O “dia inicial” de um novo regime?

(Manuel Loff, in Público, 03/09/2025)


A direita nunca gostou do 25 de Abril e quer encontrar no 25 de Novembro uma data para comemorar.


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Todos os regimes políticos comemoram o seu nascimento. Procuram com uma narrativa fundadora reforçar os laços da comunidade. Quanto mais emancipadora for essa narrativa – o fim de uma ditadura e/ou de uma guerra ilegítima, como ocorreu com o 25 de Abril –, mais a comemoração é genuína e popular e mais potencia uma vontade de resistência ao autoritaritarismo e à desigualdade.

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A democracia portuguesa nasceu com o 25 de Abril e com todas as transformações que, nos dois anos seguintes, fizeram com que a democratização se chamasse Revolução: a libertação dos presos políticos, a dissolução da PIDE e a prisão dos seus agentes, o desmantelamento do Estado autoritário, o fim da guerra e a autodeterminação dos povos coloniais, o salário mínimo e novas regras que, pela primeira vez na história dos portugueses, deram um mínimo de dignidade às relações de trabalho, os direitos das mulheres, o sufrágio universal, a Reforma Agrária… Um país novo, pela primeira vez feito à imagem do que o povo verdadeiramente queria. Construído nas ruas e nos locais de trabalho, ratificado em eleições, transposto para a mais democrática das constituições.

É por tudo isto que a direita nunca gostou do 25 de Abril e quer encontrar no 25 de Novembro uma data para comemorar. Já no ano passado, decidiu-se por aquilo que um dos seus melhores porta-vozes reconheceu ser “uma inevitável vingançazinha”: “Comemorar os 49 anos [do 25 de Novembro] como se fossem os 50 – com uma cerimónia absolutamente despropositada, que copia a do 25 de Abril, com o único objetivo de chatear a esquerda” (João Miguel Tavares, PÚBLICO, 22/11/2024).

Um ano depois, o Governo, pela mão de Nuno Melo (que gosta deste papel, tão de moda, de importador das teses fascistóides das direitas extremas para dentro das direitas tradicionais), sem se atrever a fechar a Comissão Nacional (presidida pelo Presidente da República) das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, criou uma “comissão para comemorar os 50 anos do 25 de Novembro”. A intenção é que ela permaneça em atividade até maio de 2026 para que “possam ser suficientemente assinaladas datas e acontecimentos que só foram possíveis por causa do 25 de Novembro” – por exemplo, diz Melo manipulando a História, a aprovação da Constituição e “as primeiras eleições livres” [sic], ou seja, não as constituintes de 1975 mas as legislativas de 1976 (PÚBLICO, 28/8/2025).

Ou seja, parece evidente a vontade de se sobrepor ao programa há muito anunciado pela Comissão Executiva das Comemorações do 25 de Abril (dirigida há três anos pela historiadora Inácia Rezola, cujo desempenho tem sido unanimemente elogiado) e que inclui, obviamente, todos estes acontecimentos. Tratados por quem os estudou cientificamente, mobilizando unidades de investigação – e não este somatório insólito de entidades que cumprem tudo menos a “natureza apartidária” e a “grande diversidade” que o ministro se atreveu a assegurar que teria a nova comissão: a Sociedade Histórica da Independência Nacional, que tem como presidente o antigo líder do CDS, Ribeiro e Castro, e como vice-presidente uma deputada municipal do mesmo partido; a Associação de Comandos cujas direções se situam há muito no que habitualmente se chama a direita radical e nostálgica; o diretor-geral de Política da Defesa Nacional. Não se sabe quem a presidirá, mas o CDS há anos disse quem queria para o lugar: Rui Ramos.

A direita quer ter o seu “dia inicial” (ainda que não “inteiro e limpo”) de um regime que sinta seu. E não quer que ele o obrigue – como o 25 de Abril obriga – a comemorar o fim da ditadura e da guerra. O seu não é o regime da Constituição de 1976, mas um novo regime a construir. Ao escolher o 25 de Novembro, quer comemorá-lo como derrota do 25 de Abril. Dê as voltas que quiser e nomeie quem quiser para fazer a sua nova “história oficial”. A memória coletiva e a investigação digna desse nome cá estará para lhe fazer frente.

