O linchamento do juiz Neto de Moura

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 30/10/2017)

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Confesso: quando vi partilhada no Facebook uma página com a identificação do Tribunal da Relação do Porto na qual se invocava o adultério da mulher, a Bíblia e a lapidação como fundamentação da atenuação da pena de crimes de violência doméstica não acreditei que fosse possível. Não é que não esteja farta de conhecer o machismo do sistema judicial português ou decisões que demonstram total ignorância das leis e desrespeitam a Constituição; não que não conheça a propensão de alguns magistrados para fazer da justiça braço armado dos seus preconceitos. Mas pareceu-me mesmo assim demais que alguém na judicatura portuguesa falasse, no século XXI e a propósito de um caso de violência doméstica, de “adultério”, lapidação e do Código Penal de 1886. Achei que quando muito seria parte da argumentação de algum advogado alucinado. E mesmo quando o JN surgiu com a notícia continuei na minha: só tendo acesso a todo o acórdão poderia opinar.

Ou seja: apesar de não ter uma boa opinião da justiça portuguesa, tinha-a mesmo assim bem melhor que aquela que ela provou merecer. E sucede que, desde a notícia inicial, essa opinião tem vindo sempre a piorar. Primeiro porque se soube que o relator daquele acórdão, o homem que escreveu as linhas que não acreditei poderem vir da pena de um juiz português em 2017, já tinha lavrado, ao longo dos anos, vários semelhantes, sem que disso houvesse notícia, escândalo, recurso, seja o que for; que o referido juiz tem nota “muito bom”, a máxima na sua profissão; que outros juízes, aliás juízas, co-assinaram esses acórdãos sem um único voto de vencido; que aquela que o fez no mais recente assumiu a colegas, de acordo com o Expresso, não ter lido a fundamentação – para dizer que se a tivesse lido não o assinaria. É dose. Mas continua.

O Conselho Superior de Magistratura, o qual tem a função de fiscalizar o trabalho dos juízes, começou a semana a fazer um comunicado em que frisava ser necessário que as decisões dos tribunais respeitassem a Constituição e a lei, admitindo estar-se perante “proclamações arcaicas” mas não anunciava qualquer ação. Foi preciso tanto o PR como a ministra da Justiça pronunciarem-se sobre o assunto para se aprestar a abrir um inquérito. A Associação Sindical dos Juízes, na pessoa da sua presidente, Manuela Paupério, manifestou a sua indignação com o “linchamento público” e o “recurso ao insulto” – contra o juiz Neto de Moura, note-se. E o Presidente do Supremo Tribunal, embora tenha criticado a “manifestação de crenças pessoais e de estados de alma, ou as formulações da linguagem de subjetividade excessiva, [que] não são com certeza prestáveis como argumentação e não contribuem para a qualidade da jurisprudência” nas decisões judiciais, mostrou-se escandalizado com a “intensidade e a violência das críticas” – contra o juiz, mais uma vez. Afirmando que estas são “objetivamente um serviço prestado não às vítimas mas a todos aqueles que, sentados na bancada ou chorando lágrimas de crocodilo, fazem o jogo da discriminação e da perda de confiança na justiça”, António Henriques Gaspar lembrou-se no entanto da vítima. Para dizer que “a intensidade e o alarido no espaço público” podem ter-lhe ocasionado uma “vitimização fora do processo, sem mandato, sem verdade”, com um “efeito devastador, esse sim, já sem remédio na dignidade da pessoa humana”.

