Um modelo que não nos serve

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 24/04/2020)

Esta crise é uma tempestade perfeita para as economias periféricas do Sul da Europa. Para além de algumas delas se contarem entre os epicentros da epidemia, são economias altamente dependentes dos sectores do turismo, hotelaria, restauração, imobiliário e construção, que estão e vão continuar a ser afetados de forma especialmente intensa e duradoura pelas limitações adotadas em resposta à crise médico-sanitária e pelas alterações de padrões de consumo e estilo de vida que provavelmente se seguirão. São economias com tecidos produtivos muito pulverizados, com um peso das micro e pequenas empresas bastante superior à média europeia, e mercados de trabalho muito precarizados, com elevada prevalência de trabalhadores por conta própria e de modalidades atípicas e mais vulneráveis de contratação. Finalmente, têm muito pouca capacidade orçamental para responder à crise: em parte por desenho institucional, uma vez que não possuem soberania monetária; em parte por herança do passado, dado o fardo do endividamento que trazem da última crise.

Nas últimas semanas, pelo menos dois exercícios de medição e comparação internacional da vulnerabilidade das economias à crise do coronavírus ilustram isto mesmo. Em março, a agência alemã Scope Ratings publicou uma matriz de vulnerabilidade económica e dos sistemas de saúde que considerava, na parte económica, o peso do turismo no produto, o peso do emprego temporário e em micro-empresas, o peso da produção industrial e o grau de participação em cadeias de valor globais. Sem surpresa, as quatro economias europeias que surgem como mais vulneráveis são, por esta ordem, a Itália, a Grécia, Espanha e Portugal.

Há pouco dias, a The Economist elaborou o seu próprio ranking de vulnerabilidade, construído através da agregação de cinco indicadores: peso do emprego em pequenas empresas; percentagem de empregos que se estima não poderem ser realizados a partir de casa; peso dos sectores do lazer e restauração; dimensão do estímulo económico anunciado em resposta à crise; e medidas de proteção do emprego. A Grécia surge em primeiro lugar, a Espanha em terceiro e a Itália em quinto. O artigo não disponibiliza o ranking integral, não permitindo localizar Portugal ou perceber quais sejam o segundo e quarto classificados, mas parece bastante provável que um destes últimos seja o nosso país: as vulnerabilidades destas economias, incluindo a portuguesa, são bastante robustas à escolha de diferentes indicadores.

No meio de todos estes fatores de vulnerabilidade, há aspetos estruturais com raízes históricas profundas e especialmente difíceis de alterar. Mas há muito que decorre diretamente de escolhas políticas concretas. A estratégia de transformação de Portugal numa “Flórida da Europa”, especializada na exploração do turismo de sol e mar e na atração de reformados dos outros países europeus, foi afirmada em diversas ocasiões neste século e inspirou as decisões de mais do que um governante. Uma das origens intelectuais desta ideia é um artigo de 2006 do economista norte-americano Olivier Blanchard, em que se defendia explicitamente o “modelo Flórida” e a desvalorização interna como saídas para as dificuldades criadas pelo euro.

Terá ficado entretanto claro que uma tal sobre-especialização em segmentos do sector dos serviços caracterizados por salários baixos, empregos precários e baixa produtividade assenta numa visão estática e estreita das vantagens comparativas da nossa economia e introduz tendências para a desindustrialização, para a formação de bolhas de especulação imobiliária e para a vulnerabilização acrescida de uma boa parte da sociedade. Se essa aposta já comportava aspetos preocupantes mesmo em tempos de relativa bonança, revela-se realmente problemática perante uma crise como aquela com que estamos confrontados. Subitamente, tornam-se evidentes as desvantagens da excessiva dependência da monocultura do turismo e a importância da indústria nacional, não só para a economia como até para a segurança e para a capacidade de resposta médico-sanitária do nosso país.

