A Grande Potência Mundial dos Andores

(Luís Rocha, in Facebook, 17/08/2026, Revisão da Estátua)


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Há países que medem o seu desenvolvimento pelo número de universidades, pela qualidade dos hospitais, pela produtividade, pela investigação científica ou pela capacidade de transformar uma ideia numa coisa útil. Portugal encontrou uma métrica mais apropriada à sua vocação histórica. Quantas vezes por ano conseguimos pôr uma estátua de barro a dar uma volta ao quarteirão em cima de um andor.

E não estamos a falar de uma actividade residual. Segundo um levantamento baseado na Enciclopédia das Festas Populares e Religiosas de Portugal, de Filipe Costa Pinto, existem no país mais de 14 mil manifestações populares e religiosas, entre festas, romarias, procissões, círios e outras celebrações. Cerca de 6.900 acontecem durante o Verão e Agosto, sozinho, concentra cerca de 3.600 eventos.

É uma proeza estatística extraordinária. Portugal tem dificuldades em fazer educar pessoas, mas não tem qualquer dificuldade em fazer adorar santos.

A nossa capacidade logística é, aliás, admirável. Construímos aeroportos que às vezes parecem ter sido desenhados apenas para receber gaivotas, temos comboios que desenvolvem uma relação filosófica com a pontualidade, há aldeias onde a Internet continua a ser uma experiência de carácter experimental, mas quando chega Agosto aparece uma comissão de festas capaz de mobilizar uma banda filarmónica, vinte homens para carregar um andor, quarenta mulheres para organizar as flores, três carrinhas, um incontável número de caixas de cerveja, uma máquina de farturas, fogo-de-artifício suficiente para acordar os mortos e um homem chamado Quim que sabe exatamente onde está o cabo eléctrico que liga a iluminação toda para que o forrobodó continue de noite.

É este o Portugal que funciona. O país pode passar quinze anos a discutir uma escola, vinte a prometer um centro de saúde e uma eternidade a tentar construir uma linha ferroviária. Mas diga-se que Nossa Senhora vai sair às cinco da tarde e, subitamente, tudo aparece.

Temos uma capacidade impressionante para organizar aquilo que não altera absolutamente nada. Talvez seja esta a nossa grande especialização nacional. A mobilização social sem consequência social.

Enquanto outros países inventam coisas, nós inventamos ladaínhas. Enquanto outros discutem ciência, nós discutimos quem leva o andor. Enquanto outros desenvolvem pensamento crítico, nós perguntamos se São Sebastião deve sair pela rua de cima ou pela rua de baixo.

E depois há a dimensão marítima da coisa. Porque há santas que até vão passear ao rio ou ao mar, porque nada melhor do que uma estátua de barro para acalmar os peixinhos, Poseidon ou qualquer outro deus ou crendice que ainda teime em viver nas cabecinhas medievais.

É uma espécie de serviço público sobrenatural. Os pescadores enfrentam ondas, correntes e tempestades, mas lá vai a santa, cuidadosamente instalada no seu andor ou embarcação, para negociar directamente com as forças da natureza. A meteorologia que espere. A oceanografia que aguarde. Temos barro.

E há sempre uma solução para os problemas nacionais. Uma comissão.

Não para a habitação, evidentemente. Para a festa.

Não para a pobreza infantil. Para a quermesse.

Não para a literacia científica. Para o sorteio do leitão.

Não para a desertificação do interior. Para contratar o artista pimba que cobra vinte mil euros para cantar durante uma hora e meia perante 700 pessoas e três cães.

É impossível não admirar a coerência.

Portugal continua a enfrentar problemas sociais que estão longe de estar resolvidos. Em 2024, 20% da população residente encontrava-se em risco de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat divulgados pelo INE. No mesmo ano, a taxa de risco de pobreza monetária foi de 15,4%, correspondendo a cerca de 1,66 milhões de pessoas.

Mas não nos precipitemos com conclusões negativas. Temos 3.600 acontecimentos em Agosto. Portanto, está tudo ótimo.

