É ou não “a economia, estúpido”?

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 19/11/2020)

Alexandre Abreu

Existe uma tese há muito dominante na política norte-americana segundo a qual as pessoas votam de acordo com as suas vantagens económicas imediatas, independentemente de outras considerações. Se a economia e os rendimentos estiverem a crescer, os eleitores tenderão a votar em quem já esteja no poder ou, se estiverem no final de um ciclo de dois mandatos, em quem mais confiem que mantenha essa trajetória. Se a economia estiver em crise, tenderão a punir quem está no cargo.

Este tese ficou associada à frase “É a economia, estúpido”, introduzida pelo diretor de campanha de Bill Clinton nas eleições de 1992 contra George Bush (pai). Nessas eleições, que ocorreram logo após a recessão do início dos anos 1990, a campanha de Clinton organizou a sua mensagem em torno dos temas económicos e foi bem-sucedida a afastar Bush da presidência após o primeiro mandato. O sucesso foi generalizadamente interpretado como resultado dessa opção tática, insistentemente martelada por esse diretor de campanha.

No fundo, esta tese diz-nos que as opções do eleitorado decorrem fundamentalmente dos interesses materiais mais do que de outras questões ideológicas, mas enfatiza os interesses materiais de curtíssimo prazo: a tendência de evolução imediata, digamos assim, em detrimento por exemplo dos interesses mais estruturais de classe ou de pertença a um grupo socioprofissional específico. É portanto uma espécie de materialismo elementar em versão de curto prazo. Obviamente simplista, mas ao mesmo tempo plausível e certamente consistente com pelo menos alguns desenlaces eleitorais.

Em contrapartida, na discussão em torno do resultado das eleições norte-americanas de 2016, aliás como no debate em torno das explicações do resultado do referendo do Brexit, as análises afastaram-se bastante desta ideia. As tentativas de explicação organizaram-se pelo contrário em dois grandes pólos, nenhum dos quais deu grande importância à trajetória económica de curto prazo: de um lado, as explicações em torno da dimensão cultural (o ressentimento das classes populares, dos meios rurais e das pequenas comunidades face às elites culturais urbanas e à mudança social acelerada); do outro, as explicações económicas, que sublinharam a dimensão material mas de longo prazo (o declínio económico das regiões que apoiaram esta viragem reacionária, no contexto do neoliberalismo e globalização). É um debate que nunca foi categoricamente resolvido, precisamente porque as duas dimensões se articularam entre si, independentemente de qual tenha sido o primum movens. Em todo o caso, e significativamente, a questão da trajetória económica de curto prazo não teve um papel relevante na discussão.

Tudo isto traz-nos até às eleições de 2020 e à interpretação dos seus resultados à luz deste debate. Logo no dia 4 de novembro, um inquérito realizado à boca da urna pareceu apontar para o regresso da “economia, estúpido”: quando questionados acerca de qual a questão que havia sido mais determinante para o seu voto, uma maioria relativa dos eleitores norte-americanos inquiridos (35%) referiu a economia, seguida a alguma distância pela desigualdade racial (20%) e pela pandemia de coronavírus (17%). E isso parecia favorecer Donald Trump: após um longuíssimo período de estagnação (praticamente desde os anos ’70), o rendimento mediano real (ajustado à inflação) dos agregados familiares norte-americanos cresceu significativamente durante a presidência Trump, melhorando a situação económica da maioria, pelo menos até à pandemia e recessão de 2020.

A discussão das causas, da sustentabilidade e da responsabilidade da administração Trump nesta evolução é complexa e não pode ser feita em poucas linhas. Entre outros aspetos, deve ter-se em conta que este aumento dos rendimentos, muito associado à redução do desemprego para mínimos históricos, antecede a chegada ao poder de Trump (remontando a 2014) e que foi propulsionada pelos défices orçamentais incorridos nos últimos anos apesar da economia estar em expansão (considerados insustentáveis pela maioria dos analistas e seguramente tendentes a aprofundar a desigualdade). Em todo o caso, podemos perguntar-nos: se a economia foi a questão mais determinante no momento do voto, se (pelo menos até à pandemia) a economia vinha evoluindo favoravelmente e se a maioria do eleitorado considerava Trump responsável por essa evolução, então porque é que Trump não ganhou?

Na realidade, Trump perdeu as eleições apesar da “economia, estúpido”: por causa da sua incompetência na gestão da crise pandémica, das suas responsabilidades na intensificação das tensões raciais e dos seus traços de caráter repulsivos. Na mesma sondagem realizada em Setembro em que uma ligeira maioria dos inquiridos norte-americanos afirmava confiar mais em Trump do que em Biden quanto à “economia e emprego”, a confiança em Biden excedia a confiança em Trump relativamente a todos os outros temas.