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Quero deixar aqui uma homenagem ao Zé Luís Borges Coelho, um dos homens mais extraordinários e, em toda a sua humanidade, mais simples e genuínos que conheci. Há pessoas a quem, em vida, nunca agradecemos suficientemente o que fizeram.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

Silly Season (epílogo) – alegoria

(Carlos Esperança, in Facebook, 29/08/2025)


A silly season acabou este ano silly, silly, silly, a mais silly de sempre.

O presidente da Marcelândia não gosta do presidente da Soviétia, talvez porque não lhe solicitou uma selfie ou o autógrafo, e o ódio exacerbou-se quando este invadiu o país vizinho cujo presidente ele venera.

Depois da invasão foi tirar fotos com o adorado homólogo, levar-lhe a venera, que este recusou, e prometer-lhe apoio à contraofensiva militar o que muito o desvaneceu, vindo do Comandante Supremo das poderosas Forças Armadas do belicoso e temido general Nuno Melo. Depois da cópia da Senhora de Fátima em barro, Kiev recebeu o original Presidente da República da Marcelândia em carne e osso.

Regressou cheio de fotos e de garbo a ruminar vingança contra o Vladimiro invasor e a rezar pela vitória do Vladimiro invadido.

O presidente da Marcelândia sabe que todo o mal vem da Soviétia, disse-o a Irmã Lúcia, e ensinou-lhe o pai Baltazar que era o país onde se comiam crianças ao pequeno-almoço quando esse país acusava os outros países de comerem o pequeno-almoço às crianças.

Antes do Vladimiro já tinham nascido, no país invadido, celebridades, Leonid Brejnev e Stepan Bandera, o primeiro já apagado dos manuais de História, como Estaline fazia aos inimigos na Soviétia, e o último celebrado agora como herói. Mas isto é um devaneio do escriba que se esquece do que quer escrever e se esquece do protagonista da prosa.

O presidente da Marcelândia, depois do êxito a trocar de Primeiro-ministro e de Presidente da Assembleia da República na Marcelândia, quer agora substituir o Presidente dos EUA, um estarola que baralhou todos os comentadores e lançou o Eixo do Bem em polvorosa. Odeia-o, apesar de ter referido antes uma alegada empatia entre ambos.

Foi este ódio que extravasou numa conversa em família na Madraça de Castelo de Vide onde foi levar a palavra depois de Marques Mendes e outros vultos da Marcelândia, aos futuros mulás.

Sem precisar de ginjinha ou moscatel foi ali que explodiu perante os ávidos ouvintes com a acusação de que Trump é um ativo soviético porque os ouvintes ignoram que a Soviétia foi encerrada há mais de três décadas.

Depois da acusação, ornado com a Ordem de Jaroslau I de Quieve, o Sábio, regozijou-se o mundo livre, mas deixou o embaixador da Marcelância nos EUA a tomar calmantes e o Primeiro-ministro e o ministro dos Negócios Estrangeiros a rezar. A própria UE o acompanhou com o 19.º pacote de sanções à antiga Soviétia, ora designada de Putinlândia.

Mas a Senhora de Fátima não os vai abandonar. E Trump que se cuide.

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Cinzas

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/08/2025)

Quando tudo deveria ser repensado e reprogramado, em defesa da sobrevivência do que resta da vida no interior do país, o Governo acha que sossega tudo com 45 medidas avulsas.


