Os homens mais perigosos do mundo, segundo Pacheco Pereira

(Por Agostinho Lopes, in Expresso Diário, 11/06/2024)

O que é extraordinário nesta abordagem de Pacheco Pereira (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza?


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Para José Pacheco Pereira (JPP), Putin e Trump são não só dois homens perigosos, mas “Os homens mais perigosos do mundo” (1). Não é fácil ver todos os meandros do seu raciocínio, as curvas e contracurvas do seu deambular argumentativo para tão sonora e taxativa conclusão. Que logo foi consolidada por Clara Ferreira Alves (CFA) (2) na sua Pluma Caprichosa, da Revista Expresso “O Grande Tubarão Branco – Trump e Putin são os tubarões exemplares. Têm em comum a enorme persistência e a resistência à extinção”. Uma notável fábula sobre tubarões, “peixes condíctrios”, que “são grandes e perigosos. Ocupam o topo da cadeia alimentar das espécies marinhas e estão adaptados aos mais diversos ambientes oceânicos. São predadores (…) que atacam e devoram quando farejam sangue. Pressentem a ferida, a vulnerabilidade. Tanto viajam a grande profundidade como atacam à superfície (…)”. Mas os tubarões humanos como Trump e Putin,“tubarões em versão hardcore”, “São muito piores porque agem conscientemente e são dotados de um gigantesco Id, mal controlado pelo ego e o superego residuais. Parecem inamovíveis e são assustadores pela destruição causada”. “Deram à tona em bancos de areia da política, emergindo de múltiplos habitats. A finança, a empresa, o monopólio, a agência do governo, o império ou, simplesmente um dos múltiplos empregos e prebendas oferecidos por tubarões maiores”. Entretanto, parece haver quem se disponha a juntar mais alguns facínoras à lista dos perigosos tubarões de JPP e CFA. No Correio do Leitor, Público, 04JUN24, alguém acrescentava Netanyahu… e não vai ser fácil fechá-la. É que eles são mais que as mães… mesmo se CFA acha “Que não são muitos…”.

Resolvam-se à partida duas diatribes, que quem gosta deste tipo de análises ou efabulações sempre chama à colação. A mais habitual é a acusação – persistente contra os marxistas – de uma história ou leitura política fixada nas dinâmicas estruturais, subestimando, desvalorizando, negando o papel das personalidades/personagens, dos líderes/chefes, homens/mulheres que assumem/encabeçam/dirigem os movimentos/forças/processos políticos de mudança/alteração/revolução. Ou até o desconhecimento dos acasos/áleas da história, dos que não chegaram a horas ao encontro que a história lhes tinha destinado. Não é certamente o caso, pois não desconhecemos ou negamos a importância das atitudes, decisões que as duas citadas personagens possam tomar, mesmo se é impossível esquecer ou apagar os contextos, conjunturais e estruturais, económico, social, político e histórico em que se movimentam. A outra crítica é a de que quem assim discorre está feito com os “tubarões”, ou, no mínimo, simpatiza com tais personagens, como os que não são “candidatos da democracia e liberdade nas eleições portuguesas”, referidos por JPP. Asseguramos que não se perfilha qualquer idolatria particular ou empatia pelos perfis e opções político-ideológicas daqueles senhores.

Para JPP aquele par de jarras, Putin e Trump, “tem como objectivo primeiro deter um poder pessoal absoluto nos seus países. Por isso mesmo, são inimigos, antes de tudo, da democracia, o resto vem por acrescento”. O resto (“nacionalismo”, “isolacionismo”, vontade de alargar “o espaço vital”, etc.) são questões “secundárias e instrumentais” para “as suas ambições de poder”! Isto é, para JPP são umas boas promessas de “ditadores”. É claro que há aqui um lapso evidente de JPP: Putin, ao que nos rezam as crónicas e as notícias da “comunicação estratégica” ocidental (fundamentalmente produzida nos EUA e no Reino Unido) já o é há muito! Portanto não precisa de ir ser… já o é, já cumpriu o objectivo de “um poder pessoal absoluto”! Trump é que vai ter mais trabalho e tem que dar ao pedal para lá chegar!

