Temos de ser vassalos ou escravos de Trump?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 23/01/2026)


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“Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa.” Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos no Forum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.

Durante décadas a União Europeia e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. A União Europeia até integrou a definição no artigo 21.º do Tratado da UE, mas ligou-a ao cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana, que sempre se esteve nas tintas para a ONU.

Tivemos assim a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação de armas de destruição massiva. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandados da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.

Temos casos de duplo-padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.

O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.

E há o duplo-critério. Um exemplo recorrente é a relação dos EUA com Israel, que viola imensas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia-Geral, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permitiu fazer um verdadeiro genocídio em Gaza.

Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.

Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, foi consentida e alimentada durante décadas pelos europeus, muito antes de Trump decidir que quer ficar com a Gronelândia, de raptar o presidente da Venezuela, de fazer uma “ONU privada” com o seu Conselho da Paz e de querer dominar todo o continente americano. É uma “ordem internacional baseadas em regras” variáveis, como acontece desde o fim da Guerra Fria, mas agora com vítimas que se achavam donas do mundo e se vêem agora no papel de vassalos ou, pior, de escravos.

Por mim, nem vassalagem, nem escravidão.

Jornalista

As intervenções ignóbeis de Trump: como o “imperialismo regional” leva à guerra mundial.

(Ricardo E. Rubenstein in counterpunch.org, 21/01/2026, Trad. Estátua)

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Pouco depois da primeira eleição de Donald Trump como presidente, alguém me perguntou num fórum público se eu o considerava um fascista. Respondi que Trump era um conservador ultranacionalista que tentaria privatizar os serviços públicos, fortalecer ainda mais os oligarcas e reverter muitas políticas sociais liberais – mas que dois aspetos essenciais do fascismo estavam ausentes de sua agenda MAGA. Um deles era o compromisso de conduzir guerras agressivas contra nações “inferiores” consideradas ameaças à segurança da Pátria Sagrada. O segundo era a militarização da sociedade civil, acompanhada por um poder executivo descontrolado, negação generalizada dos direitos civis e campanhas de terror de Estado contra os oponentes reais ou imaginários do Líder.

Esses dois aspetos do fascismo, como Hannah Arendt apontou há 50 anos em As Origens do Totalitarismo, estão organicamente relacionados. As técnicas de conquista e dominação de populações subjugadas, utilizadas em guerras imperialistas, são trazidas de volta para casa pelos belicistas e tornam-se ferramentas essenciais da governação interna. Primeiro, os fascistas decapitam, dividem e conquistam as nações “de merda” (para citar o Sr. Trump). Depois, fazem o mesmo com elementos “de merda” da população da sua própria nação.

Na minha opinião, esse processo ainda não foi concluído nos Estados Unidos. Apesar dos graves abusos do poder executivo por parte de Trump, das políticas desumanizadoras do movimento MAGA e dos excessos violentos do ICE, a militarização interna ainda não chegou ao ponto de terrorismo de Estado contra a maioria dos cidadãos americanos. Mas a direção dessas políticas é inegável. O ataque à Venezuela, na sequência do genocídio financiado pelos EUA em Gaza, é um passo claro em direção a uma política externa fascista, cuja prossecução gera guerras globais.

O que obscurece essa realidade no momento e confunde a cobertura mediática da situação é a invocação, por Trump, da Doutrina Monroe (também conhecida como Doutrina Don-Roe) para justificar a sua viragem brusca em direção ao intervencionismo. Sim, ele sequestrou os Maduros, matou soldados venezuelanos e cubanos, declarou-se dono do petróleo da Venezuela, destruiu ou capturou navios e tripulações que partiam de portos venezuelanos, ameaçou os governantes da Colômbia, Cuba, México e Brasil e prometeu anexar a Groenlândia. Ele também interveio direta e indiretamente no Médio Oriente, na Ucrânia, na África e noutros lugares. Mesmo assim, muitos comentadores concluem que a intenção de Trump é exercer o poder militar principalmente no “quintal” caribenho e latino-americano dos EUA, enquanto outras potências regionais, como a China e a Rússia, agem como bem entendem nas suas próprias esferas de influência.

Essa versão autoritária da multipolaridade pode satisfazer os membros da coligação MAGA que querem acreditar que o aspirante ao Nobel permanecerá fiel à sua promessa original de evitar “guerras intermináveis”. Ela até ganhou aceitação entre alguns analistas de publicações de política externa e ONGs tradicionais. Aceitar esse foco regional, no entanto, significa fechar os olhos para a história e para a dinâmica do imperialismo.

História.   No meio da enxurrada de artigos e transmissões sobre a aventura venezuelana de Trump, encontram-se poucas análises que comparam a agressão dos EUA com as guerras imperiais da década de 1930: em particular, a anexação da Manchúria pelo Japão, a invasão da Etiópia por Mussolini e as intervenções de Hitler na Europa Central e na Guerra Civil Espanhola. Mas a analogia é surpreendente. Assim como as ações recentes de Trump, esses foram ataques assimétricos e de curto prazo contra nações que resistiam à dominação de uma potência hegemónica regional. O seu impacto foi minimizado ao serem caracterizados como guerras limitadas, conduzidas na esfera de influência de alguma potência imperial. Mas hoje entendemos que também foram passos significativos rumo a uma guerra mundial.

