Unanimismos e maniqueísmos, ou o colapso das democracias

(Por Pedro Almeida Vieira, in Pagina Um, 05/09/2024)

Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Há assuntos onde proliferam estranhos unanimismos na imprensa (inter)nacional, que se iniciaram nos tenebrosos tempos da pandemia, quando se ausentaram as divergências de opinião e os argumentos dissonantes, que servem, as mais das vezes, para consolidar ou mudar opiniões.

Ler artigo completo aqui.

O seu telefone e o seu computador realmente ouvem as suas conversas

(Por Pierre-Alain Depauw in Reseau International, 05/09/2024, Trad. Estátua de Sal)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Milhões de pessoas já suspeitavam disso há muito tempo, mas um documento comercial vazado agora confirma que os nossos telefones estão realmente a ouvir-nos.

Uma aparente apresentação de um dos parceiros de marketing do Facebook detalha como a empresa ouve as conversas dos utilizadores para criar anúncios direcionados.

Mais uma vez, os “conspiradores” estavam certos

Numa apresentação de slides para os seus clientes, o Cox Media Group (CMG) afirmou que o seu software “Active-Listening” usa inteligência artificial para coletar e analisar “dados de intenção em tempo real”, ouvindo o que você diz através de seu telefone, do seu portátil ou pelo microfone do seu auxiliar doméstico.

“Os anunciantes podem combinar esses dados de voz com dados comportamentais para atingir os consumidores no mercado ”, afirma o documento.

O material de vendas cita então o Facebook, o Google e a Amazon como clientes do CMG, sugerindo que eles poderiam estar a usar este serviço de escuta ativa para atingir os utilizadores.

O primeiro slide deste documento de promoção de vendas, vazado da CMG, descreve como o seu software de escuta ativa ouve as suas conversas e extrai dados de intenção em tempo real.

O processo é então dividido passo a passo, desde a identificação de um “rastro de dados” deixado pelas conversas e comportamento online dos consumidores até à criação de anúncios digitais direcionados.

A apresentação do argumento de venda vazou para jornalistas da 404 Media que estão apresentando tais recursos do software de escuta ativa para clientes potenciais.

O constrangimento tem sido grande desde que aquilo que era classificado como “teoria da conspiração” se tornou uma verdade comprovada. Envergonhado, o Google removeu o grupo CMG de seu site “Programa de Parcerias”. O mesmo constrangimento na Meta e na Amazon.

O método

A apresentação de slides do CMG não elucida se o software de escuta ativa está ouvindo você o tempo todo ou apenas em momentos específicos, quando o microfone do telefone está ativado, como durante uma chamada.

Os anunciantes então usam essas informações para atingir “consumidores no mercado”, ou seja, pessoas que estão a considerar ativamente a compra de um determinado produto ou serviço.

Se sua voz, ou dados comportamentais, considerarem a compra de algo, eles exibirão anúncios desse item. Por exemplo, falar ou pesquisar carros Toyota pode levar você a ver anúncios dos seus modelos mais recentes. “Uma vez lançada, a tecnologia analisa automaticamente o tráfego e os clientes do seu site para potencializar a segmentação do público-alvo de forma contínua”, afirma o documento. Portanto, se você sentir que está vendo mais anúncios de um determinado produto depois de conversar sobre ele com um amigo ou pesquisá-lo on-line, não é uma fantasia de sua parte.

Durante anos, os utilizadores de dispositivos inteligentes presumiram que os seus telefones ou tablets ouviam o que eles diziam. Mas a maioria das empresas tecnológicas sempre negou categoricamente essas alegações.

Por exemplo, o centro de privacidade online da Meta afirma: “Entendemos que às vezes os anúncios podem ser tão específicos que parece que temos que ouvir as suas conversas através do microfone, mas esse não é o caso”.

Mas esse vazamento é apenas o mais recente desenvolvimento em uma onda de relatórios que sugerem que o seu telefone está realmente a ouvi-lo e que sites, como o Facebook, podem estar a lucrar com o que você diz.

A 404 Media revelou pela primeira vez a existência do serviço de escuta ativa da CMG em dezembro de 2023.

Uma pequena empresa de marketing de IA chamada MindSift também se vangloriou em um podcast sobre o uso de alto-falantes de dispositivos inteligentes para direcionar anúncios.

Embora possa parecer surpreendente, a escuta ativa é perfeitamente legal, disse a CMG numa publicação no seu blog, que foi retirada em novembro de 2023. “Nós sabemos o que você está pensando. É realmente legal? A resposta curta é: sim. É legal que telefones e dispositivos ouçam o que diz”, dizia o artigo.