Reflectindo sobre o assunto não nos podemos admirar do que acontece com Putin. Aquilo, ao que consta dos canhenhos da geoestratégia “ocidentais” faz parte da genética russa. É assim que a multidão de críticos, que acusam o materialismo histórico de estruturalismo, mecanicismo, determinismo, finalismo, tudo simplificam, reduzindo a complexidade ingénita da história a um simplismo atroz. Tudo se resume a “ditadura” naquelas paragens. Primeiro a autocracia czarista que terminou em 1917. Depois a ditadura do proletariado acabou em 1991. E ao breve interregno da democracia alcoólica de Ieltsin (só houve mesmo “democracia” porque os eflúvios de vodka assim o permitiram)… sucedeu a “ditadura” de Putin! Muitos ainda não perceberam aquela sucessão de regimes, como por exemplo JPP que avalia a actual “ditadura” na Federação Russa de Putin como uma emanação directa do “império social fascista”. Era assim que denominava e criticava a URSS nos idos dos primeiros anos da década de 70 do século passado, quando era um M-L encartado em maoísta! Nada a fazer com estes russos! Está-lhes na massa do sangue ou é uma questão de clima… A bendita democracia só reinará quando todo aquele espaço político se fragmentar como há muito se esforça por fazer o “Ocidente cristão”. Outra coisa não pretendeu Napoleão. Outra vontade não tiveram os exércitos das potências capitalistas ocidentais (EUA, RU, França, etc.) ao invadirem a Rússia em socorro dos Brancos para esmagarem a revolução proletária-bolchevique de 1917. Outro desejo não teve Hitler! E continua hoje nos planos estratégicos dos EUA congeminados por Brzezinski e Kissinger. O problema é que até hoje, apesar de muito esforço, o “Ocidente” ainda não conseguiu “democratizá-la”! Isto é, espartilhá-la, balcanizá-la, de forma a facilitar a exploração e colonização do “Ocidente”… alargando o seu (de algumas potências europeias) “espaço vital”. Para JPP Putin anda à procura de “espaço vital na Europa”, provavelmente porque é estreito, acanhado o “espaço vital” russo e não conseguem abrir os braços ou fazer umas passeatas dentro da Rússia! Ou será que Putin procura antes impedir que outros “espaços vitais” lhe calquem o rabo do seu “espaço vital”???

Já o problema do Trump abre outras perspectivas. Pode ser que não chegue a “ditador”! Mas o problema Trump levanta sérias interrogações, dúvidas, questionamentos que JPP não esclarece. Como é que Trump dá cabo do edifício da democracia nos EUA? Como é que o farol da democracia e dos regimes democráticos, que anda há décadas a exportá-la e exportá-los (nem que seja à bomba!) pode transformar-se numa ditadura, por simples vontade, ambição, manobra de um sujeito que parece um tanto ou quanto baralhado da cabeça… pelo menos às vezes? Uma personagem condenado em tribunais pelas mais diversas violações da lei. Diz JPP, “Como ameaça à democracia” Trump é “mais perigoso, porque actua num país democrático e, num quadro democrático.” Ainda por cima “ele anuncia, sem disfarce, querer subverter” o regime democrático! É mais fácil ao Trump subverter a democracia nos EUA? Então o que é feito e o que fazem as outras instituições do país? Então os famosos “Checks and Balances”, freios e contrapoderes não servem para impedir, derrotar, corrigir tais malignos e maléficos objectivos? Será porque a democracia americana é uma oligarquia, controlada/comandada pelo grande capital nos votos, nos medias, na educação/universidades, e Trump oligarca, é um dos deles?

Trump, afirma JPP: “Alterará o equilíbrio de poderes, exercerá o poder presencial sem qualquer limitação constitucional, e, talvez o mais importante, perseguirá todos os que se lhe opuseram, numa vingança que conduzirá o mais longe que puder”. Como é isto possível? Não haverá um tribunal ou juiz do Supremo, decisão do Congresso, cadeia de médias, e etc., etc., que se lhe oponha e o impeça de tal? Então o que faz o Congresso e a Câmara dos Representantes? E a CIA e o FBI? Então o Partido Republicano, e o Partido Democrático, e o Supremo Tribunal Federal? E os “Think-Thank”, e as Fundação Soros e a Rockfeller? E a National Endowment for Democracy, NED, “Suporting Freedom Around the World” que semeia por todo o mundo dinheiro para fazer brotar a democracia? E as Universidades tão entretidas que andam a chamar a polícia para malhar na estudantada pró-palestina? Chamem a Guarda Nacional e o Ku-Klu-Klan! Muito mal vai no reino dos ianques a democracia, exemplo único e supremo ideal de todos os adeptos da dita democracia liberal, aqui e nos algarves e na excelsa União Europeia. A Teresa de Sousa vai ficar muito triste…