Por quê? Por que motivo esse tipo de violência não permanece restrito à esfera regional, em vez de gerar conflitos globais? O primeiro motivo é que essas intervenções visam concorrentes imperialistas, não apenas resistentes locais. A guerra da Itália na Etiópia tinha como alvo os interesses britânicos no Corno de África, a agressão do Japão na Manchúria visava os interesses chineses e russos, e as maquinações da Alemanha na Europa visavam os interesses ocidentais e russos. Quarenta anos depois, Richard Nixon e Henry Kissinger derrubaram o regime de Allende no Chile e instalaram a ditadura de Pinochet porque consideravam Allende um potencial aliado soviético (e cubano). Da mesma forma, o objetivo principal de Trump na América Latina é limitar a crescente influência da China (e a influência menos substancial da Rússia) naquele continente.

Dinâmica. Deixando de lado as doutrinas Don-Roe, o aparente foco local de operações como o ataque à Venezuela é uma ilusão. O fato de o alvo principal ser um império rival obriga outras nações da região afetada a tomar partido – um processo polarizador que tende a criar blocos multinacionais armados e uma ordem mundial bipolar. A obra clássica de Barbara Tuchman, Os Canhões de Agosto, mostra exatamente como isso funcionou para produzir a incrivelmente destrutiva “guerra para acabar com todas as guerras” em 1914. É provável que vejamos essa polarização ocorrer com intensidade crescente nos próximos anos na América Latina, África e Ásia Oriental.

Mas isso não é tudo. As potências imperiais, impedidas de adquirir recursos industriais essenciais em regiões reivindicadas pelos seus concorrentes, tendem a retaliar tomando o controlo de outras regiões onde esses recursos podem ser obtidos. Em 1931, as tentativas ocidentais de enfraquecer e conter os japoneses levaram o regime de Tóquio a forjar um incidente de “falsa bandeira” na Manchúria para se apoderar do carvão e do ferro daquela nação. Uma década depois, os imperialistas japoneses conquistaram o Vietname, a Indonésia e a Malásia para garantir o petróleo, a borracha, o estanho e outros materiais industriais monopolizados pelos imperialistas franceses, holandeses e britânicos no que até então era considerado o quintal da Europa.

Qual é a moral da história? Todos os impérios modernos são globais. Os EUA e os seus rivais não são como os antigos impérios que conquistavam nações mais fracas por desporto, cobrando tributos dos seus governantes, mas geralmente deixando os povos subjugados à própria sorte. Os impérios modernos são potências do capitalismo tardio, impulsionadas a competir globalmente por matérias-primas industriais essenciais, mercados e oportunidades de investimento, e compelidas a “desenvolver” ou transformar as sociedades que dominam. Não há como manter as suas classes dominantes confinadas nos seus próprios territórios – e quando viajam para o exterior (como precisam de fazer para manter a sua própria viabilidade), vão armadas até aos dentes.

Comentadores liberais e conservadores podem ser relutantes a admitir, mas a obra de Lenine sobre o imperialismo acertou em cheio. Por períodos limitados, enquanto emitem ameaças de violência e realizam operações secretas, os construtores de impérios podem até conseguir negociar as suas diferenças “pacificamente”. Mas esses períodos de relativa tranquilidade não duram. Incapazes de resolver os problemas globais que os seus próprios sistemas dominados pelo lucro exacerbam – problemas como a desigualdade social radical, as mudanças climáticas causadas pelo homem e a migração em massa –, eles empregam ameaças de guerra e a própria guerra como métodos prediletos de gestão de conflitos. Chamam a essa estratégia a “paz pela força”, mas entendemos que o que realmente querem dizer é o Império em Primeiro Lugar, por quaisquer meios necessários.

O facto de a guerra estar agora totalmente industrializada e de as armas de destruição em massa, incluindo as nucleares, estarem proliferando a um ritmo vertiginoso não altera essa dinâmica. Tampouco a existência de uma Organização das Nações Unidas lamentavelmente enfraquecida oferece muita esperança de que os conflitos inter-imperiais possam ser controlados antes que se tornem parte de mais um prenúncio de violência global. Mais uma vez, a história faz ecoar alarmes que qualquer pessoa que não esteja ensurdecida pela cacofonia atual deveria ser capaz de ouvir. Foi precisamente quando a Liga das Nações se mostrou incapaz de deter a agressão localizada do Japão, da Itália e da Alemanha que o Pacto Kellogg-Briand, que proibia a guerra como instrumento de política nacional – um tratado assinado por quase todas as nações do mundo – se tornou letra morta. Então e agora, o imperialismo regional intensificado era um sintoma de uma guerra global iminente.

O intervencionismo de Donald Trump representa, portanto, uma significativa guinada rumo ao fascismo – mas a sua importância já está a ser minimizada não apenas pelos seguidores fanáticos do MAGA, mas também por uma ampla gama de liberais do establishment, centristas de ambos os partidos, especialistas em política externa e pela grande mídia.

