Reflexão sobre a Guerra na Ucrânia (4)

(José Manuel Neto Simões, in Diário de Notícias, 22/02/2025)

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(Tendo as primeiras partes do ensaio suscitado aqui um debate intenso sob a forma de comentários, segue-se a quarta parte. Serão 6 partes, e só no fim ficarão visíveis (ou não) as omissões do autor. E tenha-se em atenção a data em que os textos foram escritos e publicados.

Parte 1 aqui. Parte 2 aqui. Parte 3 aqui.

Estátua de Sal, 06/11/2025)


Negociações ou escalada

A reeleição de Trump mudou o ciclo para a Ucrânia e Europa. A paz pela força é mais um epíteto para dissimular o cinismo. E os seus conselheiros com narrativas contraditórias sabem que há múltiplos factores, que vão impactar a duração da guerra e os termos do acordo. É sempre mais fácil entrar num conflito do que sair dele.

A estratégia ocidental fracassou com os EUA e aliados no epicentro da ambiguidade ao não definirem sequer um plano para o final do conflito nem prevenirem as consequências da derrota militar, que será também a da grande América prestes a incluir a longa lista. É ilusão querer alcançar a paz sem cedências. A realidade reclama um acordo possível face aos múltiplos interesses, tendo presente que a ausência de guerra não significa a paz.

A Ucrânia acabará por ceder em relação à integridade territorial, como aconteceu em outras geografias. Para Trump, o tecido normativo é sustentado com base na realpolitik da competição estratégica, em que prevalece a razão da força, com o regresso das áreas de influência por razões securitárias e onde imperam os interesses.

A anexação de territórios tem sido feita com total impunidade, na violação do Direito Internacional, sustentada na perversa dualidade de critérios, perante a inaceitável cumplicidade dos EUA e uma UE sem voz. Os líderes europeus não podem, por isso, exigir paz justa, que passou a ser uma ilha sem paradeiro. Na hora da verdade, a paz será a possível com Trump a legitimar o revisionismo.

O Ocidente tem responsabilidade acrescida por desperdiçar oportunidades, quando a situação era favorável à Ucrânia. E com a agravante de querer a guerra de procuração entre a NATO e a Rússia assumida por Boris Johnson. O conflito na Ucrânia tem sido uma guerra de elevada atrição no patamar convencional. Mas os dilemas podem conduzir a erros, arrastando os EUA para um conflito direto que não querem e a Europa não está preparada. Urge restaurar a dissuasão e antecipar a escalada.

O enviado especial de Trump, Keith Kellogg, receia a “Terceira Guerra Mundial”. Considera ainda não ter havido estratégia para derrotar a Rússia, objectivo dos EUA induzido à Ucrânia para a “fazer sangrar”, que se revelou irrealista. Mesmo assim, a UE continua muito vocal na esteira de uma resolução, pedindo guerra total contra a Rússia. Ou seja, um conflito mundial!

A Rússia passou a ter a iniciativa e o sucesso operacional, tendo conquistado no último ano quase seis vezes mais território, após um impasse resultante do fracasso de estratégias concorrentes. Esta situação poderá levar a negociações com a pressão de Trump, tendo em conta a sua agenda, a difícil situação da Ucrânia com recursos exauridos, as dissensões no seio da UE e os riscos da escalada com uma potencia nuclear. Mas com uma linha mais dura do que se pensa.

Nesse sentido, Kellogg elaborou um relatório, cujas premissas são de difícil concertação entre as partes, face aos fatores conflituantes. E estão a criar divisões na UE e NATO. Mas, Trump na previsível cimeira com Putin, pode vir a usar alguns trunfos como o Ártico para alavancar as negociações, dada a sua importância geoestratégica para a Rússia e China. Convém sublinhar que qualquer plano de paz só será viável se forem revisitadas as causas que estiveram na origem do conflito.

