10 motivos porque não gosto de Paulo Macedo

(In Blog, O Jumento, 29/11/2016)
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Espero que Paulo Macedo não chegue a presidente da CGD, não me parece que seja a pessoa indicada para o cargo, além de não ter nem o currículo, nem as habilitações ou mesmo a independência para o exercício do cargo. Pessoalmente tenho dez bons motivos para não simpatizar com essa personagem, aliás, além de não simpatizar tenho muito desprezo pela mesma:
1. As habilitações
O percurso académico de Paulo Macedo não está à altura da gestão de uma Caixa Geral de Depósitos, não é uma passagem pela área fiscal e pouco mais que o habilita a administrar um grande banco.
2. Os falsos sucessos
Apesar de, enquanto gestor da DGCI, ter sido um dos beneficiários dos grandes investimentos feitos na informatização da máquina fiscal, beneficiando da gestão dos seus antecessores e dos investimentos que estes mobilizaram, é mentira que Paulo Macedo tenha sido o melhor director-geral dos impostos, dos últimos anos.
Avaliando os resultados dos últimos quatro diretores-gerais, Paulo Macedo ficaria na terceira posição, com piores resultados do que um dos antecessores, o Dr. Nunes dos Reis, e do seu sucessor Prof. Azevedo Pereira. Paulo Macedo só apresentou melhores resultados do que o seu antecessor, um senhor que foi notícia por estar a fazer o doutoramento ao mesmo tempo que desempenhava as funções de diretor-geral.
3. O gestor que nada muda
Tirando uma sessão em que Paulo Macedo pôs todas as chefias da DGCI tocar uma corneta de plástico, nada de significativo deixou, não mudou chefias, não mudou modelos de organização e não mudou modelos de gestão. Aproveitou os resultados e publicitou-os, aproveitando a boa imprensa de alguém que pertencia a uma instituição com um grande orçamento publicitário.
4. O especialista em propaganda
Paulo Macedo transformava diariamente tudo o que a DGCI cobrava em sucessos pessoais, como se no passado nada fosse feito. Para além de contar com uma rede preciosa de amigos, tirava partido da boa imprensa do BCP para fazer passar sucessos atrás de sucessos. Muitas vezes os mesmos resultados eram publicitados na comunicação social apresentados de formas diferentes, para multiplicar o impacto. Os seus anos de DGCI foram uma intoxicação permanente da comunicação social, aliás, vimos o mesmo na saúde nos seus tempos.
5. As ligações à Opus Dei
A confirmar-se a possibilidade de ter ligações à Opus Dei pode questionar-se a isenção na liderança de um banco público. Recorde-se a importância dada por aquela organização à gestão do poder e, em particular, ao poder financeiro, importância que ficou evidente no seu envolvimento com o BCP. A Opus Dei tem grandes interesses económicos e na liderança de muitas instituições empresariais estão homens promovidos por aquela organização religiosa semi-secreta.
6. As ligações à direita
Sem militância conhecida são óbvias as suas relações com o PSD, a cujo governo pertenceu, onde foi um ministro da Saúde que procurou o sucesso com aumentos gratuitos do horário de trabalho e encerramentos de serviços.
7. A proximidade ao homem de Oliveira e Costa
Na DGCI tinha como um dos homens mais próximos um braço direito de Dias Loureiro a quem se juntou para promover a perseguição deste blogue, incomodado por críticas e convencido, ainda que sem qualquer prova ou fundamento, de que aqueles que ele pensava serem autores deste blogue teriam sido responsáveis por violações do sigilo fiscal em relação a factos contributivos da sua responsabilidade.
8 O lado manhoso
Uma pequena história ilustra o lado humano de Paulo Macedo. A determinada altura convidou Jorge Sampaio, então Presidente da República, para estar presente num seminário por ele organizado, certamente para engrandecer a sua imagem junto da comunicação social. Alguém foi perguntar a um ex-diretor-geral se já algum presidente tinha visitado a DGCI. Foi informado que o mesmo Jorge Sampaio havia inaugurado as novas instalações do serviço de finanças de Serpa. O resultado foi um comunicado informando que pela primeira vez um Presidente da República tinha estado presente num seminário da DGCI.
9. O trabalho alheio
Apesar de tantos elogios pelo seu trabalho da sua boca nunca se ouviu a atribuição dos resultados aos esforços de alguns, muitos poucos. Em vez disso, optou por agradecer a Deus e promoveu uma missa de acção de graças, nas Sé de Lisboa, para que os funcionários pudessem agradecer a Deus pelos resultados. Digamos que os funcionários da DGCI e principalmente os que contribuíram para os seus inúmeros comunicados de imprensa, ficaram com a bênção do padre, Paulo Macedo ficou com a fama e o proveito.
10. As perseguições

A crer nas noticias que foram publicadas na comunicação social as perseguições atrás referidas chegaram ao ponto da IGF ter vasculhado os e-mails de todos os funcionários em busca de e-mails trocados entre funcionários e jornalistas. Nunca se soube o que fez Paulo Macedo aos resultados dessas investigações.