Uau. Mas ainda não acabou: vimos também a Procuradora Geral da República recusar, sem o justificar, e apesar de estar dentro do prazo (termina hoje), recorrer do acórdão para o Tribunal Constitucional. É verdade que o nosso sistema não admite recurso de decisões judiciais para o TC – facto que o constitucionalista Reis Novais frisou ao DN, lamentando-o – mas é certo também que em certas circunstâncias tem admitido recurso relativo à interpretação de normas em decisões. Pelo que nada se perderia em recorrer: o mais que podia suceder era o recurso ser recusado. Por que não tentar, então? Como aceitar que um acórdão com as características descritas, que para mais parece nem ter resultado da apreciação de um coletivo de juízes (como seria obrigatório), transite em julgado sem que no sistema se tente tudo para a tal obviar? E como, perante tudo isto, compreender que a preocupação maior dos juízes que falam publicamente sobre o assunto seja a corporativa, tendo o desplante de acusar quem critica esse corporativismo e se espanta ante a falta de resposta do sistema de querer “descredibilizar a justiça”? Como é possível sequer aventar-se que é a revolta ante o julgamento insultuoso, humilhante e atrozmente machista que o acórdão fez da vítima que a revitimiza?

Disse a ministra da Justiça, ela própria uma magistrada do MP, que “um acórdão não faz o sistema”. Não. O sistema fez este acórdão. E todos os outros como este, e o juiz que os escreveu, e as juízas que os co-assinaram, e os advogados e procuradores que deles não recorreram, que não os denunciaram, que calaram tudo isto e os que nos querem agora mandar calar. Um sistema que isto fez e faz, que não se incomoda – nem repara – com o linchamento de vítimas mas cerra fileiras para proteger os seus não é um sistema de justiça. É outra coisa qualquer.

Indignem-se: ao contrário do adultério, a violência doméstica é crime

(Paula Cosme Pinto, in Expresso Diário, 27/10/2017)

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Hoje, em várias cidades do país, há protestos sob o mote “Machismo não é justiça, é crime”. Depois de anos a acharmos que a violência doméstica era um tema tão batido que já nem era notícia, o povo sai à rua por iniciativa própria para gritar contra isto. Pela mulher que foi perseguida, ameaçada, raptada e agredida com uma moca com pregos, mas que os nossos juízes consideraram não ser assim tão vítima porque “o adultério da mulher é um atentado à honra do homem”. E por todas as vítimas das cerca de 27 mil ocorrências de violência doméstica registadas pelo MAI, só em 2016. Homens e mulheres, embora elas representem 80% dos casos. Quantas pessoas realmente viram justiça ser feita? É que ao contrário do adultério, a violência doméstica é crime.

Quando falamos de violência doméstica, há algo que devemos de perceber: o medo das vítimas é como um cebola, tem várias camadas. O medo do agressor, parece-me óbvio. Mas é preciso pararmos para pensar também no medo do que os outros vão dizer, no medo de não ser credibilizada e apoiada pelos demais, o medo das consequências desestruturantes na sua vida, o medo da injustiça, o medo do tempo demasiado longo que um processo pode demorar a ser resolvido em tribunal, o medo do confronto com o agressor durante todo esse processo, o medo do que pode acontecer se, depois de recorrer às autoridades, o agressor acabar por permanecer em liberdade.

Em casos como o que envolve o Tribunal da Relação do Porto – e eles acontecem demasiadas vezes, isto não é caso único em Portugal – todos estes medos são legitimados. E a pessoa mais penalizada no meio de tudo isto é precisamente quem já passou por todo um processo traumático e que merecia ser protegida pelo Estado de Direito em que vive. O mesmo Estado que é representado pelos juízes que acabaram por a tornar vítima de mais uma agressão: a injustiça. Antes de fazerem a pergunta cliché do “mas porque é que ela calou em vez de ir logo à polícia?” quando se fala destes temas, pensem um pouco nisto.