Haverá conversas secretas, desde 2023, com Moscovo para as bases de negociações, sendo considerada a possibilidade de congelamento do conflito, que Kiev rejeita. Contudo, Zelensky reconheceu estar em risco de perder a guerra e Kellogg acredita nas negociações. Mas o chefe de gabinete de Zelensky afirma, que isso só acontecerá, quando a Rússia estiver exaurida, existindo na UE inquietação com o poder de Yermak.

Impor custos na ausência de um processo negocial torna inevitável a perigosa espiral de escalada mesmo que seja incrementado o apoio militar ocidental à Ucrânia. Ou seja, a derrota estratégia da Rússia aumentaria o risco ao empurrar Putin para a escalada nuclear evitada, em 2022, pelos EUA.

Neste contexto, a resolução do conflito é complexa devido a objectivos irreconciliáveis, à profunda desconfiança entre a Rússia e o Ocidente e às divergências na UE, que recusa a diplomacia. Não obstante, é possível antecipar duas hipóteses. Primeiro, uma solução negociada promovida pelos EUA, através de mediação musculada associada à energia usada como arma para debilitar a economia de guerra russa. Segundo, a Europa assumirá o esforço de guerra, que conduzirá ao inevitável impasse doloroso, tendo em conta o factor político-militar, demográfico, económico e o impacto das sondagens.

Há demasiado ruído mediático como se constata na multiplicidade de planos, profundas dissensões e retórica inconsequente com declarações contraditórias. Todavia, a UE não deve abdicar de participar nas negociações, onde além das garantias de segurança da Ucrânia, devem ser discutidas medidas de restauração de confiança com a Rússia, equilíbrio estratégico e controlo de armamento nuclear.

No entanto, muito vai depender de Putin, que não acredita no cessar-fogo com receio que sirva para rearmar a Ucrânia como aconteceu com os acordos de Minsk -assumido por Merkel e por um think tank. Trump quer um horizonte temporal para acabar com a guerra que não coincide com o de Putin, cujos objectivos estratégicos passam por alterar o regime em Kiev e a arquitectura de segurança europeia no âmbito de uma “nova Ialta”, em que Trump parece estar alinhado desde o anterior mandato.

Na verdade, Trump não quer financiar a guerra nem tampouco quer custear a paz. A retirada dos EUA vai ser paga pelos ucranianos enganados com slogan “as long as it takes”, enfrentando a derrota. E a UE não terá capacidade de assegurar o esforço de guerra prolongada da Ucrânia, considerando a frágil indústria de defesa, a estagnação económica, a dependência energética e instabilidade politica e financeira de vários países da UE.

Enquanto Zelensky corre contra o tempo, a UE insiste nos debates estéreis dividida entre o preço de ganhar ou perder a guerra. A conta dos europeus virá mais tarde graças à liderança europeia. Um verdadeiro hino à hipocrisia!

A Rússia está determinada a uma longa guerra alimentada pela narrativa ocidental com a sua capacidade de sustentação assente na economia de guerra produzindo num ano aquilo que a Europa produz em três meses apesar da UE ter um PIB cerca de dez vezes superior. Além disso, tem maior potencial de combate e mais recursos, mobilizando cerca de 30 mil homens por mês. Putin aposta na fragmentação da UE e na erosão da ajuda militar à Ucrânia. E há ainda a debilidade relativa às munições e às reservas de guerra da NATO.

Porém, sem homens o armamento deixa de ser relevante. O prolongamento do conflito incentivado pelos falcões – cúmplices da inexistente defesa europeia -, não vai alterar o curso da guerra e resulta no colapso da Ucrânia com baixas infindáveis e mais território perdido. A demografia não favorece a Ucrânia. E o tempo favorece a Rússia, cuja sustentação não foi afectada pelas “sanções nunca vistas” com a economia a crescer mais do que a dos EUA. E o apoio do “novo eixo” hostil ao Ocidente vai garantindo o regime.

