A esquerda, as eleições e a guerra na Ucrânia

(Whale project, in Estátua de Sal, 16/03/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Miguel Castelo Branco, sobre o envio de 100 milhões de euros para a Ucrânia, (ver aqui). Pela sua atualidade resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 17/03/2024)


Se as eleições tivessem sido em Março, ou em Abril de 2022, tinha sido pior ainda.

O Bloco de Esquerda, após a Guerra do Iraque, tratou de arrepiar caminho e engolir todas as narrativas do Natostão.

Foi assim na campanha de destruição da Líbia, foi assim na Síria, foi assim, até com a justificação que usaram para o ato meio tresloucado do Trump, ao assassinar o General iraniano Qasem Soleimani. Afinal de contas, diziam os bloquistas, o homem não tinha feito nada pela democracia. Presumo que isso justificaria alguém ser assassinado. A esse título, metade da população mundial poderia ser morta.

Na guerra da Ucrânia trataram de manifestar, desde a primeira hora, a solidariedade sem reservas aos pobres ucranianos e a condenação total da Rússia.

Foi assim que conseguiram evitar os ataques cerrados dos comentadeiros a soldo da hierarquia e manter o seu eleitorado. Afinal, não vem mal ao mundo num partido que defende os pobrezinhos e uns salários mais decentes, mas não toca nas grandes narrativas dominantes.

Ora, o que o Partido Comunista disse acabou por não ser muito diferente do que disse o Papa Francisco, quando referiu que, talvez a guerra não tivesse acontecido, se a NATO não andasse a ladrar às portas da Rússia. E tratou de ressalvar que em nada se identifica com o regime oligárquico de Putin, mas que era preciso reconhecer que havia forças sinistras na Ucrânia – nomeadamente nazis -, e que um país como a Rússia – que muitas vidas perdeu para o nazismo -, devia sentir-se ameaçado, já que a NATO tudo fez para que a guerra acontecesse. Em nenhum momento o PCP deu qualquer apoio expresso ou tácito à invasão russa, apenas disse que a dita não nasceu do nada, mas sim de um processo de provocação que começou, pelo menos em 2014.

Claro que, como esse partido é uma verdadeira pedra no sapato da oligarquia que nos faz perder direitos todos os dias, a nossa comunicação social, detida pelos nossos oligarcas, tratou logo de arregimentar os comentadeiros para fazer a colagem e criar a identidade, comunistas = putinistas. E, tal era tanto a verdade e ficava provada, pelo facto do Partido Comunista Russo ter apoiado a invasão. A sério, houve quem dissesse isso.

O que não deixa de ser caricato. A invasão russa foi-nos vendida como um ato solitário e tresloucado de um homem que se sabia à beira da morte por cancro, e queria, de algum modo, ficar na História. Mas depois já os comunistas portugueses deviam pagar porque os comunistas russos tinham apoiado a suposta decisão tresloucada e solitária de Putin. Aí, já não era suposto, até terem tido medo de serem mortos por aquele temível envenenador.

Ora, no caso dos comunistas russos, e de todos os outros partidos com assento na Duma, em Fevereiro de 2022 toda a gente sabia que haveria uma grande invasão ao Donbass. Dirigentes banderistas prometiam o massacre de pelo menos um milhão de pessoas e a expulsão das restantes para a Rússia.

E, desde 16 de Fevereiro de 2022, a coisa estava bem encaminhada. A artilharia começou a atacar forte e feio e as explosões chegaram a ser reportadas pelos nossos media como festejos com fogo-de-artifício, pelo facto de Putin finalmente ter reconhecido a independência daquelas regiões da Ucrânia.

A verdade é que nenhum partido russo – por muito amante da paz que fosse, ou se afirmasse -, queria ter às costas o ónus da morte de um milhão de pessoas, violações, torturas, expulsão dos sobreviventes e todas as malfeitorias provocadas pelo modo de atuação já demonstrado pelos bandeiristas. Seria um saldo mortal para qualquer partido, e até para Putin, que talvez enfrentasse aí a revolta popular e militar, que nós tentamos instilar com as sanções.

Eu queria ver o que faria o garnisé cantante Macron, o cara de pão ralo do Scholz, ou até a senhora de cabelo lambido Van der Pfizer, se se vissem ante a possibilidade de enfrentar, em tempo curto, um pelotão de fuzilamento ou o fundo da Sibéria. Talvez tratassem de renunciar e deixar a outro o pepino.

