Breve reflexão sobre o que se está a passar na Síria

(Bruno de Carvalho, In Facebook, 07-12-2024)

Bruno Amaral de Carvalho

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Uma breve reflexão sobre o que se está a passar na Síria empurra-nos imediatamente para entender a quem beneficia esta ofensiva de forças anteriormente ligadas à al-Qaeda. Em primeiro lugar, à Turquia que vê aqui uma oportunidade para pôr em cheque a existência do Estado sírio e cumprir o velho sonho de fazer crescer as fronteiras turcas.

Vale a pena recordar que sobre o genocídio em curso na Faixa de Gaza a dita oposição democrática síria disse pouco ou nada. E vai-se percebendo porquê. Como se sabe bem porque é que combatentes que se dizem radicais islâmicos e que dizem combater os infiéis preferem combater apenas contra países desalinhados com os Estados Unidos e a União Europeia. Quantos ataques contra Israel fez o Estado Islâmico, a al-Qaeda ou a sua versão síria recauchutada?

Simultaneamente, ganha a Ucrânia porque esta ofensiva na Síria é mais problemática para a Rússia do que a invasão de Kiev à região de Kursk. E, finalmente, sobre todos, ganham os Estados Unidos e aliados que durante décadas têm apostado na balcanização do Médio Oriente. Cabe até perguntar se o momento escolhido não terá a ver com um eventual cessar-fogo na Ucrânia dentro de poucos meses (e com isso a Rússia ter capacidade para responder de outra forma).

Depois da Segunda Guerra Mundial, com as independências e o pan-arabismo, e as alianças com a União Soviética, estes países construíram Estados em que souberam conciliar religiões e culturas distintas. O Ocidente fez de tudo para destruir esse delicado equilíbrio, lançando a região no caos. Hoje, parece que a uma eventual queda do actual regime sírio só sobra a possibilidade de um Estado entregue aos fanáticos religiosos, representantes dos interesses, ainda que por vezes contraditórios, da Turquia, de Israel e dos Estados Unidos.

Sabemos como acabou o Afeganistão, sabemos como acabou a Líbia. Se alguém acha que os chamados rebeldes sírios lutam pela democracia é porque não percebe nada do que se está ali a passar.

Fonte aqui.


O cerco!

(João-MC Gomes, In VK, 01-12-2024)


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A menos de dois meses da tomada de posse de Trump a situação geopolítica atual, marcada por uma série de desafios à estabilidade da Federação Russa, parece configurar um cerco político-militar orquestrado a partir de várias frentes. Essa pressão multidimensional abrange a Ucrânia, a Geórgia, a Síria e, possivelmente, novos desenvolvimentos no uso de mísseis de longo alcance pela Ucrânia. Uma análise estratégica precisa e concreta dos principais fatores que configuram esse cerco indica:

1. Ucrânia: O Conflito Prolongado e a Ameaça de Mísseis de Longo Alcance

A Rússia, embora concretizando pequenas vitórias e avanços, continua a enfrentar desafios na sua intervenção militar na Ucrânia. Embora o controle do conflito seja uma prioridade para o Kremlin, a resistência ucraniana e o apoio ocidental, incluindo a possibilidade de mísseis de longo alcance, complicam a situação. A autorização para a Ucrânia usar mísseis de longo alcance significa uma escalada significativa, permitindo ataques mais profundos no território russo, com possíveis impactos em centros logísticos e em zonas críticas para a operação militar russa. A resposta russa será obrigatoriamente mais aguda e coordenada, levando a uma necessidade de consolidação de forças na frente ucraniana. Essa decisão criaria um dilema estratégico para a Rússia, já que a escalada em território ucraniano poderia resultar numa maior perda de apoio internacional, dificultando a situação militar e diplomática.

2. Geórgia: Instabilidade Institucional e Retirada da Proposta de Adesão à UE

Na Geórgia, as tensões internas e conflitos institucionais estão em ascensão, particularmente com a recente decisão do governo de retirar a proposta de adesão à UE. Esta mudança é interpretada como uma retirada estratégica da Geórgia do campo de influência ocidental, para evitar uma maior escalada nas tensões com Moscovo. Ao mesmo tempo, isso pode ser uma tentativa de apaziguar a Rússia e mostrar que o território georgiano não se torna uma frente aberta contra ela. A instabilidade interna da Geórgia enfraquece a posição do Ocidente na região, abrindo uma oportunidade para a Rússia reestabelecer alguma influência. Essa situação de fragilidade governamental pode ser usada como um ponto de pressão adicional, desviando a atenção e os recursos russos de outras frentes.