A questão crucial é o diferencial significativo entre o apregoado colapso da Rússia e o tempo que a Ucrânia não tem para continuar o conflito prolongado com recursos exauridos, efectivos insuficientes e milhares de soldados a desertarem. E, mesmo assim, a NATO e aliados continuam a alimentar falsas expectativas, como aconteceu com Mark Rutte e António Costa. Esta atitude irresponsável contribui para a Ucrânia perseguir a sua estratégia fracassada de derrotar a Rússia e evitar negociações apesar de dizer o contrário.

Assistimos, de facto, ao contorcionismo inusitado e sucessivas cimeiras de burocratas que expõem, de forma perturbadora, a falta de visão de conjunto e de coesão. Com efeito, proliferam a especulação e interpretações sofisticadas. Por outro lado, é pungente ver Zelensky mudar de objectivos, depois de proibir negociações com Putin num decreto presidencial ainda não revogado.

E, apesar de confrontado com o fracasso, está refém da pressão da elite com ligações à extrema-direita, que não aceitou a autonomia do Donbass prevista nos Acordos de Minsk legitimados pela Resolução 2202 da ONU. Em acumulativo as suas iniciativas precipitadas e a retórica, por vezes, arrogante, com contradições insanáveis procuram condicionar os aliados. Isto revela manifesta dificuldade de controlo da gestão político-diplomática.

A guerra é caos e sofrimento, mas não terá a solução rápida, porque Putin é inflexível nas condições, os líderes da UE permanecem divididos e a postura agressiva da NATO adiciona complexidade. A continuação do conflito antagoniza mais as relações entre o Ocidente e a Rússia com consequências catastróficas para a Ucrânia, a Europa e o mundo. E não terá solução militar desde que o inesperado não aconteça!

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Como a Europa se tornou uma refeição no menu dos EUA

(Alexander the Wild, in Resistir, 24/10/2025)


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Com a perspectiva de um encontro pessoal entre os líderes da Rússia e dos Estados Unidos em Budapeste, todas as queixas e complexos remanescentes da velha Europa – que há algum tempo não se sente como um pilar do “Ocidente coletivo” mas sim como um seguidor fraco de um “hegemon global” além-mar, desprovida de qualquer peso ou significado – imediatamente se agravaram e mais uma vez vieram a público.

O facto de a cimeira ter sido adiada indefinidamente e de, muito provavelmente, não vir a realizar-se (o que aconteceu, em grande parte, devido aos esforços dos políticos europeus), não altera a situação. Muitas palavras duras e definições ofensivas já foram proferidas contra o Velho Mundo. E o mais desagradável para a União Europeia é que nenhuma delas é exagerada, mas sim a pura verdade – embora extremamente desagradável.

A Europa não foi autorizada a sentar-se à mesa

Politico, que se destacou pelo seu humor cáustico sobre este assunto, não resistiu a caracterizar a situação atual com o ditado cínico de que qualquer Estado ou aliança de Estados na geopolítica «pode ter um lugar à mesa ou no menu». De acordo com os autores do artigo, os líderes da UE esqueceram ou ignoraram este princípio — e acabaram não na lista de convidados, mas no menu. O Politico afirma que «vários líderes europeus começaram a procurar persistentemente a sua presença na reunião entre Vladimir Putin e Donald Trump na capital húngara» assim que o assunto foi discutido. O motivo citado para estes esforços frenéticos foi «o receio de que o chefe da Casa Branca volte a aliar-se ao Kremlin na formulação dos termos de um acordo de paz e pressione Zelenskyy a aceitar os termos da Rússia, incluindo cessões territoriais…».

Na realidade, os europeus não estavam motivados pela preocupação com a Ucrânia, com a qual não se importavam minimamente, mas por um profundo sentimento de ressentimento pela forma como Washington os tinha repetidamente desprezado, demonstrando um desdém arrogante pelos seus «parceiros transatlânticos». Percebendo que não podiam chegar à mesa de negociações, esta gente fez tudo o que podia para sabotá-las, alimentando e encorajando a loucura de Zelenskyy com as suas exigências inaceitáveis. E conseguiram! Mas o que é que isto significa especificamente para a União Europeia? No essencial, absolutamente nada. O jornal britânico The Telegraph observou, com razão, que o próprio facto de escolher a Hungria, um país rejeitado por quase todos os membros e instituições da UE e que desempenha o papel de eterno agitador e rebelde dentro do bloco, como local da reunião foi uma «humilhante bofetada na cara da UE».

