O SOL, O FUTEBOL E O BUSTO

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 14/04/2017)

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                              Clara Ferreira Alves

Os nossos jovens não gostam que lhes digam que não podem estacionar televisores na banheira, até porque dá choque, nem atirar colchões pela janela porque é feio

Durante dois meses o país discutiu apaixonadamente, e não por esta ordem, temas vitais. O busto de Cristiano Ronaldo. O nome do aeroporto para Cristiano Ronaldo e não para Aníbal Cavaco Silva ou Alberto João Jardim, porque como toda a gente sabe o aeroporto da Madeira é estreito e temperamental. Os copos e mulheres de Dijsselbloem tendo-se exigido fogosa e internacionalmente a demissão e o desaparecimento do dito, embora o pedido tenha caducado assim que o dito se colocou num raio de dez metros de distância das indignadíssimas autoridades portuguesas suportadas pelas digníssimas redes sociais e a sua moléstia perene perante o estado do mundo e a injustiça para com o país de Cristiano Ronaldo. A brutalidade do futebol, com destaque para as brutalidades de uma criatura que não percebi se se chamava canelas, se tinha canelas de aço como compete a um futebolista ou se jogava para um clube chamado canelas, porque nestas coisas do futebol só leio as gordas e nem isso. O hediondo crime de uma terra do norte, onde o assassino com pulseira eletrónica limpou quatro seres por causa de um depoimento em tribunal, mostrando que há outras maneiras de combater a ineficácia e a lentidão da justiça. E embora a vox populi tenha logo exigido a pena de morte para ele e para o terrorista de Londres, coisa com que os terroristas concordam executando-se a eles mesmos, os dois crimes foram imediatamente esquecidos e colocados no saco roto da memória onde repousam os refugiados e os atentados de Paris e Bruxelas, porque estes nem chegam a ir para o saco, vão logo para o fundo do mar ou de seis palmos de terra. E, por último, os hediondos crimes de Torremolinos, que não deviam espantar ninguém porque a ética e a estética que presidiram à construção por volta dos anos 70 e 80 do torresmo urbanístico de Torremolinos são convidativas a crimes e lesões. Pedagogos e pais, agências de viagens e estudantes, jornalistas e psiquiatras, hotéis e espanhóis, embrenharam-se numa luta onde mais uma vez os lusitanos notaram, com mágoa, que são injustamente tratados pelo resto do mundo europeu civilizado e mostraram a arreganhada face do nacionalismo.

Os nossos jovens não gostam que lhes digam que não podem estacionar televisores na banheira, até porque dá choque, nem atirar colchões pela janela porque é feio. Nem os Rolling Stones já se comportam assim em tournée. Somos modernos, isto é coisa dos anos 60 e, nos anos radiosos do Facebook, os anos 60 são o equivalente ao Baixo Pleistoceno.

De resto, não se discutiu mais nada. A descoberta do Tomahawk por Donald Trump não nos diz respeito, os crimes de guerra da Síria muito menos e o atentado de Estocolmo, enfim, nada que Trump não tivesse previsto na sua infinita sapiência. Passemos pois ao essencial, que em Portugal é sempre, apaixonadamente discutido, o acessório. O acessório, também conhecido nos anos antigos por fait-divers, quando as pessoas falavam uma língua morta chamada francês, livra os portugueses discutidores de uma decisão e, mais importante, de uma decisão decisiva para as suas vidas. Como, por exemplo, o que vai acontecer no futuro a um país fraco e insolvente que tem bravatas e vícios de rico e dinheiros de pobre. Enquanto os turistas não se cansarem estamos bem e empregamos os jovens com cursos superiores na indústria. Temos o nosso Torremolinos no Algarve, não precisamos. O turismo é como o petróleo, impede as pessoas de pensar e convida-as a gastar a nota e a embebedarem-se.

Eu não tenho dúvidas de que António Costa é o melhor primeiro-ministro das últimas décadas, também não seria difícil, e que faz omeletas sem ovos. Eu não tenho dúvidas de que Passos Coelho e o seu grupo de nulidades aparelhísticas, os eletrodomésticos estão em saldo no PSD, são um motivo para continuar a fingir que o Bloco e o PCP não estão sempre a chatear com as férias, os feriados, as pontes e os salários da Função Pública porque perceberam que a classe operária já não se usa e porque os pobres, enfim, os pobres são um problema universal e os muito pobres e sem-abrigo nem votam, a Igreja que se ocupe deles. Eu não tenho dúvidas de que temos dívidas e que anda por aí um grupo de bandidos que devia ter ido dentro e que põe a cabeça de fora sempre que pode porque a justiça portuguesa, enfim, não tem meios. E, já que falamos nisso, também não tem princípios.

