Plano de paz vazado indica fim da guerra na Ucrânia em 9 de maio: Dia da Vitória contra o nazismo

(Vanessa Martina-Silva, in Diálogos do Sul, 30/01/2025)

Proposta prevê Ucrânia fora da NATO, adesão à União Europeia, fim das sanções à Rússia e reconhecimento dos territórios ocupados. Conferência internacional e eleições ucranianas também integram cronograma.


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Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, estaria articulando um plano de paz de cem dias para encerrar a guerra por procuração na Ucrânia. A informação consta de um documento vazado pelo periódico ucraniano Strana, que detalha nove pontos para finalizar o conflito. De acordo com o jornalista Tim White, há relatos de que autoridades da União Europeia teriam enviado detalhes do plano a Kiev. O documento, no entanto, não foi confirmado por nenhuma fonte oficial.

A Europa recebeu mal a informação e os principais jornais do bloco manifestaram repúdio a uma negociação que não contemple os sócios da Otan, verdadeira impulsionadora da guerra. Desde o início do conflito, a União Europeia e o Reino Unido têm se comportado como vassalos dos Estados Unidos contra a Rússia. Na prática, os europeus abriram mão de sua soberania em troca de uma falsa sensação de segurança, se alinharam cegamente aos interesses estratégicos estadunidenses e terão que arcar com a fatura da guerra. 

Mais um “Dia da Vitória” contra os nazis

O jornal Strana revelou que o plano de 100 dias, atribuído a Donald Trump, está sendo intensamente discutido nos círculos políticos de Kiev, que vê sua força militar minguar junto com a popularidade de seu governante, Volodmir Zelensky, que conta com a aprovação de apenas 34% da população, de acordo com o instituto ucraniano Razumkov. 

.O primeiro passo do cronograma carregado de simbologias seria a revogação, por Kiev, do decreto que proíbe negociações com o presidente russo, Vladimir Putin. Em seguida, Trump se reuniria com representantes de ambos os países para estabelecer os parâmetros do processo de paz. 

Neste ano, a Páscoa cristã, celebrada por católicos e protestantes, coincide com a comemoração ortodoxa. Esta data, 20 de abril, marcaria o inícío de um cessar-fogo, com a retirada definitiva das tropas ucranianas da região russa de Kursk. No fim de abril, seria realizada uma Conferência Internacional de Paz, mediada pelos EUA, China, países europeus e do Sul Global, com o objetivo de formalizar o fim da guerra.

Já a assinatura oficial do acordo ocorreria em 9 de maio, coincidindo com o “Dia da Vitória” da antiga União Soviética sobre a Alemanha nazista, em 1945. A simbologia viria carregada de significados, já que a Rússia diz estar travando um combate pela desnazificação ucraniana. O cronograma ainda contempla eleições presidenciais na Ucrânia em agosto de 2025 e parlamentares em outubro do mesmo ano.

Pilares do acordo de paz

O que tem chamado a atenção europeia e ucraniana é que o documento vazado detalha o processo para a paz sem garantir espaço para revisões ou negociações. Manchetes como “Europa teme ser relegada por Trump em negociações de paz sobre Ucrânia”, publicadas pelo o El País, evidenciam essa insatisfação. Para os europeus, o plano, como está sendo proposto, retira seu protagonismo em uma guerra na qual investiram cerca de US$ 135 bilhões em três anos, somando assistência militar, econômica e humanitária.

Os termos do acordo são:

  1. Neutralidade da Ucrânia e proibição de seu ingresso na Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan).
  2. Adesão da Ucrânia à União Europeia, prevista para ocorrer até 2030.
  3. Manutenção do Exército Ucraniano e continuidade do apoio norte-americano à modernização das Forças Armadas do país.
  4. Os territórios ocupados pela Rússia não poderão ser reivindicados pela Ucrânia, embora não haja reconhecimento formal da soberania russa nessas regiões.
  5. Levantamento gradual das sanções impostas à Rússia no prazo de três anos.
  6. Retirada das restrições de importação de energia russa pela União Europeia, com a implementação de uma taxação especial destinada à reconstrução da Ucrânia.
  7. Fim da proibição de partidos políticos pró-Rússia, permitindo que participem do sistema eleitoral ucraniano.
  8. Revogação das restrições ao uso do idioma russo e à Igreja Ortodoxa Ucraniana.
  9. Possível presença de forças de paz europeias após o cessar-fogo.

Moscovo em posição confortável

Em declarações recentes, Putin confirmou disposição de conversar com Trump, mas negou quaisquer negociações com Zelensky, cujo mandato presidencial acabou em maio do ano passado. 

Diversos analistas avaliam que Moscovo se encontra em uma posição favorável demais para ceder em negociações. Entre outubro e dezembro do ano passado, as tropas russas avançaram 593 km², uma média de 18 km² por dia em solo ucraniano. 

Além disso, conquistaram localidades estratégicas, como Velika Novosilka, ao sul de Donetsk, e prosseguem com avanços em várias frentes, incluindo Kurakhovo, consolidando seu controle sobre áreas vitais. Por sua vez, a Ucrânia se encontra debilitada militar e economicamente em sem a ajuda dos Estados Unidos, poderia perder definitivamente a guerra em meses.

Butim de guerra europeu

A Europa abraçou a política dos EUA, via Otan, de agredir a Rússia militar – via Ucrânia – e economicamente – via sanções. A Europa se calou diante da destruição do gasoduto Nord Stream 2. A Europa abraçou a proibição do fornecimento de energia russa, ainda que isso custasse o desempenho da sua indústria. A Europa financiou a aventura militar ucraniana. 