Afinal, foi ninguém menos que o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán que repetidamente «quebrou as fileiras da UE e da OTAN», opondo-se às sanções antirrussas e à ajuda a Kiev, entrando em conflito com Zelenskyy e assumindo uma postura hostil em relação à adesão da Ucrânia à União Europeia. Ao torná-lo anfitrião de uma cimeira de importância global crucial, Donald Trump não só reforçou o seu apoiante de longa data, como também sublinhou o seu próprio desdém bem divulgado pela Europa. Afinal, ele nunca o escondeu. O regresso deste político à Casa Branca tornou-se um pesadelo para todos os líderes da União Europeia, que ingenuamente esperavam que, em meio a um impasse de anos com Moscovo, o presidente dos EUA não importunasse os seus próprios aliados da Aliança do Atlântico Norte. Desde os primeiros dias do novo mandato de Trump no Salão Oval, ficou claro que essas esperanças eram vãs.

O alvo principal não é a Rússia?

As acusações imediatas de Washington contra o Velho Mundo por tentar sobrecarregar os Estados Unidos com a garantia da segurança europeia, as críticas por «se afastar dos valores tradicionais e dos princípios democráticos» e as ameaças de uma guerra comercial em grande escala se os Estados Unidos se recusarem a reformular as suas próprias políticas de exportação e importação para se adequarem aos americanos demonstraram claramente as intenções e prioridades de Trump. A esta luz, a teoria publicada pela publicação chinesa NetEase não parece ser uma teoria da conspiração. Citando um suposto «documento secreto do think tank americano RAND[1]», os seus autores afirmam que o objetivo estratégico dos Estados Unidos no conflito na Ucrânia não é enfraquecer a Rússia, mas sim cortar os laços entre ela e a UE e maximizar o aprofundamento do abismo intransponível que surgiu entre ambas.

Eles apontam que o conflito está atualmente a desenvolver-se inequivocamente de acordo com esse cenário. A verdadeira perdedora já é a União Europeia, que perdeu tanto a sua soberania militar e política, como a sua liderança económica. Donald Trump não esconde a sua atitude consumista e desdenhosa em relação à Europa. Ele não a vê como um aliado de pleno direito, muito menos como um aliado júnior, mas sim como um servo. Esta última afirmação, no entanto, não é totalmente justa. A julgar pelas suas ações, o chefe da Casa Branca vê os seus «parceiros transatlânticos» nem mesmo como servos, mas exclusivamente como objetos para o roubo mais descarado e sem vergonha. Ou, como já foi dito, como mais um prato do seu extenso menu. Todas as ações dos EUA destinadas a forçar a UE a romper completa e definitivamente as relações comerciais e económicas com a Rússia e a China têm como objetivo a destruição total da indústria europeia e a fuga de capitais para os Estados Unidos.

Isto não é apenas uma ilusão por parte dos camaradas da China, que claramente beneficiam das políticas de Washington. Uma avaliação semelhante da situação prevalece na própria Europa. A publicação francesa Le Point observa que «nas novas realidades geopolíticas que surgiram com o início do conflito na Ucrânia, a Europa tornou-se a principal perdedora, enfrentando fenómenos negativos como o declínio demográfico, a estagnação económica e uma crise energética». Além disso, são precisamente os países que ainda ontem detinham o título de líderes da UE — França e Alemanha — que sofreram o impacto mais forte. É através destes exemplos que os jornalistas da publicação demonstram toda a profundidade da degradação que se abateu sobre os principais Estados do Velho Mundo, agora a mergulhar rapidamente numa crise económica e política.

