O psicopata narciso, o sócio criminoso, os idiotas inúteis e o ministro satisfeito

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 06/03/2026)

Com metade da Marinha e da Força Aérea americanas reunidas à volta do Irão, o nosso MNE pretende ter sido o único habitante do planeta Terra que não suspeitou que aquilo não seria para um simples desfile ou um passeio turístico! Paulo Rangel envergonha-nos.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Como o mundo inteiro já percebeu, Donald Trump tornou-se um caso de psicopatia à solta, agravado por um narcisismo sem limites e uma crueldade inata, patente no prazer de humilhar, ameaçar e atacar os mais fracos. É um homem mau, dotado do poder imenso de ditar os destinos da Humanidade: o Calígula do nosso tempo. É certo que o mundo fica bem melhor, aliviado de Nicolás Maduro, dos discípulos da ditadura de Fidel Castro ou do regime de terror dos clérigos iranianos. Mas quem nos livrará de Trump e de Netanyahu?

Trump fez ao Irão o mesmo que os japoneses fizeram aos americanos em Pearl Harbor e que estes classificaram como “o dia da infâmia e da traição”: atacar maciçamente quando decorriam negociações entre ambas as partes para evitar a guerra. Depois, começou por justificar o ataque (mais uma operação de guerra desencadeada no conforto de um fim-de-semana em Mar-a-Lago) com a iminente possibilidade de o Irão se dotar de armas nucleares. Mas como toda a gente lembrou que essas armas, verdadeiras ou imaginadas, tinham sido declaradas por ele como “totalmente obliteradas” no precedente ataque dos Estados Unidos ao Irão em Junho passado, mudou a justificação para a “continuação da obliteração das armas nucleares” e destruição dos mísseis balísticos iranianos e, finalmente, para o facto de ter pressentido que se não atacasse primeiro, seria o Irão a atacar os Estados Unidos. Porém, a verdadeira história remonta à presidência de Obama, quando EUA e Irão assinaram um acordo sobre o nuclear, apesar de todas as tentativas de Israel para o impedir. Nos termos desse acordo, o Irão não poderia enriquecer o urânio em mais do que 3,65% e para fins civis (quando é preciso enriquecê-lo a 70% para fins militares), e sujeitou-se a inspecções regulares da Agência Internacional de Energia Atómica. Chegado ao poder no seu primeiro mandato, Trump tratou imediatamente de rasgar o acordo, deixando o Irão de mãos livres para continuar a desenvolver o programa nuclear: certamente que Trump e o seu “amigo” Netanyahu já então cogitavam outras formas de resolver o assunto. E o curioso é que ao mesmo tempo que rasgava o acordo assinado com o Irão, assinava outro com os talibãs do Afeganistão, aceitando retirar as tropas e entregar o país à barbárie medieval e à morte de todos os que tinham cooperado com os Aliados.

Agora, Trump lançou mão da táctica dos cobardes: usa a superioridade aérea e balística e a IA para atacar sem ter de arriscar vidas americanas, o que tornaria esta sua aventura impopular internamente. Sem pôr botas americanas no terreno, o corajoso empresário do imobiliário que chegou à Presidência dos Estados Unidos, exortou, sem corar de vergonha, o povo do Irão a “fazer o resto porque nós já fizemos a nossa parte”: isto é, a sublevarem-se, desarmados, contra os 200 mil homens em armas que protegem o regime. No mês passado, quando disse que estava a caminho para os ajudar, 30 mil iranianos morreram sob as balas da ditadura sanguinária dos ayatollahs, quando invadiram as ruas acreditando na promessa de Trump.