Querem ver que para salvar a democracia americana, vamos ter que enviar uma delegação europeia do Grupo Bildeberg chefiada por Pinto Balsemão e a Teresa de Sousa a Washington?! Ou pedir à Sr.ª Von der Leyen que mande a UE decretar sanções económicas? Tudo às costas de Trump é um absurdo.

É o Trump um “isolacionista” como diz JPP? Sim mas já o Obama tinha sido e o Biden também não quer outra coisa, e em grau superlativo se tivermos em conta as recentes subidas de tarifas aduaneiras de 100% e outras medidas proteccionistas. É o que dá a “pessoalização” das maldades… Dizer tal não significa qualquer atributo de Trump porque é o resultado da resposta do grande capital americano ou de alguns dos seus sectores aos problemas de uma economia em declínio no confronto com a China e que quer garantir a continuidade da supremacia americana. Não é uma “característica”, ou “natureza” ou sequer “opção” de Trump. O Trump é um “nacionalista”? Mas qual o Presidente da República dos EUA, republicano ou democrata, que não assumiu “motivações nacionalistas” na definição das suas políticas externas? A defesa da globalização e da liberalização do comércio internacional, a criação da OMC, o comportamento face à ONU e às suas Organizações, alguma vez tiveram outra finalidade que não a defesa da “nação americana”?

É o Trump que “levará, como já de algum modo faz, os EUA a um clima de pré-guerra civil, e só a moleza dos democratas permitirá que ganhe”, como quer JPP??? Parece que se troca a causa pelo efeito: Trump é o resultado, não a causa de um Estado à beira da guerra-civil, “vítima” da crise do sistema capitalista e imperialista, das suas contradições, antagonismos e impasses e da vontade sem limite das suas oligarquias de continuarem a assegurar o poder dentro e fora dos EUA! Muita gente e insuspeitas personalidades o afirmam. Trump aparece para algumas dessas oligarquias como a hipótese de salvaguarda do essencial. É o capital, ou uma importante fracção do capital norte-americano, de que Trump faz parte, que o “fabrica” e o promove, e o faz eleger! É ver quem lhe paga as campanhas eleitorais. Tudo o resto é treta… O que não quer dizer que o Trump não dê uma mãozinha. A 19 de Abril, a Revista do Expresso publicou um interessante (e ao que se pensa, insuspeito) texto de Ricardo Lourenço (3): “A polarização nos Estados Unidos, que as presidenciais de novembro agudizam, gerou o receio de uma nova guerra civil – um cenário explorado agora na literatura e no cinema. O Expresso avaliou esse sentimento coletivo a partir de dezenas de conversas com americanos espalhados pelo país.” Que as diversas facções estão armadas – há milhares de milícias organizadas – não parece haver dúvidas, faces aos tiroteios e morticínios que vão acontecendo um pouco por diversos locais e regiões – “83 massacres registados no ano passado em estabelecimentos de ensino nos EUA” (3)!

Mas o grande problema para JPP (4) é que face aos comportamentos “perigosos” de Putin e Trump a Europa fica “entalada” “entre os dois”! Para JPP “Os termos do dilema são muito simples (…): ou se armam e se preparam para garantir a sua defesa sem terem os EUA de Trump como seu aliado” “ou ficam sem política externa e de defesa própria, como aconteceu com a Áustria e a Finlândia no pós-guerra.” Isto para a Europa Ocidental, porque a do Centro e Leste fica sob suserania russa.”! Valha-nos deus! E porque este “entalanço”, este dilema, é existencial, logo devia ter sido o centro/objecto das eleições para o PE, pelo menos dos “candidatos da democracia e da liberdade nas eleições portuguesas, que não são todos”. E porquê? Porque “a Europa é um continente de guerra” como nos diz a história (“com h minúsculo”) e logo… prepara-te para a guerra. O pequeno problema, que JPP não refere, é que essas guerras foram sempre desencadeadas pelas grandes potências da dita “Europa Ocidental”, França, Alemanha, Reino Unido, etc. até à penúltima na Jugoslávia… no Continente e muitas fora do Continente, como nos esclarece a história com “h” pequeno!