O país está a assistir a um forte campanha para colocar Paulo Macedo na CGD, como se este fosse a última Coca-Cola do deserto. Quem estará por detrás desta campanha, o próprio Paulo Macedo ou outros interesses apostados em tomar conta da CGD?

Na CGD, só o PCP esteve bem

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/11/2016)

Autor

                                        Daniel Oliveira

Se António Domingues pusesse os interesses da Caixa Geral de Depósitos à frente dos seus próprios interesses, um assunto tão secundário como a declaração de rendimentos dos administradores poderia pôr em risco o que se está a arriscar com esta novela. É a mesma que todos os administradores de todas as empresas públicas têm de entregar, que todos os ministros e deputados têm de tornar pública. Apesar de detestar a ideia de que quem não deve não teme, começo a achar estranhíssima a importância que os administradores dão a este tema, sobretudo tendo em conta a possibilidade de existirem incompatibilidades não declaradas em algum deles.

E mesmo a decisão de Domingues entregar na mesma a declaração no Tribunal Constitucional – a convicção geral sempre foi que a recusa vinha de administradores que ele convidou – mais não pretende do que passar a ideia de que o presidente demissionário da Caixa acha que só tem de cumprir a lei porque quer, não porque alguém o obriga. E esta ideia de que está acima do seu acionista era um péssimo prenúncio para o que poderia vir a ser o seu mandato. A demissão de António Domingues, sendo um contratempo perigoso, pode vir a ser vantajosa. É hoje evidente a inadequação política da pessoa para o cargo. Não chega qualidade técnica. Domingues é, parece-me óbvio, alguém que não faz a mais pálida ideia do que significa ser gestor de uma empresa do Estado e o tipo de escrutínio a que estaria sujeito. Se não o percebeu ao primeiro embate, não o iria perceber depois. E depois de toda esta novela a vigilância estaria obviamente muito reforçada.

Se o PSD e o CDS pusessem o país à frente da sua agenda não teriam, desde o primeiro minuto, tentado causar o caos no processo de recapitalização da CGD. Tentativa de destabilização que começou logo com a proposta de criação de uma Comissão de Inquérito Parlamentar em pleno período de negociação com Bruxelas. Desde o início parece evidente que PSD e CDS estão empenhados em impedir a recapitalização com o objetivo de obrigar a uma privatização que sempre defenderam. Compreendo a dificuldade do Bloco de Esquerda, até porque também defendo que não pode existir uma lei à medida para esta administração. Mas custa-me que não tenha havido a lucidez de perceber que, na atual situação, a recapitalização é uma prioridade. E que se isto a puser em perigo o BE terá obviamente de assumir as suas responsabilidades. Como muito bem disse Jorge Pires, do PCP, a votação de uma lei para obrigar a concretizar uma lei em vigor que o Tribunal Constitucional estava a avaliar foi absolutamente inútil e teve como único objetivo provocar esta crise.

Se alguns membros do Governo fossem um pouco mais responsáveis não teriam posto em risco meses de trabalho para garantir a urgente e indispensável recapitalização do banco público. E as suspeitas parecem encaminhar-se cada vez mais para o secretário de Estado Mourinho Félix. Se veio dele o compromisso que nunca poderia existir e com isso pôs em risco o banco público é evidente que o seu lugar tem de estar a prazo. António Costa não pode, na situação em que o país está, mudar de ministro das Finanças. Isso passaria um sinal de instabilidade. Mas pode e deve mudar um secretário de Estado, deixando claro que quem, em nome do Estado, se compromete ao que obviamente não se pode comprometer (ainda por cima sem o conhecimento do primeiro-ministro) põe em perigo o seu lugar.

Mais uma vez cito o PCP: “Esta demissão do presidente da CGD é resultado decorrente de opções erradas do Governo que, ao longo destas últimas semanas, meses, foram sendo aproveitadas para uma ação determinada por parte de PSD e CDS, particularmente do PSD, para vir a criar dificuldades à CGD, no sentido de vir a criar condições para a sua privatização.” Subscrevo na íntegra e sem ter de acrescentar nada.

Todos parecem não estar à altura das suas responsabilidades. Administradores demissionários porque parecem viver mais em torno dos seus umbigos do que dos problemas do banco que aceitaram dirigir. O Governo, porque alguém com responsabilidades assumiu um compromisso que não podia ser assumido – tudo aponta para Mourinho Félix – , pôs em risco todo o processo de recapitalização e continua alegremente no cargo. O PSD e o CDS porque, desde o início, se têm dedicado a tentar criar o caos para impedir que se resolva o que eles não quiseram resolver, travar uma recapitalização que foi duramente negociada com Bruxelas e levar o banco público ao colapso, forçando uma privatização. E o Bloco, que acabou por fazer o papel de idiota útil. Bem – diria mesmo que exemplar – tem estado apenas o PCP, que definiu de forma clara a sua posição, fazendo as críticas que tinha de fazer sem nunca se deixar instrumentalizar por quem quer destruir a Caixa.