2 Benjamim Netanyahu, “Bibi” para os seus, enfrenta um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional por crimes contra Humanidade cometidos em Gaza — onde, em dois anos, deixou um legado de pelo menos 70 mil mortos e total destruição. Aproveitou o derrube de Assad, na Síria, para abocanhar mais um bocado do país, sem sequer se preocupar em apresentar uma justificação. Fez assassinar à bomba inimigos em países estrangeiros, Irão, Líbano e vários outros, e no Catar até atacou com um míssil a delegação do Hamas com quem estava supostamente a discutir um acordo de paz. Está, pois ao nível daquele que chama “o meu amigo Donald Trump”, que procede à “extracção” de um chefe de Estado estrangeiro em pleno sono e em pleno palácio presidencial no seu país, ataca, afunda e metralha os sobreviventes de petroleiros estrangeiros transportando petróleo de um país estrangeiro para outros, em águas internacionais, e bloqueia, chantageia ou ameaça invadir os países que cobiça ou que não lhe obedecem, incluindo supostos aliados. Para estes dois também parceiros de negócios, actuais e futuros, o direito internacional, a Carta da ONU, os acordos celebrados, não valem nada perante circunstâncias ou oportunidades supervenientes. Mas, apesar de tudo, apesar de há mais de 40 anos Israel ser o factor determinante da instabilidade no Médio Oriente e mesmo a mais provável causa de uma guerra mundial generalizada, durante todos esses anos, Israel só dava um passo em frente com a prévia aprovação dos Estados Unidos. Hoje, como se está a ver no Irão, os Estados Unidos já não são apenas a guarda pretoriana da expansão israelita rumo ao “Ersatz Israel” (o Grande, o Prometido Israel): são a sua guarda avançada. Mas se ambos reclamam subtilmente os louros do ataque cirúrgico que decapitou o Irão nas primeiras horas da guerra, ambos descartam, passando ao outro, a responsabilidade pela morte de 150 raparigas num ataque menos cirúrgico a uma escola do interior.

Saiba mais aqui

 

3 Já o tínhamos visto com Gaza, com a Venezuela, com Cuba, mas agora a subserviência dos europeus perante o Calígula americano atingiu o limite da falta de vergonha. Ficará para sempre como uma nódoa, mais uma, sobre este escol de gente que nos governa, o seu silêncio sobre o assassínio das 150 crianças em plenas aulas (o que não diriam se tivesse sido um ataque do Irão em Israel ou da Rússia na Ucrânia?). Conseguiram apenas produzir um apelo “à contenção” e condenar o Irão pelo ataque aos países vizinhos — isto é, às bases americanas nos países vizinhos, de onde saíam os aviões para o atacar — não tendo, em contrapartida, um sussurro de condenação do ataque israelita e americano, em violação de tudo aquilo em que a Europa diz acreditar. Salvou-se, como de costume, a Espanha, e, em certa medida, a Inglaterra, que não pertence à União — ambos já ameaçados com o adequado castigo pelo amigo de Epstein. Mas, de cedência em cedência, de silêncio em silêncio, o destino inevitável da Europa é a total submissão à vontade e interesses dos Estados Unidos de Trump.