O que é extraordinário nesta abordagem de JPP (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. (Basta ver a quantidade de “salvadores”/profetas que por aí andam a escrever livros/tratados/receitas para o salvar… Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza???

Nada que não esteja presente como “filosofia” e “metodologia” histórica dos que só conseguem olhar a ditadura fascista portuguesas ancorada na figura e comportamento “perigoso”, ditatorial, de Salazar, sem invocar a “infraestrutura” dos monopolistas, latifundiários e do imperialismo/NATO. Ou do regime nazi em Hitler, esquecendo o papel do grande capital alemão na sua chegada ao poder, na alimentação da máquina de guerra e até na sobrevivência das raízes económicas do nazismo e figurões nazis no pós guerra. (5) Aliás, esta visão da história tem uma grande vantagem: mata-se o bicho, acaba-se a peçonha… e muitos historiadores ficam com a vida simplificada: a causas das ditaduras é dos ditadores…


(1) “Os dois homens mais perigosos do mundo: Putin e Trump…”, José Pacheco Pereira, Público, 01JUN24.

(2) “O grande tubarão-branco”, Clara Ferreira Alves, Revista Expresso, 07JUN24.

(3) “Estados Unidos da América: um país em estado de guerra”, Ricardo Lourenço, Revista Expresso, 19ABR24.

(4) “Coincidência” notável, na 2.ª feira 10JUN24, nos comentários aos resultados eleitorais para o PE, em Portugal e na UE, vários são os artigos que reproduzem as teses de JPP. No Público, Manuel Carvalho escreve “(…) que o PCP acredite que entre imperialismos agressivos e democracias só há uma escolha.” E António Barreto aflige-se com a “Europa sempre a sofrer dos ataques dos seus tradicionais inimigos, dos impérios que a rodeiam!”, “A Europa está ameaçada pelo afastamento americano. A Europa está posta em perigo pelo imperialismo agressivo russo.” É pena que não identifiquem os “outros imperialismos agressivos” e “os impérios que a rodeiam”, “seus tradicionais inimigos”! Mas parece não haver dúvidas, o “comunismo russo” está de volta…

(5) É muito esclarecedor o recente livro “Milionários Nazis – A história negra das maiores fortunas alemãs”, de David de Jong, Desassossego, 2023.

A «Pax Americana» de Pacheco Pereira

(Manuel Augusto Araújo, In AbrilAbril, 27/06/2022)

(Ó Pacheco, que porradão que levas nesses costados por navegares nos mares das “meias-tintas”. Sempre, sempre ao lado do povo, não é Pacheco? Mas, na hora da verdade, o Tio Sam é quem mais ordena, não é verdade?

Estátua de Sal, 27/06/2022)


O texto de José Pacheco Pereira intitulado «A “paz” para uma guerra abstracta, sem invasores e invadidos», publicado no sábado, dia 25, no jornal Público é must de sofismas para de forma encapotada e cavilosa se colocar fratalmente, nada como lá estar sem ser visto, na primeira linha dos defensores da ordem unipolar imposta pelos EUA e o seu braço armado NATO, que desde há dezenas de anos tripudia o direito internacional, impondo as suas regras assumidas como os valores ocidentais, os do Ocidente que desde o séc. XVII exploram as matérias-primas e humanas do resto do mundo em seu proveito.

Pacheco Pereira tem o desplante de a dado passo escrever: «Confesso que não entendo, ou entendo bem demais, a começar pela fórmula de abertura “Independentemente de opiniões diversas sobre os desenvolvimentos no plano internacional”. O que é que isto significa a não ser tornar a guerra, que se pretende condenar em termos genéricos, uma completa abstracção?»

