Estamos feitos ao bife!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 03/03/2025)

A pérfida Albion a dar as cartas que não tem e os pacóvios seguem-na

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O primeiro-ministro britânico ofereceu a 2 de março um «party» na sua residência oficial — «party» parece-me a melhor definição — a um heteróclito conjunto de personalidades por ele escolhidas, segundo o seu critério e com o pretexto da guerra na Ucrânia.

A primeira conclusão do «party» em Londres é que os ingleses tomaram conta do negócio da Ucrânia em nome da “Europa”, da União Europeia, de onde saíram, e da NATO, onde se mantêm. Os funcionários políticos do topo da União Europeia foram a Londres para serem entronizados como súbitos da Inglaterra. A personagem a quem devem essa distinção, Zelenski, teve direito a audiência pessoal com o soberano inglês, uma personagem com grande relevo na definição dos destinos do mundo, como os ingleses garantem ser.

Do «party» do domingo gordo saíram conclusões para todos os gostos, exceto as da imprescindibilidade de serem necessários dois para dançar o tango e os distintos convidados não explicaram como se estabelece um cessar-fogo, ou uma paz sem falar com a outra parte, com a Rússia, no caso. Nada que o historicamente comprovado génio inglês para transformar vulgares situações de conflitos limitados em caos generalizados não consiga alcançar.

Portugal tem, como sabemos, uma longa relação com a Inglaterra e os ingleses. A lista de negócios ruinosos com os ingleses inclui o saque de Lisboa, o domínio após a batalha de Aljubarrota, os tratados de Windsor e de Methuen, o direito à exploração dos portos do Brasil, como paga da intervenção contra as invasões francesas, as concessões de caminhos de ferro, de telecomunicações o domínio dos portos de Moçambique… A lista é longa. Curta será a lista de quem ganhou alguma coisa com uma aliança com a Inglaterra. Mas há sempre crentes, como se comprova com a fotografia.

A expressão de “estar feito ao bife” tem origem desconhecida, mas existem duas explicações mais consensuais, estar feito ao bife queria significar para os operários portugueses das fábricas e das obras dos ingleses que estavam sujeitos aos castigos dos patrões ingleses e dos seus capatazes, a outra possível origem situa-se no período após as invasões francesas, quando os ingleses chefiados por Beresford tomaram de facto conta de Portugal: “estamos feitos ao bife”, sujeitos aos ingleses, logo, em apuros.

O «party» de domingo revelou que a Europa, ou boa parte dela, a dos seus dirigentes mais vocais e excitados, as «warmongers» Von Der Leyen e a «va t’en guerre» Kallas, o secretário da NATO, está feita ao bife e com os bifes.

Estar feito ao bife tem sido uma constante na política mundial desde o século XVIII, quando a Inglaterra iniciou a sua expansão, que teria o apogeu no século XIX, o século associado à supremacia britânica, o período entre a derrota de Napoleão e a Primeira Guerra Mundial, designado como «Pax Britannica».

«Pax Britannica» é um termo para inchar o orgulho inglês, que ignora as violências exercidas em todo o planeta. Na realidade, o século XIX é o século que revela a prática política da Inglaterra, iniciada com a expansão das Companhias das Índias Ocidentais e Orientais e que deixou um rasto que é designado por “british mistery”, o mistério inglês que leva as outras nações a considerarem a Inglaterra uma entidade política regida por outros princípios que não o do uso da força e da perfídia para impor os seus interesses.

Durante p século XIX a Inglaterra foi a causadora ou a principal promotora de conflitos em todo o planeta, realizando campanhas de expansão oportunistas, sobre a China, a Índia, o Pacífico, o Médio Oriente e a África.

O sistema imperial inglês estruturou-se na expansão territorial das áreas já conquistadas e na formação de redes locais de comércio. No século XIX a Grã-Bretanha aproveitou a oportunidade geopolítica que lhe foi aberta com a decadência simultânea dos impérios Otomano e Chinês. Quanto à rápida expansão britânica sobre a imensa área denominada “Índia”, compreendida do atual Mianmar à costa africana do Índico e o Afeganistão ao norte, ocorreu no vácuo de competidores europeus e baseada no enfraquecimento político e militar dos indianos e dos chineses.