CGD: e porque não Rui Vilar?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 28/11/2016)

nicolau

A história de António Domingues à frente da Caixa Geral de Depósitos acabou mal, como já se adivinhava. Compartilha as culpas com o Governo e com a oposição. Mas ele contribuiu muito para este desfecho. Agora importa olhar para o futuro próximo. A Caixa precisa urgentemente de um novo presidente, prestigiado, respeitado, inatacável e que conheça o processo de recapitalização. Só há uma pessoa nessas condições: Rui Vilar, que já está no conselho de administração e foi um dos quatro administradores que não se demitiu.

O Governo demorou muito tempo a encontrar o substituto para José de Matos à frente da CDG. Depois, escolheu bem: um gestor profissional, respeitado, vindo da banca privada, com luz verde para escolher uma equipa competente, coesa e independente. E depois o Governo voltou a andar mal ao permitir que, com diversas exigências que Domingues colocou em cima da mesa, o processo se continuasse a arrastar até Setembro, enquanto a Caixa continuava a agonizar. Neste período, o Governo terá cometido outro pecado: o de garantir a Domingues e à sua equipa que não teriam de apresentar as suas declarações de património e de rendimento. E para isso fez um diploma à medida da nova equipa de administração da Caixa, talvez pensando que tal passaria despercebido. Não passou. E a partir daí, todo o processo foi conduzido (?) de uma forma completamente catastrófica.

António Domingues não sai nada bem deste processo – e grande parte da responsabilidade é sua pela imenso tempo que tudo demorou. É verdade que tinha de se certificar em Bruxelas se alguma das coisas que tinha pensado para a Caixa mereceriam a aprovação da Comissão. Mas a escolha de 19 pessoas para o conselho de administração é da sua responsabilidade, sem cuidar que eventuais conflitos de interesses pudessem levar à não aprovação de alguns desses nomes pelo supervisor europeu – como veio a acontecer. Depois, o facto da comissão executiva incluir quase só (com uma exceção) pessoas vindas do BPI também não foi muito bem recebida internamente. E quando finalmente aparece a questão da entrega das declarações de património e rendimento, Domingues fixa-se primeiro na eventual garantia de que tal não seria necessário, pede depois um parecer jurídico aos serviços da Caixa quando a pressão política já era enorme, cede à tentação de responder a Passos Coelho, e finalmente continua a resistir a entregar as declarações mesmo depois do Presidente da República, do Tribunal Constitucional, do primeiro-ministro e de todos os partidos, incluindo o PS, terem deixado claro que os administradores da Caixa teriam de cumprir essa obrigação. Como presidente da Caixa, Domingues ficou “morto” aí. E terá sido provavelmente com algum alívio que o Governo o viu bater com a porta, mesmo que tudo isto represente uma derrota com eventuais sequelas políticas na equipa das Finanças.

Quanto à atual direção do PSD, cavalgou todo este processo, não em defesa da Caixa ou da transparência ou do cumprimento das regras do Tribunal Constitucional. O PSD teve António Borges como assessor direto para as privatizações, uma figura espúria do ponto de vista do organigrama do Governo, que teve poderes para obrigar a Caixa a vender abaixo do preço do mercado a sua participação na Cimpor aos brasileiros da Camargo Côrrea que não demoraram muito a desmembrá-la. O PSD, enquanto foi Governo, assistiu ao acumular de prejuízos na Caixa (desde 2011 até 2015) sem uma palavra para os corrigir. Subscreveu um aumento de capital, mas obrigou a Caixa a recorrer em parte às ajudas de Estado no âmbito do programa da troika para abrir a porta a uma futura privatização. E assim em meados de 2015 Passos Coelho veio dizer candidamente que estava muito preocupado por a CGD ainda não ter pago os 900 milhões das ajudas que recebeu – o mesmo Passos que antes de ser presidente do PSD defendia a privatização da Caixa.

O que o PSD quer, já que está sem discurso político-económico de momento, é aproveitar todos estes incidentes para fragilizar o Governo, em geral, e o ministro das Finanças, em particular. A atual direção do PSD sempre disse que este processo de recapitalização da Caixa não passaria em Bruxelas e que o aumento de capital teria de ser levado ao défice. O processo não só passou em Bruxelas como grande parte do aumento não irá ao défice. Por isso, o que a atual direção do PSD menos deseja é que este processo seja um sucesso, não importando que o banco público seja utilizado como arma de arremesso contra o Governo.

Mas o que está feito, feito está. Agora vem aí seguramente uma comissão parlamentar de inquérito. Mas o que importa é a Caixa e o seu processo de recapitalização. Isso é que é dramaticamente urgente para o banco público sair da situação em que se encontra. E volto ao princípio: a Caixa precisa de alguém prestigiado, respeitado, inatacável e que conheça o processo de recapitalização. E só Rui Vilar está nessas condições. Se para isso é preciso voltar ao modelo dual de administração com um chairman e um CEO volte-se – e o mais depressa possível. Se não, que se convide Rui Vilar para acumular as duas funções. A Caixa não pode esperar. E precisa de um grande presidente.