Aliás, se desenvolvimento social fosse medido pelo número de vezes que uma população se junta para contemplar uma estátua de gesso, madeira ou barro, Portugal seria uma superpotência mundial. O FMI andaria a pedir conselhos à comissão de festas de Alguidares de Baixo. A OCDE mandaria uma delegação para estudar a logística das sardinhas. A União Europeia atribuiria fundos de coesão directamente ao homem do fogo-de-artifício.

E talvez seja injusto chamar-lhes simplesmente festas religiosas. Elas são muito mais do que isso. São um mecanismo secular de coesão comunitária, onde a prestação pública consiste em pôr uma imagem sacra a circular pelas ruas enquanto uma banda toca, alguém vende bifanas e outro alguém explica que antigamente é que era bom.

É bonito. É profundamente humano. É também uma excelente maneira de manter uma sociedade ocupada enquanto espera que alguma coisa mude.

Porque talvez o problema não seja Portugal gostar demasiado das festas. O problema é Portugal ter aprendido a confundir participação com desenvolvimento.

Podemos juntar milhares de pessoas numa praça e continuar sem saber discutir coletivamente o futuro da comunidade. Podemos carregar um santo durante três quilómetros e continuar incapazes de carregar uma reivindicação cívica durante trezentos metros. Podemos organizar uma procissão com uma precisão militar e não conseguir organizar uma reunião de condomínio sem acabar tudo ao estalo.

A estátua sai. A banda toca. O foguete rebenta. A cerveja corre. E amanhã, se Deus quiser, continuamos exatamente no mesmo sítio.

O que é, aliás, uma das grandes vantagens de uma boa romaria. Que ao contrário do desenvolvimento, regressa sempre ao ponto de partida. Ali por volta do Séc. XII…

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

Festas e Romarias Populares em Portugal – levantamento de  (2008)

https://pt.scribd.com/document/828940489/Ruido-e-Saude…

Instituto Nacional de Estatística – Península Ibérica em Números 2025

https://www.ine.pt/ine_novidades/PIN2025/45/…

Instituto Nacional de Estatística – INEWS 64. Pobreza em Portugal 2024

https://www.ine.pt/ine_novidades/semin/INEWS64/index.html…

Europe Sustainable Development Report 2025 – Sustainable Development Solutions Network

https://comum.rcaap.pt/…/298da076-baa3-4405…/download…

Repositório Científico de Acesso Aberto – referência à Enciclopédia das Festas Populares e Religiosas de Portugal

https://comum.rcaap.pt/…/298da076-baa3-4405…/download…

Felizmente, uma democracia de baixa patente

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/04/2019)

Daniel Oliveira

O sociólogo norte-americano Robert Fishman, que conhece muitíssimo bem a realidade política ibérica, deu, em “Democratic Practice – Origins of the Iberian Divide in Political Inclusion” (Oxford University Press), base analítica a uma intuição que tenho há muitos anos: a de que a democracia portuguesa é mais inclusiva e profunda do que a espanhola. Ele vai mais longe e afirma que, em alguns aspetos, a nossa democracia se aproxima mais dos países nórdicos do que dos latinos.

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Começando por explorar a possibilidade das diferenças entre as democracias portuguesa e espanhola resultarem das nacionalizações portuguesas, da guerra civil espanhola, da dimensão ou da heterogeneidade de Espanha, Robert Fishman concluiu que a diferença resulta, antes de tudo, de aspetos culturais que foram estabelecidos durante a transição.

O exemplo mais claro encontrado por Fishman é a relação que o poder político e, por arrasto, as forças de segurança têm com as manifestações. Enquanto em Espanha elas são, mesmo quando toleradas, vistas como um risco para o poder e para a paz social, aqui são encaradas como sinal de saúde da democracia. A cedência de Passos Coelho às enormes manifestações contra as alterações na TSU (que foram, na realidade, um levantamento nacional contra a estratégia de desvalorização interna) foram um sinal desta relação com o exercício da cidadania entre eleições. Segundo o sociólogo, esta reação seria impensável num líder da direita espanhola. Por lá, a cedência à rua é vista como um enfraquecimento das instituições e do Estado. Por cá, saber “ouvir a rua” faz parte das qualidades que se exigem a um político.