O país não está bem. Está longe de estar bem. Numa pequena sociologia do Starbucks, quando entramos num destes templos numa cidade como Londres, vemos que serve de escritório ao longo do dia a centenas de jovens com Macs em trabalho árduo. Eu sei porque também escrevo no Starbucks. Com ‘Brexit’ ou sem ele, Londres tem uma economia vibrante e emprega os jovens, incluindo os jovens portugueses, gregos, e espanhóis que vêm de países com grande qualidade de vida onde os jovens vão para o Starbucks ver passar o busto do Cristiano Ronaldo no smartphone e planear a praia agora que chegou o verão acompanhado dos feriados de abril e junho. We are fucked, como diria o grande Ronaldo. We are fucked e ninguém quer saber.

Temos, como sempre tivemos, o sol e o futebol. E o busto.

A geração mais rasca do que a rasca

(Francisco Louçã, in Público, 11/04/2017)

louca

Francisco Louçã

Para quem sabe tão pouco sobre o que se passou de facto em Torremolinos, esta vaga de sentenças apressadas pode ser arrogância demais. Sem informação certificada, ficamos no domínio do tablóide: um jornal espanhol titulava que os estudantes portugueses tinham “destroçado” um hotel, mesmo que o texto acrescentasse depois, mais comedido, que tinham provocado “destroços”, mas quais não se sabe bem. Entretanto, o próprio hotel prometeu explicações e nunca as deu. Daqui até ao “terramoto” e ao “inferno” ainda vai um longo caminho de boas intenções.

Portanto, do que se passou em Torremolinos sabe-se pouco, mesmo que o suficiente para exigir uma discussão. Em qualquer caso, sabe-se muito do que se passa antes de Torremolinos e talvez possamos concentrar-nos nisso.

Sabe-se, em primeiro lugar, que a viagem é organizada precisamente para multiplicar a farra em modo delirante. O seu único programa social é bar aberto (mas só a partir das 11 horas da manhã, diz pudicamente a agência de viagens). Os viajantes sabem que é assim e os pais sabem que é assim. Mil jovens, ocupando todo o hotel, inventam então as suas regras de comportamento, aliás sem inovarem muito: Torremolinos é capaz de ser como alguns festivais de Verão, só que dentro de quatro paredes. Os organizadores, a agência de viagens e as famílias sabem que é assim e querem que seja assim. Tem por isso razão Daniel Sampaio, pesado que seja: a cultura da não-responsabilidade é gerada desde o início pelos responsáveis deste empreendedorismo turístico, que prometem precisamente que a viagem para este bar aberto fica fora do enquadramento da família e da escola mas é por eles autorizada. Lamento por isso não alinhar com os juízes moralistas; até suspeito que muitos deles, enfastiados com a imagem desta farra, aceitam a não-responsabilidade com a mesma displicência com que sorriem perante a praxe, afinal são coisas de jovens, coitados, seres inferiorzitos que um dia hão-de cá chegar.

E isso leva ao ponto mais importante: sabe-se também que as gerações fantasiam sobre as gerações seguintes. No meu tempo o Verão era sempre melhor, no meu tempo comportávamo-nos, agora é desbunda. Então, nada de surpreendente: na “geração rasca”, que agora passou os quarenta anos, abundam opiniões censórias sobre Torremolinos (que já se praticava na altura, lembras-te?).

Lembro-me: quando a ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite, criou as “provas globais” do 10º ano, as manifestações estudantis contestaram a prova e houve muitos milhares na rua. O editorial do então director do PÚBLICO, que cunhou a expressão “geração rasca”, acusava a manifestação de ser “um desfile de palavrões, cartazes e gestos obscenos, piadas de caserna ou trocadilhos no mais decrépito estilo das velhas ‘repúblicas’ coimbrãs”. Não era o único: o Diário de Notícias acusou os estudantes de “se atirarem aos agentes (da PSP) e se ferirem ao ‘chocar’ com os bastões policiais”. No Parlamento, um tal Passos Coelho, chefe da JSD, ainda ensaiou um tímido protesto, pois as manifestações estudantis “mostram que a negociação não passou pelos próprios estudantes” e anunciou que iria “formalizar o pedido de suspensão das provas”. Tudo passou e ficou o “rasca”.

Pois hei-lo de volta e não se aprendeu nada.

Esta amálgama de inevitabilidades empresarializadas em direcção à sociabilidade alcoólica é portadora de uma cultura: a que retira autonomia e responsabilidade aos jovens, lhes anestesia os sentimentos e os faz desvanecer num coma colectivo, como se a juventude fosse uma breve passagem por um túnel iluminado a néon, para ser esquecida logo a seguir, a minha geração nunca fazia nada disso, abrenúncio.

Em toda esta história, não há nada de mais grotesco do que o paternalismo, que pressupõe que os jovens são tontos e lhes devemos oferecer a viagem para a tontice, que é afinal onde não incomodam ninguém.