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e um alto da serra do Açor, uma “área protegida”, a ministra do Ambiente contemplava o mar de cinzas a seus pés e comentava que felizmente tinha sobrevivido um pequeno oásis de carvalhos, árvores de combustão lenta e que mantêm a humidade no solo. Tudo à volta era um cemitério de eucaliptos queimados, chegando mesmo às primeiras casas da aldeia. É estranho este desperdício da memória e do saber ancestral dos habitantes destes povoados do Centro e Norte — nunca antes a floresta chegava às portas da aldeia, esta era, sim, rodeada por jardins, hortas, vinhas, pomares e, para sombrear as ruas, árvores frondosas, mas de crescimento e fogo lento: carvalhos, faias, castanheiros, tílias. Mas isso foi antes de Portugal se ter entregue — não sem vários avisos em contrário — à monocultura fatal dos eucaliptos e pinheiros-mansos, que tudo secam, tudo exterminam à volta e tudo incendeiam. Mas quando vi o ministro da Agricultura afirmar que só 4% da área ardida este Verão era de eucaliptal, fiquei na dúvida se ele veria televisão, no espanto de o saber já senhor de números que mais ninguém tem, mas na certeza de que nada de essencial irá mudar no futuro. Anos a ver o país a arder, umas vezes mais, outras menos, ensinaram-me que a seguir a grandes incêndios acontecem duas coisas garantidas: os bombeiros apressam-se a pedir melhores condições, mais material e mais dinheiro, e vêm à superfície, por dever de ofício, os defensores dos eucaliptos, tentando demonstrar “cientificamente” que somos cegos ou estúpidos. Devemos ser o único país do mundo onde se pretende confundir a cultura de eucaliptos com agricultura.

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2 Já tudo se disse sobre o Governo e os incêndios. Mas não é demais, a benefício futuro, recordar as três coisas mais preocupantes: a insensibilidade política, ou apenas humana, que um Governo viciado em propaganda e em verdades alternativas demonstrou; a perdição a que Luís Montenegro se entrega perante as poucas crises sérias que já foi chamado a enfrentar, e a incapacidade de extrair disto as devidas lições para o futuro e mudar o registo das políticas habituais — quando tudo deveria ser repensado e reprogramado em defesa da sobrevivência do que resta da vida no interior do país, o Governo acha que sossega tudo com 45 medidas avulsas, paridas num Conselho de Ministro extraordinário marcado para Viseu — como se as palavras “extraordinário” e “Viseu” tivessem o dom de tudo apagar e fazer esquecer. Nada de essencial vai mudar. Nada, nada.

Cinzas
Ilustração Hugo Pinto

3 Montenegro, coitado, só terá tido três dias de férias. Mas o seu estimado parceiro de vá­rias estratégias, parlamentares e governativas, o incansável André Ventura, esse emergiu de três, seguramente merecidas, semanas de férias para tentar ainda extrair dos salvados qualquer coisa de útil para si e a sua causa. Generosamente, José Luís Carneiro acusou-o apenas de 10 dias de desaparecimento, os 10 dias que abalaram o país, do Minho ao Mondego. Mas foram mais do que isso e foi uma estrondosa ausência para quem nos habituou a ocupar diariamente o palco desde que acorda até que já não haja mais ninguém acordado. Sem nunca antes ou durante os fogos se ter pronunciado sobre o assunto, Ventura tenta agora recuperar o tempo perdido jogando a artilharia habitual: CPI parlamentar, exigência da demissão da ministra da pasta, visita aos locais do inferno, elogio a tudo o que lhe cheira a autoridade. Mas nada de novo, nada de diferente, nada pensado sem ser para a ocasião. Se é com este parceiro que Montenegro espera governar o país nos próximos quatro anos, bem pode convocar o próximo Conselho de Ministros para Fátima.