No Médio Oriente, que continua a sangrar, os planos para uma divisão pós-primeira grande guerra do império Otomano, aliado da Alemanha, foram secretamente elaborados pela Grã-Bretanha e pela França sob o acordo de 1916, conhecido por Sykes-Picot. Este acordo não foi divulgado ao Xerife de Meca, que os britânicos encorajaram a lançar uma revolta árabe contra os seus governantes otomanos, dando a impressão de que Grã-Bretanha apoiava a criação de um Estado árabe independente. Entretanto os ingleses firmaram dois outros compromissos repartindo as províncias otomanas em áreas de influência, a britânica, que englobava a Palestina, incluía os territórios da atual Jordânia e de Israel, a Mesopotâmia, que correspondia aproximadamente ao Iraque de hoje, e a Península Arábica. O naco francês compreendia a Síria, que na época abrangia o Líbano e a Cilícia, parte da atual Turquia. Desconhecedor do que se tramava nas suas costas, Thomas Edward Lawrence, Lawrence da Arábia, fornecia orientação militar e armamentos ao príncipe Hussein, emir de Meca, e liderava a revolta árabe contra o domínio turco. Em correspondência secreta enviada a Hussein, Henry McMahon, alto comissário britânico no Egito, prometeu-lhe, em troca da rebelião, a criação de um grande reino árabe independente. Ao mesmo tempo, Lord Arthur of Balfour, ministro dos negócios estrangeiros britânico, enviava uma carta ao poderoso banqueiro Rothschild, vice-presidente do Comitê de Deputados Judeus, tornando público o apoio do “Governo de Sua Majestade” ao “estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu”. Além de granjear para a Inglaterra a simpatia da comunidade judaica internacional, a criação do que viria a ser o Estado de Israel oferecia aos ingleses uma vantagem adicional: privava os franceses do controle do Porto de Haifa, afastando-os, portanto, do Canal de Suez. A “razão e o direito à existência de Israel” resulta deste acordo entre a Inglaterra e a família Rothschild e o ludibrio da França!

Esse tríplice conluio, com franceses, árabes e judeus, por meio do qual os ingleses pretendiam tomar para si a maior parte do bolo do Oriente Médio, não poderia resultar noutra coisa que não fosse uma inesgotável fonte de antagonismos. O conflito israelo-palestiniano, que até hoje dilacera a região, é um produto dessa política de “arrasto e razia” da Inglaterra que está agora a liderar a Europa no conflito com a Rússia e os Estados Unidos.

O elemento mais simbólico do modo de proceder inglês de um punhal em cada mão nas suas relações com os outros atores políticos será, porventura, o de Lawrence da Arábia, oficial do exército britânico durante a Revolta Árabe de 1916–1918, que a Inglaterra começou por apoiar contra o império otomano. No final da Grande Guerra, em 1919, Lawrence tornou-se conselheiro da delegação árabe na Conferência de Paz de Paris, onde viu as antigas promessas da “sua Inglaterra” de reconhecimento da soberania da nação árabe serem traídas. Traído em nome da política de realismo e dos negócios do seu governo.

A China constituiu outro dos grandes imbróglios em que os ingleses se envolveram e envolveram os europeus. Durante o século XIX a China foi invadida pelos contrabandistas ingleses e americanos apoiados pelos seus governos que impuseram que o chá era comprado na China em troca do ópio cultivado na Índia. Esse negócio imposto pelos ingleses conduziu às guerras do ópio, criando o pretexto para a intervenção britânica. A Inglaterra criava mais um inimigo para a Europa. Seria apenas mais um.

A Grã Bretanha, ao contrário do que a encenação dos seus cerimoniais quer fazer crer, não se rege por outros princípios que não sejam o lucro, o negócio antes de tudo e por todos os meios. A Grã-Bretanha rege-se por encenações de etiqueta, pelo estabelecimento de distâncias entre nobres e plebeus, pelos graus com que cada súbdito deve vergar a espinha.

Lealdade e palavra de honra são conceitos desconhecidos dos ingleses nas suas relações com os outros povos. Não é por acaso que os ingleses impõem que o julgamento das disputas resultantes dos grandes contratos comerciais seja feita por tribunais arbitrais ingleses, onde estão em posição de vantagem! É a sua lei que impera!

Quatro dias antes das eleições nos Estados Unidos, o primeiro ministro inglês Keir Starmer estabeleceu um contrato comercial com Zelenski para uma concessão por cem anos da exploração das matérias-primas da Ucrânia e dos portos do país. Depois incentivou Trump a receber Zelenski e este a ir a Washington assinar um acordo de minerais! Mas o que teria Zelenski a negociar com Trump se já vendera à Inglaterra o que tinha valor na Ucrânia? Starmer, o grande amigo da Ucrânia, atirou Zelenski de mãos nuas, ou de bolsos vazios ao dono da banca e esperava que Trump ficasse muito satisfeito com a situação em que surgia como o otário!