Sei o que fizeste em Torremolinos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 10/04/2017)

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                           Daniel Oliveira

Não há nada mais repetitivo do que o discurso dos velhos sobre os novos. Se formos rever tudo o que cada geração disse e escreveu sobre as gerações que as precederam descobrimos que, ao contrário do que pensamos, a humanidade nunca parou de regredir nos últimos milénios. É uma reação natural: os mais velhos estranham a novidade e tendem a romancear a sua própria juventude. A sua geração é sempre mais culta, educada, respeitadora e civilizada do que a geração dos seus filhos e netos. Muitos dos meus vizinhos pensam isso mesmo sempre que olham para o Jardim do Arco do Cego, transformado, ao fim de tarde, em bar para milhares de universitários que deixam um tapete de copos de plástico sobre a relva. Tento sempre defender o óbvio: não há nada de geracional naquela falta de civismo. Ainda se lembram de Vicente Jorge Silva ter falado da “geração rasca”? Agora é a “geração rasca” que fala da que veio depois. É tão antigo como a humanidade.

Este discurso é tão automático como discurso reativo, que faz a geração mais jovem ouvir qualquer crítica da mais velha como sinal de resistência à mudança e mau envelhecer. A arrogância é semelhante, aliás. Ainda há uns dias fui a Coimbra participar num debate e dediquei grande parte da minha intervenção a zurzir na praxe. Rapidamente surgiu, de um jovem, a defesa da sua geração contra os ataques dos mais velhos (no caso, eu). Tive de explicar que o conflito de gerações não me diz nada. Só me diz alguma coisa quando ele manifesta mudanças sociais e políticas que são corporizadas pelas novas gerações. Que não considero esta geração menos esclarecida do que a minha. Terá os seus próprios problemas, que resultam do que hoje existe e antes não existia: as redes sociais, a ausência de privacidade, a dificuldade de ter um foco quando a informação chega de todo o lado a uma velocidade impressionante, a precariedade como único futuro. Mas é, em geral, uma geração mais bem preparada e informada do que a minha.

Parece que no final dos anos 70 houve uma viagem nacional de finalistas a Torremolinos de tal forma brutal que estas foram proibidas durante uns anos. Foi a desbunda da geração que agora se arrepia com a falta de civismo dos seus filhos e netos

Não sei o que se passou em Torremolinos. Provavelmente será a justiça a avaliar. Os jornalistas começaram a fazer o seu trabalho, ouvindo, como é suposto nestes casos, as várias versões. Nenhum patriotismo me fará defender qualquer tipo de selvajaria. E não me custa acreditar que uma estada de cinco dias de adolescentes com bar aberto tenha este resultado. Qualquer hotel que resolve fazer um acordo destes tem de estar preparado para gerir situações difíceis. Uma coisa é certa: não há paciência para a conversa sobre a geração selvagem, versão renovada da “geração rasca” (era a minha), produto requentado, servido sempre da mesma maneira há milénios. Parece que no final da década de 70 houve uma viagem nacional de finalistas a Torremolinos de tal forma brutal que foram proibidas durante anos. Foi a desbunda da geração que agora se arrepia com a falta de civismo dos seus filhos e netos.

Mas a loucura atingiu níveis delirantes quando Nuno Rogeiro, nos microfones da SIC Notícias, comparou o sucedido a um ataque do Daesh: “Irrita-me essa história das criancinhas portuguesas que chegam e vandalizam os países vizinhos. As famílias têm de estar alerta, as próprias crianças têm de estar alerta, porque não pode ser. É uma vergonha. É possível ser adolescente e não ser igual ao Daesh. Se houvesse uma estância turística espanhola e tivesse sido devastada pelo Daesh não sei se os resultados seriam piores. As pessoas têm de ter um bocadinho de calma.” Isto não foi escrito numa caixa de comentários, foi dito num canal de notícias por um comentador de política internacional que, entre outras coisas, faz análise sobre ataques do Daesh.

Não quero relativizar um ato de vandalismo, se foi disso que se tratou. Não quero dizer que é da idade. Quero apenas dizer que em todas as gerações houve gente civilizada e pouco civilizada. Que, apesar de ser fundamental ensinarmos aos nossos filhos as vantagens da civilidade, não houve um tempo de adolescência ordeira e respeitadora. A adolescência é um tempo de excesso, temos de intervir quando esse excesso se manifesta de forma destrutiva. Agora como há quatro décadas.

O que me parece que está a mudar, mas isto talvez seja eu a idealizar o passado e a assustar-me com o presente, é a dimensão que cada episódio ganha pela repetição permanente nos media e nas redes sociais. Que faz as pessoas perderem noção das proporções. Ao ponto de Nuno Rogeiro comparar um triste e condenável episódio com adolescentes a um atentado do Daesh. Sim, temos de ter um bocadinho de calma.


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