O MACHISMO NÃO É UM PROBLEMA DE HOMENS, É UM PROBLEMA DE PESSOAS

O que me tem agrado particularmente na discussão gerada em torno deste caso inenarrável é o movimento conjunto de cidadãos e sociedade civil que poem de lado a habitual apatia. Que finalmente finalmente param para pensar precisamente em tudo o que está aqui implícito, e que se manifestam ruidosamente para além das redes sociais. Que discutem o tema, e mesmo que nem sempre as opiniões que são postas em cima da mesa sejam as mais construtivas, é bom sinal haver discussão. É que quem discute reflete, nem que seja por um segundo. É bom ver tanta gente a indignar-se e a pedir as explicações que nos são devidas a todos enquanto cidadãos. Uma indignação que surge, parece-me, porque finalmente percebemos coletivamente que a Justiça que falhou no caso desta mulher – e que pôs a sua vida em risco ao tomar decisões com base em juízos de valor misóginos e moralismos pessoais, com se fossem mais válidos do que a Constituição e Convenções Internacionais – é a mesma Justiça que nos pode falhar a qualquer um de nós.

Juntem-se aos protestos (em Lisboa na Praça da Figueira e no Porto na Praça Amor de Perdição, por exemplo), peçam explicações, indignem-se. Mas façamo-lo juntos, homens e mulheres, contrariando a ideia de que as mulheres deveriam ser mais sensíveis e empáticas nestas temáticas, uma vez que são elas as suas maiores vítimas. Neste caso concreto, estou farta de ouvir dizer que a juíza envolvida até tem mais culpa, lá está, porque é mulher. Ao dizermos isto esquecemo-nos que esta é só outra uma forma de punirmos mais severamente o sexo feminino que, como todos deveríamos saber, não é imune à mentalidade machista. O preconceito é generalizado, tal como a forma estereotipada como olhamos para a nossa sociedade.

A raiz do problema vai ter sempre ao mesmo: a uma mentalidade misógina que nos tem sido passada a todos nós, de geração em geração. À qual nos adaptámos (homens e mulheres), e a qual vamos aceitando de formas distintas dentro dos papéis que foram criados para cada um dos géneros dentro da sociedade.

Exemplo simples dessa mentalidade é considerarmos que o adultério feminino é altamente condenável, mas o masculino é algo relativamente normal – até porque também ainda se acredita que o homem é mais ativo e libertino sexualmente do que a mulher. Hoje, estamos não só a questionar esta mentalidade cheia de moralismos e estereótipos, como a indignarmo-nos contra eles. É o que fazem as sociedades que não perdem a lucidez, verdade seja dita, e isso é tão bom. O machismo não é um problema de homens, é um problema de pessoas. A luta contra ele também deve ser assim.

Moura: Um Juiz Sem Tempo!

(Joaquim Vassalo Abreu, in 25/10/2017)

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Falar do tempo tem que se lhe diga pois que falar dele não é apenas conversar sobre a meteorologia ou sobre as suas mudanças. É também, como neste caso, falar dele como o espaço da sequência dos dias, dos anos, das décadas e dos “siglos estelares” de que falava Pablo Neruda no seu Canto General. Mas também da intemporalidade.

Que demonstra este nosso Juiz decididamente ter, pois se mostra um homem de todos os tempos. Dele se poderia dizer, como em relação a muitos outros, que parou no tempo. Não concordo: ele é de todos os tempos e para ele o passado é presente e o presente pertence ao passado. É um intemporal, portanto, e para ele existe apenas um tempo.

Tempo que ele diz não ter, confundindo assim os tempos por se deitar todos os dias às quatro da madrugada, àquela precisa hora em que o passarinho canta, não cuidando de pensar que dali a pouco será tempo do galo cantar e dele se levantar…

À laia de parêntesis eu confesso que também amiúde me deito a essas horas , mas a mim tempo é o que não me falta. O que me falta é tempo para ocupar todo o tempo que tenho! Fechar parêntesis…

De modo que para o nosso inefável Juiz Moura o tempo acaba por ser uma coisa risível pois, para ele, os tempos confundem-se com o tempo e tudo se transforma num enorme emaranhado na sua têmpora. O ontem foi há dois séculos, por exemplo. Ali há dois dias atrás! Para ele o tempo é relativo e, cá para mim, ele até tem razão pois na contagem cósmica do tempo o ontem é todo um passado, não é?