Devotados ao dogma da “paz pela força”, líderes do Partido Democrata como Chuck Schumer e Hakeem Jeffries são incapazes de criticar as aventuras militares de Trump, exceto para reclamar que ele não consulta o Congresso como deveria e, às vezes, age de forma “imprudente”. Com o Iraque em mente, os editores do New York Times alertam que tentar ocupar nações que não querem ser ocupadas é uma má ideia. Mas se Trump conseguir apoderar-se do petróleo venezuelano sem provocar uma guerra de guerrilha, desestabilizar Cuba sem um novo ataque na Baía dos Porcos, estabelecer o seu “Conselho de Paz” colonialista para a devastada Faixa de Gaza ou anexar a Groenlândia por meio de ameaças e subornos, não ouviremos uma palavra de crítica séria dos defensores da “liderança mundial” dos EUA.

Sejam anti-Trump ou pró-Trump, os nossos líderes imperialistas e os seus parceiros corporativos ignoram as conexões entre guerras regionais, a militarização da sociedade doméstica e a crescente probabilidade de uma guerra mundial. Essa é a má notícia. A boa notícia é que o intervencionismo cada vez mais descontrolado e impenitente de Trump está a despertar as pessoas em diversas frentes. Império, imperialismo e o complexo militar-industrial não são mais palavras e conceitos tabu. Até mesmo Marjorie Taylor Greene entende que a promessa de Trump de ser um bom isolacionista era uma mentira e que a atual onda de intervenções militares dos EUA é um sintoma de um império em declínio.

Enquanto isso, os cidadãos do Minnesota e de vários outros estados americanos estão a aprender o que é ser súbdito da dominação imperial. Os agentes mascarados e armados do ICE, agindo por medo e raiva num ambiente cada vez mais hostil, poderiam estar a invadir Fallujah tanto quanto Minneapolis. Levará algum tempo até que o nosso despertar se torne geral, mas isso acontecerá, espero e rezo, antes que a violência trumpista gere um movimento irreversível rumo a uma guerra mundial.

Para citar a faixa que aparece no final do filme antinuclear de Stanley Kramer de 1959, “A Hora Final” (On the Beach): “Ainda há tempo…irmão”.

Fonte aqui.

Alemanha retira tropas da Gronelândia. A solidariedade toda borrada de medo…

(João Gomes, in Facebook, 18/01/2026)


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Bastou uma ameaça. Não uma sanção aplicada, não um embargo decretado, não uma retaliação concreta – apenas a possibilidade de 10% de tarifas lançada por Donald Trump. E, como por encanto, a tão proclamada solidariedade europeia evaporou-se no ar gelado da Gronelândia. A Alemanha retirou as suas tropas. Fim de cena.

Durante breves horas, Berlim pareceu recordar que a União Europeia ainda existe como espaço político e não apenas como mercado regulatório. A presença alemã na Gronelândia, ainda que simbólica, era um gesto claro: solidariedade com a Dinamarca, respeito pela soberania europeia e recusa de transformar territórios em negócios imobiliários geopolíticos. Mas o ensaio durou pouco. Muito pouco.

Quando Trump falou em tarifas, a espinha dorsal alemã revelou-se subitamente incompatível com o frio do Ártico. Merz não precisou de ultimatos formais nem de reuniões da NATO: fez as contas, mediu os custos, avaliou os riscos eleitorais e decidiu que a solidariedade tem limites – sobretudo quando começa a tocar nos interesses económicos. A retirada não foi explicada como cedência, claro; foi “técnica”, “operacional”, “temporária”. Como todas as cobardias bem assessoradas.

Este episódio não é apenas embaraçoso. É revelador. Revela que a Europa continua incapaz de agir como bloco político quando confrontada com chantagem económica direta. Revela que a Alemanha – que tanto exige disciplina, regras e coerência aos outros – continua a confundir liderança com prudência e prudência com submissão. E revela, sobretudo, que basta Trump levantar a voz para que muitos em Bruxelas e Berlim se ajoelhem antes mesmo de o golpe chegar.

Trump, por seu lado, percebeu algo essencial: não precisa de força militar quando dispõe do mercado americano como chicote. Governa pela ameaça, pela intimidação, pelo instinto primário da obediência económica. É por isso que se pode dizer, sem exagero, que Trump se comporta como o REI do gado – não porque governe com inteligência estratégica, mas porque sabe que muitos líderes europeus reagem como um rebanho assustado ao primeiro estalar do chicote. A retirada alemã da Gronelândia não enfraquece Trump. Fortalece-o. Envia a mensagem exata que ele queria: pressionem-nos que eles recuam. Falem de taxas que eles abandonam aliados. Transformem soberania em negócio que eles fazem silêncio.

Se a União Europeia não for capaz de sustentar um gesto mínimo de solidariedade perante uma ameaça verbal, então o problema já não é Trump. O problema é uma Europa que treme antes mesmo de ser empurrada.

E uma Alemanha que, no momento decisivo, escolheu proteger exportações em vez de princípios. No fim, fica a pergunta incómoda: se isto acontece por causa de 10% de tarifas, o que acontecerá quando a chantagem for maior?

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