Maior do que Portugal

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/10/2016)

AUTOR

                                  Miguel Sousa Tavares

Meço a frase com todo o cuidado: António Guterres é um dos raros portugueses de quem eu, convictamente, posso afirmar que é maior do que Portugal. Ele e Mário Soares são os únicos políticos portugueses que, em 40 anos de andanças jornalísticas, vi serem conhecidos e reconhecidos lá fora. O seu extraordinário desempenho na candidatura a secretário-geral da ONU, apesar dos tão invocados esforços diplomáticos e influências movidas, deve-se, única e exclusivamente, ao seu mérito próprio. Ela só foi possível porque, num processo aberto e fundado na qualidade de cada candidato, António Guterres foi, de longe, o melhor. E isso é, desde logo, uma característica que o faz diferente da nossa maneira de ser: ousar bater-se e conseguir triunfar pelo mérito próprio, exclusivamente.

Conheci pessoalmente António Guterres quando ele era líder da oposição socialista ao último governo de Cavaco Silva. Convidou-me para irmos almoçar no seu restaurante favorito, na Praça das Flores, e a partir daí, durante cerca de um ano, almoçávamos uma vez por mês, tendo cada almoço uma espécie de tema predefinido — para o qual ele vinha incrivelmente preparado, documentado e com ideias firmes que queria confrontar com as minhas. Mas, por favor, não façam confusão: eu não sou o arquiteto Saraiva, cuja ideia de jornalismo se resume aos almoços que tem com os políticos para satisfação do ego e memória futura. Detesto almoços de trabalho em geral e almoços com políticos em particular. Mas Guterres era diferente: estava na oposição, tinha vontade de discutir e de se confrontar a si próprio e um genuíno espírito de serviço público que eu nunca antes tinha conhecido. Nunca, em 40 anos de jornalismo, encontrei alguém em Portugal que estivesse mais bem preparado e motivado para governar — e eu sempre pensei e penso que governar Portugal, de acordo com aquilo em que se acredita ser melhor para o país, é o pior emprego que se pode ter.

Então, Guterres foi para primeiro-ministro. E, logicamente, os nossos almoços acabaram: porque ele deixou de ter tempo para isso e porque a natureza da nossa relação mudou necessariamente. Mas um dia telefonou-me para que eu fosse almoçar em São Bento. Foi um almoço estranho, que durou umas quatro horas e em que a maior parte do tempo foi gasta a falar da vida e de assuntos pessoais. Lembro-me de uma frase premonitória que ele disse e que eu retive pela convicção com que foi dita: “Não vou ficar aqui muito tempo e quando sair vou querer dedicar-me a qualquer coisa no domínio internacional, no campo dos direitos humanos ou semelhante.” Saiu com um pretexto absurdo, cansado dos facas longas do PS, da pequena intriga da política e da mesquinhez do país. Não o disse assim exatamente, mas eu sinto que foi isso que pensou quando falou do “pântano”. E eu, que lhe dediquei um livro de crónicas políticas intitulado “Anos Perdidos”, eu, que então não lhe perdoei não ter querido arrostar até ao fim com a luta contra os nossos males mais profundos, enquanto seu admirador pessoal, compreendi bem a sua desistência e, do fundo do coração, desejei-lhe toda a sorte do mundo.

E hoje ele é o secretário-geral do mundo. Não sei se os portugueses se dão bem conta daquilo que António Guterres conseguiu para Portugal. Representa bem mais do que as Bolas de Ouro de Cristiano Ronaldo, o título europeu da Seleção e até o Nobel de Saramago.

Não haverá multidões à sua espera no aeroporto, desfile de vitória até aos jardins do Palácio de Belém, sumidades e autoridades a chegarem-se à frente e a quererem fazer selfies com ele. Mas nos últimos 50 anos, pelo menos, nenhum português nos deu mais motivos de orgulho do que ele. E conseguiu-o através da atividade que o português comum mais gosta de desprezar: a política. Parabéns e obrigado, António Guterres!

Guterres, a ONU, e a Alemanha.

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 05/10/2016)

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A eleição da Merklina búlgara para a ONU representava entrada da Alemanha para o grupo dos grandes atores internacionais e a rutura da Europa em dois blocos, um pró-russo a Leste e outro pró-americano a Oeste. Representava a rutura com o equilíbrio de forças atual, um triangulo cuja base ainda são os EUA. Os 3 grandes decidiram manter o status quo e resolver bilateralmente os seus conflitos no Médio Oriente e no Mar da China, como têm feito. Bateram a porta na cara da Alemanha. A Europa sairia sempre mal deste jogo em que a Alemanha a meteu. Junker, o pianista do cabaré alemão em que Barroso deixou a Comissão Europeia transformar-se deve estar de ressaca, um estado que lhe passa sem deixar marcas de vergonha. Guterres não é um secretário geral sponsored pela União Europeia, é apenas o clister que a Alemanha teve de tomar. Guterres chega a secretário geral contra a Alemanha, por mérito próprio e por ser cidadão de um estado simpático e de ph neutro. Tem a vantagem de valer por si e esse é estatuto valioso perante os poderes e as opiniões públicas para exercer o seu magistério de influência – o que vai bem com o odor de santidade que gosta de transmitir desde jovem católico. A Merklina búlgara seria sempre vista como a mulher a dias da patroa Merkel e da Alemanha. Portugal – entendido como uma entidade dotada de valores – sai bem desta pugna. Guterres resgata o país da imagem de Barroso, um videirinho que se fez lobista do mais que suspeito Golman Sachs para meter uns bons cobres na conta bancária.

