Circe transforma em porcos os marujos de Ulisses

(António Gil, in Substack.com, 19/12/2025)


E outras péerolas…


Circe é a imprensa, claro. Ela seduziu e enfeitiçou o capitão.

Escândalo: Putin chamou leitões aos líderes europeus. Bom, na verdade parece que a palavra russa usada, no seu sentido figurado, sugere mais dependência e submissão do que matéria para fazer chouriços, presunto ou fiambre. Mas bom, os que passam por mandantes da Europa nunca perdem uma boa oportunidade de se indignarem e portanto preferem a interpretação literal. Cada um escolhe o que acha que mais se adequa, claro.

Para se livrarem do fedor a chiqueiro assumiram de seguida mais um compromisso para com a mal sobreviva junta de Kiev: um camião TIR de dinheiro que ainda não existe. Na verdade nem o camião existe, só a vontade de conseguir ambos: veículo e dinheiro.

Enquanto isso, no outro hemisfério, Trump brinca aos piratas e prepara, diz-se , uma abordagem em alto mar à grande nau venezuelana. Antes disso, foi afundando uns botes saídos da nave mãe e mesmo de outros navios ali em volta.

Como também na geopolítica o que parece é, e dado que a aparência é feia, houve que inventar um nome para mais um delírio trumpiano: chamam-lhe o corolário Trump da doutrina Monroe.

Aparentemente o gringo-em-chefe vai dedicar-se a tempo inteiro ao hemisfério ocidental. A Europa que cuide de si enquanto paga direitos de existência a seu dono doravante atarefado com pilhagens mais perto de casa. A Coreia do Sul, Austrália e Japão que se desenrasquem sozinhos nas suas regiões mas paguem também, ao grande navio pirata, para poderem continuar a flutuar.

Os tempos vão maus para navegações e prevê-se que muitas tripulações em breve se confrontarão com encalhanços ou actos de pirataria em série. Em terra que já foi firme – Bruxelas – os agricultores europeus insurgiram-se contra os acordos da UE contra a Mercosul. Macron entendeu a mensagem e retirou-se do negócio. Lula da Silva subiu de tom e ameaçou a Europa com ‘endurecimento’. Não há notícias de que o pirata mor queira arbitrar mais um conflito comercial mas ele ainda pode bem vir a tomar partido pelo cliente que lhe oferecer mais.

2026 aproxima-se a velocidade de cruzeiro e ameaça juntar problemas novos a todos os que já existiam e não foram resolvidos. Entretanto, a Rússia continuará a avançar na Ucrânia mas deste lado continuar-se-á a falar de impasse.

O impasse existe, de facto, mas por enquanto é monopólio europeu. Os outros mal ou bem avançam. E o tempo também não espera por ninguém muito menos pelos porcos.

Fonte aqui

A paz natalícia – amém e boas festas geopolíticas

(Fórum da Escolha, in Facebook, 10/12/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Esta semana, o Financial Times brinda-nos com uma fábula geopolítica saída diretamente de um supermercado: “Trump dá a Zelensky alguns dias para decidir sobre o plano de paz”, ou por outras palavras: despacha-te, rapaz, esta oferta só é válida até que a narrativa se desfaça. Segundo o jornal, Trump espera “chegar a um acordo até ao Natal”. Uma paz expressa, com notas de canela e gengibre.

Zelensky, entretanto, está empalidecendo. O Financial Times informa que Washington estabeleceu um ultimato: “A equipa de Trump espera uma resposta nos próximos dias”. Tradução: “Volodymyr, assine antes de terça-feira, tenho uma árvore para decorar.”

E enquanto ele procura a sua caneta, as autoridades americanas acrescentam outra camada. Um deles afirma que “a janela para negociação é agora”. Em outras palavras: se você recusar, fecharemos a loja e você dormirá lá fora com as contas das armas.

Outro responsável, também citado pelo Financial Times, alerta que Trump “não tolerará mais atrasos”. Podemos imaginar Trump como um Pai Natal furioso, com o sino na mão, a gritar ao ouvido de Zelensky que já perdeu a Black Friday diplomática.

Entretanto, a Europa recita o seu mantra. Von der Leyen repete que “a União Europeia continuará a apoiar a Ucrânia enquanto for necessário”. Uma frase sublime que significa: “Não temos mais conchas, não temos mais dinheiro, mas ainda temos os nossos slogans, então sirvam-se”.

Zelensky, por sua vez, mantém o seu papel: “A Ucrânia não pode fazer concessões territoriais”. Admirável, heroico… e totalmente desligado da realidade descrita pelos seus próprios generais, um dos quais reconheceu que “a situação em termos de mão-de-obra é crítica”. Mas nada pode deter o ator-presidente: Hamlet nos escombros, à espera que os Estados Unidos salvem o seu terceiro ato.

Nos corredores de Kiev, segundo fontes citadas pelo Ukrainska Pravda, ouvimos: “Trump quer paz no Natal”. E “Queremos aguentar até à Páscoa.” Dois feriados, dois milagres esperados.

A verdade?