É certo que não é e nunca foi possível converter instantaneamente a economia portuguesa numa economia altamente produtiva, maioritariamente assente em indústrias de alta tecnologia, serviços avançados e empregos de qualidade. Mas um longo período de apostas em sentido contrário, nalguns casos diretamente, noutros como consequência da dinâmica “natural” do mercado único quando se abdica de grande parte dos instrumentos de política económica, nomeadamente de politica industrial, não deixa de ter uma quota-parte importante da responsabilidade por trazer-nos até aqui. Esta crise está a deixar claro que este é um modelo que não nos serve; a discussão que se segue é como encetar o caminho para um modelo diferente.


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Viagens na Medinalândia

´(Fernando Sobral, in Público, 12/04/2020)

Nos últimos dias, o sr. Medina, com a cidade-fantasma a seus pés, optou entre o silêncio e a entrega de uma garrafa de gás a uma pessoa carenciada.

Há alguns anos, o sr. Fernando Medina teve um sonho. Desejou transformar Lisboa na sua Versalhes. Como a tarefa se revelou demasiado ousada, optou por criar uma Disneylândia. Ou, numa versão mais poupada, a Medinalândia.

O sr. Medina não tem culpa de sonhar tão grande empreendimento. As circunstâncias empurraram-no para isso. O sr. António Costa designou-o como delfim. E o sr. Manuel Salgado viu nele o príncipe perfeito para fazer uma cidade à sua imagem: uma urbe de negócios imobiliários e turísticos, disfarçada de futurista.

Dentro da política central deste Governo, onde o turismo é ainda a mesa do casino onde se deve apostar todas as fichas, o sr. Medina tornou-se o croupier perfeito. E os seus sonhos multiplicaram-se. Não custa acreditar que imagine ser secretário-geral do PS e, depois, talvez mesmo, primeiro-ministro. Com um pouco de sorte, daqui a uns anos, não fosse a covid-19, talvez até conseguisse remover a estátua de D. José do Terreiro do Paço e substituí-la por uma sua. Não montado num cavalo. Mas sim num tuk-tuk.

São motivações que têm uma lógica. Mas é aqui que a missão pública de servir os cidadãos se confunde com servir-se disso para benefícios políticos pessoais. Nos últimos dias, o sr. Medina, com a cidade-fantasma a seus pés, optou entre o silêncio e a entrega de uma garrafa de gás a uma pessoa carenciada. Como isso dá, porém, pouca visibilidade, a luta contra a covid-19 revelou-se uma boa forma de se mostrar. Surgiu na conta oficial da CML no Instagram: “Chegaram hoje, 5 de abril, os primeiros ventiladores para reforçar o SNS, incluindo 78 doados por uma empresária chinesa, em articulação com a Câmara de #Lisboa e a Embaixada de Portugal na China (…) Fernando Medina.” Lê-se e não se acredita. Terá sido o próprio edil a escrever a nota num infantil auto-elogio? E a publicar uma fotografia de si próprio junto ao avião da TAP, como se fosse o comandante-em-chefe da operação? E o nome da milionária chinesa, Ming Hsu, que pagou a conta, acabou removido como se fosse uma actriz secundária? Chama-se a isto reescrever a história em proveito próprio. Mesmo que, mais tarde, a mensagem tenha deixado de estar assinada.

Como se não bastasse, o sr. Medina tem amigos no Governo. Que acham que o turismo estilo pudim flan continuará a ser a solução milagrosa para o país. Insistem em construir uma linha circular de Metro em Lisboa, contra todas as lógicas e a oposição da Assembleia da República. A linha circular era o corolário da estratégia de circulação interna no centro de Lisboa para os turistas. Atirou-se os lisboetas para a periferia e, depois, ainda se criava mais um transbordo para chegarem ao centro. É a chamada socialização dos prejuízos.