“ Quando um novo download ou atualização de aplicativo solicita que os consumidores assinem um contrato de termos de serviço, com várias páginas, em algum lugar nas letras miúdas, a escuta ativa geralmente é incluída.”

Isso poderia explicar como o CMG se sai em estados onde as leis de escuta telefônica proíbem gravar alguém sem o seu conhecimento, como na Califórnia.

CMG é um conglomerado de tecnologia americano com sede em Atlanta, Geórgia. A empresa fornece serviços de transmissão de mídia, mídia digital, publicidade e marketing e gerou 22,1 biliões de dólares em receitas em 2022.

Fonte aqui.


A UE para o Telegram – Estamos a ir atrás de ti

(Por Pepe Escobar, in Sputnik International, 27/08/2024, Trad. Estátua de Sal)

A saga de Pavel Durov é um presente que nos continuará a ser oferecido por muito tempo.  É disso que se trata, da guerra quente da informação.  Tentemos, portanto, analisar os diferentes elementos do caso.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Um analista russo bem colocado acredita que a prisão de Pavel Durov está ligada a “protestos antifranceses nas suas antigas colónias – tendo a França perdido a sua tradicional ‘esfera de influência’ -, e onde a infraestrutura do Telegram foi usada para promover narrativas anticoloniais e antimacronistas”.

A isto acrescenta-se uma “tentativa de influenciar narrativas sobre a Ucrânia nos meios de comunicação russos e internacionais, que dependem fortemente da infraestrutura do Telegram”.

Paris tenta, de facto, desesperadamente se tornar-se útil em termos de operações psicológicas e guerra de influência/especial na Ucrânia.

No entanto, como observa o analista, os franceses não dispõem de meios técnicos para o fazer. Talvez tenha sido isto que levou Macron a decidir “exercer uma campanha de pressão pessoal contra o próprio Durov”. As autoridades francesas devem estar bastante desesperadas na sua tentativa de manter a cabeça no topo do jogo da política mundial. E o Telegram hoje é a política mundial”.

Paris estava apenas à espera de uma oportunidade. Quando o piloto do jato particular Embraer de Durov apresentou o seu plano de voo, não havia mandado de prisão na França. Foi só quando o jato já estava a caminho de Le Bourget que Paris apresentou o mandado à pressa. Durov não sabia nada sobre isso desde o início.

Resumindo: Paris foi avisada da chegada de Durov a França – talvez através da namorada de Durov, uma pós-obsessiva da ascensão social, residente no Dubai – e preparou a armadilha num abrir e fechar de olhos.

Uma eminência na prisão

Existe um mito de que o FSB, (Serviços secretos russos), pediu a Durov as chaves de criptografia do Telegram no passado. Isto é falso. O FSB queria que o Telegram lhe proporcionasse acesso privilegiado para investigar crimes graves caso a caso. Esta é uma enorme diferença em relação ao que o governo dos EUA faz com a Meta do Facebook ou com o Twitter/X através de “portas do cavalo”, completamente abertas.

No entanto, Durov embriagou-se com a propaganda de “liberdade e democracia” da NATO, rejeitou a Rússia e foi-se embora.

O que nos leva ao Presidente Putin. Putin tinha coisas melhores para fazer do que encontrar-se com Durov em Baku, e o Kremlin foi rápido a negar a reunião. Durov estava viajando pela Ásia Central e pelo Cáucaso, e os caminhos de ambos cruzaram-se no Azerbaijão. Mas há uma coisa que Putin nunca tolerará: a traição à Rússia. E isso aplica-se, à letra, a Durov.

Quando Durov visitou os Estados Unidos, os americanos, como era esperado, exigiram-lhe as “portas do cavalo” do Telegram para poderem espiar toda a gente. Por isso, ele veio a estabelecer-se, no Dubai e depois solicitou a nacionalidade francesa.

Durov tornou-se cidadão francês há apenas 3 anos – isto é, antes do lançamento da operação militar especial na Ucrânia – através de um programa especial de “estrangeiros proeminentes” criado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da França. Muito poucas pessoas são elegíveis; apenas um “estrangeiro francófono que contribui com a sua acção eminente para a influência da França e a prosperidade das suas relações económicas internacionais”. Contudo, nem a sua “ação eminente” foi suficiente para o manter longe de uma prisão francesa.

Como obter essas chaves

A Comissão Europeia (CE) em Bruxelas pode ser sumariamente descrita como um notório bando de cobardes e/ou eurocratas psicopatas que elogiam alegremente os “nossos valores”.

Previsivelmente, a CE recusa-se a comentar a prisão de Durov, dizendo que se trata de uma “investigação nacional”. Uma “investigação” que por acaso foi “encorajada” pelo estado profundo americano, levada a cabo desde 8 de Julho pela polícia vassala macronista, em benefício da NATO,  e… da própria Comissão Europeia.

As acusações contra Durov reveladas pelo Ministério Público francês deveriam ser destruídas em tribunal por qualquer equipa jurídica digna desse nome. Essencialmente, as acusações são de que o próprio Durov é responsável por aqueles que abusam do Telegram. Ele é “cúmplice” de todos os delitos possíveis – desde a fraude organizada ao tráfico de drogas – até à vaga acusação de fornecer serviços criptografados sem uma “declaração certificada”.

As acusações sobre a falta de moderação do Telegram são falsas. Por exemplo, o Telegram censura ativamente a correspondência dentro da UE; Os residentes da UE não podem aceder a inúmeros chats e canais. Além disso, o Telegram não é afetado pela recente lei neo-orwelliana da UE contra mega redes sociais, uma vez que acolhe menos de 45 milhões de utilizadores europeus por dia.

Agora vamos concentrar-nos no motivo..

O atual Euro-gulag liberal-totalitário, ou EuroLag, é um enorme bloco de poder que não tem acesso ao conteúdo do Telegram.

O Telegram possui servidores próprios em todo o mundo, e o roteamento passa pela Amazon, Cloudfare e Google. Desde a criação do Telegram, os serviços de inteligência e vigilância americanos têm tido meios para o bloquear facilmente – se assim o desejassem.

Mas a UE é uma história diferente. Assim, Bruxelas, através de Paris, tenta adquirir pelo menos algum controlo sobre o Telegram – e sobre as redes sociais em geral. Um lembrete crucial – que poderia ser arquivado no patético departamento de Tecnologia: a Europa  não tem (itálico meu) redes sociais.

Daí as ameaças incessantes contra o Twitter/X e a  Lei neo-Orwelliana de Serviços Digitais sobre  a responsabilidade das plataformas em termos de conteúdo, que se aplica a todos, e não apenas ao Telegram.

A UE e a França querem ter o poder que a potência hegemónica (os EUA) já tem: acesso a tudo, aqui e agora, sem qualquer documento legal.

A questão agora é se eles conseguirão isso pressionando Pavel Durov. Não há evidências de que ele possua as chaves de criptografia do Telegram. E se eles prenderam a pessoa errada?

Nikolai Durov, irmão ultra discreto de Pavel, é o principal arquiteto genial do Telegram: mestre em matemática, dois doutoramentos, medalhas de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática. Os franceses prefeririam fazer um acordo – daí o interrogatório prolongado: mas isso envolveria quebrar Pavel para que ele influenciasse Nikolai a entregar as famosas chaves.

Porquê agora? E a quem beneficia?

Como esperado, o interrogatório de Durov ocorre sem qualquer transparência. A França é uma sociedade atrozmente secreta, propensa ao silêncio absoluto sobre assuntos sérios, a uma lentidão extenuante, pontuada por raras declarações oficiais. É tudo uma questão de procedimento – e a burocracia é entorpecente.

No entanto, a burocracia francesa pode ter dado uma pista valiosa sobre o que realmente a incomoda. Simplesmente não pode aceitar que alguém utilize – ou forneça – os meios para “cobrir os rastos” em termos de transações financeiras, de contornar a censura e a vigilância.

Portanto, isto pode ir muito para lá da obsessão de obter todas ou parte das chaves de criptografia do Telegram. O aparelho burocrático francês quer fazer todos os possíveis para eliminar qualquer possibilidade de evasão – mantendo ao mesmo tempo o poder de punir qualquer pessoa.

Se a saga continuar, resultando num julgamento e, em última instância, numa pena de prisão de 20 anos, significa que Durov não terá quebrado face ao aparelho burocrático e que permanecerá sempre “um cúmplice”.

É improvável. Adeus ao brilho e ao glamour ilimitados, em troca de uma baguete de pão ao amanhecer numa prisão francesa?

Duas outras questões inevitáveis. Porquê agora? Porque a UE precisa muito disso. E a quem beneficia? Os principais candidatos são o “espírito de corpo” da burocracia francesa ultra regulada e as suas ligações oligárquicas franco-europeias. O desejo também é um fator. Durov é russo, estrangeiro, e o Telegram, que tem um bilião de utilizadores em todo o mundo, é um sucesso retumbante.

Tudo pode acontecer no futuro – incluindo o bloqueio do Telegram em França e na UE. A maioria mundial não se importaria nada.

Entretanto, milhares de cidadãos ficam surpreendidos com o facto de um tecno-globalista narcisista poder ser tão ingénuo a ponto de acreditar que o totalitarismo liberal alguma vez protegerá a sua liberdade.

Fonte aqui.