4 Ao lado da Espanha, porém, existe um país cujo MNE e o seu Governo, não só ofereceram livremente uma base aérea essencial no ataque ao Irão, como o ministro até conseguiu antecipar-se e ir ainda mais longe que a UE. Ele acusou o Irão de cobardia por ter atacado os vizinhos e não os Estados Unidos (a 12.000 km de distância, com mísseis que só alcançam 2500…) e por não ter atacado Israel — o que é redondamente falso, como toda a gente viu. Como falsa é a afirmação de que a base açoriana não foi utilizada em nenhuma acção de guerra (os aviões estariam em passeio…). As suas atrapalhadas explicações sobre a utilização das Lajes ao abrigo do Decreto-Lei 2/2017 ou do acordo luso-americano não conseguiram esconder a evidência de que nenhum deles foi respeitado. A “autorização tácita” ao abrigo do DL 2/2017 não é aplicável para a passagem ou estacionamento de armas, e a autorização abrigo do acordo, que ele diz que só foi dada mediante condições, não cumpriu logo a primeira delas: a de se tratar de resposta a um ataque do Irão (e que ataque foi esse?). Ouvi quem se atravessasse por ele, dizendo que Portugal não podia fazer nada mais do que aquilo que os Estados Unidos quiseram, sob pena de criar um incidente diplomático com eles. Talvez, mas então seria mais decente declarar logo que o acordo é uma fantochada e que tudo o que os EUA quiserem ou ordenarem, nós fazemos e obedecemos. Com Paulo Rangel, isso nem precisa de ser dito: este é o homem que passou dois anos em silêncio cúmplice com o genocídio de Gaza, que achou que o rapto do presidente da Venezuela foi uma acção “benigna”, que queria que Portugal integrasse o Conselho da Paz de Donald Trump, inventado para afundar de vez a ONU e num momento em que um português é seu secretário-geral, e o mesmo que foi a Madrid, a um comício eleitoral da direita espanhola, fazer uma patética figura aos gritos histéricos de “Espanha, no te mates!”, para apelar ao voto contra o partido no Governo, perante o espanto da própria audiência. E que agora tem o desplante de afirmar, para justificar a oferta das Lajes, que “não nos foi dito (pelos Estados Unidos) que ia haver uma operação militar”: com metade da Marinha e da Força Aérea americanas reunidas à volta do Irão, o nosso MNE pretende ter sido o único habitante do planeta Terra que não suspeitou que aquilo não seria para um simples desfile ou um passeio turístico! Paulo Rangel envergonha-nos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

A multinacional do genocídio

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 12/02/2026, revisão da Estátua)


Apesar de se comprometer com o acordo de cessar-fogo, Israel faz o que sempre fez: viola-o diariamente, agora sem que os holofotes mediáticos incidam sobre a barbárie.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Israel, como é próprio da sua inspiração, criação e existência, é um Estado abençoado. Como estava a sentir dificuldades operacionais, logísticas e financeiras para concretizar o principal objectivo do sionismo, o extermínio do povo palestiniano, veio em seu socorro uma espécie de coligação internacional, chefiada pelo inevitável Donald Trump, para receber um novo impulso nessa tarefa. Com a vantagem de as acções para continuação do genocídio não aparecerem como um crime, mas sim como uma brilhante solução, aos olhos da opinião pública internacional.

«Nova Gaza», chama-se o milagre, apresentado como uma espécie de início da aplicação do não menos extremoso «Plano Trump» em 20 pontos, por sua vez interpretado como o caminho para o cessar-fogo em Gaza, uma coisa que não aconteceu nem está em vias de acontecer.

No terreno há duas razões que impedem o cessar-fogo de que a comunicação social globalista fala como se existisse para evitar falar de Gaza e apagar das memórias efémeras do cidadão comum os horrores da matança que durante semanas revelaram a essência criminosa do sionismo. Em primeiro lugar, apesar de se comprometer com o acordo de cessar-fogo, Israel faz o que sempre fez: viola-o diariamente, agora sem que os holofotes mediáticos incidam sobre a barbárie. Em segundo lugar, a Resistência armada Palestiniana, erradamente designada como «o Hamas», não esteve de acordo com os termos do cessar-fogo, porque impunha a sua desmilitarização unilateral. O que implicava deixar o povo palestiniano, não só de Gaza mas também da Cisjordânia e de Jerusalém Leste, à mercê da sede de sangue dos militares e do governo de Israel.

Construir a casa pelo tecto

A existência de um cessar-fogo em Gaza é a condição indispensável para que possa avançar-se no caminho da pacificação e da reconstrução do território, mesmo segundo as fórmulas maravilhosas engendradas por Trump e a sua administração sionista, de mãos dadas com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

De modo que a divulgação recente do projecto «Nova Gaza», desdobrado em «Nova Gaza» e «Nova Rafah», as duas principais cidades do território, equivale a iniciar a construção de uma casa – «a paz», como lhe chamam os autores – pelo telhado. É uma idealização no abstracto, mas diz tudo o que tencionam fazer os Estados Unidos, Israel e todos os países e organizações que vão aderindo à megalomania genocida.

Não existem razões para hesitar em qualificar estas manobras como genocidas.

