Problemas de cognição

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/01/2025)

Para provocar aquilo que se designa por Transformação do Conflito é preciso que uns percebam o problema dos outros. Perceber – um exercício básico – não significa concordar. Significa, tão somente, recolher informação para ajudar as partes a resolverem os seus diferendos.


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Depois de ler a crítica do Dr. Paulo Sande (PS) ao meu artigo no JE apercebi-me da sua dificuldade em interpretar o que escrevi. Fiquei na dúvida se essas dificuldades eram genuínas.

A “Intransigência cognitiva” que referi significa teimosia e não “intransigentes com défice cognitivo” como escreveu PS, num enviesamento interpretativo. A intransigência cognitiva por mim mencionada – uma metáfora não atingida – referia-se a três temas concretos (a adesão da Ucrânia à NATO, a recusa em negociar uma nova arquitetura de segurança europeia, e a presença de forças militares europeias na Ucrânia) e não ao que PS disse que eu tinha dito (“criticar sistematicamente os europeus, a NATO, e todos quantos condenam a invasão russa, de forma geral e genérica, chamando-os de ignorantes e intransigentes com défice cognitivo”).

Escrevi em várias ocasiões – e reitero – que a guerra travada na Ucrânia é ilegal. Mas PS veio insinuar que não é isso que eu penso (“e não me venha o Major-General dizer que não, porque eu também não lhe direi como planear uma batalha”). Estaremos, então, perante truques para ganhar audiência, ou antes dificuldades interpretativas?

Interrogo-me porque é que PS possuidor de acumulada experiência em assuntos europeus se autolimitou exibindo uma incomum superficialidade analítica. Por exemplo, recupera o Memorando de Budapeste (MB) como tábua de salvação para justificar o seu argumento. Tanto a Rússia como os EUA, de modo diferente, violaram o estabelecido no MB, embora não o admitam. A menos que PS considere lícito promover operações de mudança de regime (2004 e 2014) e depois dizer que isso não é uma violação do MB; assim, como o desvalorizam: não se trata de um tratado internacional, não cria direitos ou obrigações ao abrigo do direito internacional. Não impõe aos Estados signatários obrigações jurídicas adicionais além daquelas que já tinham no momento da sua assinatura. Os EUA negam que não tenham cumprido as suas obrigações argumentando não ser “O Memorando de Budapeste um acordo sobre garantias de segurança”.

A Ucrânia abandonou o armamento nuclear porque não tinha dinheiro para o manter (leia-se o que então disse o presidente ucraniano Leonid Kravchuk sobre o assunto) e porque não lhe era útil. As chaves encriptadas que permitiam a sua utilização estavam em Moscovo. Os EUA pressionaram o desarmamento nuclear ucraniano porque receavam que os ucranianos retirassem o plutónio das ogivas e o vendessem a atores pouco recomendáveis, como já aconteceu com parte do armamento fornecido agora pelo Ocidente. Para além de propaganda, o MB não serve para mais nada.

E, por falar da neutralidade ucraniana, quem primeiro a violou foi Kiev: (1) na sequência da revolução laranja, em 2004, ao identificar a adesão à NATO como o seu principal objetivo de política externa. Yanukovych, considerado pró-russo, reverteu essa política promovendo a chamada non block Policy, de neutralidade relativamente aos EUA, UE e Rússia. Exatamente por isso, os EUA promoveram o golpe de Maidan (2014); (2) ao que se junta o convite para a adesão da Ucrânia à NATO, na Cimeira de Bucareste (2008), promovido pela Administração George W. Bush (será que a intervenção russa na Geórgia teria a ver com isto?); (3) a alteração da Constituição ucraniana para incorporar essa adesão; (4) a parceria Ucrânia – EUA onde a entrada na NATO é definida como o principal objetivo de política externa a atingir. A menos que PS considere a entrada da Ucrânia na NATO um ato de neutralidade.

Talvez a análise de PS saísse mais enriquecida com a referência aos acordos de Belavezha (1991) em que a Ucrânia se comprometeu a respeitar os direitos e liberdades civis, políticas e sociais, económicas e culturais das minorias residentes no seu território (Art.º 2.º), tendo depois proíbido a língua russa e promulgado uma lei xenófoba “sobre os povos indígenas” onde são estabelecidos diferentes tipos de cidadãos.