Quem o lê é que percebe bem demais que quem considera a guerra, que na Ucrânia se iniciou em 2014, uma completa abstracção e que, contra todas as brutalidades daí decorrentes e outras actividades com ela correlacionadas, como a Ucrânia se ter tornado campo de treino das milícias nazi-fascistas da Europa, EUA e Canadá, é o Pacheco Pereira que esteve oito anos em cerrado silêncio completamente surdo, cego e mudo contra todas as evidências que o Conselho Português para a Paz e Cooperação, e já agora o PCP, iam denunciando, a par de outras guerras e outros atentados contra a Paz que sucediam no mundo. 

Não é um acaso, como não é um acaso o autor escrever «ou se se quiser, do “imperialismo americano”», entre aspas evidentemente, porque para ele esse imperialismo é justificável e irrefutável, deve ser aceite como guardião dos chamados valores ocidentais recorrendo a sanções, golpes de estado, sabotagens para subverter o direito soberano dos povos se libertarem das suas garras e, sempre que esse arsenal se mostrar insuficiente, impô-lo à mão armada fomentando guerras de forma directa ou indirecta, como é o caso actual da Ucrânia.

Isso para Pacheco Pereira é justificável porque o essencial é que o «se se quiser “imperialismo americano”» continue a ser o grande defensor da cidadela que ele habita com a janela escancarada para os poderes da burguesia que bem sabem que ele lá estará sempre para os defender e justificar mesmo quando os critica, nos vários órgãos de comunicação social em que abundantemente debita. 

Pacheco Pereira é, nesse seu Portugal, três sílabas de plástico, que é mais barato, como escreveu O’Neill, o mais acabado exemplo de intelectual orgânico. Nessa função tem escrito ultimamente até coisas inesperadas e interessantes, a par de textos como este último, um contínuo de escritos paradoxalmente em contradição com uma ideia que importou de França e que em certa altura andou a propalar, a da morte dos intelectuais universais, que desmente com contumácia quando continua com as suas copiosas teorizações a desempenhar um papel que dizia estar extinto, com pontos de vista sobre a história em que se assume como um gestor de existências, uma forma de enganar o público bem denunciada por Pierre Bourdieu, mas também por Derrida.

    1. São as contradições das teias de aranha em que estão presos os intelectuais orgânicos. Como Gramsci extensamente teorizou e demonstrou, numa sociedade de classes não existem intelectuais completamente autónomos em relação à estrutura social. Nas relações de produção hegemónica das diferentes etapas do desenvolvimento histórico, as sociedades criam para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência da sua própria função no campo político, social e económico. Esses intelectuais têm uma ligação vital com a classe que lhes deu origem. Para esse teórico marxista, a formação de uma massa de intelectuais não se justifica, apenas, pelas necessidades da produção económica, por meio de formação de técnicos, mas pelas necessidades políticas do grupo dominante. A relação dos intelectuais com o mundo da produção não é, como a dos grupos fundamentais, imediata. É mediatizada pelo conjunto das superestruturas das quais o intelectual é funcionário. Gramsci observa que em nenhum momento do desenvolvimento histórico real foi elaborada uma quantidade tão grande de intelectuais como na moderna sociedade burguesa. Um facto que se tornou mais óbvio nos nossos tempos com a proliferação de think tanks, gabinetes estratégicos, laboratórios de ideias, etc., etc., que se multiplicam mais que espécies invasoras. 

«Como Gramsci extensamente teorizou e demonstrou, numa sociedade de classes não existem  intelectuais completamente autónomos em relação à estrutura social. Nas relações de produção hegemónica das diferentes etapas do desenvolvimento histórico, as sociedades criam para si uma ou mais camadas de intelectuais que lhes proporcionam homogeneidade e consciência da sua própria função no campo político, social e económico.»

Mais que muitos outros e melhor que muitos outros, Pacheco Pereira enquadra-se nesta definição gramsciana. Os seus textos surpreendentes e mesmo surpreendentemente relevantes devem ser lidos com essa lupa. Mas há sempre um momento em que tem a necessidade de ocupar lugar de destaque na defesa dos valores da sociedade de que faz parte e o sustenta. Nunca a trairá. Empenhado na defesa da ordem unipolar, «se se quiser, do “imperialismo americano”», como se isso não fosse o que tem comandado o mundo nos últimos decénios, não seja a mão visível e invisível dos conflitos armados, das «guerras na Ucrânia, no Iémen, na Síria, na Líbia ou no Iraque, entre outros conflitos que flagelam o mundo» e «da situação na Palestina ou no Sara Ocidental», como refere o comunicado que apelava à manifestação pela Paz que tanto incomoda Pacheco Pereira.

