Somos todos Ronaldo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 06/04/2018)

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O golo de pontapé de bicicleta de Cristiano Ronaldo no triunfo (3-0) do Real Madrid sobre a Juventus, nos quartos de final da Liga dos Campeões, tornou-se em poucos minutos, até graficamente, um ícone do futebol mundial. É um momento histórico. Afinal, Portugal tem meios aéreos que ninguém supunha. O golo foi de tal modo extraordinário que já há quem chame a Cristiano Ronaldo o Centeno da UEFA.

Confesso que ainda esperei pelo final do jogo e pelas análises “antidoping” porque estamos habituados a que sempre que alguém consegue um grande feito de bicicleta é porque estava dopado.

Como não tenho memória curta, não considero que este tenha sido o maior momento na carreira de Ronaldo, não nos podemos esquecer do que ele fez durante o último Europeu de Futebol. Aquela atitude, do nosso capitão, de atirar o microfone da CMTV para o lago foi uma obra-prima. Na altura, pensei: mesmo que CR não ganhe este ano a Bola de Ouro (ganhou), o Pulitzer do jornalismo já não lhe escapa.

Para mim, Cristiano é a verdadeira biblioteca de livros de auto-ajuda. Vale por mil palestras de empreendedorismo e motivação. Há quem viva da teoria do “bate punho” e há os que a praticam.

É muito estranha a relação de alguns portugueses com o Cristiano. Convivem mal com o sucesso do rapaz. Muitas vezes, pergunto-me: será que gostam mais do Messi porque julgam que ele é do Entroncamento? Há uma má vontade para com Ronaldo de alguns portugueses. Lembro-me de que quando CR andava com a Irina, nos programas de bola chegaram ao ponto de dizer que a miúda não era nada de especial. Só faltou dizer que era um bocado gorda e tinha mau hálito.

Uma das frases que mais vezes oiço é: “Eu não gosto do Ronaldo porque ele é um bocado bimbo” – e normalmente isto é dito por um indivíduo com calças de corsário, camisola de alças, óculos escuros no topo da cabeça e com “headphones” dourados nos ouvidos a ouvir D.A.M.A.

Tenho enorme orgulho no Cristiano, gostava de lhe dar um abraço, mas imagina que o despenteava?! Estava tramado, nunca mais teria dinheiro que chegasse para lhe pagar um penteado novo.

Já me questionei, independentemente do facto de ser português e, mais importante, sportinguista, qual é o melhor jogador do mundo. Cristiano ou Messi? A minha resposta é simples. A ter de viver num mundo em que só um deles exista, claramente optava por ter estado vivo para ver jogar Ronaldo. Por tudo o que significa e que vai muito além do futebol e da possibilidade de ver fotos das namoradas. Por mim, está resolvido o problema do dinheiro para as artes, vai tudo para o Cristiano.


TOP-5

Bicicleta

1. Fórmula americana de probabilidades diz que o Benfica tem o penta à vista – aposto que o Putin está metido nisto.
2. Garraiada sai definitivamente do programa da Queima das Fitas de Coimbra – é substituída por uma largada de Dux Veteranorum.
3. Secretário de Estado da Cultura diz: “Este é um momento sofrido para o sector artístico.” E que António Costa sabia de tudo – António Costa é Harvey Weinstein dos artistas portugueses: confiaram nele, até foram apoiá-lo ao hotel e acabaram por ser… papados.
4. O Ministério Públicoinformou que arquivou, na passada terça-feira, o inquérito contra Dias Loureiro e José de Oliveira e Costa relacionado com o caso BPN – não dá para prendê-los no Arquivo do Ministério Público? Às vezes, tenho a sensação de que há mais bandidos arquivados do que presos.
5. Cientistas britânicos não conseguem provar que veneno é russo – aposto que são os mesmos do caso Maddie. Lá vamos ter de expulsar cientistas britânicos.