Por cá, o PCP foi logo vilipendiado e mais ainda quando, no 25 de Abril, os deputados comunistas não quiseram engolir o sapo de ouvir o que o liberticida Zelensky – que por lá, na Ucrânia, atacava os comunistas com a fúria dos nazis -, tinha a dizer na nossa casa da democracia. Justamente no dia em que festejávamos a queda de um regime, semelhante ao que ele instituiu na Ucrânia, já antes da invasão russa. Esta, deu lhe o mote para avançar mais ainda, ilegalizando tantos partidos – ao que consta, doze -, mas já antes opositores desapareciam, eram assassinados em plena rua, tinham de fugir para a Rússia ou iam malhar com os ossos na cadeia. Cadeias, que são muito más para a saúde e, onde as mortes são tantas, que é preciso cremarem os mortos.

Pois foi este traste que os deputados bloquistas ficaram a ouvir, enquanto os deputados comunistas trataram de se poupar da azia de ficar a ouvir o carrasco dos comunistas ucranianos. Mas, aos bloquistas, não fez nenhuma mossa o destino dos esquerdistas ucranianos. Já para não falar de outras minorias para eles tão queridas.

São escolhas e, temos de concluir que em termos de ganhos eleitorais, a escolha bloquista, desde a destruição da Líbia, é a mais acertada. Esta escolha contribuiu, em muito, para os comunistas serem mais uma vez os maus da fita, só faltou o comem criancinhas.

Assim, até tivemos um fascista ucraniano a pedir, em direto na televisão, a ilegalização do PCP e a perguntar como é que era possível ainda haver em Portugal um partido comunista, sem que ninguém, mesmo à esquerda, o mandasse para a senhora mal comportada que o desovou. Nas rodas de bêbados, de onde certamente saíram muitos dos votos do Chega, ouviam-se, desde pedidos da tal ilegalização, até à deportação para a Rússia de todo aquele que fosse militante comunista. Em frente a algumas sedes do PCP foram colocados verdadeiros altares em homenagem às vítimas da guerra na Ucrânia, na Ucrânia ocidental, bem entendido, as paredes pintadas com slogans de todo o tipo. E, como se viu, a campanha resultou em pleno. Claro que alguma coisa falhou na campanha comunista, que nunca conseguiu desconstruir esta narrativa aldrabona e nefasta.

Mas se o PCP ainda teve alguma votação foi mesmo porque as pessoas começam a estar fartas da Ucrânia. Sonharam com uma guerra rápida e agora veem- se perante um conflito que ninguém arrisca dizer como acabará. Estão fartas de perder dinheiro e direitos porque é preciso ajudar a Ucrânia. Não fosse isso e, talvez, tivessem tido o mesmo destino que o CDS teve nas eleições de 2022.

Destino que os comentadeiros continuam a vaticinar: “Ainda não foi desta que corremos os comunas do Parlamento, mas para a próxima é que é”. A ver vamos, como diz o cego.


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Mandem mais dinheiro para a Ucrânia e depois queixem-se…

(Miguel Castelo Branco, in Facebook 15/03/2024)

(É por estas e por outras que o descontentamento grassou no país, tendo sido habilmente explorado pela extrema-direita para alavancar a sua meteórica ascensão eleitoral. É que, se o dinheiro vai para a guerra e para fomentar a morte, não vai para o SNS, a escola pública, as estradas, os médicos, os professores, os polícias, etc. E uma dúvida: estando este governo em gestão corrente, tem competência para tirar dos bolsos dos portugueses tão choruda quantia, ainda mais para a dar a nazis corruptos?

Estátua de Sal, 16/03/2024)


Portugal oferece à Ucrânia mais 100 milhões para a aquisição de munições contratadas a terceiros.

Importa lembrar que o novo grande hospital de Lisboa Oriental custará 390 milhões, um Airbus A320neo, para a renovação da frota da TAP, orça os 100 milhões, um F16, 65 milhões, um cacilheiro 25 milhões, um Canadair de combate a incêndios, 3 milhões e uma escola secundária média, construída de raiz e equipada, não ultrapassa 1.7 milhões.

Não há no Parlamento quem se erga e proteste sem titubeio pelo desbaratar da riqueza nacional angariada em impostos e sacrifícios?

Não há no Parlamento quem confronte o Governo por alienar o erário público em benefício de um Estado terceiro que não pertence à NATO, nem à UE? Este potlach tem de acabar.


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E agora, Sr. Presidente?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 15/03/2024)

(É por estas e por outras que tenho que trazer à ribalta muitos dos textos do Miguel Sousa Tavares. É dos poucos, com acesso à comunicação social de larga difusão, que tem a coragem de “chamar os bois pelos nomes”, como neste texto em que escalpeliza brilhantemente o papel de Marcelo Rebelo de Sousa, no derrube do Governo de António Costa e na consequente ascensão meteórica da extrema-direita. Por isso mesmo, a ilustração acima – da nossa escolha, e não constante na publicação original -, é uma alegoria à sua junção às vazias acusações do MP contra o Primeiro-ministro cessante.