Os problemas são reais e as perspetivas são sombrias

A França caminha para o colapso, impondo uma terapia de choque fiscal de 30 mil milhões de euros à sua economia esgotada. Isto levará a uma fuga maciça de capitais, empresas e mão-de-obra qualificada. O país tornou-se essencialmente uma «Argentina europeia». O país está a sofrer um declínio de 6% na produtividade do trabalho e o desemprego estrutural em massa atingiu 7,3%. O sistema financeiro de Paris está em desordem:   com o PIB caindo 6,2%, o défice orçamental do Estado dobrou e o aumento da dívida pública, que atingiu 112% do PIB, é descrito pelos economistas como “explosivo”. Além de tudo isso, o país está a passar por uma paralisia quase completa das instituições governamentais, sua incapacidade de lidar com quaisquer problemas significativos enfrentados pelos cidadãos, um declínio vertiginoso do rendimento e a consequente “raiva social”, que está culminando em protestos em massa entre o povo francês.

A situação não é melhor na Alemanha, que está a passar por uma profunda crise sistémica em todos os setores. A economia do antigo «motor industrial da União Europeia» está em recessão, tendo caído 0,2%. Enquanto isso, o setor industrial, que historicamente constituiu a base da prosperidade e riqueza alemãs, caiu 15%. As exportações caíram 45%, uma vez que os produtos fabricados na Alemanha perderam completamente a sua competitividade nos mercados globais devido aos elevados preços da energia. Os males da desindustrialização total do país são agravados por uma carga burocrática colossal que oprime as empresas e os cidadãos, bem como por uma carga fiscal totalmente exorbitante que sufoca os remanescentes de uma economia outrora florescente. De acordo com a Associação Alemã da Indústria Automóvel (VDA), 61% das empresas automóveis alemãs estão a cortar empregos, enquanto 49% classificam a sua situação como «má» ou «muito má». E, finalmente, o mais importante, 80% das empresas automóveis querem adiar, reprogramar ou mesmo cancelar investimentos planeados na Alemanha. Entretanto, 28% das empresas planeiam transferir as suas operações para o estrangeiro.

Esta é a realidade da Europa, que se permitiu ser servida à mesa da geopolítica global sob o molho picante das políticas ditadas por Washington. Depois de roer a carcaça outrora abundante, os americanos estão agora preocupados em manter Moscovo e Pequim fora da mistura.

Os nossos camaradas chineses são, em princípio, omnívoros, e não temos interesse em migalhas. Por outro lado, permitir que os EUA resolvam os seus problemas económicos, enriqueçam e se fortaleçam devorando os seus «aliados» também é errado. Então, vamos ver quem expulsa quem e acaba com a Europa.

[1] Reconhecida como uma organização indesejável na Federação Russa.

[*] Analista, russo.

Fonte aqui

Reflexão sobre a Guerra na Ucrânia (3)

( José Manuel Neto Simões, in Diário de Notícias, 21/02/2025)

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(Tendo as primeiras partes do ensaio suscitado aqui um debate intenso sob a forma de comentários, segue-se a terceira parte. Serão 6 partes, e só no fim ficarão visíveis (ou não) as omissões do autor. E tenha-se em atenção a data em que os textos foram escritos e publicados.

Parte 1 aqui. Parte 2 aqui.

Estátua de Sal, 25/10/2025)


O declínio da estabilidade estratégica

A estratégia ocidental para apoiar a Ucrânia é dominada por preocupações sobre escalada nuclear e a possibilidade de uma guerra mundial. Muitas dessas preocupações parecem excessivas, mas a ameaça é real e agravada pela inclusão da tecnologia dial-a-yield nas ogivas nucleares. Ademais, os EUA/NATO não detém o domínio da escalada, pois a compreensão ao nível convencional é limitada pela complexidade das premissas e no âmbito nuclear é desconhecida. E como é não linear não evita erros de cálculo.