À sucapa, no nevoeiro da covid-19, o Ministério do Ambiente e da Acção Climática emitiu um despacho onde determina que o Metro deve continuar a expansão da rede, incluindo o prolongamento das linhas Amarela e Verde. Diz mesmo, num momento de stand-up comedyque estes investimentos são importantes “perante os efeitos sobre a economia que a pandemia da covid-19 está a provocar em todo o mundo e em Portugal”. Lê-se e não se acredita. A covid-19 até serve de justificação para uma decisão tomada às escondidas, enquanto as atenções estavam direccionadas para temas mais importantes. Ao contrário do que se supunha, o sr. Matos Fernandes não decide por razões ambientais: decide por causa do dinheiro. Justifica-se até com o argumento de que os fundos que vêm da Europa só poderiam ser usados nesta obra. Falso, como já veio dizer a comissária, a sra. Elisa Ferreira. Há uma certeza: continua a obsessão por este plano turístico para Lisboa, que após a covid-19 terá de ser, no entanto, bem repensado.

O sr. Matos Fernandes mostra que há um equívoco no papel timbrado de onde envia os comunicados. Ele não deve ser o ministro do Ambiente. É o das Obras Públicas. Todas as suas decisões (do Metro ao Montijo ou ao lítio) têm que ver com dinheiro e não com o ambiente. Por favor, decidam-se: o sr. Matos Fernandes é, afinal, ministro de que pasta?

Entre o país do elogio pessoal e dos favores e o país real, há uma brecha, cada vez maior. Apetece lembrar Ramalho Ortigão, quando escrevia: “É talvez a estas dádivas periódicas de eloquência (os discursos parlamentares) cada vez mais gasta e mais safada (…) que nas aldeias se refere a expressiva cantiga: ‘De Lisboa me mandaram/ um presente com seu molho/ as costelas de uma pulga/ o coração de um piolho’.”


PORQUE NÃO SE CALAM

A mente mais iluminada do planeta, o sr. Donald Trump, cujo vocabulário se resume a “genial” e a “terrível”, dá o mote. A culpa da covid-19 é dos Democratas, da China, dos europeus e dos tremoços. A ameaça de cortar o financiamento à OMS num momento destes mostra o perigo que é para todo o planeta. Para ele, tudo é um “negócio”. Fora disso, só lhe interessa o poder. O faroeste regressou como farsa. Sem o palco do pontapé na bola, no árbitro e nos adversários, o sr. André Ventura ficou a falar sozinho. Se os Gremlins precisam de água para se reproduzir, o sr. Ventura necessita de holofotes apontados para ele. A demissão e a recandidatura a pastor do seu partido fazem parte da estratégia. A crise económica que virá a seguir vai ajudá-lo. E ele sabe. O vírus não é um inimigo que garanta tropas. A pobreza e o medo sim. E isso é o verdadeiro problema para a democracia. Em 1925, o grande Francisco Valença, mestre do humor e da sátira social, dessa vez na capa de O Espectro, topava-os. E à lógica do poder.


Jornalista

Notícias da guerra civil

(António Guerreiro, in Público, 27/09/2019)

António Guerreiro

 A falência da agência de viagens Thomas Cook é um acontecimento da ordem dos desastres económicos colossais, como aquele que se deu com o colapso do Lehman Brothers, em Setembro de 2008. E utilizo aqui a palavra “colossal”, acenando ao uso que dela faz Kant na sua analítica do sublime, para sugerir que no plano da economia aquilo que atinge uma grandeza suprema é visto como o resultado da racionalidade e do cálculo pragmático, mas quando desaba – o que acontece geralmente sem aviso prévio, para não criar pânico e para que se dê uma anestesia pelo choque – oferece-se a um espectáculo que tem uma dimensão sublime, se pensarmos que o conceito de sublime, nas suas elaborações modernas, do século XVIII, está ligado a uma ideia de “terror”.

