Então, dê-me dois copinhos de Aldeia Nova

(In Blog O Jumento, 02/12/2016)
aldeianova
 
Todo este folhetim da presidência da CGD traz-me à memória o velho anúncio Publicitário da aguardente Aldeia Nova, inspirado numa cena do filme português “O Pai Tirano”:

Homem: O que é que te apetece?
Mulher: Sei lá, talvez uns pastelinhos de camarão.
Homem: Vamos nisso, traga-me uns pastelinhos de camarão, muito fresquinhos!
Empregado: Pastéis de camarão não temos.
Mulher: Então dê-me dois copinhos de Aldeia Nova
Homem: O que é que te apetece?
Mulher: Sei lá, talvez uns administradores competentes.
Homem: Vamos nisso, traga-me uns administradores competentes!
Empregado: Administradores competentes e com declaração não temos.
Mulher: Então dê-me o Paulo Macedo mais o Rui Vilar.

O país resolveu um problema, encontrou um dirigente competente, habilitado e isento para gerir um grande banco público, mas a direita, apostada em criar dificuldades à gestão do banco, logo encontrou um problema, os vencimentos. Depois, alguém se lembrou de um segundo problema, este bem mais grave, a administração não ia entregar  declaração da treta, uma pequena burocracia democrática que em trinta anos não serviu de nada. Aliás, os administradores até entregavam a declaração, mas não aceitavam a sua divulgação.
Caiu o Carmo e a Trindade, até Ferraz da Costa exigia, na TSF com a sua melhor entoação de voz de pintas, a demissão de Centeno. O PSD e Passos viu aí a oportunidade de uma grande vitória sobre a geringonça, esqueceu o OE e durante quase um mês não quis falar de mais nada. Como era de esperar a equipa da CGD mandou governo e oposição à bardamerda, mais a treta da declaração.
A consequência foi escolher um modesto licenciado com grandes aptidões para comunicados de imprensa laudatórios da sua própria pessoa. Todos ficaram contentes, o cardeal já está a preparar a próxima missa de acção de graças requisitada pelo futuro presidente para agradecer a ajuda divina, Passos Coelho tem o seu ministro a mandar no grande banco público, o BE fica contente porque venceu a grande batalha ideológica da declaração depois do seu “compromisso histórico” com Passos Coelho e até António Costa deve estar-se a rir porque tratou o cão com o pêlo do próprio cão.
Este país vai de mal a pior e quando em vez de quererem conhecer os currículos de um gestor de um grande banco os nossos políticos querem conhecer e tornar públicos o seu património só pode ser por estarem parvos ou doidos. O mais grave é que da extrema-direita à extrema-esquerda todos ficaram felizes.
Quem não tem razões para festejar tanto oportunismo, tanto jogo baixo, tanto movimento de lóbis, tanta corrupção ética é o país e os portugueses. Com a aproximação do Natal todos precisamos de uns copinhos de Aldeia Nova, nada como sermos tratados como perus para que suportemos tudo aquilo a que assistimos na CGD. Aliás, se é para matar o banco também lhe podem dar dois copinhos de aguardente.

Virgolino Faneca troca a Caixa por uma vénia serviçal

(Celso Filipe, in Jornal de Negócios, 02/12/2016)

caixa

Virgolino Faneca considera ter todas as condições para obter um lugar na Caixa. Está disposto a não fazer nada para que tudo fique na mesma. Um requisito absolutamente imbatível em matéria de gestão da coisa pública.


Prestimoso António

Venho, pela presente, endereçar-te os meus sinceros parabéns por tudo aquilo que considerares conveniente e predispor-me a tecer à tua pessoa todo o tipo de loas que entendas necessárias para que possa satisfazer o desejo de me tornar presidente da Caixa Geral de Depósitos.

E perguntas tu, a propósito, que qualificações é que tenho para exercer o cargo. E eu respondo-te, nenhumas. Ora, é precisamente esta circunstância que faz de mim o melhor candidato ao lugar. Como só irei para o lugar com o único propósito de ter uma vida sedentária e confortável, deixarei os meus colegas fazerem as manigâncias que lhe aprouverem, serei capaz de ceder (sem pestanejar) a qualquer exigência do Governo ou dos partidos, sendo que neste último caso procurarei sempre a tua anuência, a do Augusto Santos Silva ou a do João Galamba. E contratarei informalmente para conselheiro o senhor Marques, colocando-me assim fora dos holofotes da análise política.

Tu sabes que tenho razão. Quiseste escolher para a Caixa um banqueiro sem ligações partidárias, deste-lhe liberdade para escolher a sua equipa, e vê no que deu! A Caixa não está preparada para ser gerida assim. Tanto tempo com tanta gente e tantos governos a puxar cordelinhos e a mexer influências, porque fulano tal é do partido A, porque fulano B é amigo do ministro C, ou porque fulano D é irmão do secretário de Estado E, e uma cultura empresarial que não se muda de um dia para o outro.

Ora, a minha vantagem é que tenciono manter intacta essa riqueza cultural da empresa e, se possível, aprofundá-la em meu benefício próprio, sem dar muito nas vistas, mas mantendo sempre o princípio de servir sem reservas aqueles que se servem do Estado.

Além disso, como sou um tipo sensato, estou totalmente disponível para que terceiros escolham a minha equipa de liderança. Na verdade, até é um favor que me fazem, visto que não tenho paciência nenhuma para tarefas de selecção, as quais me impedem de seguir com a atenção devida a temporada dos desportos de Inverno, especialmente as provas de esqui alpino, biatlo e curling, não necessariamente por esta ordem de relevância.