Os Deuses não pagam impostos

(In Blog O Jumento, 14/06/2017)
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Parece que o fisco espanhol puxou a ponta da meada da futebol leaks e apanhou, ou julga ter dados suficientes para considerar, que apanhou o Cristiano Ronaldo com o pé na argola. Não é nada de novo, já outros futebolistas foram apanhados na malha do combate à evasão fiscal, a começar pelo próprio Messi que foi condenado a uma pena de prisão.
Por cá foi um ai Jesus, se fosse um qualquer político ou banqueiro, depois da justiça ter dito mata, já a populaça gritava esfola, mas tratando-se do nosso Ronaldo só se levantaram vozes em sua defesa, até porque o seu estágio não pode ser perturbado. Que Ronaldo fez tudo o que estava ao seu alcance para ser exemplar, que há dúvidas nas regras, que era para equilibrar a balança das perseguições fiscais entre o Real e o Barça, enfim, Ronaldo está inocente.
Pouco tempo depois de a notícia sair já estava Lobo Xavier a dar uma entrevista em defesa de Ronaldo, não se percebendo bem se trabalhava pró bono, se estava no seu horário de voluntariado ou se veio em defesa de uma causa nacional. O conhecido defensor de boas causa não só defendeu Ronaldo, como ainda achou que devia gozar com o fisco espanhol. Que Ronaldo queria saber como cumprir e ninguém saberia e que não faria sentido pagar em Espanha um imposto relativo a um anúncio no Japão.
Pois, Lobo Xavier deve achar que os rendimentos dos anúncios do Ronaldo devem ser pagos em cento e tal países, todos aqueles onde os spot publicitários forem exibidos. Se ganhar uma final no México os rendimentos dos prémios relativos a essa final devem ser tributados no México. E não vale a pena perguntar como fazer ao fisco espanhol porque os nuestro hermanos da Agencia Tributaria são imbecis, o melhor é perguntar ao Xavier.
O que ninguém explicou foi para que serviam as transferências de dinheiro entre off shores para depois ser depositado em contas secretas na Suíça. Não, no caso de Ronaldo as contas secretas na Suíça e as off shores são coisa de gente séria e cumpridora.

Ronaldo, um fabuloso exemplo

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 05/06/2017)

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De menino pobre nascido na ilha da Madeira a melhor futebolista do mundo, a história de Cristiano Ronaldo prova que se pode fintar o destino e que podemos ser muito mais do aquilo que julgamos possível.

Pegar nos êxitos de um rapaz que ganha a vida a dar chutos numa bola para fazer comparações com a sociedade portuguesa é seguramente, para muitos, um sacrilégio. E no entanto, Cristiano Ronaldo tinha tudo para reproduzir ao longo da vida o ciclo da pobreza da família em que nasceu e que é a história de mais de dois milhões de portugueses, com pouca ou nenhuma educação escolar, sem especialização, condenados a trabalhar como mão-de-obra desqualificada e mal paga ao longo de todo o seu período ativo, sem qualquer hipótese de sair desse quadro de deserdados do progresso e sem qualquer esperança num futuro melhor.

Cristiano Ronaldo chegou onde chegou porque está sempre altamente focado no seu ofício, porque é um trabalhador incansável, porque tenta melhorar e aperfeiçoar-se todos os dias, porque não só não desiste perante as adversidades como se fortalece com os obstáculos que se lhe atravessam no caminho, porque quer obsessivamente ser o melhor e provar a todo o mundo, de forma incontestável, que é o melhor.

Mutatis mutandis, se os portugueses tivessem um empenho diário no seu trabalho tão próximo daquele que Cristiano Ronaldo tem; se se preocupassem em melhorar continuamente as suas qualificações profissionais e o seu desempenho laboral; se nunca, mas nunca admitissem a ideia que são menos ou piores que os profissionais de outros países; e se apostassem em mostrar que conseguem fazer mais, melhor e diferente do que outros, seguramente que teríamos uma sociedade com muito maior autoestima e uma economia com muito maior produtividade.

É que se há coisa que Cristiano Ronaldo não tem é falta de autoestima; e se há coisa que também não tem é um sentimento de inferioridade perante os seus pares – e note-se que ele compete com os melhores dos melhores de todo o mundo. Ainda agora, na final da Champions, tinha na baliza da Juventus um guarda-redes que é um mito, uma lenda e que poucos conseguem bater, porque só o seu nome chega para assustar quem o tenta bater. Pois Cristiano Ronaldo não se impressionou nem um pouco e marcou-lhe dois golos, qualquer deles de difícil execução. A sua velocidade e rapidez de decisão foram claramente superiores às de Buffon.

Ao longo da sua carreira, Cristiano Ronaldo tem sido alvo de injustiças, de críticas sem sentido, de provocações, de armadilhas. A cada adversidade respondeu sempre com mais empenho no trabalho, maior procura do perfeccionismo, maior sede de conquistas. Reagiu, lutou e provou que, goste-se ou não dele, é um vencedor, um campeão, um português como todos nós mas com qualidades excecionais que não tinha à partida mas que aperfeiçoou, de forma persistente, ao longo da sua vida. Cristiano Ronaldo passou sempre a imagem que não queria ser mais um entre tantos. Queria ser “o” melhor, o primus inter pares, o topo do mundo na sua especialidade. Conseguiu-o indiscutivelmente.

Uma última nota com que alguns não concordarão, mas as dúvidas estão completamente dissipadas: Cristiano Ronaldo é o melhor futebolista português de todos os tempos. E não é uma questão clubística. É estatística pura e dura. Números, números e mais números. Recordes, recordes e mais recordes.

Pulveriza-os com regularidade e faz disso o objetivo de que se alimenta. Cristiano Ronaldo é o melhor de sempre no futebol indígena. E a nível internacional só Messi tem condições para se bater com ele. Perante tudo isto, como é que ainda se pode duvidar do seu fabuloso talento e das suas extraordinárias capacidades?


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