“Maneiras” que temos que relativizar. É que o problema dele, para além de ser um ser perdido nos tempos, é ter mesmo, como disse, um problema com o tempo.

Ele dá a impressão que só viveu no passado, desconhece o futuro ( também eu) e o ter que viver no presente lhe faz um nó cego de tal ordem no seu confuso cérebro que este entra inevitávelmente em curto circuito. Um temporal por ele abaixo só lhe faria bem…

É que, lá no emaranhado do seu cérebro, confunde tudo e só de parte se lembra. Lembra-se, por exemplo, de ter lido na Bíblia sobre a mulher adúltera, essas coisas todas que ele reproduz no tal Acórdão, mas não se lembra quem foi Jesus Cristo e muito menos do episódio em que este instou todos os homens presentes a atirarem a primeira pedra se nunca pecaram…algum apedrejou? Não se lembra!

Lembra-se também do Camões como o poeta da grei e da gesta do nosso povo, mas desconhece a sua poesia e o seu ” Mudam-se os Tempos Mudam-se a Vontades”. Para ele, que pensa como que a todos os tempos pertencesse, os tempos nunca mudaram nem mudam.

Ele confunde a Bíblia com o Corão, Deus com Maomé e Gregos e Romanos nunca existiram. Alá e Cristo também não. Lembra-se de todas as leis que ao longo dos tempos sempre puniram as mulheres ( como a tal de 1886 que ele refere), mas nada sabe sobre as lutas das mulheres de Chicago pelas oito horas de trabalho, nem sabe quem foi a Rosa Parks. E muito menos que as mulheres não tinham direito a voto antes do 25 de Abril. Mas isso, para ele, nunca existiu…

Lembra-se da escravatura e das mulheres escravas, mulheres para todos os serviços e sempre às ordens dos seus donos, mas não se lembra dela ter acabado, nem quem foi o Abraham Lincoln, por exemplo.

Ele, o Juiz Moura, na sua suposta intemporalidade, não consegue ver os tons dos tempos e, por isso, ele é um daltónico. Um daltónico do tempo! Que não conhece a cor do sangue de uma agressão, de um apedrejamento ou de uma lapidação. Coisas normais e intemporais para ele.

E na sua intemporalidade ele terá sido juiz na santa inquisição (com letra pequena e razão tinha o Saramago), incorporou o torquemada ( ainda letra pequena) e andou pelos tribunais plenários nos tempos da pide ( pequena ainda) e nunca leu o Memorial do Convento.

Para ele a mulher não tem direito ao prazer e sexo, é para fazer filhos. Como um dia disse um tal Morgado na AR que, azar, apenas tinha um filho! Natália Correia escreveu então aqueles notáveis versos, que assim acabam: ” …só lá foi uma vez, parca ração e o acto consumado, ficou capado o Morgado!”. Grande Natália! Um cunhado meu também contava que um amigo tinha ido às meninas (raparigas em brasileiro) e, em pleno acto, ouvindo os leves suspiros da sua parceira logo lhe disse: shiu! Aqui quem goza sou eu…

Para ele, tempos assim. mesmo tempos eram os vitorianos, os do Marquês de Sade e de todas as teorias libertinas. Disso ele sabe tudo, sou levado a crer. Mas como não se lembra de Roma nem de Atenas, não sabe, mas gostaria de saber, estou certo, daquela do Nero que um professor universitário de Direito tipo Diácono Remédios que nunca se ria contava: que “Nero era homem de muitas mulheres e mulher de muitos homens”. Então depois lá soltava um leve rizinho, o danado!

Disto ele às tantas gostaria e seria, para si, uma boa imagem da democracia. Mas, na sua intemporalidade, ele é apenas e só um enorme REACCIONÁRIO!

Por isso também ele diria: homens, ide e fornicai-vos uns aos outros, pois mulheres é só para parirem filhos…

E para acabar, digo agora eu: Benditas sejam as Mulheres, todas as Mulheres…AMEN!


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