Um certo Abril*

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 27/04/2016)

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Baptista Bastos

 

O que foi não voltará a ser. Mas temos de estar sempre preparados para a felicidade, acaso para a descobrir ou inventar. As imagens ditosas desses dias antigos estão delidas. Fomos envelhecendo quase sem dar por isso e aquele ali já não sou eu, nem ela é ela: somos outros com a absurda ilusão de que somos os mesmos.

Passámos pelo tempo. O tempo não magoa: pune; não damos por ele, mas ele dá por nós. Numa igreja dos Altos Pirenéus está inscrita esta sentença, em forma de velado aviso: “Todas as horas nos ferem; a última mata-nos.”

Vivemos rodeados de perigos; porém, o prestígio da palavra revolução exultava-nos e convidava-nos a ir em frente. As revoluções são produto de jovens: são os beijos que nos eram proibidos, os beijos frescos e felizes que prendiam o tempo, e parecia que os não queríamos largar. Vivemos de memórias inesquecíveis e estas constroem a saudade, é o que é. E as memórias são inesquecíveis porque as seleccionamos, e somos sempre novos antes que a realidade nos surpreenda com a desconfiança e o sofrimento.

Claro que os velhos, com a consciência de o ser, propendem para a melancolia, pois talvez entendam que já não são precisos. Os velhos. Preenchem o que lhes sobra com a ideia de que alguma vez foram felizes. Isso basta aos velhos. Não sabem quanto das suas lembranças enfada os novos; não sabem ou não querem saber, o que vem a dar no mesmo.

Todavia, viveram, arrebatados, os vertiginosos dias de Abril, porque eram muito novos, e a esperança era o sonho cuja substância se tornara palpável. Não queriam “mandar aqui”: os desejos eram mais modestos: apenas desejavam que a felicidade se prolongasse. Ainda não tinham sido castigados com a evidência de que até o amor morre. As revoluções, não: transformam-se, mas a raiz inicial é sempre a mesma, singela e única: o homem precisa de liberdade e de ser feliz.

*Ao Francisco e ao Manuel, os tempos novos

O 25 DE ABRIL E A VITÓRIA DOS ABUTRES

(Carlos Matos Gomes, in Blog A Viagem dos Argonautas)

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As chamadas “revoluções” são, na maior parte dos casos, a substituição de um grupo que tinha constituído uma linhagem por um outro, normalmente de bastardos, de segundos filhos, de arrivistas. Em Portugal foi assim com a crise de 1385, com a restauração de 1640, com a revolução liberal, com a República, com o Estado Novo. Com o 25 de Abril de 1974 não foi diferente

Os “capitães de Abril” correspondem aos conjurados de 1640. Foram instrumentos. Os conjurados esgotaram-se no momento em que entregaram o poder ao Duque de Bragança, acobardado em Vila Viçosa. Os capitães, depois de se terem eliminado uns aos outros (como aconteceu aos do 28 de Maio de 1926) entregaram o poder aos políticos que constituíram o Bloco Central, tal como os militares vindos de Braga o tinham entregado a Salazar, a Cerejeira e a uns lentes de Coimbra, herdeiros do miguelismo que se crismou de integralismo, ao serviço da chamada Confederação dos Interesses Económicos e dos latifundiários.

Falar do 25 de Abril é falar do pós 25 de Abril e de como os “filhos segundos e colaterais”, dos chacais que tomaram de novo conta do poder em Portugal. Diga-se, em abono da verdade, que a substituição de casas reinantes em Inglaterra não é diferente deste modelo e que a revolução francesa seguiu o mesmo figurino, como as revoluções russas, a de 1917 e a de Putin de há poucos anos. No final da agitação revolucionária, dos PREC’s de cada um, os poderes reconstituem-se como as baratas que regressam após uma desinfestação.

Refletir sobre o 25 de Abril é identificar os que, como os abutres, estavam a aguardar uma oportunidade. No seu caso, uma oportunidade para se fazerem comendadores, banqueiros, agentes internacionais, concessionários de obras públicas, mestres de leis, compradores dos bens do Estado postos em leilão, como já havia acontecido no vintismo do século XIX.

O Bom do 25 de Abril.

