E se Putin se demitisse?

(António Gil, in Substack.com, 02/10/2025)


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Um exercício especulativo.

Começo por deixar claro que o título desta publicação não expressa nem um desejo, nem um temor, apenas encara uma possibilidade, entre muitas, do que pode suceder na Federação Russa e das reacções que isso pode suscitar no mundo.

Acrescento ainda que, nesse caso, haveria muitas formas de tal demissão ser apresentada por ele e pelos seus sucessores, não necessariamente a que tantos anseiam gulosamente no mundo do capitalismo global. Por exemplo, ele até poderia (teoricamente) continuar a ser a personagem chave nas tomadas de decisão dos altos escalões russos sem no entanto dar a cara. Isso já aconteceu antes, lembram-se?

Sim, houve um momento em que Medvedev foi o Presidente da Rússia porque Putin não poderia prolongar seu mandato. Nesses tempos porém quase toda a gente sabia que ele continuava a ser o verdadeiro poder no Kremlin, agora as coisas poderiam ser feitas de forma diferente.

A propósito, por longos anos Medvedev foi considerado um adepto do liberalismo do tipo ocidental, hoje como sabemos, ele faz o papel de polícia mau e não se coíbe de atacar os líderes ocidentais de uma forma que nem Putin nem Lavrov tentam sequer. Muitos acham que ele se radicalizou, poucos entendem que muitas vezes os políticos são teatrais e vestem a pele que lhes é conveniente num dado momento, com o beneplácito de seus protectores.

Mas voltemos ao assunto em causa, ideia que me ocorreu quando assisti ao debate entre o Juíz Napolitano e o analista Gilbert Doctorov, russo e sovietólogo residente na Bélgica. Este último admite que em certos círculos russos Putin é tido por ‘demasiado mole e complacente’ para com os seus colegas do Ocidente. Mas Doctorov também admite que Putin é ainda largamente popular na Rússia e que pouca coisa pode ser feita aí sem sua benção.

Isto só pode ser surpreendente para quem não entenda que os russos reconhecem que Putin tirou a Federação Russa do pântano onde se afundava segurando-a pelos cabelos. Então e se houver um entendimento entre os críticos de Putin (mais radicais do que ele relativamente ao Ocidente) e o ainda presidente russo? qual seria a reacção do ocidente, depois de um triunfalismo inicial, logo que entendessem que os novos dirigentes adoptariam uma linha mais dura (com a qual Putin até poderia ser concordante, em face de suas frustrações nos anos mais recentes?)

Afinal, tantas vezes os líderes que nos foram impostos pelos globo-imperialistas do ocidente nos tentaram convencer que o problema russo se resumia a Putin, certo? que sucederia se descobrissem que afinal Putin era muito moderado? tentariam um novo golpe para o levar de volta ao poder (ah ah ah!).

De novo: nem estou a dizer que desejo isso (teríamos ainda mais tensão no mundo) nem que temo isso ( (porque sei que os russos sempre entenderão que não podem ocupar a Europa e na verdade nem o desejam, eles nem vão tocar à campainha, há demasiados problemas aqui e eles estão muito ocupados com seus assuntos).

O que estou a dizer é que toda a tentativa de demonização de um líder racional como Putin iria pelo esgoto e eles teriam de recomeçar de novo, com novas diatribes e -quem sabe – até com a canonização do líder que tanto diabolizaram e tudo isto terian de ser feito enquanto os países da NATO enfrentam graves problemas económicos (gastos de guerra, desindustrialização, o fim da Era dos combustíveis baratos), que resultaram de decisões suas precisamente com o objectivo de… apear Putin do poder.

Fonte aqui

L’appât du gain

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 19/09/2025, Revisão da Estátua)


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Muitas vezes, há alguns dos meus “amigos facebookianos”, que têm o arrojo de comentar e conjeturar sobre os meus ‘posts’, denunciando uma óbvia falta de isenção e informação, motivados vá lá saber-se porquê… Além de ser exibida alguma degradação moral, denotam também algum desrespeito por mim, sabendo eles os princípios que norteiam a minha conduta e o nível de conhecimentos que atingi e que eles nunca conseguiram superar.