Nesta senda muito haveria a dizer sobre a expansão da NATO. Para abreviar recomendo a PS uma obra de referência que certamente conhece Not One Inch: America, Russia, and the Making of Post-Cold War Stalemate (2021), de Mary Sarotte, onde a autora, uma académica americana especialista em História americana do pós-Guerra Fria, bem escalpeliza o tema. Uma irrepreensível compilação de documentos que é importante revisitar especialmente no atual contexto da guerra da Ucrânia.

Há duas ideias centrais sobre as quais convido PS a refletir: (1) ser o Direito Internacional uma ferramenta insuficiente para analisar/explicar a conflitualidade internacional. É cada vez mais importante o recurso a outras disciplinas, como, por exemplo, a Teoria das Relações Internacionais, a Geopolítica, ou os Estudos de Segurança, etc. O Direito internacional não só não explica, como o contributo para entender a conflitualidade entre grandes potências é muito limitado; (2) resistir à tentação de ver as Relações Internacionais como uma barricada só com dois lados. A realidade é mais complexa do que discutir os penalties assinalados ou por assinalar num jogo de futebol, que a acontecer deixa muito pouca margem para a imparcialidade.

PS vem dizer-nos que “obter garantias de segurança através de atos de agressão ilícitos, anexando territórios de Estados soberanos, é uma ideia própria de outros tempos que não devia ser propalada por um militar do Ocidente”. Estará PS no limiar da amnésia seletiva? Para não ir mais atrás na história, podemos começar pelas ações militares ilegais de algumas potências ocidentais no pós guerra-fria na Sérvia, Iraque, Líbia, etc., com o intuito de afirmar a tal Ordem Liberal Internacional que PS advoga. E, já agora, podemos acrescentar a presença ilegal dos EUA na Síria (que nunca o vi comentar), e a ação israelita na Palestina e no Líbano. Estará a amnésia seletiva a ser complementada por uma neutralidade elástica?

PS parece não reparar que não existe Ocidente, agora redenominado Ocidente alargado. Isso é uma construção da Diplomacia Pública. Existem os EUA e a Europa com interesses que coincidem algumas vezes, com rivalidades e competição geopolítica. Ao falar de Ocidente estão-se a meter no mesmo saco coisas distintas. Naturalmente que esta abordagem é conveniente para os EUA. Assim, o empregado de mesa até pensa ter o mesmo estatuto do dono do café.

Tenho o privilégio de trabalhar na área da resolução de conflitos há algumas décadas. Uma das questões básicas é perceber o problema dos litigantes. Para provocar aquilo que se designa por Transformação do Conflito é preciso que uns percebam o problema dos outros. Perceber – um exercício básico – não significa concordar. Significa, tão somente, recolher informação para ajudar as partes a resolverem os seus diferendos.

Sendo a amnésia seletiva ou não, é sempre bom lembrar que a paz se faz com o inimigo. As garantias de segurança “exigidas” pelos russos foram por eles associadas ao estabelecimento de uma nova Ordem Securitária na Europa. Excetuando o caso da implosão da URSS, não conheço ordens que não tenham resultado, de um ou de outro modo, da ação do uso da força. É uma constatação. Constatar factos, mesmo que desagradáveis, não significa tomar nenhum partido. Mas se o quadro analítico for o da discussão dos penalties num jogo de futebol, o incómodo está garantido à partida.

Fica a impressão de que PS não é nem ateu nem agnóstico no que respeita ao neoliberalismo intervencionista. Acredita (apesar da informação de natureza macroeconómica sobre a economia russa, disponibilizada pelo FMI e BM, que a colocam como a quarta economia mundial (PPP) à frente da Alemanha e do Japão) que a Rússia vai colapsar economicamente. “A crise é tal que os russos até já recorrem a trotinetes elétricas para atacar posições ucranianas”.

Boa-fé? Sério? Devolvo-lhe ambas as interrogações.

Será que PS alberga preconceitos intelectuais no seu pensamento que o impedem de ler o presente panorama estratégico que se vive na Europa? Será verdadeiramente incapaz de conceber a hipótese de que a tentativa de derrotar estrategicamente a Rússia falhou e que o resultado mais evidente é a debilidade da Europa, que aumenta a cada dia que passa. Uma Europa enfraquecida necessita de negociar com a Rússia rapidamente e fazer controlo de danos, antes que a situação piore ainda mais. Amanhã será tarde, caso contrário não tem iniciativa e ficará exclusivamente dependente daquilo que Trump acordar com Putin.

Os recentes desenvolvimentos políticos na Roménia, Hungria, Eslováquia, Áustria, Croácia, Alemanha, Reino Unido, Holanda e França onde a direita, talvez mais à direita do que a de PS, se aproxima do poder são motivos de grande preocupação. Isto só acontece porque as pessoas estão cansadas que lhes digam o que pensar, lhes restrinjam o acesso à informação, da substituição de um discurso de paz por um apelo diário incessante do ódio ao outro – nisto consiste o alimento básico na Europa.

Três notas finais: (1) Trump apenas veio acelerar a derrota ucraniana; (2) é aviltante apresentar a guerra na Ucrânia como uma guerra entre democracias e autocracias; (3) a sapiência de PS é estonteante – consegue equiparar uma guerra civil russa (Chechénia) com os acontecimentos na Ucrânia para explicar a agressividade de Putin. Nos territórios dos outros não há terrorismo, só combatentes da liberdade. Será que para PS, o massacre na escola de Beslan (2004, Ossétia do Norte) foi uma ação libertária? Voltando à minha interrogação sobre a amnésia seletiva, não compreendo como PS fala da intervenção militar da Rússia na Síria, desde 2015, sem mencionar os acontecimentos de 2011, à revelia do Conselho de Segurança. Será que consegue recordar-se do autor da frase “Chegámos, vimos, ele morreu”?

Não posso concluir sem uma última interrogação acerca da fiabilidade analítica de PS e da sua “capacidade para se adaptar” a novas situações. Não me esquecerei de o confrontar, na devida altura, com o que escreveu. Por agora, a sucessão de imprecisões, levam-me lamentavelmente a concluir que o título do artigo que escrevi lhe assenta que nem uma luva, embora não fosse essa a intenção.

Atos de ignorância e intransigência cognitiva

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 02/01/2025)

É angustiante continuar a assistir, passados quase três anos de guerra, à insistência de dirigentes europeus na adesão da Ucrânia à NATO, mesmo diferida no tempo.


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Antecipando uma possível interrupção nos combates que se travam em território ucraniano, após a tomada de posse de Donald Trump, tem vindo a germinar na comunicação social do velho continente a irrealista, inútil e perigosa ideia de colocar forças de manutenção de paz em território ucraniano para monitorizar o cumprimento de um eventual cessar-fogo entre forças russas e ucranianas. A sua apresentação tem-se revestido de algumas variantes, mas todas elas incorporando a premissa de que com Trump na presidência e Washington a preparar-se para abandonar o barco, serão os europeus quem carregará com o fardo do apoio à Ucrânia.

Caso estivéssemos distraídos, o candidato a chanceler alemão Friedriech Merz lembrou-nos que o envio de forças de manutenção da paz europeias para a Ucrânia deve ser coordenado com a Rússia, como se fosse possível ser de outra maneira.

O que fará a próxima Administração americana relativamente à Ucrânia tem sido objeto de abundante especulação. Há soluções para todos os gostos. Se Kiev não estiver disponível para se sentar à mesa das negociações, Trump cessará o apoio à Ucrânia, mas se a indisponibilidade for da parte russa, então o apoio a Kiev continuará incessantemente enquanto for necessário.

O “Financial Times” veio com outra ideia, bastante plausível que, a concretizar-se, deixará os europeus com os cabelos em pé. Trump poderá forçar a Ucrânia a aceitar a paz sem lhe proporcionar garantias de segurança, aliviando simultaneamente as sanções à Rússia. A América vai concentrar-se em dominar o hemisfério ocidental, coaptando o México e o Canadá, e colocando o Canal do Panamá e a Gronelândia debaixo da sua asa, ressuscitando, assim, a doutrina Monroe.

Segundo Lavrov, numa entrevista à agência noticiosa russa TASS, a sempre fiel e leal diplomacia francesa, que instigou o envio de tropas europeias para a Ucrânia, que preparou e continua a preparar as forças armadas da Ucrânia no seu território, que afirma ser necessário atacar a Rússia na sua profundidade, e que defende a preparação da Ucrânia para negociar com a Rússia numa posição de força, teria vindo propor-lhe, pela calada e violando o princípio de que o Ocidente não debaterá o futuro da Ucrânia sem a Ucrânia, que “ajudemos [Rússia e França], que estabeleçamos um diálogo sobre a questão ucraniana.”