Neste âmbito, a análise sobre a ameaça nuclear tem de ser densificada numa equação com vários factores, associados à fita do tempo dos factos, que minaram a estabilidade estratégica. E levaram ao desenvolvimento dos sistemas de misseis balísticos, de armas espaciais e cibernéticas e à influência de outros estados com capacidade nuclear, provocando a degradação nas relações entre a Rússia e EUA/NATO. 

Além disso, contribuíram para acelerar o declínio do princípio da destruição mútua assegurada (MAD) e o medo de retaliação em que assenta a doutrina nuclear, sendo mais difícil o equilíbrio na nova era com três potencias nucleares. Para que a dissuasão nuclear seja efetiva o adversário tem de ser suscetível à dissuasão, possuir interesses vitais e a ameaça nuclear ser declarada e credível. Analisemos os principais factos.

Em primeiro lugar a saída das maiores potências nucleares dos acordos de controlo de armas nucleares nomeadamente por parte dos EUA: do tratado de misseis antibalísticos em 2002 (ABM na sigla inglesa); e do tratado de eliminação de misseis de médio alcance em 2018 (INF). E do lado da Rússia a suspensão em 2023 do tratado de limitação de armas nucleares (New Start). Sendo que, a saída do INF promovida por Trump é considerada uma decisão com maior impacto na segurança europeia.

Em segundo, a decisão, em 2008, da construção de bases de misseis balísticos no leste europeu (sistema Aegis) e a sua implementação faseada entre 2012 e 2023, na Roménia e Polónia, que Moscovo considera ser ameaça directa à sua segurança por terem capacidade para lançar mísseis cruzeiro com ogivas nucleares. Obama em 2009 tentou, sem sucesso, reverter a decisão.

Importa ainda enfatizar a revisão da postura nuclear de Biden (2022), que é considerada uma estratégia “decepcionante”, ambígua e contraditória com declarações publicas. Os especialistas referem não reflectir medidas sensatas, sendo contestada a “iniciativa de primeiro ataque” como regressão, que aumenta a trajectória de risco. E autoriza os EUA a fazerem um ataque nuclear preventivo, deixando em aberto a utilização de armas nucleares tácticas, que Biden criticava. Em 2022 só não terá acontecido pela intervenção do intelligence, no encontro entre Naryshkin e Burns na Turquia.

Esta nova postura nuclear parece estar alinhada com a elite dominante da defesa dos EUA, que julga ser possível vencer uma guerra nuclear, considerando que a MAD deixou de fazer sentido. Acresce a preocupante abertura de Trump, em 2016, para a utilização de armas nucleares.

Conforme referido pelo Bulletin of the Atomic Scientist os decisores são influenciados por falcões neoconservadores em Washington, think tanks e os lobbies do complexo militar-industrial, que moldam a visão das políticas que têm vindo a acelerar a corrida armamentista. Biden acabou por referiu-se à indústria de armamento como “arsenal da democracia”. Na análise é referido que o guia de dissuasão nuclear na era da competição das grandes potências (2020) tem “mensagens perigosamente distorcidas”. 

Aquele guia publicado pelo Louisiana Tech Research Institute, assegura apoio ao Comando da Força Aérea dos EUA. Os autores estão referenciados com diversos lobbies e alguns deles ocupam cargos em diferentes agências de segurança nacional. Ora, esta postura contraria a visão declarada, de que a principal tarefa das forças armadas dos EUA deveria ser prevenir a guerra nuclear em vez de vencê-la.

Nesta medida a percepção induzida por Putin do uso da arma nuclear -a ameaça é o produto da capacidade pela intenção -o líder russo utiliza o diálogo estratégico para induzir a dissuasão, através da narrativa mediatizada, para conferir credibilidade e conter a retaliação do primeiro ataque nuclear. 

Acontece que  a expansão da NATO – lobby feito pelos EUA- conjugada com a influência daqueles grupos de pressão e a nova postura nuclear da Rússia e dos EUA pode constituir um pretexto para justificar o ataque preventivo nuclear. Resta saber entre o narcisismo de Trump e o egocentrismo de Putin onde repousa a ponderação! 