O 25 de Abril de 1974 provocou dois grandes e positivos abalos no velho tronco da história de Portugal:

– A democracia liberal e libertária. Pela primeira vez os portugueses foram considerados como cidadãos. O 25 de Abril entregou Portugal aos portugueses. As escolhas posteriores são dos portugueses. Esse extraordinário feito teve como custo associado o de revelar as nossas fraquezas, os nossos baixos níveis de cidadania, as deformações causadas por séculos de fatalismo, de sebastianismo, de crença em que as divindades resolverão os nossos problemas. O povo em geral, diga-se, prefere ir a Fátima e ao Futebol do que ir às urnas votar.

– O problema colonial. O segundo grande assunto resolvido pelo 25 de Abril foi o problema colonial, que se arrastava desde que os republicanos do século XIX promoveram a excitação patriótica contra o Ultimato inglês. A questão colonial era como o catarro de um fumador. Os governos gostavam de fumar – isto é de ter colónias – mas não sabiam como resolver o problema do catarro. O 25 de Abril resolveu esse problema. Acabou-se o fumo, mas resta algum catarro de ressentimento.

Resolvido o problema da responsabilidade (mais do que o da falta de liberdade) e o das colónias, Portugal voltou à velha e histórica questão da chegada ao poder de uma nova matilha que reproduz os comportamentos da anterior, simplesmente com mais fome e ansiedade. Logo ainda com menos escrúpulos.

Os bárbaros tomam a cidade – O pior do 25 de Abril

– A reprivatização da Banca, com a vinda dos Espirito Santo, nobilitados pelo Estado Novo, a criação do BCP, uma aliança entre a Opus Dei e os arrivistas que defenestraram os industriais e banqueiros nortenhos mais antigos (Cupertino de Miranda e Pinto Magalhães, p.ex), com os regressos triunfais de salvadores como Champalimaud e Melos e respectivas cortes, que iniciaram a espanholização do sistema financeiro e a transferência da actividade produtiva para a especulativa.

– A destruição do tecido produtivo nacional na indústria e na agricultura como condição para a adesão à CEE e ao Euro. A distribuição dos “Fundos Estruturais” pelo grupo escolhido para nos entregar à penhora, com as brutais transferências de populações e de riqueza do interior para o litoral. O endividamento público e privado, com as respectivas PPP. Foi este o modelo com que nos apresentamos às portas da sopa dos pobres da CEE.

– O cavaquismo, que representou a tomada da cidade pelos bárbaros. O regime do novo-riquismo tem um retrato à la minute: o BPN e um credo: o Compromisso Portugal! Tanto o BPN como o Compromisso Portugal eram uma burla. Nem BPN era um banco, nem o compromisso era com Portugal.

Pelo meio disto ocorreram outros assaltos de bastardos ao poder, mas nenhum tão prolongado e tão organizado como o do cavaquismo.

O monumento, o emblema e os heróis do pós 25 de Abril

As épocas mais marcantes da nossa História têm, cada uma, o seu monumento. Os Jerónimos para as descobertas, Mafra para o colonialismo do Brasil, o “monumento do empurra”, em Belém, para o Estado Novo. O monumento do pós 25 de Abril é a EDP!

A entrega do sector essencial da produção e distribuição de energia a um Estado estrangeiro feita pelo governo de Passos Coelho e Paulo Portas é a pedra de fecho do cavaquismo. Em vez da tradicional estrofe, «Ditosa Pátria que tais filhos tem», o estandarte do cavaquismo bem poderia ter o lema: «Tudo se vende, até a luzinha para ler à noite!»

Os cravos, como símbolo do 25 de Abril e da reconquista da dignidade por um povo, foram substituídos pelos dois submarinos que o mais escorregadio dos arrivistas comprou. O Tridente e o Arpão servem para defender as barragens e as torres de distribuição de electricidade dos chineses, os aeroportos dos franceses, as pontes dos ingleses, perante a apatia da maioria e o aplauso dos inquisidores da religião única do neoliberalismo.

Falar dos heróis do pós-25 de Abril é falar da ala dos namorados que se reuniu à volta de Cavaco Silva e do seu condestável Oliveira e Costa, da sua Mocidade Portuguesa com Passos Coelho e Portas. Todos gozando de boa saúde e amplas liberdades!

São os únicos? Claro que não… com uma resma de papel ao lado cada um pode fazer a sua lista dos que constituem hoje a classe reinante em Portugal…

Carlos de Matos Gomes