Para ele só há uma guerra, a que sucede no território da Ucrânia, que é de facto uma guerra entre os EUA/NATO e a Rússia, por interposta Ucrânia, uma guerra que se iniciou em 2014 e culminou com a invasão da Rússia ao território ucraniano, o que ele oculta para justificar a arenga. Não deixa de ser curioso, embora seja bastante revelador, que um historiador abdique de contextualizações para alinhar no mais rasca e barato argumento de haver um país invasor e um país invadido, como se isso fosse um jogo de matraquilhos. Igualmente revelador é o facto de Pacheco Pereira denunciar que «o nome “Ucrânia” está lá no apelo, numa lista que mistura Palestina, Saara Ocidental, Iémen, Síria, Líbia e Iraque, onde a actual guerra é nomeada de passagem e sem relevo, como se fosse uma entre muitas comparáveis fortes e soberanos.» 

As outras guerras referidas no comunicado, no Iémen, na Síria, na Líbia ou no Iraque, com mortes, devastações, refugiados, crises humanitárias incomparavelmente maiores que as que se registam na Ucrânia, para ele são cousas menores. Em relação à Palestina e ao Saara, nunca falou abertamente de uma das maiores injustiças da história moderna, pelo que faz uma miserável desvalorização do direito à auto-determinação desses povos e da importância da sua luta no contexto da paz. 

Percebe-se, encara essas guerras e o direito à auto-determinação desses povos com a lógica do homem branco que Aimée Cesaire tinha denunciado: «sim, valeria a pena estudar, clinicamente, no detalhe, as trajectórias de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês do século XX, muito distinto, muito humanista, muito cristão, que ele carrega um Hitler que se ignora, que Hitler mora nele, que Hitler é seu demónio, que se ele o vitupera é por falta de lógica, e que, no fundo, o que ele não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, e de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até agora eram exclusividade dos árabes da Argélia, dos collies da Índia e dos negros da África.» 

«Não deixa de ser curioso, embora seja bastante revelador, que um historiador abdique de contextualizações para alinhar no mais rasca e barato argumento de haver um país invasor e um país invadido, como se isso fosse um jogo de matraquilhos.»

Pacheco Pereira de forma subliminar, sem ter a coragem de o assumir frontalmente, considera que a Europa detém uma cultura única que lhe dá o direito e até a missão, comandada pelos cruzados dos EUA/NATO, de dirigir o mundo conforme a sua vontade.

A tralha do seu texto são encadernados sofismas em que a Paz, desde que não seja a Pax Americana, não interessa, pelo que mistura alhos com bugalhos com grande à vontade, num texto minado de tretas, em que a memória histórica é bombardeada com napalm, em que a questão central é combatida como se o autor do texto fosse ideologicamente detergentado para que se fique pela superfície das coisas e o alvo imediato, a luta pela Paz, se esvazie de significado.

Acaba o texto com o desafio de uma coboiada, propondo um duelo ao sol nos ecrãs televisivos, um dos aquários onde deposita regularmente os seus pensamentos. Arma-se em Shane, mas como não passa do excêntrico Lee Clayton, se, ao contrário do filme de Arthur Penn conseguir sobreviver, pode esperar solitariamente sentado por seriedade intelectual, ninguém irá responder ao desafio.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

O estranho caso do historiador sem história

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 03/08/2021)

Pacheco Pereira irritou-se muito por no Twitter lhe lembrarem que foi contra a amnistia de Otelo e o disse “sem caráter”. Vai daí, publicou um texto furibundo contra o Twitter. É normal: nas TV onde perora ninguém costuma confrontar este historiador com um certo passado – o seu.