Estátua de Sal, 15/03/2024)


E agora, Sr. Presidente, como é que nos tira desta embrulhada onde nos meteu? Como aqui escrevi há duas semanas, o rol de promessas eleitorais, associado à conjuntura internacional, torna Portugal ingovernável: ou porque não serão cumpridas e serão então cobradas nas ruas e nos serviços públicos, ou porque serão cumpridas e nos levarão à falência.


Como era mais do que previsível, acordámos segunda-feira com um país ingovernável. Era previsível para qualquer um, mas especialmente para alguém como Marcelo Rebelo de Sousa, que passou uma vida inteira a acumular fama e proveito como imbatível leitor e construtor de cenários políticos, capaz de ler nos astros o que o comum dos mortais ainda não tinha descortinado na parede em frente. Deixemo-nos, pois, de meias-palavras: Marcelo não tem desculpa. Estamos como estamos porque ele assim o quis.

No “Público”, e na esteira de vários outros, Manuel Carvalho escreveu que “o prenúncio desta degradante democracia liberal estava à vista quando uma maioria se extinguiu à luz dos indícios de corrupção”, pelo que “Marcelo fez o que a sua consciência lhe ditava e que o grosso da opinião publicada lhe exigia”. Pois, o problema é que o grosso da opi­nião publicada tomou por indícios de corrupção o que não leu com atenção ou não percebeu, e, no mais, um Presidente deve guiar-se por aquilo que, em cada momento, quer a opinião pública, e não a opinião publicada. Até porque, em contrário, há quem diga mesmo que foi Marcelo quem sugeriu a Lucília Gago que introduzisse no comunicado da Procuradoria-Geral da República o tal parágrafo que ambos sabiam que levaria à imediata demissão de António Costa. Eu não acompanho essa teoria da conspiração ou do maquiavelismo, mas continuo a perguntar-me o que se terá passado na conversa entre o Presidente e a procuradora-geral que antecedeu a demissão do primeiro-ministro: terá Marcelo exigido saber, como lhe competia, o que havia de sólido nas suspeitas em relação a António Costa? E, em face disso — que era nada, como concluiu o juiz de instrução —, conformou-se com a execução pública do PM às mãos da PGR e com a sua demissão? Isto feito, e mal feito, com que legitimidade constitucional optou por recusar o nome indicado por António Costa para lhe suceder na chefia do Governo ou, em alternativa, pedir ao PS que indicasse um nome, como se faz em todas as democracias normais? Quem disse a Marcelo que em 2022 os portugueses tinham votado apenas em António Costa, e não também no PS, e que, se por qualquer razão ele não terminasse o seu mandato, preferiam eleições antecipadas e desembocar na situação que temos agora? A que deve ele obediência: às suas inclinações partidárias, às suas interpretações políticas ou às regras da Constituição da República? E, já agora, para que lhe serviu a opinião de um Conselho de Estado rigorosamente dividido a meio sobre o caminho a seguir? Apenas para o desprestígio acrescido de ver dois dos conselheiros, por si nomeados e ligados à AD, votarem pela convocação de eleições e depois aparecerem a fazer campanha eleitoral pela mesma AD…

E agora, Sr. Presidente?

Não, Marcelo não tem desculpa. Trata-se de alguém que passou anos a defender o valor da estabilidade e da previsibilidade dos mandatos levados até ao fim. Que, nos últimos dois anos, disse e repetiu que nada poderia pôr em causa o ritmo de execução do PRR — a última grande oportunidade de financiar o desenvolvimento do país com dinheiros europeus —, chegando a dizer a uma ministra que não lhe perdoaria um só dia de atraso. E, afinal, manda tudo ao charco em duas penadas e cavalgando uma insustentável ficção processual do Ministério Público relativamente ao PM — que, isso sim, devia preocupá-lo, e muito. Interrompe uma governação antes ainda do meio do seu termo, paralisa o país durante meses, lançando o alerta em Bruxelas, e dá-se ao luxo de deitar borda fora aquilo que qualquer país europeu hoje mais preza: uma maioria absoluta de um partido dentro do sistema democrático. Hoje podíamos ter à frente do Governo alguém como Mário Centeno, o nome que António Costa levou a Marcelo e que este recusou: alguém que nem sequer era filiado no PS, que conhecia o Governo e as finanças, que tinha provas dadas aqui, conhecimento e prestígio lá fora. O país não teria parado, o PRR e os principais dossiês não estariam paralisados e, sobretudo, aqueles que ainda se esforçam por acreditar num futuro para Portugal não experimentariam mais uma vez a decepção de ver a vida a andar para trás, a sua e a de Portugal, porque lá em cima se anda a brincar com coisas sérias para satisfação de protagonismos ou de impulsos infantis.