A resposta “economia” como tema decisivo na sondagem à boca da urna padece daquilo que em jargão económica é conhecido como endogeneidade. Isto é, em grande medida não antecedeu em termos causais o voto em Trump, mas resultou deste: era a escolha de tema que decorria logicamente de uma preferência eleitoral por Trump, dado que as outras opções, como a pandemia ou as tensões raciais, eram obviamente desfavoráveis a Trump. E isto independentemente de quais tenham sido os motivos mais profundos dessa escolha eleitoral, das ‘culture wars’ às questões económicas de curto e longo prazo.

A economia, e especificamente os interesses materiais individuais e imediatos, é certamente um determinante fundamental das escolhas políticas. Mas os analistas e estrategas políticos que adotem uma visão demasiado simplista destas determinações estarão eles próprios a ser “estúpidos”.


Passos curtos e pavio longo

(Francisco Louçã, in Público, 08/09/2017)

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No meio de notícias contraditórias sobre as negociações para o Orçamento de Estado de 2018, o primeiro-ministro reuniu com alguns parlamentares do seu partido e declarou que nessa lei que define o próximo ano se manteria um “progresso sustentável”, com uma gestão “prudente”, mas sem dar “passo maior do que a perna“. É vantajoso que, de vez em quando, seja deitado um balde de água fria nas especulações que correm. Mas não creio que o processo esteja a correr como devia.

Até agora, os negociadores já têm dois problemas em mãos. Primeiro, estão demasiado atrasados: o novo Secretário de Estado de Assuntos Fiscais só reuniu com as esquerdas em Setembro, falta um mês para o documento ser entregue na Assembleia. Todo o trabalho feito com o anterior titular da pasta parece ser ignorado. Ou seja, a negociação de impostos, como de pensões e carreiras, vai ser feita em poucas semanas.

Segundo problema, o governo já por várias vezes apresentou em público números errados, o que tem um efeito comunicacional prejudicial. A criação de um novo escalão entre o primeiro e o segundo não beneficia 3,6 milhões de pessoas, é melhor dividir por três e ainda tirar alguma coisa (entre 7 e 20 mil euros anuais estão 1,128 milhões de contribuintes). A alteração do mínimo de existência de 607 para 632 euros não beneficia 1,6 milhões de pessoas, como sugerido por fonte governamental, é melhor dividir várias vezes.

A consequência do atraso é a total sobreposição com a campanha eleitoral. Seria menos problemático não fora o tempo curto e a tentação de fazer o debate fora da mesa da conversa. Não é assim que se negoceia, e sobretudo o governo não deve fazer este jogo. É evidente que as esquerdas, que não têm poder de governo, só podem fazer pressão apresentando as suas agendas, mas têm-no feito com o cuidado necessário para reservar para a negociação o apuramento de compromissos. Da parte do governo tem inteiramente outro significado quando são apresentadas conclusões, que não correspondem a nenhuma negociação, pois, uma vez publicada a decisão do governo, mais difícil será que haja um compromisso distinto. O governo está a negociar anunciando a lei antes de a discutir com os parceiros (por exemplo, remeter o essencial do descongelamento das carreiras para o próximo governo). Está a reduzir o diálogo a factos consumados, apoiando-se para mais em jogos com números demasiado fáceis mas sem rigor. E está a abdicar de fazer um contrato legislativo sólido para o ano inteiro.

O tempo passa a ser um factor porque, na pressa, se torna mais difícil pensar, corrigir e propor. De facto, o governo parece convencido de que basta oferecer discricionariamente algum ganho de causa a propostas das esquerdas para arrumar o assunto. Favorece assim quem prefere este tipo de negociação, um pouco de braço de ferro de última hora e ficamos satisfeitos, vale mais a aparência do que o trabalho aturado para soluções esforçadas e imaginativas, que abram caminhos novos.

Ora, as escolhas em Portugal não se compadecem deste jogo. Mesmo presumindo que o pavio é longo e que a bonança europeia se prolongue por mais uns meses, que Trump não destrua algum pilar da economia mundial e que o castelo de cartas aguente, Portugal precisa de um governo com mais ambição nos serviços estratégicos, com mais capacidade de mobilização de recursos para consolidar a recuperação económica e, portanto, não pode adiar medidas essenciais.

Será esse passo muito ou pouco curto? Pois até agora os resultados falam por si. Os únicos festejos que houve nos últimos dois anos foi quando se saiu do mapa estabelecido pela austeridade. Mais valia continuar a fazer o que tem sido bem sucedido.