Em terceiro, não se pode omitir que a estratégia de confrontação dos EUA passava por uma série de factores que importa analisar. A guerra na Ucrânia está a ser utilizada para isolar, enfraquecer fazer sangrar e desestabilizar a Rússia, aproveitando a suas vulnerabilidades como referem estudos e relatórios da RAND (2019), em que se utilizam termos como “criar um engodo”, “um isco” para que a Rússia engolisse. 

Na realidade, o campo de batalha onde morrem ucranianos e russos tem servido para projetar interesses geopolíticos e geoestratégicos de múltiplos atores, expondo as fragilidades que redefinem as dinâmicas de poder global. Curiosamente, aquele think tank de apoio à política externa dos EUA, fez um aditamento, posteriormente à invasão da Ucrânia. Percebe-se o incómodo, mas podemos discordar.

Em acumulativo, a desintegração da maior potência nuclear é considerado “imperativo moral e estratégico” no debate patrocinado por uma organização governamental (Comissão de Helsinque dos EUA), com senadores neoconservadores e representantes do Congresso. É capaz de não ser uma boa ideia para a paz mundial deixar as armas nucleares disseminadas por centros de poder desconhecidos.

Os factos anteriores têm ainda mais peso, depois da NATO ter alertado os aliados para se prepararem para uma longa guerra, após um membro da aliança ter bloqueado, em Abril de 2022, um acordo de paz. Como aliás tinha acontecido com o boicote aos Acordosde Minsk – Resolução da ONU (2202) – que, que não serviam os interesses anglo-saxónicos. A este propósito Merkel assumiu servirem os acordos para a Ucrânia se rearmar. Ou seja, reforçou a percepção russa da desconfiança no Ocidente, evidenciando mais as preocupações securitárias. 

O prolongamento do conflito só interessa aos EUA, que lucram com a guerra destruindo a economia da UE, com riscos acrescidos ao nível politico e financeiro se mantiver o esforço de guerra. E a Ucrânia exaurida pode aumentar a tragédia humana e enfrentar o colapso do regime.

E não menos importante são as questões relacionadas com a violação do acordo verbal sobre o alargamento da NATO “Nem uma polegada para o leste” com a negação do acesso ao Mar Negro e controlo do Báltico. O secretário de Defesa William Perry, admitiu a responsabilidade aos EUA por expandirem a NATO a Leste.

Neste âmbito, tem havido mistificação verificável em informação ocidental. Muito antes de Putin, a NATO foi mal percepcionada, depois da dissolução do Pacto de Varsóvia. Com efeito, Moscovo via a aliança como um instrumento militar dos EUA, constituindo uma ameaça aos seus interesses. E é sabido que Washington nunca teve a intenção de dar garantias de segurança, pois ambicionava a influência e o controlo na Eurásia.

Putin terá sempre a responsabilidade de ter começado uma guerra devastadora. No entanto, Washington e seus aliados irresponsavelmente ajudaram a criar as circunstâncias que geraram o terrível conflito de que são cúmplices, sendo Biden acusado de usar o sangue ucraniano para atingir as suas ambições geopolíticas. 

Mesmo que o director da CIA tenha negociado com sucesso as barreiras de proteção do conflito, esse acordo não é suficiente para garantir que Moscovo e Washington não acabem num confronto que não desejam. Os EUA e aliados devem, por isso, priorizar estratégias para acabar com a guerra, tendo como principal objectivo assegurar que Kiev possa preservando as suas instituições democráticas. A melhor esperança de paz é que as negociações entre Moscovo e Washington parem a espiral de escalda para uma guerra mundial.

Infelizmente o passado mostra que a ansiedade e o desespero facilmente afastam a temperança. O Relógio do Juízo Final diz que a humanidade está mais perto do que nunca da destruição e o Bulletin of the Atomic Scientists refere que a guerra na Ucrânia e a ameaça da IA representa um risco na escalada nuclear. Robert Oppenheimer disse que “não vão ter medo da arma nuclear até percebe-la e não a vão perceber até a usar”.

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