O «party» de Downing Street teve como finalidade obter a cumplicidade daqueles convivas para este golpe à moda inglesa. Numa imagem: Keir Starmer, fez de Zelenski uma minhoca no bico de um corvo e pretendeu que os seus convidados o aplaudissem e Trump recebesse a minhoca e fizesse um afago na cabeça do corvo.

O que se pode concluir destes exemplos de prática política da Inglaterra no mundo? Que, quem confia na Inglaterra está feito ao bife, isto é, está à mercê dos interesses do momento.

Paz por meio da humilhação – As agruras do Schnüffelnführer [líder cheirador] Zelensky

(Dmitry Orlov, in Resistir, 04/03/2025)

Belicistas reunidos em Londres, mas com poucas cartas para jogar

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Os tempos em que vivemos estão fazendo com que as cabeças falantes de sempre reclamem incessantemente que os eventos estão se desenrolando demasiado rápido para que consigam acompanhar.

Ler o artigo completo aqui.

União Europeia: um manicómio gerido por pacientes

(Maria Vieira da Silva, in Observador, 02/03/2025)

(De uma pequena toca pode sair um grande coelho. Vejam lá que até o insuspeito jornal da direita, O Observador, publica peças de qualidade sobre a lunática postura da União Europeia relativamente à guerra na Ucrânia. Pela primeira vez publicamos um artigo do Observador. Bem-vindo à Estátua.

Estátua de Sal, 03/03/2025)


A UE tinha duas opções: vencer a guerra ou preparar-se para a paz. Ao invés disso, ela perdeu a guerra e não se preparou para a paz.


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Não há aterro sanitário grande o suficiente para descartar o lixo produzido pelas elites europeias, com o apoio de uma legião de editorialistas, directores, locutores, jornalistas, “jornalistas de referência”, majores-generais, carreiristas e autodenominados especialistas em política internacional e especialmente na Rússia, com o objectivo de empurrar a Ucrânia para um conflito kamikaze ao prometerem uma vitória impossível sobre a Rússia.

As armas decisivas até à vitória sobre a Rússia e sanções para a colocar em incumprimento. Então as setenta doenças de Putin e o seu isolamento do mundo, o novo Hitler que invade a Ucrânia como primeiro passo para invadir a Europa (como se o art. 5.º da NATO não existisse). Depois, a primeira contraofensiva, a segunda, a terceira, cada uma mais surpreendente do que outra. Então o exército russo oficialmente quebrado, que ficou sem homens, munições, mísseis, tanques, navios e tudo o mais, e bate em retirada. Depois as listas de “pacifistas” tolos e de “putinianos” até o Papa e Dostoievski, o “temos o dever de apoiar a Ucrânia até ao último ucraniano”, as viagens a Kiev em sinal de “unidade europeia”, as peregrinações a Kiev para obter uma fotografia ao lado do “herói” Zelensky e de qualquer coisa com o presidente Zelensky para fins de propaganda interna, a Ucrânia na NATO, o “não há alternativa à vitória da Ucrânia sobre a Rússia”, o Plano de vitória de 10 pontos de Zelensky, o Plano de Draghi para a economia de guerra, o “nós já vencemos a guerra”,  as “negociações apenas quando a Rússia devolver os territórios ocupados (incluindo a Crimeia) e se retirar”, o “queremos a paz, mas não podemos negociar com Putin, a paz justa: tudo para nada. Em três semanas, o ciclone Trump, entre uma chamada e outra e alguns grunhidos, virou não só uma das páginas mais vergonhosas de covardia, servilismo e desinformação da história moderna, como decidiu que a guerra na Ucrânia, ou melhor, o que resta dela, tinha de acabar. Com quem ele decide? Ah, claro. Precisamente com Putin.

É Trump um traidor? Não. Ele apenas reconheceu a única coisa que importa: não a política do mais forte, como a falange de janízaros vendidos propaga, mas a realidade inescapável das relações de poder. Uma realidade dolorosa, mas muito menos dolorosa do que uma guerra que, se prolongada, não só multiplicaria o sofrimento do povo ucraniano, como fortaleceria o regime de Putin. Na verdade, acabaria com a Ucrânia (os russos conquistaram 20, e não 100% do país).