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Mas não é apenas a instabilidade governativa que eu não perdoo a Marcelo. Mais ainda do que isso, o que não lhe perdoo é ter soltado a besta presa na cave, a besta da demagogia: o Chega. Por mais análises que me forneçam sobre as razões sociológicas e políticas do milhão e cem mil votos do Chega, algumas certamente pertinentes, há uma que desde logo o justifica: a compra de votos. O Chega comprou votos, comprou muitos votos, e comprou-os com uma campanha de demagogia despudorada e irresponsável. Contem-nos: nas forças policiais e respectivas famílias são 100 mil; nos reformados, a quem prometeu, pelo menos, uma pensão equivalente ao salário mínimo, mesmo para quem não contribuiu, serão uns 300 mil; nos professores, a quem prometeu tudo o que reclamam, dos 120 mil terão cativado uns 30 mil; nos agricultores outro tanto, e por aí fora, tudo junto somando metade do milhão e cem mil votos de André Ventura. Num país onde tantos se habituaram a exigir tudo do Estado e tão poucos se perguntam quem e como pagará, o discurso de Ventura está condenado ao sucesso, muito mais do que o racismo, a xenofobia, o autoritarismo e tudo o resto a que, por preguiça, gostam de o reduzir. O sucesso eleitoral de André Ventura chama-se demagogia à solta, e o pior de tudo é que, por competição e por sobrevivência, ele contagiou em larga medida todos os outros. Como aqui escrevi há duas semanas, o rol de promessas eleitorais, associado à conjuntura internacional, torna Portugal ingovernável: ou porque não serão cumpridas e serão então cobradas nas ruas e nos serviços públicos, ou porque serão cumpridas e nos levarão à falência.

Quando recusou a solução de estabilidade governativa que o país esperava e que ele próprio tinha apregoado durante tanto tempo, preferindo antes lançar o país numa aventura eleitoral desnecessária e de efeito previsível, Marcelo sabia ao que ia. Mas não se conteve, porque há muito que ele ia dando sinais de incontinência, aliás com ameaças explícitas. E não venham cá com o desgaste dos “casos e casinhos”, porque no mais grave deles — o caso Galamba, onde Marcelo entrou em choque frontal com o PM, exigindo publicamente a demissão do ministro — ainda estou para perceber qual é a responsabilidade de um ministro que demite um assessor que se recusou a entregar uns documentos exigidos por uma Comissão Parlamentar de Inquérito e depois, sem mais qualquer intervenção da sua parte, vê o assessor invadir à força o gabinete, roubar o computador de serviço e levá-lo para casa, só o devolvendo a um agente do SIS e por intervenção de outro membro do Governo. Mas, ainda que a razão fosse os “casos e casinhos”, a renovação do Governo com a indigitação de outro PM, e exterior ao PS, esvaziava o argumento.

Não, a verdade é outra: o cargo deve ser profundamente aborrecido para quem gosta de viver a vida. O primeiro mandato presidencial acredito até que possa ser estimulante e apelativo: andar por aí a conhecer o país e as pessoas, dar beijos e abraços, ser recebido com a despreocupação de quem só pode prometer o bem e não fazer o mal, viajar lá fora e conhecer os grandes do mundo, escutar o hino com a herança de quase nove séculos às costas. Mas, isto passado, o segundo mandato é mais do mesmo e, sendo o tédio mau conselheiro, a tendência para a asneira torna-se inevitável. Mas nenhum resiste à tentação do segundo mandato, nem mesmo alguém como Mário Soares, que tinha tão mais vida do que aquela que cabia nas paredes de Belém. No primeiro mandato vimos o melhor de Marcelo, um contagian­te suspiro de alívio depois dos anos de chumbo da majestade cavaquista; no segundo, estamos a assistir ao seu pior, à facilidade com que os grandes princípios degeneram numa absoluta vacuidade. Prejudicial ao país. Mas, enquanto o tempo não passa e isto não tem fim, fica a pergunta a que só ele tem obrigação de responder: e agora, Sr. Presidente, como é que nos tira desta embrulhada onde nos meteu? Dia 15 de Março, sexta-feira, cinco dias depois do acto eleitoral, ainda nem sequer sabemos quem ganhou as eleições e se quem ganhou quer mesmo governar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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