Só te peço que entre os eleitos, naturalmente escolhidos no recato dos Passos Perdidos, em conversas bilaterais, exista pelo menos um que saiba ler o balanço de um banco, para não dar muita bandeira. Mas, se não houver essa possibilidade, também não será por isso que renunciarei ao cargo.

Quanto às conversas com Frankfurt e à recapitalização da Caixa, podes estar descansado. Eu tenho um primo italiano que se dedica aos negócios do lixo na Sicília, embora não tenha um único camião para tal efeito, o qual por sua vez conhece um primo do Mario Draghi, e penso que, com uns apertões e umas insinuações de teor mafioso, se levará o barco a bom porto.

Parafraseando Sérgio Godinho, eu dou conta do recado e para ti é um sossego. Fico, pois, a aguardar com impaciência a minha nomeação.

Subscrevo-me com uma vénia cervical e serviçal,

Virgolino Faneca


Quem é Virgolino Faneca?

Virgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um “vasco pulidiano” assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: “É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro”. É presença constante nos “Prós e Contras” da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.

O “CERCO” a PASSOS!

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 02/12/2016)

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Eu não “me” acredito, terá ele dito, esbracejando e espumando saliva pelos cantos da boca, batendo violentamente com os punhos na mesa…Tu “quoque” Macedo, sentindo-se, tal como César, traído por um “filho “ seu…adoptivo, mas filho!

E agora, perguntou ele, logo secundado por todo o seu séquito? E agora, também pergunto eu? Não, não “me” acredito, reforçou ele…

Mas é isso mesmo Passos. E agora? O Costa, o “monhé” dum raio, esse preto repelente que nem “pin” na lapela usa, um antipatriota, portanto, deu-te mais um nó cego, não foi? Danado, tinhoso, usurpador…e agora?

Então esse enviado de “Satã” teve a ousadia de ir buscar para a Caixa um dos teus? Onde já se viu tamanho topete? Isto aqui só pode ter dedo da Manuela, outra vendida, que diz que é mas não é e o quer é ver-te pelas costas…É traição a mais, mas ela que espere, ameaçaste tu…

Mas ele aceitou mesmo, perguntou um dos seus fiéis conselheiros, o Zeca Mendonça? Ele que foi um dos teus mais proeminentes Ministros, Pedro? Tu já devias ter desconfiado quando ele, há uns dias atrás, compareceu com o Costa e o Medina na inauguração de um Centro de Saúde aqui mesmo em Lisboa, uma obra que ele pensou, mas fomos nós que lançamos. Tu devias ter desconfiado, Pedro.

É que o tal de “Domingues” e os restantes “Feriades”, como dizia um amigo meu, ninguém os conhecia, só o Lobo Xavier, mas este…Este não devia valer, disseste tu ainda inconformado. Mas o Macedo aceitou mesmo, repete o Zeca? Mas ele não parava de dizer “eu não me acredito”, como toda a gente diz por aqui e que, apesar de eu, tentando ter graça, tentar emendar e dizer-lhes que quem não “se” acredita não pode ser nomeado, eles continuam a dizer. Como dizem “nós faz…”! Percebeste Passos? Será que ele “se” acreditou mesmo?

Depois daquele teu “golpe”, aquele bem urdido “golpe” que tu levaste adiante, elaborado ao pormenor, que deves ter aprendido com o Maquiavel, quando leste o “Príncipe” ou a “Arte da Guerra”, mais aqueles teus movimentos de filigrana pura, de tão delicados, de punhos de renda florentinos até, com que chegaste ao teu desiderato e cavalgando não sei que ginete, conseguiste afastar o Domingues…o que mais faltava era aparecer agora este “traidor”…

Mas tu afastaste-o, é um facto, mas para este, ainda resta uma coisa muito séria: o salário! Que podes tu fazer Passos, se não te dás com a Manuela? É que assim nem lhe podes perguntar como é que ela fez para conseguir que a Sociedade aceitasse que ele, naquela altura, como chefe do Fisco, ganhasse para aí seis vezes mais que ela que era Ministra? Na altura falava-se em 24.000 aéreos por mês! Onde estavas tu e os teus que tranquilamente o aceitaram? Um busílis, não é?

E perante isso, e sabendo disso, tu convidaste-o para teu Ministro da Saúde. Ele estava na Administração do BCP, também te lembras, claro! Que artes terás tu usado para o contratar? Quanto foi ganhar para o teu governo? O mesmo que tu, Passos? Nunca ninguém soube…a não ser que o tenhas convencido da sua importância na “salvação” de Portugal que tu levaste a cabo e ele tivesse aceite o imponente sacrifício de, em nome da Pátria, ter perdido, durante quatro anos, bateladas de dinheiro. Quanto é que ele ganhava, Passos? Confessa, Passos…

Resultado: o “monhé” deu-te mais um nó cego. Mais uma vez, é abuso! Ele, afinal, esse “tinhoso” e “usurpador” insiste ser o “diabo” que tu tanto procuraste sem nunca encontrares.

E agora, Passos? Que dia o de hoje! Um dia “horribilis” , não foi? É que te aconteceu de tudo, três em um, ou “three in one “, como se diz em estrangeiro:

– O Feriado do 1º de Dezembro, que tu em nome da produtividade tinhas eliminado, foi reposto.

– O Presidente da República, outro “Brutus”, mandou-te uma lança daquelas…o que te valeu foi que não apareceste! A outra, a tal que comprou a quota ao teu antigo sócio, apareceu e sorriu…

– O Santana, mais um, mandou-te um recado: esquece Pedro, eu era o único que derrotava o Medina, mas não vou…. Assim como quem pergunta: Contigo?

– E agora o Macedo! Um tipo que não podes acusar de nada, acima de qualquer suspeita, um dos teus, poderá lá ser?

Afinal foram “four in one”…Estará o cerco fechado?


Texto original aqui