Rússia e Índia – dois parceiros fortes

(João Gomes, in Facebook, 05/12/2025)

Governo indiano assegura a Putin: a índia “não é neutra” na guerra

Foi um daqueles encontros que fazem tremer o tabuleiro geopolítico – embora, oficialmente, ninguém no Ocidente admita ter sequer levantado uma sobrancelha. Mas é impossível não sorrir (ou suspirar) diante da cena: Putin e Modi, sentados confortavelmente, traçando planos até 2030 com a naturalidade de quem combina um café para a semana seguinte. A meta? Levar o comércio bilateral aos 100 mil milhões de dólares, reforçar energia, defesa, indústria e um punhado de outros setores onde ambos parecem ter muito a ganhar e nada a perder. É uma espécie de casamento por conveniência, mas daqueles que funcionam surpreendentemente bem.

A Rússia, sancionada até ao tutano pela Europa que se queria moralmente redentora, encontra na Índia um parceiro que diz “bom dia” sem pedir desculpas por não alinhar com a política de contenção. E a Índia, sempre fiel à sua autonomia estratégica – a expressão educada para “faço como quero” -, recebe petróleo mais barato, tecnologias militares e uma boa dose de influência internacional. Nada mau para quem insiste em não escolher lado na Guerra Fria versão 2.0.

Claro que, no meio deste abraço pragmático, há quem revire os olhos. Em Bruxelas, por exemplo, onde alguns tecnocratas ainda acreditam que o mundo funciona à base de resoluções, planos verdes e frases inspiradoras sobre unidade europeia. Ver a Índia – supostamente parceira preferencial – a negociar alegremente com Moscovo enquanto a UE tenta isolar a Rússia provoca um ligeiro azedume. Afinal, quem diria que sanções europeias não seriam suficientes para convencer 1,4 mil milhões de indianos a alterar a sua política energética?

Do lado dos Estados Unidos, a inquietação é mais discreta, mas não menos evidente. Washington, que apostou na Índia como pilar essencial para equilibrar a China, tem agora de engolir o facto de que Nova Deli não só ignora pressões como ainda dá asas económicas a Moscovo. Um aliado que fala de democracia ao jantar, mas prefere negociar petróleo barato ao pequeno-almoço, é sempre um desafio. Mas os EUA, pacientes como um professor indulgente, repetem mentalmente: “é só a autonomia estratégica a fazer das suas.”

No fundo, a aproximação Rússia–Índia tem um efeito quase cómico: recorda ao Ocidente que o resto do mundo não gira à volta de Washington ou de Bruxelas. E que enquanto uns discutem metas de emissões e revezes eleitorais, outros fazem negócios. Bons negócios. Pragmatismo puro, sem “moralidades”, sem discursos inflamados, sem ilusões.

Assim, enquanto a Índia reforça a sua independência e a Rússia encontra escape para o cerco europeu, o Ocidente faz aquilo que melhor sabe: publicar comunicados de “profunda preocupação”. De preferência em inglês burocrático, aquela língua oficial da diplomacia alarmada.

E a verdade é que, entre acordos energéticos, cooperação militar e promessas mútuas até 2030, Rússia e Índia saem do encontro com um sorriso discreto de quem sabe exatamente o que está a fazer. Já o Mundo ocidental, que assiste à distância, parece cada vez mais o convidado que não recebeu convite para a festa – e que, mesmo assim, insiste em comentar a música e a lista de bebidas.

No fim do dia, tudo se resume a isto: há países que se queixam das mudanças no mundo – e há países que as moldam. Rússia e Índia, cada uma ao seu modo, decidiram ficar no segundo grupo. E isso, por si só, é suficiente para deixar meio planeta a fazer contas à vida.

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Europa à Beira do Abismo?

(João Gomes, in Facebook, 30/05/2025, Revisão da Estátua)

Imagem do ataque russo ao Aeroporto de Lviv onde estacionavam aviões fornecidos pela Europa à Ucrânia.

Cresce o Risco de Escalada Militar Direta com a Rússia

Nos bastidores das capitais europeias, cresce a inquietação com a possibilidade de um colapso militar total da Ucrânia, enquanto líderes de peso como o chanceler alemão Merz, o presidente francês Macron e o primeiro-ministro britânico Starmer debatem medidas cada vez mais ousadas – e arriscadas. Em causa está a recente reabertura da possibilidade de permitir à Ucrânia usar mísseis ocidentais para atingir alvos em profundidade no território russo, incluindo até Moscovo.

A proposta, inicialmente avançada por Merz e depois parcialmente desmentida, sinaliza uma mudança de paradigma: o fim da autocontenção estratégica que vigorava desde o início do conflito em 2022. Essa prudência anterior estava ancorada num receio compreensível de escalada nuclear ou de um confronto direto entre a NATO e a Rússia – cenário que agora parece cada vez menos impensável.

Um campo de batalha em desintegração

O panorama no terreno é sombrio. A Ucrânia enfrenta uma crise militar sem precedentes: perdas humanas insustentáveis, exaustão de recursos, escassez crítica de munições e uma incapacidade industrial que contrasta com a máquina de guerra russa – amplamente superior em artilharia, drones, mísseis e poder aéreo.

O avanço russo em regiões como Kharkiv, Dnipro e Donetsk ameaça provocar o colapso em cascata das linhas ucranianas, forçando Kiev a reposicionar tropas ou a recuar para o rio Dnieper. Especialistas apontam que, se nada mudar, o exército ucraniano pode atingir o “ponto de dissolução” até o outono de 2026 – ou antes.