Thomas Cook, que nasceu e viveu em Inglaterra entre 1808 e 1892, começou por ser jardineiro e carpinteiro. Mas sonhou bem alto e tornou-se naquilo a que hoje se chamaria um “empreendedor” e criador de uma startup que transformava em negócio os sonhos de progresso e socialização do conhecimento e do lazer. Em Julho de 1841, organizou uma viagem colectiva, para os membros de uma instituição, entre Loughborough e Leicester. Foi uma experiência inaugural (a palavra “turismo” surgiu mais ou menos pela mesma altura) que deu origem à agência de viagens que, nas suas várias metamorfoses, teve uma vida longa de 178 anos. Nasceu com a condição de pioneira absoluta, cresceu como um emblema universal e morreu quando as circunstâncias da indústria turística, aparentemente, pareciam assegurar-lhe uma posteridade sem fim à vista. Quando já estava bem implantada, no final do século XIX, a agência baptizada com o nome do seu fundador teve que lidar com uma singular contestação que importa hoje ser lembrada para dar uma perspectiva histórica a fenómenos actuais da mesma natureza, mas com novas motivações: a viagem turística que Thomas Cook promoveu, para uma burguesia endinheirada, foi objecto de um enorme desprezo aristocrático, era vista como o triunfo da vulgaridade.

O colapso que se deu agora teve como efeito imediato deixar umas centenas de milhares de pessoas (há notícias que falam de 600 mil, mas há outras que avançam números não tão elevados) “bloqueadas” nos sítios do mundo onde estavam a passar férias. A passagem do estado de turista ao estado de vítima de uma espécie de guerra civil planetária foi automática. Os turistas ficaram imediatamente sujeitos à condição de reféns e refugiados, obrigando a operações de repatriamento que puseram em acção uma logística marcial. Os lugares onde os turistas ficaram sitiados não sofreram nenhumas transformações, não foram atingidos por nenhuma catástrofe, mas passaram de um momento para o outro a ser lugares infernais: de tão fácil na ida, tão caros na volta. O que nos obriga a pensar: o que pagamos por uma viagem a qualquer parte do mundo não tem que ver com nada que seja da ordem de uma realidade, por exemplo o tempo de trabalho de terceiros e os gastos materiais necessários, mas com valores especulativos e de ordem simbólica. E, mais uma vez, ganha evidência esta verificação: o poder, hoje, é logístico. Basta que, nesse domínio, algo falhe ou seja voluntariamente bloqueado para que se instaure o caos, senão mesmo a situação de guerra.

 E, de repente, tudo o que era sólido dissolve-se no ar. E muito rápida é a passagem de turista a pária que só pode contar com os deveres do país de origem de proteger os seus cidadãos, onde quer que eles estejam em perigo, se não puder pagar por uma noite no hotel o que lhe custou a totalidade da viagem, e pelo regresso a casa a soma que daria para fazer férias no ano seguinte.

A economia dos bens simbólicos (como é, no seu modo de existência actual, a economia do turismo) funciona desta maneira: para que umas coisas sejam muito baratas, é preciso que outra sejam muito caras; e para que seja muito fácil ir é preciso que, em certas circunstâncias, seja muito difícil voltar. O que dantes fazíamos com toda a tranquilidade, quando viajávamos, começa a exigir gestos temerários. Um aeroporto é hoje o lugar de todos os perigos: ele fornece a imagem abreviada e condensada de uma guerra civil planetária em curso.


Livro de Recitações

“Estranho povo este, que não olha para as eleições como se de um circo se tratasse”
Luís Aguiar-Conraria, in PÚBLICO, 24/09/2019

Com esta frase irónica, o professor de economia da Universidade do Minho e colunista deste jornal terminava um artigo onde mostrava que há sinais claros de que o modo como a campanha eleitoral e os debates entre os partido são tratados pelos jornalistas, em que o pressuposto é que o povo fútil e ignaro quer é espectáculo de diversão, não corresponde à verdade e é afinal esse jornalismo que oferece o espectáculo pindérico da sua ignorância e irresponsabilidade. Uma pesquisa mais funda e alargada talvez mostrasse que este equívoco está generalizado e as elites responsáveis por um “editorialismo” que tudo faz para satisfazer o cliente afinal satisfaz menos clientes do que supõe e aliena grande parte da clientela que, à partida, estaria segura. Quando as “elites” já nem sequer estão ao nível das massas porque estão baixo, então algo está errado nisto tudo e precisa de ser repensado.