4 Muito a medo, mas vencido pelas saudades, resolvi um destes dias fazer uma excursão solitária ao território dos Verões da minha infância, adolescência e juventude prolongada: Lagos e a praia D. Ana. Comecei pela Ponta da Piedade, que no meu tempo era apenas uma estrada sobre a falésia conduzindo a um farol e, em baixo, as incríveis, deslumbrantes e depois célebres grutas que o terramoto de 1755 abriu entre os rochedos. Visitei centenas de vezes todas e cada uma das grutas, demoradamente e tomando banho lá dentro, entre farrapos de sol entrando através das paredes de rocha, com os seus raios pousando no fundo e, através da água, tão transparente que parecia vidro, desenhando sombras e desmascarando os linguados escondidos na areia. Caramba, eu vi com os meus olhos! Porém, há muito tempo que não vou às grutas da Ponta da Piedade e suponho que hoje seja preciso tirar senha com hora marcada de tal maneira o seu acesso está congestionado por dezenas de caiaques e pirogas em excursão, ou barcos, de profissionais e amadores: entre aquilo e a Rua Cor de Rosa, do Cais do Sodré, a única diferença é a água. Mas cá em cima, ao lado do farol, aconteceu outra catástrofe: primeiro, nasceram umas casinhas brancas, quase inofensivas, mas depois, como sempre, tudo foi alastrando como uma doença má. Vivendas umas em cima das outras, hotéis, edifícios de vários andares, arruamentos em todas as direcções, até quase não conseguirmos dizer para que lado fica o mar. E uns cartazes da Câmara Municipal de Lagos garantindo que está a “regenerar” a Ponta da Piedade (foi você que pediu?) e que, uma vez regenerada, a natureza regressa em força. Confesso que nem nos meus piores pesadelos alguma vez me passou pela cabeça que o promontório da Ponta da Piedade pudesse vir a ser a nova zona de expansão urbanística de Lagos. Porém, havia um problema: como não queriam parar o “progresso”, em forma de construção, e as centenas ou milhares de novos habitantes não se podiam atirar lá de cima da falésia directamente para o mar, havia que arranjar praias novas ou espaço nas praias existentes para os acolher, visto que era para isso que eles viriam. Ora, ali nas redondezas há duas ­praias e uma impossibilidade física de inventar outra: Porto de Mós, onde desde há muitos anos não há um lugar para estacionar nem um metro para estender a toalha, e a mítica D. Ana, em tempos declarada a praia mais bonita do mundo pela “Condé Nast Traveler”. E foi então que algum crânio camarário se lembrou da solução milagrosa: aumentar a D. Ana, injectar-lhe toneladas extra de areia, a expensas dos contribuintes, a benefício dos hoteleiros e com o aval do Ambiente, da CCDRA, dos portos, da capitania e de quem mais de direito. Hoje, a praia da minha infância e juventude é uma caricatura de si mesma: há duas tonalidades de areia, a antiga e a nova, um tapete de conchas que cortam os pés junto à água, as rochas que eu escalava para saltar para a água ficam agora em terra na maré vazia e, pior do que tudo, o fabuloso enquadramento da baía entre as falésias deixou de existir. É o poder local no seu pior: um poder fatal.

5 Sobre as cinzas e a destruição de Gaza, Netanyahu, um criminoso de guerra e de paz, quer agora expulsar da sua capital em ruínas o milhão de palestinianos que lá vive. Para lado nenhum — ou, como disse o seu sinistro ministro do Interior, podem ficar e escolher se querem morrer debaixo de bombardeamentos ou morrer de fome. Eu, que venho da geração que marchou contra Hiroshima, contra a Guerra do Vietname, contra as guerras de África, achei que, pelo menos, nunca mais teríamos de ver alguém defender, sem vergonha, coisas como o genocídio étnico que Israel leva a cabo em Gaza e em breve na Cisjordânia. Mas não: mesmo aqui, em Portugal, Israel tem mais defensores da sua política de extermínio e de fome, dos seus ataques a hospitais ou acampamentos civis, dos seus 250 jornalistas assassinados do que alguma vez achei que fosse possível.

Numa televisão perto de mim, por exemplo, uma senhora defende regularmente, entusiasmada e embalada, os feitos de Israel, jurando que tudo o que testemunham em contrário ou que vimos com os nossos olhos é propaganda do Hamas. Vai ser candidata às autárquicas em Lisboa pela lista de Carlos Moedas. O que será, dr. Moedas, que a recomenda?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia