Para todos os que me lêem e seguem aqui ficam também os meus votos de Bom Ano Novo. E, se não for pedir muito às divindades, melhor um pouco do que 2024. Pelo menos, tenhamos essa luz e essa esperança.
Deixo-vos abaixo um notável texto de Carlos Drummond de Andrade, sobre o Ano Novo, escrito há alguns anos mas que, hoje, com a guerra na Europa à nossa porta e o massacre em curso em Gaza, tem uma redobrada acuidade.
(Estátua de Sal, 30/12/2024)
Carlos Drummond de Andrade, “Receita de Ano Novo”. Editora Record. 2008
Queria escrever hoje um texto anódino, afastado da política, dos conflitos e das mazelas que grassam pelo mundo, uma salva de palmas aos sorrisos e à esperança. Não o consegui fazer completamente, porque não quis adornar sob um peso grande de consciência.
Daí ter escolhido a imagem acima, como embaixadora da nossa mensagem de Natal. Sim, há milhares que estão a ser imolados no altar do genocídio prepertado pelos assassinos de Israel, e cujo Natal é uma ode ao terror e uma porta para a morte.
Não fora esse cancro humano, que alastra diante dos nossos olhos e que ninguém ousa parar, e a imagem que teríamos escolhido seria a que podem ver aqui ao lado.
Por isso, algumas reflexões que partilhamos nos assaltam.
Natal. Seja lá o que isso for. Não é por fazermos votos de bom Natal que passaremos a ter um Mundo melhor. Nem que a vida passe a ser melhor para milhões de deserdados e sofredores da iniquidade e de um sistema económico que prospera cada vez mais para poucos em detrimento da grande maioria.
Mas as comunidades também vivem de rituais e da partilha de comportamentos. As tradições são isso mesmo. Uma herança da memória de outros tempos, por vezes atavismos fora de época. E essa partilha pode gerar uma resultante social, positiva ou não, construtiva ou não. Dinâmica para a esperança ou dinâmica para coisa nenhuma.
E neste Natal, em particular, dinâmica também para o perigo da escalada dessas guerras insanas que estão a povoar o Mundo e a ameaçar as nossas vidas. Sim, porque os morticínios não são “lá longe”, entram-nos casa adentro, todos os dias em doses cavalares, servidos pela nudez crua das imagens das televisões. E que nos lembremos que não são marionettes mas sim seres humanos que estão a ser espezinhados por outros seres humanos. A barbárie a que urge pôr cobro, assim a paz se impusesse, ao menos porque é Natal…
Natal. Seja lá o que isso for, é pelo menos uma pausa na rotina de muitos de nós. Algumas liturgias tomam conta do quotidiano. As prendas, as crianças, as ceias, os encontros e reencontros familiares, os presépios e outros símbolos para os crentes e até para os menos crentes.
E por isso mesmo, quer queiramos quer não, o Natal é sempre uma singularidade, no percurso do calendário anual. Quer para os que o vivem em esperança, em fervor e em otimismo, quer para os que amargamente sofrem o desânimo de nada ter para vivenciar, e para os quais o Natal é apenas mais um dia no caminho de um calvário repetido e constante. Lembremo-nos desses, reflitamos porque são as coisas assim e questionemos porque terão que ser assim.
E para que se mantenha a tradição, para todos os meus amigos e para todos os que me lêem. aqui ficam os meus votos de Feliz Natal. Seja lá o que isso for. Seja lá o que cada um queira que seja, e que possa ser, nestes tempos sombrios de guerra e de barbárie.
— Oleskiy Arestovich (ex-conselheiro para as comunicações estratégicas no domínio da segurança e defesa nacional do gabinete presidencial de Zelensky e membro da delegação ucraniana nas conversações de paz com a Rússia, em Istambul, no fim de Março-início de Abril de 2022);
— Mevlut Çavuşoğlu (ministro dos Negócios Estrangeiros turco, que organizou as reuniões negociais entre a Rússia e a Ucrânia em Istambul);
— Fiona Hill & Angela Stent (ex-diretora sénior para a Europa e a Rússia do Conselho Nacional de Segurança dos EUA e diretora do Centro de Estudos Eurasianos, Russos e do Leste Europeu da Universidade Georgetown, em Washington D.C., respetivamente); testemunhos que foram oportunamente descritos e analisadosaqui, aqui, aqui, aqui eaqui;está disponível mais um testemunho de peso sobre o modo como as duas guerras na Ucrânia (a que se iniciou em 2 de Maio de 2014 e a que se iniciou em 24 de Fevereiro de 2022) poderiam ter terminado na primeira semana de Abril de 2022, não fosse a intervenção maléfica dos próceres do “Ocidente alargado” (com Joe Biden e Boris Johnson à cabeça).
Trata-se do testemunho de Jean-Daniel Ruch, à época embaixador da Suíça em Istambul (Turquia), durante uma longa entrevista (em Francês) concedida à Associação Antithèse, no dia 9 de Dezembro de 2024. Toda a entrevista é interessante, ver vídeo aqui.
Mas a parte que diz respeito ao testemunho de Ruch sobre as conversações russo-ucranianas em Istambul e as consequências nefastas que resultaram da sua sabotagem pelos próceres dos EUA, Reino Unido, Alemanha, França e outras potências menores é a que ocupa o trecho que começa no momento 1h20m16s e termina no momento 1h28m49s. Esse trecho específico pode ser visto e ouvido no vídeo abaixo.