Ao fim da guerra, a obediente Europa deverá reconstruir a Ucrânia e aceitá-la como membro da UE até 2030. A Europa também deverá voltar a importar gás e petróleo russo e deverá pagar uma taxação especial destinada exclusivamente para financiar a reconstrução da Ucrânia​.

O documento vazado pode ser um balão de ensaio para sentir as reações globais, como muitos analistas consideram, mas a moral da história por ora é: o império nunca respeita seus vassalos. A lição cabe também à América Latina e a governos entreguistas da nossa região: submissão não compra soberania 

* Com informações de Strana Today, El País, Newsweek e podcast La Base

Fonte aqui

O justo direito à indignação…

(Manuel Augusto Araujo, in Facebook, 13/01/2025), revisão da Estátua)


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Estou estupefacto!

Muito atento às preclaras, inteligentíssimas, informadíssimas e seguríssimas intervenções das Dianasoleres, Botelhosmonizes, Isidrosmoraispereiras e demais tropa fandanga de comentadores da mesma estirpe – as únicas que nos guiam, autênticos faróis iluminantes na complexidade das relações internacionais, em particular da guerra que se trava no território da Ucrânia -, estava eu convencidíssimo de, além da Ucrânia estar à beira de derrotar a Rússia, que Zelensky ia humilhar Putin, obrigando-o a negociar um cessar-fogo com todas as condições do seu plano de paz.

Afinal, sou subitamente surpreendido por ler a notícia em vários jornais internacionais de que Trump e Putin se preparam para negociar um possível fim da guerra na Ucrânia sem convidarem o Zelensky, a Ursula, a Kallas, o Rutte, para essa negociação!

Estou mesmo aparvalhado! Como é possível acabar por acontecer um encontro Trump/Putin deixando à porta – e sem direito a abrirem a boca – tão excelsos políticos? E sem darem ouvidos aos excelentíssimos comentadores nacionais que desmentiam e punham em causa as análises dos majores-generais Agostinho Costa e Carlos Branco e também do Tiago André Lopes?!

 É um desaforo! Estou indignado! Gente tão inteligente e brilhante afinal andou – e ainda vão continuar a andar -, a pregar aos peixes!

O curto prazo na Síria

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 10/01/2025)

A posição ideológica dos novos dirigentes começa a tornar-se evidente. A secularidade síria corre o sério risco de ser coisa do passado, como sugerem os primeiros sinais vindos do Ministério da Educação.


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Com a queda de Damasco, a 8 de dezembro de 2024, e a instauração de um novo regime chefiado por Ahmad al-Sharaa (Jolani), o novo senhor todo-poderoso da Síria, líder da organização terrorista denominada Hayat Tahrir al-Sham (HTS), iniciou-se uma nova era no país e no Médio Oriente. O novo regime, chefiado por um jihadista com a cabeça a prémio por Washington, foi recebido de braços abertos no Ocidente. Damasco tem sido palco de um inusitado rodopio de visitas de delegações estrangeiras.

Apesar destas credenciais, o mesmo Jolani, que liderou em Idlib um mini califado, passou a ser apresentado como defensor de um projeto político democrático, inclusivo e respeitador das minorias. Para o credibilizar e tornar tolerável, os seus patrocinadores, entenda-se Ancara, apararam-lhe a barba e substituíram-lhe o turbante pelo fato e gravata. Entretanto, Jolani já disse que eleições só dentro de quatro anos e uma nova Constituição daqui a três. Até quando conseguirá Jolani manter a aparente moderação, tão necessária à sua legitimação internacional?

Se em Damasco, onde se concentram as cadeias de televisão, tem havido contenção por parte do HTS, o mesmo não se pode dizer na periferia da capital e nas zonas costeiras de Latakia e Tartus, onde os assassinatos e a perseguição de alauitas e xiitas são diárias, e em cidades como Homs, onde as vítimas são cristãos.

Em resposta a estas situações, a tensão social tem vindo a aumentar. Grupos de militares fiéis ao antigo presidente Bashar al-Assad confrontaram em Latakia milícias afetas ao HTS. Por outro lado, não é claro até quando o presidente Recep Erdogan e Jolani vão conseguir segurar os grupos jihadistas próximos do ISIS e da Al-Qaeda, que fazem parte do HTS, constituídos por estrangeiros oriundos do Cáucaso, Ásia Central e Médio Oriente que, descontentes com a “complacência” do atual regime com os infiéis e Israel, pedem sangue. Sem falar no que está a acontecer no norte do país, entre a Turquia e as milícias sírias curdas apoiadas pelos EUA, e a possibilidade de um confronto militar entre a Turquia e Israel.

O verniz da moderação já começou a estalar. A posição ideológica dos novos dirigentes começa a tornar-se evidente. A secularidade síria corre o sério risco de ser coisa do passado. Os primeiros sinais vieram do Ministério da Educação, rápido a introduzir alterações nos programas escolares e a impor uma linguagem politicamente correta, que reflete a visão de um mundo que renega a ciência em favor da teologia. O Darwinismo foi enterrado. A disciplina “A Origem da Vida e o seu Desenvolvimento na Terra” foi retirada do programa.

Também a disciplina de história foi vítima dos novos imperativos ideológicos. Foi eliminada a referência ao papel das mulheres na história do país. “Zenobia e as rainhas sírias” estão em vias de desaparecerem dos manuais escolares. Com os indícios de um futuro sombrio a avolumarem-se, tudo sugere que a já péssima situação do povo sírio não melhore, mesmo com o alívio das restrições da ajuda humanitária dos EUA à Síria.