3. Síria: Tentativas de Forças Opositoras para Assumir Aleppo

Na Síria, a situação continua a ser uma frente de resistência para a Rússia, que apoia o regime de Bashar al-Assad. As forças contrárias a Assad estão a tentar assumir o controle de Aleppo, um movimento que visa desorganizar as forças russas presentes no terreno e forçar uma dispersão dos recursos militares russos. Este movimento cria uma nova ameaça para a Rússia, exigindo uma distribuição de forças e uma priorização estratégica que pode impactar a sua capacidade de concentração no conflito ucraniano. A perda de Aleppo ou mesmo uma situação de instabilidade prolongada em regiões chave da Síria pode enfraquecer a posição russa no Oriente Médio, além de atrasar ou desviar recursos militares para defender a sua presença síria, diminuindo sua capacidade de projetar poder em outras regiões.

4. Cerco Político-Militar: Uma Estratégia de Pressão Multidimensional

O que está emergindo é uma estratégia de cerco político-militar, coordenada por forças ocidentais reconhecidamente controladas pelos EUA, sendo a Rússia pressionada simultaneamente em várias frentes: na Ucrânia, com o aumento das capacidades militares ucranianas e o risco de uma escalada de ataques, na Geórgia, com uma crescente instabilidade política que enfraquece a posição pró-Ocidente, e na Síria, com tentativas de forças opositoras de desorganizar o regime de Assad e as forças russas. Este cerco, completamente coordenado entre os diferentes atores, cria uma situação de múltiplas frentes que obrigará a Rússia a manter uma atenção constante e recursos dispersos, enfraquecendo a sua posição de domínio único no espaço pós-soviético e no Oriente Médio.

5. A Resposta Russa: Necessidade de Recalcular a Estratégia

A Rússia, portanto, encontra-se diante de um dilema estratégico. A necessidade de controlar a frente ucraniana e responder à ameaça de mísseis de longo alcance pode forçar a Rússia a redirecionar mais recursos militares para garantir a estabilidade interna, mas isso implicaria numa resposta mais agressiva e mais difícil de justificar internacionalmente, especialmente se escalado para um confronto de maior magnitude. A dispersão das forças militares devido à instabilidade na Geórgia e na Síria pode criar uma vulnerabilidade crescente para a Rússia em várias frentes, forçando uma alteração em suas prioridades de segurança nacional.

O cerco político-militar ocidental à Rússia, gerado pelas ações simultâneas na Ucrânia, Geórgia e Síria, representa uma pressão estratégica sem precedentes, que coloca Moscovo numa posição vulnerável. A necessidade de responder a múltiplas ameaças enquanto mantém o controle da situação na Ucrânia exige uma gestão cuidadosa dos recursos e forças militares. A Rússia terá que recalcular as suas prioridades, levando em consideração as implicações internas e externas de suas ações.

A traição de Ergodan

(Por Scott Ritter, in VK, 29/11/2024, Trad. Estátua de Sal)


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A ofensiva contra Alepo iniciada pelos turcos islâmicos, aliados de Hayat Tahir Al-Sham (uma Al Qaeda rebatizada que fez aliança com o ISIS) e o Exército Nacional Sírio, aliado dos EUA, é a consequência de um plano estratégico entre os israelitas e os turcos, apoiados pelos EUA: tentam cortar a rota de abastecimento do Irão ao Hezbollah no Líbano e ameaçam desestabilizar/derrubar o governo de Assad, forçando a Rússia a desviar recursos da Ucrânia para salvar a sua posição na Síria.

A Ucrânia forneceu conselheiros aos militantes anti-Assad na guerra com drones. Aparentemente, Israel também estendeu o seu esquema explosivo de pager/rádio à Síria, perturbando o comando e controlo tático sírio num momento crítico dos combates.

A Síria foi em grande parte desmobilizada e o Hezbollah regressou maioritariamente ao Líbano. As milícias iraquianas apoiadas pelo Irão estão mal preparadas para conter este ataque.

É altamente provável que Alepo caia nas mãos das forças islâmicas pró-turcas. Muito provavelmente haverá um esforço concertado, liderado pela Rússia e pelo Irão, para salvar a situação na Síria. Mas isso levará tempo.

Esta ofensiva pode ameaçar o cessar-fogo no Líbano.

Os maiores prejudicados, em tudo isto, são a Turquia e o seu Presidente, Recep Erdogan.

Esta ofensiva não poderia ter sido levada a cabo sem uma estreita cooperação e coordenação com Israel e os EUA. As palavras críticas de Erdogan contra Israel, ficou claro,  não passavam de retórica vazia. Erdogan traiu mais uma vez a Rússia. E o seu apoio à Palestina revelou-se como fraudulento, em todos os sentidos.

A Rússia e o Irão estabilizarão a Síria. Isso levará meses.

A Síria e os seus aliados destruirão o bastião islâmico em Idlib. Isso levará anos.

A linha de abastecimento Irão-Hezbollah será restaurada/mantida.

Israel será derrotado.

E os EUA retirar-se-ão da Síria, provavelmente em meados de 2025.

E a Turquia continuará a trair toda a gente com quem faz negócios, porque Erdogan representa e pensa apenas na Turquia.