A Troika 2.0

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook,10/11/2025)


Enquanto Lisboa exibe ao mundo o brilho do Web Summit, fingindo ser o palco do futuro digital, o país está a ser empurrado para a economia do século XIX — uma economia de salários de miséria, turnos intermináveis e gente exausta a sustentar os lucros dos poucos que chegam de Ferrari.

Chamam-lhe “Trabalho XXI”, mas é a Troika 2.0 , e nem sequer precisou de chegar de avião.

A AD escreve, a IL aplaude, o Chega distrai — e juntos compõem a mais violenta ofensiva contra quem trabalha desde o tempo da troika.

Prometem “modernizar”, mas o que trazem é exploração:

– 50 horas por semana, disfarçadas de “banco de horas individual”;

– contratos a prazo até 5 anos, para eternizar a precariedade;

– menos formação, para garantir uma mão-de-obra dócil e barata;

– despedimento livre pela porta do cavalo, onde até quem ganha em tribunal perde o direito de voltar ao trabalho;

– greves esvaziadas por serviços mínimos automáticos;

– outsourcing sem regras, para trocar trabalhadores com direitos por subcontratados descartáveis.

Tudo isto num país que cresce acima da média europeia, mas onde o crescimento foi para Ferraris, não para salários.

O trabalhador ficou com a inflação, a renda impossível, a casa vendida a fundos, a escola degradada, o hospital sem médicos.

E quando o povo acorda e protesta, chamam-lhe “incompreensível”.

Quando os sindicatos unem forças, chamam-lhe “greve política”.

Quando o povo se defende, dizem-lhe que “a precariedade não é má”.

Claro — a precariedade não é má para quem ganha 4000 € e troca de emprego com indemnizações douradas.

Mas é destruidora para a mãe que trabalha no retalho, para o operário, para a enfermeira, para o motorista.

O Chega cumpre a função de sempre: atira pobres contra pobres.

Inventam “invasões islâmicas”, “ciganos subsidiodependentes”, “imigrantes criminosos”.

Mas o objetivo é claro: primeiro precarizaram os imigrantes, impedindo-os de se legalizar para ficarem presos a intermediários e patrões sem escrúpulos; agora vêm precarizar os portugueses.

A Iniciativa Liberal embala o discurso com palavras bonitas: “flexibilização”, “escolha do trabalhador”.

Mas sem sindicatos, sem rede, sem alternativas, não há escolha — há chantagem. Aceita ou és substituído.

E a “flexibilidade” de uns é a servidão dos outros.

E no meio, a AD — que dizia querer “a economia a crescer como nunca” — apresenta um pacote que destrói tudo o que fez o país resistir à crise: reduz direitos, agrava desigualdades e abre portas a despedimentos em massa.

CGTP e UGT, unidas — até os sindicatos mais próximos do PSD — chamaram-lhe o que é: a lei final, o fim do trabalho com dignidade.

E enquanto o Governo legisla o retrocesso, o país distrai-se com eleições de clubes de futebol, reality shows e os espetáculos do populismo.

Cada vez que o Chega fala em “burqas”, em “criminalidade”, em “corrupção socialista”, um novo artigo da lei é aprovado para tirar direitos a quem trabalha.

Cada vez que a IL fala em “produtividade”, um novo trabalhador é despedido e recontratado como precário.

Cada vez que a AD fala em “modernização”, é mais um turno de 12 horas disfarçado de “escolha”.

Esta é a nova Troika.

Não vem da Alemanha.

Vem das bancadas da Assembleia da República.

E não pensem que isto fica pelo privado.

Depois de destroçarem o sector privado, irão atrás dos funcionários públicos, dos professores, dos médicos, dos enfermeiros.

Quem trabalha é o alvo.

O projeto é claro: um país obediente, cansado, barato, onde o Estado serve os poderosos — nunca os que trabalham.

Um ano e meio bastou.

Sem pandemias e sem guerras, rebentaram as finanças, travaram a economia, destruíram a coesão social, pioraram o SNS.

Um Governo de ilusões e diversões: o que estava mal, piorou; o que estava bem, mal ficou… só ganharam os que já estavam a ganhar.

Meus caros, votaram com medo de imigrantes, ciganos e burcas?

Agora que lhes deram o poder que queriam, o alvo são vocês.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

As eleições do Benfica e a manifestação de trabalhadores em Lisboa

(Carlos Esperança, in Facebook, 09/11/2025)

Na imagem o desfile dos manifestantes captado por um jornal diário.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Ontem, com a Pátria suspensa nas eleições presidenciais (do Benfica), a ameaçar uma longa noite para contagem dos votos em Portugal e no Mundo, desliguei cedo a TV.

Compreendi que a SIC-N, RTP-3; CNN; CMTV e NOW, justamente preocupadas com o que estava em jogo, nem em rodapé distraíssem os telespetadores dos mapas interativos e dos sábios que explicavam aos portugueses a evolução dos resultados eleitorais.