Enviar tropas de manutenção da paz da União Europeia (UE) para a Ucrânia com o objetivo de monitorizar o cumprimento de um cessar-fogo é, por variadas razões, uma ideia disparatada. Não só desafia o senso comum, como corre também o risco de agravar o conflito, transformando a Europa num campo de batalha por procuração.

Os seus promotores não percebem porque é que essa ideia não faz sentido. Presumem que haverá um cessar-fogo e que os russos, apesar de terem recusado repetidas vezes essa possibilidade, a vão aceitar, não entendendo que os russos não estão na disposição de perder à mesa das negociações aquilo que ganharam no campo de batalha. Não darão aos países da NATO, de mão beijada, aquilo que eles não conseguiram no campo de batalha, isto é, colocarem contingentes militares em território ucraniano.

Há semelhança de outras congeminações estapafúrdias, esta dificilmente deixará de ser um nado morto. Alguns países já declararam abertamente a sua oposição. Enviar tropas europeias para “morrer na e pela Ucrânia” não é apenas um suicídio, mas uma catástrofe política, sobretudo quando as opiniões públicas europeias se afastam cada vez mais do envolvimento militar no conflito.

O ceticismo sobre o envolvimento militar na Ucrânia é particularmente elevado na Polónia e na República Checa. Até a França promotora da ideia, parece relutante em entrar neste campo político minado. São estes mesmos proponentes que não percebem porque é que a direita, sobretudo a designada extrema-direita, está em ascensão na Europa e os povos rejeitam o neoliberalismo globalista abraçando, em alternativa, projetos de direita nacionalista que se coloca contra a guerra e o impacto que esta tem na vida das pessoas.

Não deixa de ser curioso, para não dizer insano, que os impulsionadores desta ideia não tenham pejo em esconder que um cessar-fogo não passará de um artifício temporário para a Ucrânia ganhar tempo, lamber as feridas e preparar-se para confrontar militarmente a Rússia, quando devidamente recuperada, entenda-se treinada e equipada, tendo como subjacente a este raciocínio a menoridade mental do oponente. Não sendo o caso, é altamente improvável que Moscovo alinhe na repetição de um acordo do tipo “acordos de Minsk” patrocinados pela França e Alemanha e ratificados pela Resolução do Conselho de Segurança 2022 (2015), em que a monitorização da sua implementação ficou a cargo da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa.

É angustiante continuar a assistir, passados quase três anos de guerra, à insistência de dirigentes europeus na adesão da Ucrânia à NATO, mesmo diferida no tempo. Não perceberam nada do que está em jogo! Não perceberam que os russos não vão alinhar num cessar-fogo, mas somente num acordo de paz de âmbito alargado, para além dos problemas colocados pela guerra na Ucrânia. O acordo de paz ocorrerá antes do cessar-fogo e a ordem dos fatores não será arbitrária.

Para terem um entendimento do que está em causa, seria conveniente que estas pessoas revisitassem, entre outros acontecimentos, o discurso de Putin na Conferência de Segurança de Munique, em 2007; que procurassem explicações lógicas para a invasão da Geórgia, em agosto de 2008, quatro meses após a Cimeira da NATO em Bucareste, em que a Ucrânia e a Geórgia foram convidadas para se tornarem membros da Aliança; que entendessem a proposta do então presidente russo Medvedev, quando propôs, em 2008, um tratado de segurança europeia que tornaria juridicamente vinculativo o princípio da indivisibilidade da segurança e o princípio do não reforço da segurança à custa dos outros; que se lembrassem das iniciativas diplomáticas de Moscovo, no final de 2021, poucos meses antes da invasão da Ucrânia, para se criar conjuntamente com os EUA e a NATO uma plataforma de entendimento no domínio securitário, nomeadamente, sobre a expansão da Aliança as quais não tiveram resposta. Tal como agora, a Rússia procurava obter do Ocidente garantias de segurança.

Se tivessem efetuado o trabalho de casa, teriam percebido que Moscovo está a travar uma guerra na Ucrânia para conseguir aquilo que não conseguiu pela via diplomática, ou seja, definir uma nova arquitetura de segurança na Europa que lhe dê garantias de segurança e aos seus vizinhos, através de uma formulação jurídica que dificulte/impossibilite a violação dos acordos estabelecidos e onde tenha um estatuto condizente com a sua importância na nova ordem multipolar em construção. Seguramente que isso não passará pela colocação de mísseis na Polónia e na Roménia (capazes de atingir Moscovo e S. Petersburgo, em cinco/sete minutos) com a justificação de um ataque do Irão à Europa; pela promoção de operações de mudança de regime no “near abroad” russo; ou pela renúncia à implementação de medidas de construção de confiança.