Esta postura em relação às manifestações é extensiva às greves, ao orçamento participativo e a todas as formas de participação política que extravasem o mero ato eleitoral. E a razão não é histórica ou institucional. É cultural. Uma cultura política construída, diz o sociólogo, no nascimento da nossa democracia, “uma fusão rara de revolução social, mudança cultural ativa e democratização convencional”.

O nascimento da nossa democracia não se limitou a um ato institucional feito de cima para baixo. Muito menos uma cedência dos herdeiros da ditadura à democracia. Foi uma conquista de baixo para cima, feita na rua e no quotidiano. Até o golpe militar veio de baixas patentes. Isto fez com que a democracia portuguesa seja mais inclusiva, profunda e madura do que a espanhola

Toda a fase inicial da instituição da nossa democracia foi fortemente participada. Não se limitou a ser um ato institucional feito de cima para baixo. Muito menos uma cedência dos herdeiros da ditadura à democracia, resultando de uma transição negociada e controlada por quem abandonava o poder. Foi uma conquista de baixo para cima, feita na rua e no quotidiano. Até o golpe militar foi levado a cabo por baixas patentes. Em muitos casos, o poder político e institucional limitou-se a ir atrás dos acontecimentos, legalizando cada nova conquista nascida de ilegalidades consentidas. O sociólogo recorda quando o ministro de dois governos provisórios, Mário Murteira, disse a Vasco Gonçalves, vendo da varanda do parlamento os manifestantes cá em baixo, que eles os dois eram, mais do que atores políticos, espetadores de um movimento popular. Romantismo à parte, a própria mitologia da nossa revolução apela a esta relação com o protesto cívico.

Portugal não viveu apenas uma mudança de regime. Viveu, depois do 25 de Abril, uma revolução social. Como diz Roberto Fishman na entrevista (https://www.publico.pt/2019/04/21/politica/entrevista/diferencas-democracia-portuguesa-espanhola-nasceram-anos-1970-1869752) que deu a Bárbara Reis, “Portugal não é apenas um caso de rutura, é um caso no qual a formação de novas instituições e a organização de novas eleições foram condicionadas por um processo social no qual as hierarquias são desafiadas com ações ilegais e ninguém os trava durante um ano e meio”. O sociólogo recorda a frase famosa de Salgueiro Maia, que até surge no trailer promocional do filme de Maria de Medeiros, em que o capitão diz que “há momentos em que a única solução é desobedecer”. E considera que esta frase é subscrita pela generalidade dos portugueses e dos seus políticos, o que os aproxima mais da cultura política dos EUA do que de Espanha. A cultura da desobediência faz parte da nossa democracia.

Esta tem sido a minha tese de há muito: a natureza revolucionária da nossa fundação democrática, que permitiu uma apropriação popular de cada conquista, seja ela a liberdade de imprensa ou o Serviço Nacional de Saúde, o direito à manifestação e à greve ou a Escola Pública, trouxe muitos conflitos de que Espanha se livrou mas tornou a nossa democracia mais sólida do que a espanhola. Ainda hoje temos como consensual e normal o que em Espanha divide ou é tolerado a custo. Porque o povo é visto, no nosso imaginário coletivo e no discurso dos políticos, como ator quotidiano da democracia. Mesmo que isso seja hoje muito menos verdade do que foi no passado, é um legado com efeitos políticos. Isso, e o facto de, ao contrário dos espanhóis, termos construindo algum consenso sobre o que foi o Estado Novo. Coisa que só só é contestado em franjas marginais da política ou por alguns revisionistas mais afoitos.

Corremos os mesmos riscos que outros e temos, pela nossa pobreza e atrasos históricos, um Estado que funciona mal e uma sociedade civil muito pouco robusta. Mas, por vezes, são os que olham de fora que veem melhor. E esses notam uma particularidade: a nossa liberdade e democracia são celebradas, no mesmo dia, na rua e nas instituições. Esta sintonia é uma raridade nas democracias europeias. E esta ideia de que a democracia se exerce nos dois lados, sem que isso seja um risco para as instituições, faz a nossa democracia mais moderna e madura. A tendência para a inclusão do conflito no sistema, resultado de uma convivência natural do poder com esse conflito, é uma enorme vantagem Com todas as criticas que cada um tenha a fazer a cada protesto concreto, ela pode regenerar a nossa democracia.