Guterres desinfecta Portugal dos Barrosos e da sua trupe de pequenos rufias. Não é assim tão pouco. Quanto à ONU, os cães grandes continuarão a rosnar uns aos outros longe dali.

Guterres e a teoria dos jogos

(Por Estátua de Sal, 05/10/2016)

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Como toda a gente fala no António, Guterres de apelido, também não posso fugir ao tema.

Há um coro de aplausos, da esquerda à direita, pelo sucesso da candidatura de Guterres a Secretário-Geral da ONU. Louvam-se as qualidades do candidato e diz-se que elas foram a alavanca para que os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU o tenham aceitado, logo numa primeira escolha, praticamente por unanimidade. Eu não duvido que as qualidades humanas, políticas e técnicas do candidato tenham sido importantes. Mas tal não seria suficiente se qualquer um dos grandes países considerasse ter, neste momento, a força suficiente para impor um outro candidato, mais próximo dos seus interesses e das suas políticas. Não há quem a tenha. O que o sucesso de Guterres prova é que atualmente, na correlação de forças a nível mundial, nenhuma potência se destaca com um poder de hegemonia tal que possa ousar, sequer, iniciar um processo de imposição às restantes dos seus pontos de vista, ou pelo menos que tal não seja feito sem grande desgaste e custos.

Fazendo um paralelismo com a teoria dos jogos, a vitória de Guterres é consequência de uma situação de equilíbrio de Nash: ou seja, todos os países concluíram ganhar mais em cooperar, apoiando a candidatura de Guterres, qualquer que fosse a decisão dos restantes, do que em a hostilizar e sujeitar-se a ter que vir a aceitar uma outra bem pior, já que nenhum deles se viu com força suficiente para impor o seu candidato.

Como em todos os processos, também aqui há ganhadores e perdedores. Guterres, Portugal e todos o que o apoiaram, a própria ONU enquanto organização mundial cuja face pública e poderes de influência saem reforçados, são grandes vencedores. A Alemanha, a Comissão Europeia, Juncker, Barroso e comandita, e os grandes interesses financeiros que giram à volta do PPE, saem nitidamente de rastos.

Sobretudo Merkel. Quis dar um passo maior que a própria perna. Julgou que conseguia impor ao mundo uma candidata de última hora tal como consegue impor à Europa e aos frouxos líderes europeus a sua agenda e o seu programa castigador. É preocupante a Europa estar entregue a alguém com uma capacidade de julgamento político e de avaliação das situações e das forças em presença tão limitada e tão canhestra. Merkel saiu derrotada e falhou em toda a linha.

Tal como está a falhar na política financeira, no Euro, nas perspectivas de crescimento das economias europeias, sacrificando uma geração à desesperança e aos extremismos consequentes. Tal como falhou na gestão da crise das dívidas soberanas, mormente no caso da Grécia. Tal como falhou na questão dos resgates e das troikas à Grécia, a Portugal e à Irlanda. Tal como falhou na crise dos refugiados e que culminou com o vergonhoso e caro acordo que veio a fazer com a Turquia. Tal como falhou no processo que levou ao Brexit. Tal como falha, aceitando a política xenófoba e racista da Hungria agora sufragada em referendo. Tal como irá falhar, provavelmente, na gestão do dossier do Deutch Bank, que lhe irá rebentar nas mãos e espalhar estilhaços letais pelo mundo fora, e em primeira linha pela Europa adentro.

De derrota em derrota até à derrota final, assim vai a chanceler. Só é pena que leve consigo para o abismo o seu país e, por tabela, todos os outros países europeus, o presente e o futuro de milhões de cidadãos. Parece que a Alemanha não tem jeito para negociar e dialogar com ninguém. A História isso mesmo nos diz. Está-lhe na genética, nas práticas e nos cometimentos, e até nos filósofos. Relembro uma frase de Friedrich Nietzsche: “Ser independente é apanágio de uma pequena minoria, é um privilégio dos fortes”.

Enquanto na Europa a Alemanha é forte, e quer sempre subalternizar os restantes países, no mundo a Alemanha não é assim tão forte, e acabou por provar do seu próprio veneno. Se a D. Merkel fosse uma grande estadista sabê-lo-ia seguramente e teria evitado sujeitar o seu país e as instituições europeias, que é suposto liderar, a mais uma humilhação.