Se tivessem entendido o racional por detrás das preocupações securitárias russas, antigas de séculos, não teríamos de assistir ao espetáculo ridículo e deprimente da primeira-ministra dinamarquesa dizer que tem rações na despensa para sobreviver durante três dias em caso da agressão russa; ou das autoridades suecas distribuírem à população manuais de sobrevivência em caso do país ser atacado.

Perante o iminente revés estratégico e como já tive oportunidade de explicar, os dirigentes europeus optaram por meter medo às suas populações agitando o papão de um ataque russo à Europa: “… uma vez ganha a guerra na Ucrânia (uma admissão implícita de que a guerra está ou vai ser ganha pela Rússia), a Rússia não parará nas suas novas fronteiras, e entrará pela Europa dentro! …”, sem explicarem porquê e para quê, quando historicamente foram as potências ocidentais que, em diversas ocasiões, ao longo dos séculos, invadiram a Rússia e não o contrário.

Cavalgando a onda dessa implausível invasão, estes dirigentes vêm propor, com vista à preparação de uma futura guerra com a Rússia, o aumento dos encargos com a defesa (fala-se agora em contribuições nacionais de 3% do PIB e Trump veio falar de 5%) em detrimento da economia, do estado social e das despesas com a saúde, habitação, educação, pensões, etc.

Torna-se cada vez mais claro que as opiniões públicas europeias foram enganadas pelos seus líderes quando lhes venderam uma vitória fácil: “… um passeio na praia no confronto com uma estação de serviço com armas nucleares”. Afinal, em vez do cordeiro manso saiu-lhes um urso. Perante isto, fará, pois, mais sentido a Europa mudar de rumo, moderar os seus apetites revanchistas e pensar seriamente em adotar uma estratégia de soma positiva.

Negociando a partir de uma posição de irrelevância

(Dmitry Orlov, in SakerLatam, 31/12/2024, Revisão da Estátua)

Isto representa 0,05% dos cadáveres de soldados ucranianos e da NATO que estão espalhados pela região de Kursk

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À medida que a data da segunda posse de Trump se aproxima, várias cabeças falantes estão a dedicar cada vez mais fôlego ao tópico das negociações de paz que Trump iniciará com Putin para encerrar o conflito na Ucrânia. Todos presumem que Trump pode obter concessões valiosas de Putin.

O New York Times admitiu pela primeira vez que o paciente (a Ucrânia) está morto e a começar a cheirar mal, e é hora de começar a planear a fase pós-guerra do conflito. Aqui está um resumo das ofertas que as cabeças falantes consideram possíveis. Os especialistas de lá veem apenas quatro versões do acordo a ser assinado, que deve garantir a segurança da Ucrânia de alguma forma (para garantir que a “agressão russa” seja mantida sob controle).

1. A Rússia mantém os antigos territórios ucranianos que libertou até agora, enquanto o restante da Ucrânia se junta à NATO. Mas não há consenso dentro da NATO sobre permitir a adesão da Ucrânia e, o que é mais importante, Trump opõe-se. E tudo isso é irrelevante, pois a posição russa desde 1991 é que a Ucrânia deve ser militarmente neutra e não deve ser membro de nenhum bloco ou aliança militar. Vamos tirar esta hipótese da lista imediatamente: qualquer pessoa que use as palavras “Ucrânia” e “NATO” na mesma frase está a perder o seu tempo.

2. A Rússia mantém os territórios anteriormente ucranianos que libertou até agora, enquanto o restante da Ucrânia deve ser patrulhado por algum consórcio de forças de manutenção da paz europeias. Isso parece razoável à primeira vista, já que Trump certamente não enviará nenhuma força dos EUA para fazer esse trabalho sujo, exceto que… a posição russa desde 1991 é que a Ucrânia deve ser militarmente neutra e não deve ser membro de nenhum bloco ou aliança militar. E ter tropas estrangeiras em solo ucraniano não qualifica a Ucrânia como neutra; portanto, essas forças serão despachadas para Deus ou Alá ou o que quer que seja ao chegarem e, consequentemente, enviá-las para a Ucrânia definitivamente não é um passo em direção à paz. Risque esta da lista também: qualquer pessoa que sugira o envio de forças de paz europeias para a Ucrânia está a perder o seu tempo.