Este “plano de paz” parece um ultimato disfarçado de presente. Washington quer encerrar o processo antes que a lei sobre armas desencadeie uma revolta fiscal. A Europa quer salvar a ilusão de controlo antes do colapso dos seus governos. E Zelensky quer salvar… Zelensky – uma missão já complicada pelas investigações dos EUA sobre os 48 mil milhões de dólares que desapareceram dos ministérios de Kiev.

Então, que tipo de paz natalícia? Uma paz sob coação? Uma paz imposta? Uma paz duramente conquistada? Nenhuma delas.

Christmas Peace™, safra 2025, é uma jogada de marketing desesperada. Uma guirlanda para esconder o fogo. Papel de embrulho brilhante em torno de uma bagunça sem esperança.

Como um diplomata europeu confidenciou oficialmente: “Já não controlamos nada, mas fingimos que controlamos porque é Natal.”

Amém e boas festas geopolíticas.

(@BPartisans)

Trump está farto de Zelensky e da União Europeia… e explodiu

(Fórum da Escolha, in Facebook, 09/12/2025, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

“Há muito tempo que não têm eleições… Chega a um ponto em que já não é uma democracia. É tempo de realizar eleições. Estão a usar a guerra para não realizar eleições. Os ucranianos deviam ter essa escolha”.

Esta é a declaração pública do Presidente dos EUA sobre o que a Europa passou anos a proibir os seus cidadãos de dizer: Zelensky não foi eleito e governa por decreto de guerra enquanto prega a “democracia” aos doadores que financiam a sua sobrevivência. E com estas palavras, toda a estrutura moral da cruzada europeia pela Ucrânia desmoronou-se.

Trump não se ficou pela questão da legitimidade: “A Rússia está em vantagem… Ele precisa de começar a aceitar as coisas.” Mas a detonação mais profunda visava a própria Europa. Trump descarregou a humilhação sobre todo o continente: “A maioria das nações europeias está em decadência. Estão fracas… A Europa não sabe o que fazer.”

Nestas frases, Trump expôs o medo mais profundo da Europa: que por detrás do seu teatro moral se esconde uma classe dirigente vazia e russófoba, que confundiu psicose com estratégia e bravatas com poder.

Durante anos, estes mesmos eurocratas conduziram a Europa à ruína económica, chegando mesmo a preparar-se para implodir o que restava da ordem financeira do pós-Segunda Guerra Mundial apenas para preservar a ilusão farsesca de “enfrentar a Rússia”. No seu desespero viciado, agem agora para roubar activos soberanos russos, uma manobra tão imprudente que ameaça o próprio alicerce do sistema Ponzi. E quando os europeus começaram a questionar esta loucura, Bruxelas respondeu com repressão orwelliana, instrumentalizando a DSA (Digital Services Act) para silenciar discursos, chegando mesmo a exportar censura através do Atlântico, tudo para sufocar o momento em que a verdade sobre a guerra finalmente rompesse a sua cortina de propaganda.

Os líderes europeus sabem que a paz significa um ajuste de contas, um ajuste de contas pelas sanções que incineraram a indústria, pelo suicídio energético que levou as famílias à falência, pela dívida nuclear que hipoteca o seu futuro e pelas mentiras contadas diariamente para encobrir o colapso militar.

A Rússia não derrotou a Europa. A Europa derrotou-se a si própria, consumida por um delírio russófobo que justificava qualquer política, por mais suicida que fosse, desde que alimentasse a ilusão da supremacia moral. É por isso que a Europa teme mais a paz do que a guerra. A paz traz responsabilidade. A paz revela a traição.

Quando Trump disse que a Europa está “em decadência”, estava a diagnosticar uma visão do mundo que se desmorona sob as suas próprias contradições. Quando disse que a Europa é “fraca”, não estava a ironizar, mas a reconhecer um continente que externalizou a sua soberania para Washington e que agora grita em pânico enquanto Washington se afasta.

E Zelensky? Ele é agora o símbolo e o reflexo de tudo o que a Europa apostou e perdeu. Não eleito. Corrupto. Sem opções.

A história nunca foi enganada. Porque o colapso não começou com a entrevista de Trump; sua entrevista apenas verbalizou o que a realidade já tinha escrito. Que a Ucrânia nunca poderia vencer. Que a Europa não podia liderar. Que Zelensky não podia escapar a um mandato que já não possuía. E que todo o projeto atlantista foi construído sobre um mito demasiado frágil para sobreviver ao contacto com o mapa.

À medida que o fumo se dissipa, o ajuste de contas torna-se nítido, uma Europa despojada das suas fantasias, uma liderança exposta na sua impotência e um presidente fantoche ucraniano a descobrir que, uma vez evaporada a legitimidade, até os aplausos ensaiados desaparecem.

E quando Washington deixa de acreditar na história, a história acaba. Chegamos a esse ponto. A autoridade emprestada de Zelensky esgotou-se. A unidade fabricada da Europa está esgotada.

A narrativa de guerra que manteve um continente inteiro refém está a desmoronar-se sob a arquitectura da sua própria psicose.

E enquanto Trump revela a verdade que a Europa passou anos a suprimir, a cena final descortina-se: um Ocidente forçado a confrontar não o inimigo que imaginou, mas as ruínas das ilusões que construiu para si próprio.”

(In Islander, canal do Telegram)