Apesar de nunca os questionar diretamente da forma insultuosa e ignorante, como por vezes me interpelam (obviamente que os que assim procedem recebem depois o merecido bloqueio), procuro, na medida das minhas possibilidades, tentar elevar o nível do debate e, por isso mesmo, dedico a esses “amigos” os dois parágrafos que se seguem.

A maioria da informação existente está a ser produzida seguindo a orientação vigente no Ocidente e sob uma poderosa propaganda, que tenta fazer acreditar que se trata de uma situação em que a intervenção ocidental é bem-intencionada e que terá resultados benéficos. As operações de informação (as mais das vezes sob orientação dos serviços da “pérfida Albion”) têm prosseguido sem descanso com aquele objetivo, mas as verdades convencionais e óbvias, sobre a guerra na Ucrânia, que sustentam aquela visão, são facilmente desmontadas quando submetidas a uma inspeção rigorosa, como se viu agora no caso dos ‘drones’ em que foram sendo desmascaradas as suas mentiras, quanto mais se alastravam em fabricar outras fantasias (a dos depósitos suplementares, que nunca foram mostrados pois não podem existir em drones de madeira leve e porosa, é de bradar aos céus).

A aceitação generalizada do desavergonhado apoio e da notória parcialidade demonstrada pelos autores dessas informações assenta, em parte, na habitual subserviência dos meios de comunicação e da comunidade intelectual para com as posições políticas oficiais, mas é também o resultado de uma acentuada estigmatização dos russos como sendo os “novos nazis” ou “os últimos dos soviéticos”, epítetos que na realidade se aplicam com muito maior propriedade à maioria dos dirigentes europeus e seus acólitos.

Assim, uma acrítica veiculação de propaganda anti russa – incluindo rumores não confirmados e desinformação pura e simples – não passou a ser somente aceitável, mas acabou mesmo por render prebendas e sinecuras aos seus autores e, infelizmente, alguns dos meus camaradas de profissão e estatuto não resistiram àquilo que os franceses chamam de “l’appât du gain”.

«L’appât du gain» désigne la cupidité ou l’attrait intense pour l’argent et le profit, qui pousse une personne à agir par pur intérêt matériel, souvent au détriment de considérations morales.

Traduzindo do francês:

«L’appât du gain» refere-se à cobiça ou à atração intensa pelo dinheiro e pelo lucro, que leva uma pessoa a agir por puro interesse material, muitas vezes em detrimento de considerações morais.

O alargamento da NATO: o que foi dito a Gorbachev – Parte II

(Tradução de Fernando Oliveira, in A Tertúlia Orwelliana, 20/09/2025) 

Washington DC. O ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética, Eduard Shevardnadze (sentado à esquerda), e o Secretário de Estado dos EUA, James Baker III (sentado à direita) trocam canetas depois de terem assinado vários Tratados numa cerimónia que teve lugar na Casa Branca em 6-01-1990. O presidente da União Soviética,  Mikhail Gorbachev (em pé, à esquerda) e o presidente dos EUA, George Bush (em pé, à direita), observam o ritual. Foto da UPI.

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Um dos mitos relacionados com as discussões de Janeiro e Fevereiro de 1990 sobre a reunificação alemã é o de que estas conversações ocorreram muito cedo no processo, com o Pacto de Varsóvia ainda presente, que ninguém estava a pensar na possibilidade de os países da Europa Central e Oriental, ainda na altura membros do Pacto de Varsóvia, poderem no futuro tornar-se membros da OTAN [/NATO].

Pelo contrário, a fórmula de Tutzing do Ministro dos Negócios Estrangeiros da RFA, no discurso proferido a de 31 de Janeiro de 1990 e amplamente divulgado pelos meios de comunicação social na Europa, em Washington e em Moscovo, abordou explicitamente a possibilidade de alargamento da OTAN, bem como da adesão da Europa Central e Oriental à OTAN — e negou essa possibilidade, como parte do seu ramo de oliveira dirigido a Moscovo.

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