Além disso, fontes indicam que os sistemas de defesa aérea ucranianos estão à beira da exaustão. A redução na taxa de interceção de drones de 90% para menos de 30% em algumas áreas expõe cidades e infraestruturas a bombardeamentos contínuos. A produção russa, tanto de mísseis quanto de drones, ultrapassa largamente a capacidade do Ocidente, hoje debilitado por décadas de desindustrialização.

O dilema europeu: intervir ou recuar?

Posição da Ucrânia no território europeu.

Perante este cenário, surge a questão: estará a Europa disposta a aceitar uma vitória russa e a imposição de um governo pró-Moscovo em Kiev? Ou arriscará um envolvimento direto, com tropas no terreno e mobilização militar geral, num confronto de grandes proporções que, ironicamente, os EUA de Trump parecem cada vez menos dispostos a apoiar?

A resposta é complexa. Os EUA, sob Trump, retiraram o apoio total a Kiev e pressionam por negociações de paz – mesmo que em termos desfavoráveis à Ucrânia. Para os países europeus que mais apostaram na estratégia de contenção e apoio indireto – como Alemanha, França e Reino Unido -, o dilema é existencial: ou aceitam a derrota estratégica da Ucrânia, ou escalam o conflito com consequências imprevisíveis.

A tentação de atingir a Rússia à distância – usando tecnologia europeia, mas mantendo soldados “fora do campo de batalha” – parece uma aposta cada vez mais arriscada. A Rússia já alertou que ataques em profundidade ao seu território com armamento europeu seriam tratados como atos de guerra, com retaliações diretas não apenas contra a Ucrânia, mas contra os próprios países fornecedores.

A hipótese do “governo pró Rússia”

Caso a Ucrânia sofra um colapso político-militar, torna-se plausível o cenário de Moscovo impor um governo pró-russo em Kiev. Do ponto de vista realista e estratégico, muitos analistas consideram que os europeus – esgotados económica, política e socialmente – poderão acabar por aceitar esse desfecho, ao estilo do “fait accompli” da Crimeia em 2014. Para os EUA, que observam à distância, tal desfecho poderia até representar mais uma “vitória de pirro”: Europa enfraquecida, Rússia sangrada, e o foco global deslocado para o Indo-Pacífico, onde está o verdadeiro interesse estratégico americano.

Este é um momento de decisão:

Com as cartas lançadas, a Europa enfrenta talvez o seu maior dilema desde a Segunda Guerra Mundial. Qualquer passo em falso pode significar o início de um conflito continental em larga escala, com mobilização generalizada e consequências imprevisíveis.

A alternativa – aceitar a derrota da Ucrânia e a expansão da influência russa – pode ser vista como humilhação geoestratégica, mas evitará o sacrifício humano de milhões.

Num tempo de retórica inflamada e decisões precipitadas, é a prudência, e não a bravura, que pode salvar a Europa de um novo abismo.

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A guerra na Ucrânia – Portugal, a UE e a NATO em choque e em xeque

(Carlos Esperança, in Facebook, 14/02/2025)


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A desorientação da UE perante o desprezo de Trump é inquietante para os europeístas. A humilhação é consequência da vassalagem aos EUA e, sobretudo, do alinhamento com a estratégia do seu Partido Democrata.

É honrosa a defesa do direito internacional na integridade da Ucrânia pela UE, mas não se percebe o desprezo pelas comunidades russas acossadas na Ucrânia, o que originou a guerra civil desde 2014, nem o contágio da russofobia dos países bálticos ou a sujeição à agenda e aos humores de Zelensky que parecia ser o líder.

Os EUA quiseram a guerra e Boris Johnson, PM do RU, que alinhou sempre a política externa pela dos EUA, foi o principal instigador e, depois, obstáculo a acordos de paz.

Mais do que a guerra entre EUA e Rússia, foi uma guerra do primeiro contra a China, a única potência com capacidade demográfica e financeira para ser rival. Era falso que a Rússia viesse até à Caparica se não fosse travada na Ucrânia, já exausta sem conquistar sequer as regiões maioritariamente russófonas e russófilas. Era, aliás, delirante a ideia de que Putin se atreveria a atacar um país da Nato.

Os EUA conseguiram enfraquecer a Europa e sangrar a Rússia, um duplo objetivo que a destruição do gasoduto Nord Stream 2 denunciou. A russofobia alimentou a guerra e a escolha de Kaja Kallas para as relações internacionais da UE foi mais uma provocação.

Enquanto se demonizava quem defendesse a paz para a guerra que destruiu a Ucrânia, apodado de putinista, cresceu a extrema-direita na UE e hipotecou-se a sua economia. Por mais execrável que seja Putin, não é eterno e, quanto a ditadores, há muitos no Eixo do Bem, pitoresca expressão para os servis do eixo euroamericano, agora agónico.

Com Zelensky a dizer que a paz não se pode alcançar sem a Ucrânia e a UE, agora que já ninguém corre a Kiev para a fotografia, não se percebe de que meios dispõe, apesar de Mark Rutte insistir no apoio da Nato, depois do patrão americano o abandonar, e de Emmanuel Macron e Olaf Scholz se encontrarem em pré-defunção política.

Para suprema ironia, com a UE irrelevante, a decisão vai ser tomada por um condenado no Tribunal Penal Internacional e outro nos tribunais dos EUA, na Arábia Saudita, uma teocracia que exonerou os direitos humanos do seu território.

Hoje, em Munique, JD Vance veio dizer aos europeus que democracia é o respeito pelos partidos de extrema-direita e que não podem anular eleições (Roménia) quando o povo vota ou proibir as redes sociais de influenciar o voto. E, suprema ironia, exigir liberdade de expressão.

Em Munique os sinos dobram por Kiev enquanto Ursula von der Leyen e Kaja Kallas continuam em negação da realidade, com a última – a julgar que é a ministra da Defesa da Letónia, onde foi PM -, a pelejar contra a Rússia.