantes que se agarravam aos restos da embarcação. O comandante encarregado da operação ordenou então um segundo ataque para cumprir as instruções de Hegseth, que havia ordenado matar todos os presentes no barco.

Sam Liccardo, congressista pela Califórnia, assegurou na rede social X que, se as acusações forem verdadeiras, Hegseth deveria ser considerado plenamente responsável por homicídio. O democrata respondeu a uma publicação do funcionário na qual defendia a legalidade do primeiro ataque contra uma lancha de supostos narcotraficantes no Caribe em 2 de setembro passado.

Seth Moulton, congressista por Massachusetts, somou-se às críticas contra o governo de Donald Trump e afirmou no X que matar os sobreviventes era totalmente ilegal. “A ideia de que os restos de uma pequena embarcação em um oceano imenso representem um perigo para o tráfego marítimo é claramente absurda”, apontou. “Ainda que leve tempo, os norte-americanos serão julgados por isso, seja como crime de guerra ou como assassinato a sangue frio”, acrescentou.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui.

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Nem a Rússia, nem a América Latina se dobram

(Paulo Cannabrava Filho, in Diálogos do Sul, 27/10/2025)


A resistência do Sul Global diante da escalada bélica, das sanções e da arrogância imperial.


A Rússia não vai se dobrar. A América Latina também não. O que está em jogo é a soberania das nações diante de um projeto imperial de dominação que insiste em sobreviver mesmo diante do fracasso.

Vladimir Putin respondeu com firmeza ao novo pacote de sanções e ameaças militares, reforçando o alerta de quase um ano atrás: se os Estados Unidos e a Europa enviarem armas de longo alcance capazes de atingir o território russo, a resposta será proporcional. A mensagem foi clara: Moscou não aceitará provocações impunemente.

Enquanto isso, Donald Trump — presidente dos Estados Unidos, mesmo acusado de conspiração golpista — tem intensificado sua retórica autoritária e medidas de coerção internacional. Recentemente, aplicou sanções pessoais à família do presidente colombiano Gustavo Petro, incluindo-os em listas de supostos narco-terroristas, numa tentativa evidente de intimidar e punir governos que não se alinham à agenda de Washington. Seu foco, ainda assim, será o conflito interno nos EUA, que inclui repressão a imigrantes, cortes de programas sociais e retaliação contra opositores.

A Europa, por sua vez, vive uma armadilha que ela mesma construiu. Ao seguir a estratégia belicista dos EUA, comprometeu sua estabilidade econômica. A inflação voltou a subir. O desabastecimento e os altos custos da energia atingem os mais pobres. A indústria sofre com a perda de competitividade diante da dependência do gás russo e das tensões comerciais com a China.

Agora, numa manobra que viola o direito internacional, a União Europeia decidiu se apropriar de 300 bilhões de dólares em ativos russos congelados — uma atitude que escancara o uso da guerra como pretexto para saques financeiros. A América Latina, inclusive, também vem sendo alvo de sanções e retaliações por não se curvar ao poder imperial.

Da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro já denunciou tais políticas de chantagem e sanções unilaterais: “Nos querem submissos, mas somos herdeiros de Bolívar. Estamos de pé, com dignidade, e vamos seguir defendendo nossa soberania”. Por sua vez, em 2025 e em anos anteriores, o presidente Lula também não tem silenciado sobre essas questões. Reafirmou que o mundo precisa de paz, não de mais armas, e que a América Latina tem um papel histórico a cumprir na construção de uma ordem multipolar, baseada na cooperação e na autodeterminação dos povos. Lula tem insistido que o Brasil não aceitará ser empurrado para blocos militares, nem será cúmplice de guerras de interesse. Seu apelo é por diálogo, desenvolvimento e justiça social.

A escalada militar avança perigosamente. O maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, deixou a costa da Croácia e ruma agora para o Atlântico Sul. O deslocamento dessa máquina de guerra representa um gesto intimidatório contra os países do Sul Global que ousam afirmar sua autonomia. A presença de uma embarcação desse porte, equipada com armas de última geração, reforça o clima de tensão e ameaça que paira sobre as tentativas de construção de uma nova ordem mundial mais justa e multipolar.

Em paralelo, as chamadas “operações especiais” executadas em nome da segurança ocidental já deixaram um rastro de sangue: ao menos 43 pessoas foram assassinadas em 10 operações recentes, sem direito à defesa, sem julgamento, sem chance de reagir. Execuções sumárias, disfarçadas de ações preventivas, tornaram-se política de Estado. Esse é o retrato de um mundo em que a força se sobrepõe ao direito e a violência se legitima com discursos de proteção à democracia.

Neste momento, enquanto o mundo assiste à escalada dos conflitos, os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) estão reunidos em cúpula, com forte presença das nações Brics, lideradas por China e Rússia. O encontro representa uma afirmação de soberania e cooperação entre o Sul Global, apontando caminhos para uma ordem internacional multipolar, voltada ao desenvolvimento sustentável, à justiça econômica e à paz. O protagonismo do Oriente e da América Latina ganha corpo diante da falência moral do Ocidente belicista.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui.

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