Parece que nas duas voltas, a de ontem substituiu a anterior no Guiness, em número de votantes, um orgulho para Portugal e uma glória para o mundo, com a saborosa vitória de Portugal sobre a Espanha em número de eleitores que foram às urnas.

Sem querer fazer comparações vou referir-me a um assunto, secundário é certo, sem negar o mérito do regresso às boas tradições, a devoção a Fátima, o entusiasmo com o Futebol e o êxtase com o Fado ou pôr em causa Deus, Pátria e Família, a trilogia que regressa. Os leitores hão de perdoar-me a referência à manifestação com milhares de trabalhadores, promovida pela CGTP, a contestar em Lisboa alterações às leis laborais, que o Governo está a elaborar.

Não se duvida das boas intenções nem da argumentação convincente de que os trabalhadores não querem vínculos efetivos e se opõem a contratos experimentais que passem a definitivos ou a despedimentos que exijam justa causa.

Será, finalmente, a vitória do conceito de um grande ideólogo, Passos Coelho, que em 11-05-2012 o teorizou: «Despedir-se ou ser despedido não pode ser um estigma, tem de representar uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma escolha livre, uma mobilidade da própria sociedade» (sic).

Deixo ainda as sábias palavras de um ex-deputado, autarca e governador Civil do PSD, que espalhou pelo Facebook, em 20 de outubro p.p.: «As pessoas que pagam impostos e que precisam dos serviços, escolas, hospitais, centros de saúde, tribunais … são novamente prejudicadas e desprezadas pelos grevistas. Os 3 maiores partidos poderiam e deveriam dar as mãos para responder com firmeza a esta rapinagem dos sindicatos».

Perdoem-me, pois, a referência à manifestação que apanhei por acaso num intervalo das eleições presidenciais referidas.

Acordei hoje com a notícia sobre a vitória avassaladora do incumbente. Rui Costa continua, segundo ouvi, presidente de 8 milhões de portugueses.

A esquerda que marchou pela paz… com tanques

(Por Canal Moritz, in Facebook, 06/11/2025, Revisão da Estátua)


Quando o Bloco de Esquerda enviou o seu representante a Kiev, Catarina Martins ainda liderava o partido e falava em “solidariedade com o povo ucraniano”. Soava bem, até se perceber que essa solidariedade vinha em caixotes com mísseis e coletes anti bala.

Rui Tavares e o LIVRE, sempre com o ar moralmente superior de quem escreve manifestos à luz das velas e cita a ONU de memória, não tardaram a juntar-se ao coro. O PAN também, porque aparentemente “defender os animais” inclui agora fabricar cadáveres humanos com selo europeu. E, claro, o PS, sempre fiel ao guião de Bruxelas e Washington, tratou de orquestrar a narrativa do “dever moral de ajudar a Ucrânia”.

O resultado está à vista: inflação, recessão, caos energético, e a Europa a comprar gás americano ao triplo do preço — tudo em nome da liberdade. Ou talvez em nome da indústria militar, que, curiosamente, é quem mais prospera quando o resto da gente passa frio e conta trocos no fim do mês.

O PCP, esse sim, manteve-se de pé. Não cedeu à histeria, não trocou princípios por manchetes fáceis. Disse desde o início: a guerra não se combate com armas, combate-se com diplomacia. E teve razão. Por isso foi insultado, ridicularizado, acusado de “putinista”. Tudo por recusar alinhar na cruzada moral patrocinada pela NATO e pelo marketing de guerra europeu.

Mas convém recordar algo que os moralistas de sofá fingem não saber: a Rússia de Putin não é comunista. É um regime capitalista, oligárquico e profundamente desigual. E o PCP nunca o defendeu. O que o PCP sempre defendeu foi a verdade — a de que as sanções feriram mais a Europa do que o Kremlin, e de que o verdadeiro objetiva de todo este espetáculo foi consolidar o domínio económico e energético dos EUA sobre o continente europeu.

Hoje, quando o governo repete que “não há dinheiro” — nem para as reformas, nem para o SNS, nem para os salários — talvez fosse honesto acrescentar: porque o dinheiro foi parar a Kiev.

E talvez Rui Tavares, Catarina Martins, Inês Sousa Real e José Luís Carneiro devessem ter a decência de admitir o erro e pedir desculpa ao povo português. Mas não o farão. Porque é mais fácil continuar a posar para a fotografia da “paz” enquanto se aplaude a guerra — desde que a guerra seja feita pelos outros.

E agora, para completar o circo, Zelensky anuncia que a Ucrânia vai abrir escritórios em Copenhaga e Berlim para vender o armamento excedentário — o mesmo que foi pago com dinheiro europeu, o mesmo dinheiro que faltou às reformas e ao SNS.

Fica então a dúvida: quem vai ser o CEO desta nova aventura empresarial? Será Rui Tavares, Catarina Martins, Inês Sousa Real ou José Luís Carneiro? Ou será que teremos outro rosto da política portuguesa pronto para faturar em nome da liberdade e da paz? E já agora — qual será o ordenado dessa nova equipa de gestão humanitária?

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.