O que eu gostaria de saber

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 11/11/2024)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O que eu gostaria de saber é o que leva um ser humano a praticar o mal. Toda a filosofia ocidental está marcada pelo problema da origem do mal. Mas sob a mesma designação de “mal” cabem muitos tipos de mal, o mal físico, o mal psíquico, o mal moral, mas o que eu gostaria de saber era o que leva um ser humano a destruir o outro, o seu semelhante, homem, mulher ou criança. O que leva um ser humano a destruir o seu habitat. E o que leva um ser a ter prazer ao praticar o mal. Não só do masoquismo, mas do prazer do funcionário público que antes de atender o cidadão lhe atira: A senha! E que depois e o ouvir expor a sua pretensão o informa que não é ali que se trata do assunto e que falta um documento, uma certidão, um carimbo e venha qualquer dia por estamos a fechar.

Coisas mesquinhas, mas também gostava de saber o que sentiu o presidente americano Harry Truman ao dar ordem, em 1945, para os seus militares lançarem as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nas saqui. Gostaria de saber o que pensa um piloto israelita aos comandos de um moderníssimo caça-bombardeiro quando carrega no botão que vai largar uma bomba sobre uma multidão indefesa em Gaza. E o que pensa um palestiniano quando é expulso à coronhada sua casa onde a sua família vive há séculos, ou quando vê os colonos judeus derrubarem uma oliveira milenar porque ela é um símbolo da posse da ligação á terra e quando, espoliado de tudo, ainda é acusado de terrorista!

Gostaria de saber o que pensa o multimilionário Elon Musk quando entrega os dados da vida privada de milhões de clientes das suas redes X (ex-Twitter) aos serviços secretos dos Estados Unidos, o que permite localizá-los e matá-los à distância, segundo as conveniências. E o que pensam os administradores das grandes farmacêuticas sobre o sistema de patentes e de preços de medicamentos que geram fabulosos lucros aos seus acionistas, vendendo-os aos ricos e deixando morrer os pobres.

Gostaria de saber o que pensam os bispos e cardeais inquisidores, os antigos e os atuais, que estabeleceram verdades absolutas e que condenam à fogueira os hereges que duvidam quando a evidência lhes revela que as verdades absolutas são criminosas e as dúvidas são virtuosas.

Gostaria de saber o que pensa do mal a senhora Lagarde, do BCE, do alto da sua pesporrência quando anuncia quanto vale um euro, depois de receber ordem dos cem acionistas privados da Reserva Federal Americana, o FED e desencadeia os despejos de pessoas das suas casas, as falências de pequenas e médias empresas.

Gostaria de saber o que passava pela cabeça do papa João Paulo II da Igreja Católica Romana quando canonizou José Maria Balaguer, o chefe da Opus Dei, autor de tiradas de ofensa aos seres humanos negando a igualdade: “Não achas que a igualdade, tal como a entendem, é sinónimo de injustiça?” ou, “ “Estejas pronto a desistir da tua honra pela tua alma!” A alma de um católico não integra a sua honra?

Gostaria de saber o que levou Napoleão a incendiar a Europa com a justificação de grandeza, “La Grandeur”, se depois de matar mais de um milhão de soldados e de incontáveis destruições por toda a Europa, a França tinha exatamente o mesmo tamanho de antes de ele se arvorar em imperador!

E o que pensam uns seres da espécie humana que por conta das grandes máquinas de alienação se reúnem em aldeias de macacos de zoos para exporem nos ecrãs de televisão as suas taras, naquilo que é habitualmente designado por Big Brother? Que pensam os seres que aceitam fazer parte daquelas pocilgas e aqueles que se aproveitam do que dela sai?

O que pensa do mal um escravo trazido no século XXI de África ou da Ásia por uma máfia para carregar uma albarda paralelepipédica a dizer Uber, ou Glovo, e a pedalar atrelado a uma bicicleta para distribuir rações fabricadas por uma multinacional a clientes de olhos e polegares fixos nos telemóveis de que não se podem desligar para cozer uma batata ou um ovo?

Gostaria de saber o que pensam do mundo as múmias do Egito, os imperadores romanos, os santos de todas as igrejas eternizados em estátuas e mausoléus, obras imperecíveis espalhadas pelo planeta sobre a obra que ajudaram a construir.

Gostaria de saber o que pensam os seres representados na cidade dos Reis no Egito, na cidade proibida de Pequim, em toda a Roma, incluindo a praça de São Pedro, no Panteão de Paris, no Kremlin de Moscovo, na Casa Branca de Washington. Eu sei o que penso deles.

A santa resiliência

(António Guerreiro, in Público, 18/06/2021)

António Guerreiro

Antes que o jargão da tripla aliança política, económica e mediática nos submerja com a sua capacidade injuriosa e de cancelamento da crítica, devemos cuidar das palavras, observar a sua vida e perceber o sentido das suas inflexões. Num tempo que nos parece hoje já distante, mas do qual, se nascemos nos últimos quarenta anos, somos ainda contemporâneos, a palavra “progressista” teve uma considerável fortuna e sinalizava o “imaginário” político (“imaginário” é, aliás, outra palavra defunta).

Ser “progressista” era acreditar no progresso. Não no progresso tecnológico ou científico (muito embora esse também fizesse parte do processo), mas num progresso que tinha uma escala muito mais ampla: a do curso inelutável da história em direcção à “justiça” social e à “emancipação” política. “Progressista” era o termo condescendente usado pelos comunistas para nomear quem não se comprometia com lutas revolucionárias, mas também não estava do lado das soluções conservadoras ou até reaccionárias.

Assine já

Nesse jargão outrora dominante, ser progressista significava olhar em frente, em direcção a um futuro radioso, em oposição aos reaccionários, que olhavam para trás, para um passado geralmente mitificado. Quando o progresso e o mundo por vir em vez de inspirar confiança e mobilizar a acção começaram a gerar o medo, ser progressista perdeu a condição de título a reivindicar.

A herança dos antigos progressistas reside hoje num pensamento que, pelos critérios de antigamente, seria considerado reaccionário (como classificar muitas das lutas identitárias e ecológicas?). Esta inversão de valores constitui um enorme desafio às representações baseadas na topologia que divide o espaço político entre esquerda e direita.

Hoje, que a palavra “revolução” passou por uma zona demoníaca e tornou-se depois uma ruína inerte, um outro “re-” substituto entrou em cena e triunfou. Comecemos por uma aproximação negativa: não é “resistência”. Resistir era a atitude do “antes quebrar que torcer”, era um heroísmo com uma dupla face: ou era épico ou trágico. A atestá-lo, aí estão, por todo o lado, os monumentos e os “lugares de memória” que celebram os “heróis da resistência”, ao serviço do uso que em cada momento se faz da história.

Um discurso do presidente francês, Emmanuel Macron, pronunciado no dia 9 de Novembro de 2020, pelo cinquentenário da morte do general de Gaulle, indica-nos qual é o novo “re-” que revogou a “resistência”. Nessa ocasião, Macron, com a eloquência francesa que serviu durante séculos como medida da “civilização”, saudou o “espírito de resiliência” do general. E assim passou de Gaulle a herói da “resiliência” francesa. Foi uma operação “revisionista” sem grandes custos: bastou a substituição de uma palavra por outra, muito mais actual. A República ganhou assim o seu terceiro “re-”, caducado que foi o tempo da revolução e fora de moda em que caiu a resistência.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Os novos tempos são pois os da resiliência. Do Atlântico aos Urais e para além, da costa leste à costa oeste e vice-versa. Temos a nova palavra-maná pronunciada a toda a hora pelos políticos democratas (sim, porque nos regimes ditatoriais os opositores não julgaram ainda adequado substituir a resistência pela resiliência, e os ditadores movem-se noutro campo semântico). Basta ouvir os nossos políticos para perceber que a resiliência se tornou uma ideologia: a ideologia do sofrimento e da infelicidade que salvam e purificam. O resistente estava disposto a quebrar; o resiliente é maleável, adapta-se a tudo, não tenta alterar nenhuma ordem, mas, pura e simplesmente, fazer o jogo da ordem presente para daí retirar ganhos.

A táctica da resiliência é o consentimento. Por cada crise, infortúnio ou catástrofe, os arautos da resiliência prometem que “vamos sair daqui ainda mais fortes”. Toda a felicidade é conseguida à custa da infelicidade, e é sempre a destruição que é uma fonte da reconstrução.

Aliás, o pressuposto da resiliência, essa terapia inventada nos gabinetes clínicos da aliança económico-política, é que a infelicidade é um mérito e a destruição uma bênção. Uma coisa que tem o nome de “Plano de Recuperação e Resiliência” poderia ser uma prescrição médica seguida numa associação de alcoólicos anónimos. Tudo neste jargão político tresanda de vício e de uma execrável ideologia.


A política tem de voltar ao porta a porta

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/07/2019)

Daniel Oliveira

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A crise da nossa democracia resulta de uma crise geral de todas as formas de intermediação, que incluem os partidos, os parlamentos, as igrejas tradicionais, os sindicatos, os órgãos de comunicação social. Concentrar o debate exclusivamente na corrupção (que a democracia apenas torna mais visível), na desigualdade, na imigração, na globalização ou nas redes sociais dá-nos uma visão parcelar do problema. Assumo que a globalização retirou ao poder político a capacidade de exercer a sua função reguladora e estratégica. Que essa globalização, associada ao desenvolvimento tecnológico, criou, através de novas plataformas de comunicação, novas comunidades eletivas que não coincidem com o universo territorial e afetivo indispensável ao exercício da democracia. Que há uma crise geral de autoridade moral e intelectual, que se estende da política à ciência, destruindo uma “verdade” comum que a democracia precisa para ser exercida em nome de todos. E que as mudanças rápidas a que assistimos criam um sentimento de insegurança e precariedade que favorece discursos que prometam devolver ordem ao que está desordenado.

A melhor forma de travar a decadência da democracia não é insistir nessas causas. Retirar poder ao Estado, atirando competências políticas para estruturas ainda mais distantes, não contribuirá para aproximar os cidadãos do poder. Retirar a política da rua (seja nas campanhas ou no voto) para a passar a exercê-la no espaço virtual, desmaterializando a democracia, não aprofundará o sentimento de pertença. Transformar a política numa proposta atomizada de modos de vida, que ignoram consensos científicos e civilizacionais, só aprofundará a ansiedade das pessoas. E tornar o sistema político cada vez mais instável apenas empurrará mais gente para uma nostalgia romanceada de um tempo de ordem e segurança. As pessoas sentem que estão numa tempestade. É um porto seguro que procuram, não é uma jangada que vá com a maré. A questão é se esse porto seguro é uma fortaleza autoritária ou uma comunidade de interajuda solidária. Uma coisa é certa: não se combate a ansiedade fazendo da incerteza um discurso político.

Não tenho, como é evidente, nenhuma resposta milagrosa para este tempo difícil. O máximo que tenho é algumas inclinações. A mais forte é esta: a proximidade é a melhor resposta ao sentimento de ansiedade que domina as nossas comunidades, cria um profundo sentimento de descrença e desconfiança e está a minar todas as formas de autoridade moral e de intermediação social e política. Não estou a usar uma palavra vazia. Estou a falar de proximidade no sentido literal: o que está fisicamente perto. Porque tenho a convicção que parte do sentimento de desconfiança em relação à democracia e do deslaçamento das comunidades resulta de uma crise de empatia. Claro que a desigualdade social, que voltou a aumentar nas sociedades ocidentais, é um elemento central neste deslaçamento. Assim como o desmantelamento dos Estados Sociais, a perda de poder dos Estados face ao mercado ou a dispersão das formas de comunicação e de socialização. Mas, não tendo solução para nada disto, acredito que a proximidade física é o melhor instrumento para combater uma cultura que nos está a atomizar e a escravizar.

Como é que isto se traduz? Levando à letra a velha máxima de “pensar global e agir local”. Local mesmo. No bairro. E isso quer dizer que as organizações políticas, e sobretudo as partidárias, que quiserem recuperar o seu papel têm de ser elas próprias apostar neste regresso à base. Não se trata apenas de deixar de pôr todas as fichas nos media tradicionais, intermediários em crise, trata-se de não julgar que o seu substituto são as redes sociais. Uns e outros continuarão a ser indispensáveis para a comunicação política, mas a regeneração da atividade política está onde se fez no passado: no porta a porta. É a melhor forma de voltar a criar laços de empatia, compromisso e confiança política. É até a melhor forma de renovar o pessoal político ou contrariar as fake news.

Isto não passa apenas pela comunicação política. A boa comunicação política está relacionada com a ação política. O porta a porta não serve de nada se não se relacionar com a vida daquelas pessoas. Quem lhes bate à porta tem de ser um dos seus. Têm de ser as pessoas que elas viram a lutar pela resolução concreta de problemas concretos. Claro que nada disto dispensa a ação nacional, europeia e internacional. Não estou a falar de um novo sistema político, estou a falar de uma estratégia para recuperar a ação política e democrática.

Numa entrevista à última edição da revista “Manifesto”, o sociólogo económico alemão Wolfgang Streeck afirmou que pode ser que esteja nas “pequenas unidades políticas, como os distritos e as cidades, onde o declínio da infraestrutura pública durante a era do neoliberalismo forçou os cidadãos e os governos locais a responderem a necessidades coletivas de cuidados à infância, transporte, policiamento e saúde” a última bolsa de resistência à destruição do Estado Social. Já são as estruturas locais do Estado, muitíssimo mais sujeitas à pressão democrática, que estão a assumir funções que os Estados Nacionais abandonaram e que estruturas supranacionais, distantes das populações, nunca assumirão. Se assim é, este é o espaço ideal para recuperar a democracia.

Não estou a defender um novo basismo, que nunca me entusiasmou. Acho que ação política continua a depender de experiência política. E de pensamento político estruturado. E que as organizações políticas não devem corresponder a uma mera soma de causas sem cimento ideológico que as torne coerentes, inteligíveis e com propósito. Mas as coisas têm de voltar cá abaixo. A ação política tem de voltar à cidade. Ao que está perto. Onde se consegue responder à vida das pessoas com eficácia visível e em tempo que a memória abarque. Isso não resolverá os nossos problemas essenciais, mas permitirá aos agentes políticos mais ativos recuperar a confiança popular.

Se a regeneração da democracia depende da proximidade que devolva empatia à política, ela renascerá na ação local. Os partidos políticos que se queiram reinventar têm de voltar ao bairro, fazer aí combate político e cidadão e restaurar os laços de confiança que se perderam. Porta a porta, corpo a corpo. Porque as redes sociais são as televisões do futuro: um cemitério de emoções. E porque é no local que está a última trincheira de todos os combates globais. Se as grandes narrativas já não resultam, que se transformem em lutas locais que as traduzam.