3. A mesma coisa, exceto que as forças de manutenção da paz europeias estariam sob o comando da NATO. Não importa sob que comando esses europeus estariam; eles ainda acabariam mortos, portanto, exclua essa hipótese da lista também.

4. “Neutralidade armada”: A Rússia mantém o território que controla no momento, enquanto a Ucrânia pode flexibilizar a sua força militar sem estar sujeita a nenhuma restrição quanto ao tamanho de seu exército ou ao número e tipo de armas convencionais à sua disposição. Os cabeças de ovo do New York Times acham que esse é o plano mais viável, embora não seja tão vantajoso para a Ucrânia (já que eles teriam que realmente fazer alguma coisa – flexibilizar, é claro). Exceto que o memorando de Istambul – o último acordo negociado entre a Ucrânia e a Rússia em 2022, e que a Ucrânia se recusou a assinar – definiu o tipo e o número exato de tropas e armas que a Ucrânia teria permissão para manter em sua forma final neutra, desmilitarizada e desnazificada. E é a esse memorando, atualizado para refletir os novos factos em campo, que os russos estariam dispostos a voltar se as negociações fossem retomadas.

Como se vê, os EUA, a NATO e a Europa não têm nada. Parece muito provável que a atual rodada de negociações, como um estágio do processo de luto, tenha a ver com o facto de Trump dizer adeus à Ucrânia, querendo livrar os EUA do conflito por procuração com a Rússia, que o seu antecessor iniciou, da forma mais rápida e barata possível, sem aceitar qualquer responsabilidade por nada e, certamente, sem estender quaisquer garantias de segurança à Ucrânia. Tudo o que resta é fazer com que o lado russo faça uma concessão – qualquer concessão, por mais simbólica e inconsequente que seja – para que o abandono da Ucrânia não pareça uma derrota total. Isso parece um plano, exceto…

Exceto que a Rússia não está mais interessada em qualquer negociação com a Ucrânia, os EUA, a NATO ou a UE sobre o destino da Ucrânia. Desde o golpe de 2014, a Rússia tem tentado repetidamente encontrar uma maneira não violenta de resolver o conflito entre o Ocidente e a maioria russa da Ucrânia, mas sem sucesso – porque foi enganada em todas as etapas. Os acordos de Minsk 1 e 2 foram todos firmados com o objetivo de ganhar tempo para armar e treinar as tropas ucranianas, e não em busca da paz. O (Acordo de) Istambul foi negociado com sucesso, mas, em seguida, Boris Johnson voou para Kiev e exigiu que a guerra continuasse até ao último ucraniano (o que já quase aconteceu até agora, já que os ucranianos estão a preparar-se para começar a recrutar jovens de 18 anos). Nesta altura, até mesmo os analistas da Bloomberg admitem que “a Rússia não tem motivos para fazer concessões porque está a ganhar”.

Além disso, a Rússia não tem motivos para querer entrar em qualquer tipo de negociação com Trump ou com o pessoal da UE/NATO que o pessoal de Trump logo começará a pressionar. No verão passado, Putin especificou que, para iniciar as negociações, todas as sanções contra a Rússia teriam de ser suspensas. A Rússia não precisa que essas sanções sejam suspensas (a economia russa está a crescer bem mesmo com as sanções em vigor), mas é uma questão de direito: essas sanções não foram aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU e, portanto, são ilegais. E porquê a Rússia entraria em negociações com base em relações estatais legais com entidades que estão a violar a lei internacional? Aqui temos a força irresistível que são as sanções a chocarem com o objeto imóvel que é a Rússia, e o resultado óbvio é a ausência de negociações.

Se a UE e os EUA tivessem uma epifania, percebessem que as suas 40 mil sanções ilegais os prejudicam e ajudam a Rússia, e rapidamente as revogassem todas (por mais improvável que isso pareça), o próximo obstáculo seria a ideia de congelar o conflito ao longo da atual linha de contato. A linha de contato está em movimento e, quando as negociações terminarem, ela poderá estar noutro lugar completamente diferente. Além disso, a linha de contato atravessa o território russo, uma vez que as regiões de Lugansk, Donetsk, Zaporozhye e Kherson foram aceites na Federação Russa na sua totalidade, e não de forma fragmentada, e, como disseram Putin e o ministro Lavrov, a soberania russa não está à venda. Além disso, a linha de separação passa por partes das regiões de Kharkov e Sumy, mas isso não completa de forma alguma a lista de antigos territórios ucranianos que se tornarão (mais uma vez) parte da Rússia. Não saber sobre o que se está a negociar não é uma boa posição para entrar em negociações.