(Ó Pacheco, desta vez meteste o pé. Bastava teres respondido com o Evangelho de São Lucas: mais vale um pecador que se arrepende do que 99 justos… 🙂 – Comentário da Estátua de Sal)


Não há qualquer dúvida – eu não tenho – de que Pacheco Pereira é um dos mais interessantes comentadores portugueses. Inteligente, cáustico, lido, muitas vezes o que escreve demonstra capacidade de análise que vai para além da superfície e nos suscita reflexão, sendo até possível achar (já achei) um certo encanto no tom de enfado, quase neurasténico, com que se apresta a explicar o mundo aos menos afortunados no campo cerebral – nós todos, naturalmente.

O que escreve deve porém ser lido com precaução: é bem possível que tenha já defendido o absoluto contrário, com o mesmíssimo tom de impaciente superioridade. E sem jamais explicar a, digamos, evolução. Porque, claro, mudar de opinião é normal e até desejável em determinados assuntos, mas convém explicar porquê – sob pena de se poder concluir que tais mudanças são fruto de estratégias e oportunismos (ser conveniente num determinado contexto ter outros aliados e alvos, tendo mudado de inimigo) e não de uma reflexão honesta, fruto de amadurecimento e/ou alterações de circunstâncias.

Vejamos o caso de Otelo. Pacheco Pereira, numa intervenção televisiva e num texto na Sábado, alertou para a “tribalização” que a sua morte iria suscitar (“Nos dias que atravessamos, de reducionismo da política à arregimentação tribal, Otelo terá o panegírico do herói e o vilipêndio do criminoso, e não vai haver capacidade para olhar para ele com distanciação”); na Circulatura do Quadrado, comparou Spínola e o estratega do 25 de Abril, vincando que o primeiro (também dirigente de um movimento terrorista, o MDLP, e ligado a uma tentativa de golpe de Estado que o levou a fugir do país) tivera direito a luto nacional e o segundo não. Não o vi defender preto no branco que Otelo, cujo papel de dirigente das FP25 reconhece, deveria ter essa honra, mas a ideia que fica é essa – as suas palavras “com Spínola não haveria 25 de Abril, sem Otelo não haveria 25 de Abril” foram amplamente citadas por quem o preconizou.

Nada de problemático haveria nisso – podemos concordar ou discordar; podemos por exemplo achar que Spínola não deveria ter tido essa honra apesar de ter sido PR e que ter-se errado no seu caso não justifica repetir o erro (é o que penso) – se o mesmíssimo Pacheco Pereira não se tivesse oposto à amnistia aprovada pelo parlamento em 1996 (curiosamente, no ano da morte de Spínola) de que Otelo, condenado pelo Supremo, em decisão nunca transitada em julgado, a 17 anos de prisão por terrorismo dos quais cumpriu cinco em preventiva, foi beneficiário.

Vale a pena revisitar a intervenção de Pacheco Pereira como deputado na discussão da amnistia. Nesta, vincava que a proposta dividia “profundamente os portugueses” e não tinha “qualquer papel de pacificação da sociedade portuguesa”; que justificá-la com a “dualidade fascismo/antifascismo” era “legitimar a atuação das FP-25 de Abril”, porque correspondia a “interpretá-la como um ato que pode ser hoje, em 1996, visto como politicamente legítimo, como um ato que pode ser inserido num comportamento antifascista e que, pelo reverso, pode ser comparado ao comportamento da PIDE.” A Otelo, elegia-o entre os responsáveis das o bebé de quatro meses morto em 1984 por uma bomba enquanto dormia no berçoFP como o mais imperdoável: “Há, pelo menos, uma pessoa que não merece a amnistia. Essa pessoa é a que, depois do que aconteceu, dando uma entrevista ao semanário Expresso e falando da morte de uma criança [o bebé de quatro meses morto em 1984 por uma bomba enquanto dormia no berço], disse que se tratava de um erro técnico! E este cinismo, este sim, não pode ser amnistiado!”

Cinco anos depois, em 2001, aquando do chamado “julgamento dos crimes de sangue” das FP25, no qual Otelo era mais uma vez arguido e no qual foi, como previsível no pós-amnistia, absolvido, o nosso político/comentador/historiador voltava à carga num brutal artigo no Público, intitulado A bofetada, verberando a “injustiça praticada pela justiça e pelo poder político no caso das FP-25 de Abril”, cuja ação definiu como “puro terrorismo político, crimes contra tudo o que são os fundamentos da democracia e dos direitos humanos”.