E foi precisamente esta realidade reconhecida pelos principais contendores – Putin e Zelensky – e o facto de não ser mais possível manter unido o fracasso da guerra, que levou a UE, depois de dizer “nunca, nunca”, a dobrar os joelhos diante do invasor e do suposto traidor para exigir os seus direitos na mesa de negociação e reconstrução, adquiridos sobre uma trágica pilha de mortos. Mas não só isso. A UE, liderada pelo quarteto Úrsula-Kallas-Macron-Costa (e antes Scholz), também lhes implora por “garantias de segurança”, como se fossem todos estatuetas de Chamberlain e Daladier.

Sejamos claros. Nestes três anos, a UE tinha duas opções: vencer a guerra ou preparar-se para a paz. Ao invés disso, ela perdeu a guerra e não se preparou para a paz. E não foi por falta de oportunidades para chamar a si o papel natural de mediadora, ao invés de entrega-lo ao ditador Edorgan, a Xi, ao Papa, Orbán e Trump. Ela poderia ter apoiado o acordo russo-ucraniano em Istambul dois meses após a invasão, em condições muito mais vantajosas para a Ucrânia do que aquelas que obterá agora: ao invés disso, ficou do lado dos sabotadores Johnson e NATO. Poderia ter pressionado Zelensky a negociar após a primeira contraofensiva ucraniana: em vez disso, pressionou-o a “lutar até à vitória” e a assinar um decreto que o proíbe de negociar com Putin (a propósito: quando irá aboli-lo?). Poderia ter advertido Zelensky para a inutilidade de uma Cimeira da Paz sem a Rússia: ao invés disso, Von der Leyen apoio-o (a mesma Von der Leyen que agora treme de indignação por ter sido excluída das negociações em Riad). Poderia, ainda, ter apoiado Orbán e Scholz, que reabriram os canais com Putin antes da chegada de Trump: em vez disso, a UE excomungou-os. E a culpa é de Trump?

Obviamente, não. A UE tem sido uma caricatura de si mesma desde antes de Trump, e à medida que os “véus da propaganda” são levantados, menos dúvidas restam de que foram os seus excessivos complexos de superioridade que a conduziram ao beco sem saída em que se encontra, ao sobrestimar a sua própria força e subestimar a força da Rússia. Em suma, a UE baseou a sua política na força. Sem forças, ela ficou sem política.

E, em lugar de reconhecer o erro, os líderes europeus mais cegos do mundo, querem convencer Trump (e os cidadãos europeus) de que a sua belicosidade grotesca é a única que pode ser adoptada e que sua narrativa é a única confiável. Então eles dedicam-se, com uma determinação assustadora, a transmitir a ideia de que, a UE, é hoje, parafraseando Keijo Korhonen, “um manicómio gerido por pacientes”. É o que acontece quando, por exemplo, os ouvimos dizer que vão enviar tropas de paz para Kiev, quando não há sequer uma trégua à vista, armas, mesmo sem guerra, mais sacrifícios humanos (de outros) para travar o avanço de Putin. Trump não os apoia? Iremos sozinhos contra o mundo. Sim, parece ficção. Faz lembrar algumas das cenas finais do filme “A Queda”, em que os últimos generais reunidos em torno de Hitler no bunker movimentam divisões e tanques que não existem mais.

Infelizmente, não é ficção. No manicómio de Von der Leyen tudo gira em torno de guerra. É a guerra, e não a paz, a cola que ainda mantém a UE unida. A comprová-lo está, entre outros, o anúncio que fez, com um sorriso de orelha a orelha, que vai permitir aos países-membros gastarem à tripa-forra em defesa sem restrições orçamentais.

Ou seja, de pelo menos 3% do PIB (apresentados como um desconto em relação aos 5% exigidos por Trump) o que equivale a um aumento de 50%” em relação às despesas militares da Rússia, segundo o Osservatorio CPI. E para quê? Para se preparar uma guerra hipotética contra a Rússia. Tipo: “as nossas sanções produziram um efeito devastador na máquina de guerra russa”. Tudo isso sem que a UE tenha ainda dito uma palavra clara sobre o que quer: “Vitória militar total da Ucrânia” e “mudança democrática na Rússia e em outros países autoritários como a Bielorrússia”, como consta na resolução votada há um mês em Bruxelas?

E diante deste silêncio ensurdecedor, convinha saber quais são, de facto, os interesses que a UE persegue e defende, porque não está claro se estamos perante um movimento desesperado para tentar voltar a um jogo do qual foi totalmente excluída ou se, pelo contrário, a “paz justa”, pretendida pelas classes dominantes europeias, esconde um desejo de uma paz o mais injusta possível para os ucranianos. Senão mesmo, a sua extinção.

Fonte aqui