Por fim, mesmo que todos esses obstáculos fossem removidos, um último obstáculo permaneceria: A Rússia não tem nada a ganhar ao entrar em negociações com Trump, a UE ou a NATO. É vantajoso para a Rússia simplesmente continuar a fazer o que está a fazer. O que o povo russo quer não é uma paz negociada com parceiros de negociação nos quais não confia mais porque sabe que são mentirosos, criminosos de guerra e terroristas. O que o povo russo quer é uma vitória total e direta – glória para suas tropas e humilhação para o inimigo. O ideal seria que a vitória chegasse a tempo para a comemoração do 80º aniversário em 9 de maio de 2025 (e se você não sabe o que se comemora nessa data, é porque não sabe nada sobre a Rússia). Por sua vez, os políticos russos ficariam muito felizes em obedecer, já que essa é a direção em que os desenvolvimentos no campo de batalha estão a mover-se. Não incomode os russos – eles estão ocupados vencendo!

Se as negociações são impossíveis, o que resta? “Escalada”, alguns exclamariam ansiosamente; “Terceira Guerra Mundial!” Bem, a liderança russa abordou essa questão durante o recente discurso de Putin perante o Ministério da Defesa. Para resumir brevemente:

– O ano de 2024 colocou as forças russas firmemente no controlo da iniciativa estratégica em toda a linha de contato na Ucrânia. Milhares de quilómetros quadrados de território e dezenas de centros populacionais estão a ser libertados das tropas ucranianas.

– As forças armadas da Rússia agora contam com 1,5 milhões de homens, muitos deles com experiência de combate, enquanto armas inovadoras como o Oreshnik, que dispensa a necessidade de uma resposta nuclear, estão a entrar em produção em massiva.

– A Rússia está a preparar-se para responder a qualquer provocação, inclusive a um conflito armado com a NATO na Europa durante a próxima década. Como a Rússia agora tem a força militar mais forte e testada em combate do planeta, é do interesse da NATO e da Europa evitar a todo custo um conflito armado com a Rússia.

A conclusão do conflito na Ucrânia já foi escrita. Esse documento está no Kremlin e, não, não nos será dito o que está nele. Nenhum envolvimento dos EUA, da UE ou da NATO na análise ou revisão do documento é necessário ou será aceite. A Rússia está vencendo. Os objetivos de sua Operação Militar Especial na Ucrânia estão a ser alcançados.

Mas o facto é que a guerra por procuração na Ucrânia, instigada no início de 2022 e perpetuada desde então pelo clã Biden, custou mais de um milhão de vidas ucranianas e uma ordem de magnitude menor, mas ainda assim um número considerável de vidas russas. Como a Ucrânia sempre foi e sempre será parte da grande Rússia (consulte os mapas históricos se tiver alguma dúvida sobre isso), essas vidas ucranianas também são vidas russas. Isso significa que as ações americanas resultaram na morte de mais de um milhão de russos. Tenha certeza de que a Rússia encontrará uma maneira de vingar os seus mortos. Os russos, pela sua natureza, não são vingativos. Eles apenas têm uma memória muito boa e gostam de acertar as contas. Eles também são muito pacientes e esperarão para agir até que os EUA estejam no seu momento mais fraco.

Portanto, tenho boas e más notícias para os americanos.

A boa notícia é que eles não morrerão num inferno nuclear tão cedo. A Rússia estará ocupada demais, a vencer, para se preocupar com eles. E então, como Putin disse durante a maratona de 4 horas de perguntas e respostas públicas de ontem, os russos terão que “pensar em casa”. Os principais tópicos para os russos, conforme resumidos pela inteligência artificial a partir das mais de 2 milhões de perguntas que eles fizeram, são, por ordem de prevalência, os seguintes: moradia e hipotecas subsidiadas, medicina, transportes, finanças, bem-estar dos militares, pensões e conexão de residências rurais a gasodutos. Os Estados Unidos, se você notar, não estão em nenhum lugar dessa lista.

A má notícia é que os americanos acabarão por ter que pagar pelos crimes cometidos pelo seu governo.

Fonte aqui.