O “ar impante de Otelo e dos seus companheiros, os abraços esfuziantes à saída do tribunal, são uma bofetada para a esmagadora maioria dos portugueses”, afiançava, redobrando a sua fúria contra “o sorriso de Otelo (…), na ‘aisance‘ criminosa dos que não se arrependeram, mas que fazem hoje a sua vidinha de antigos combatentes, como se nada fosse (…), sem uma palavra de distância, sem entregarem uma arma ou explosivo, sem pagarem um tostão às vítimas, prontos para o ‘talk show‘, com esta arrogância que nos fere a todos”. Para concluir: “Também aqui os homens de caráter perderam e os que não o têm ganharam.”

É possível, aos 52 anos, Pacheco Pereira achar isto tudo de Otelo – que não tinha caráter, que era um criminoso impenitente e desalmado, que a sua amnistia e absolvição não deviam ter acontecido, ou seja, que deveria ter passado 20 ou mais anos na prisão, que o resultado dos dois processos das FP25 era uma “violência” introduzida no “tecido psicológico coletivo”, um “rio de ressentimento” que havia de “vir ao de cima” – e aos 72 pedir “distanciação” e até dar a entender que ele devia ser celebrado como grande da pátria?

É possível, porque aconteceu. Convinha era assumir. Justificar o facto de, quando teve o poder de decidir com o seu voto, ter votado Otelo ao opróbrio. Ou admitir que “estava enganado”, “enraivecido”, “era a posição do meu partido/tribo”, “foi a minha fase caceteira”, “via o mundo a preto e branco”, “era parvo” – qualquer coisa assim.

O que não faz sentido é arrogar-se a postura do filósofo historiador que sopesa contextos e despreza aquilo a que chama “tribos”, atribuindo aos outros aquilo que ele próprio fez, e de forma muitíssimo violenta – apor o “vilipêndio do criminoso” a Otelo. O que é patético, evidenciando um determinado tipo de caráter, é reagir, perante quem confronta o recoletor da Ephemera com recortes da sua história, como se o caluniassem.

Furibundo com o facto de no Twitter – ao contrário do que se passou no universo das TV, no qual comentou a morte de Otelo sem ninguém lhe ter feito uma perguntinha que fosse sobre o seu historial no que a Otelo respeita (não sabiam ou, como ele, acham que isso agora não interessa nada?) – se ter recordado o seu passado, o historiador não teve a humildade de se colocar na história como peão que cada um de nós é, examinar-se como produto do seu tempo e contexto, fazer errata do seu percurso. Entrou, ele que foi dos primeiros a entusiasmar-se com os blogues e o mundo da internet, na imprecação contra “as redes”, queixando-se de “ódios pessoais e políticos”, “ajustes de contas” e “disseminações de calúnias” – isto sem nada concretizar, que apresentar factos só se exige aos outros e dizer o que tanto o irritou não dava jeito nenhum.

Num texto ironicamente intitulado A máquina do preto e branco, Pacheco, que um dia, há muitos muitos anos, quando eu ainda o cria pessoa séria e lhe dirigia a palavra, me disse “eu leio tudo”, retrata-se na demonstração de que passeia clandestino nesse universo que relata tanto desprezar, anotando elogios e críticas e acalentando os ódios pessoais – baixinhos, baixinhos – que imputa aos outros. O “monocolorismo” que descreve ser o Twitter serve-lhe afinal para descrever o Twitter – como se o Twitter, como o mundo, porque como o mundo, os jornais, as TV, os blogues, é feito de pessoas, não tivesse de tudo.

“Olhem para mim e vejam como estou indignado”, é o resumo do Twitter por Pacheco Pereira num texto que se resume a isso mesmo: a sua indignação por haver – como se atrevem, como me atrevo? – quem lhe denuncie o bluff.

Jornalista

NOTA: texto alterado às 19.41 de 3 de agosto, para colocar o título correto do texto de opinião de Pacheco Pereira: A máquina do preto e branco em vez de, como estava escrito, O mundo a preto e branco.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.