Os projectos apresentados por Trump têm como objectivo declarado «a reconstrução urbanística e económica da Faixa de Gaza, criação de emprego através do desenvolvimento turístico e a implantação de serviços tecnológicos.

No essencial, a «Nova Gaza» é uma versão retocada da anunciada transformação do território num imenso resort turístico, ideia que surge fundida, sem grande cuidado, no todo designado «reabilitação urbana».

Nem é preciso analisar em pormenor os planos de Trump para se perceber que a exploração turística da paradisíaca costa mediterrânica do território através de empreendimentos de grande luxo é o núcleo central transformações pretendidas para o território, funcionando todas as outras áreas de desenvolvimento como estruturas de apoio ao turismo.

O plano de Trump confirma essa interpretação porque prevê expressamente «um grande desenvolvimento costeiro com arranha-céus, no âmbito da criação de um resort do tipo Dubai».

Esqueceram-se dos palestinianos

Quem vai supervisionar este mirífico «processo de reconstrução» sobre um território com dois milhões de habitantes sob o qual jazem dezenas de milhares de seres humanos exterminados para concretizar o plano genocida do sionismo?

O plano prevê a criação de um «Conselho de Paz» com esse objectivo, uma entidade internacional «liderada pelos Estados Unidos». O papel executivo será desempenhado por uma equipa de «tecnocratas palestinianos», sob o controlo do «Conselho de Paz» e de «forças militares internacionais». Ninguém sabe quem são nem qual a origem dos «tecnocratas palestinianos», uma formulação que tem surgido de maneira recorrente ao longo de décadas e que traduz a busca incessante por Israel de traidores e colaboracionistas dizendo-se palestinianos e que nada têm a ver com as estruturas representativas do povo palestiniano. Essa procura tem sido um fracasso, mas ignora-se que cartas têm na manga Trump e os seus conselheiros indigitados para o «Conselho de Paz», designadamente o genro, o sionista Jared Kushner: o seu caixeiro viajante preferido nos «processos de negociações», de compras, invasões, detenção de dirigentes estrangeiros e anexações, Steve Witkoff .

Acordo para não atacar centrais de energia?

(João Gomes, in Facebook, 29/01/2026, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Fala-se, nas últimas horas, de um possível entendimento entre a Ucrânia e a Federação Russa para evitar ataques a centrais de energia e infraestruturas críticas. Fala-se – e é importante sublinhá-lo – sem confirmação oficial, sem comunicado conjunto, sem garantias verificáveis. Por agora, trata-se de um dado incerto, mais próximo de um sinal do que de um acordo.

Ainda assim, o simples facto de esse sinal existir não é irrelevante. Num conflito em que a energia foi usada como arma – para escurecer cidades, paralisar economias e pressionar populações civis – qualquer indício de contenção merece atenção. Não por ingenuidade, mas por realismo: as guerras raramente terminam de repente; começam, quase sempre, por pequenas suspensões do absurdo.

O ceticismo é inevitável. A experiência recente mostra que entendimentos deste tipo foram anunciados, violados e enterrados em poucos dias, por ambas as partes. A palavra “acordo” tornou-se frágil, quase decorativa. Mas também é verdade que ninguém negoceia a paz a partir do silêncio absoluto das armas – começa-se, regra geral, por escolher o que já não se ataca.

Se este eventual compromisso se confirmar, será menos um gesto de boa vontade do que um reconhecimento tácito de limites: há infraestruturas cujo ataque deixa de trazer vantagem estratégica e passa apenas a acumular desgaste político e humano. É pouco, mas não é nada.

Convém, portanto, manter duas atitudes em simultâneo: prudência e atenção. Prudência para não vender ilusões; atenção para não desperdiçar sinais.

Porque, numa guerra prolongada, até uma pausa mal definida pode ser o primeiro ensaio de uma negociação mais séria. E, neste momento, qualquer ensaio – por frágil que seja – já é melhor do que a repetição mecânica da destruição.