O referendo em Itália tem a chave para o futuro do euro

(Wolfgang Münchau, in Diário de Notícias, 21/11/2016)

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A 5 de dezembro, a Europa pode despertar sob a ameaça imediata da desintegração. Depois do brexit e de Donald Trump, prepare-se para o regresso da crise da zona euro. Se Matteo Renzi, o primeiro-ministro italiano, perder o seu referendo constitucional a 4 de dezembro, será de esperar uma sequência de acontecimentos que irá levantar questões sobre a participação da Itália na zona euro.

As causas subjacentes a esta possibilidade extremamente perturbadora não têm nada a ver com o referendo em si. O mais importante foi o desempenho económico de Itália desde que adotou o euro, em 1999. A produtividade total dos fatores, a parte da produção económica não explicada pelo trabalho e pelo capital, caiu em Itália cerca de 5% desde então, enquanto na Alemanha e na França aumentou cerca de 10%.

A segunda causa foi o fracasso da União Europeia na construção de uma união económica e bancária adequada após a crise da zona euro de 2010-2012 e, em vez disso, ter imposto a austeridade. Se quiser saber por que Angela Merkel não pode ser a líder do mundo livre, não procure mais. A chanceler alemã nem sequer conseguiu liderar a Europa quando era importante que o fizesse.

A combinação desses dois fatores são as maiores causas para o incremento do populismo na Europa. A Itália tem três partidos de oposição, todos eles favoráveis à saída do euro. O maior e mais importante é o Movimento Cinco Estrelas, um partido que desafia a habitual classificação esquerda-direita. O segundo é o Forza Italia, o partido de Silvio Berlusconi, que se tornou ferozmente antieuro depois de o ex-primeiro-ministro ter sido forçado a deixar o cargo, em 2011. E o terceiro é o separatista Lega Nord. Em países democráticos, é comum que os partidos da oposição acabem por chegar ao poder. É de esperar que isso aconteça também em Itália.

O referendo é importante pois poderá acelerar o caminho para a saída do euro. Renzi disse que se demitiria se perdesse, levando ao caos político. Os investidores podem concluir que o jogo acabou. A 5 de dezembro, a Europa poderá despertar sob a ameaça imediata da desintegração.

Em França, a probabilidade de uma vitória de Marine Le Pen nas eleições presidenciais já não é um risco remoto. De todos os candidatos que se assumiram como tal, ela é a que está mais bem preparada. Há alguns que poderiam vencê-la, como Emmanuel Macron, o ex-ministro reformista da Economia, que anunciou a sua candidatura na quarta-feira. Mas ele poderá não chegar à última volta das eleições porque não tem um aparelho partidário. Marine Le Pen prometeu realizar um referendo sobre o futuro de França na UE se for eleita presidente. Se esse referendo levar ao frexit, a UE poderá acabar na manhã seguinte. O mesmo acontecerá com o euro.

Uma saída francesa ou italiana do euro traria o maior incumprimento da história. Os detentores estrangeiros de dívida denominada em euros, italiana ou francesa, seriam pagos em contravalor de liras ou francos franceses. Ambas desvalorizariam. Uma vez que os bancos não têm de manter capital contra a sua participação em títulos de dívida pública, as perdas forçariam muitos bancos europeus a entrar em falência imediata. A Alemanha perceberia então que um enorme excedente em conta-corrente também tem as suas desvantagens. Há uma grande quantidade de riqueza alemã à espera de ser vítima de incumprimento.

Poderá isso ser evitado? Em teoria pode, mas exigiria uma série de decisões tomadas a tempo e na sequência correta. Para começar, Angela Merkel teria de aceitar o que recusou em 2012: um roteiro para uma união orçamental e política plena. A União Europeia teria também de reforçar o Mecanismo Europeu de Estabilidade, o “guarda-chuva” de resgate, que não está pensado para lidar com países do tamanho de Itália ou França.

Será isso, ainda que remotamente, provável? Pense nisto da seguinte forma: se for perguntado à chanceler alemã se ela quer títulos de dívida da zona euro avalizados por todos, ela vai dizer que não. Mas se ela tiver de escolher entre eurobonds e uma saída italiana do euro, a sua resposta poderá muito bem ser diferente. A resposta também dependerá de a pergunta ser feita antes ou depois das eleições alemãs do próximo outono.

No entanto, a minha expectativa não é um colapso da UE e do euro, mas uma saída de um ou mais países, possivelmente de Itália, mas não de França. À luz dos acontecimentos recentes, o meu cenário de referência está agora firmemente assente na escala otimista das expectativas razoáveis.

Guterres, a ONU, e a Alemanha.

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 05/10/2016)

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A eleição da Merklina búlgara para a ONU representava entrada da Alemanha para o grupo dos grandes atores internacionais e a rutura da Europa em dois blocos, um pró-russo a Leste e outro pró-americano a Oeste. Representava a rutura com o equilíbrio de forças atual, um triangulo cuja base ainda são os EUA. Os 3 grandes decidiram manter o status quo e resolver bilateralmente os seus conflitos no Médio Oriente e no Mar da China, como têm feito. Bateram a porta na cara da Alemanha. A Europa sairia sempre mal deste jogo em que a Alemanha a meteu. Junker, o pianista do cabaré alemão em que Barroso deixou a Comissão Europeia transformar-se deve estar de ressaca, um estado que lhe passa sem deixar marcas de vergonha. Guterres não é um secretário geral sponsored pela União Europeia, é apenas o clister que a Alemanha teve de tomar. Guterres chega a secretário geral contra a Alemanha, por mérito próprio e por ser cidadão de um estado simpático e de ph neutro. Tem a vantagem de valer por si e esse é estatuto valioso perante os poderes e as opiniões públicas para exercer o seu magistério de influência – o que vai bem com o odor de santidade que gosta de transmitir desde jovem católico. A Merklina búlgara seria sempre vista como a mulher a dias da patroa Merkel e da Alemanha. Portugal – entendido como uma entidade dotada de valores – sai bem desta pugna. Guterres resgata o país da imagem de Barroso, um videirinho que se fez lobista do mais que suspeito Golman Sachs para meter uns bons cobres na conta bancária.

Guterres desinfecta Portugal dos Barrosos e da sua trupe de pequenos rufias. Não é assim tão pouco. Quanto à ONU, os cães grandes continuarão a rosnar uns aos outros longe dali.

Guterres e a teoria dos jogos

(Por Estátua de Sal, 05/10/2016)

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Como toda a gente fala no António, Guterres de apelido, também não posso fugir ao tema.

Há um coro de aplausos, da esquerda à direita, pelo sucesso da candidatura de Guterres a Secretário-Geral da ONU. Louvam-se as qualidades do candidato e diz-se que elas foram a alavanca para que os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU o tenham aceitado, logo numa primeira escolha, praticamente por unanimidade. Eu não duvido que as qualidades humanas, políticas e técnicas do candidato tenham sido importantes. Mas tal não seria suficiente se qualquer um dos grandes países considerasse ter, neste momento, a força suficiente para impor um outro candidato, mais próximo dos seus interesses e das suas políticas. Não há quem a tenha. O que o sucesso de Guterres prova é que atualmente, na correlação de forças a nível mundial, nenhuma potência se destaca com um poder de hegemonia tal que possa ousar, sequer, iniciar um processo de imposição às restantes dos seus pontos de vista, ou pelo menos que tal não seja feito sem grande desgaste e custos.

Fazendo um paralelismo com a teoria dos jogos, a vitória de Guterres é consequência de uma situação de equilíbrio de Nash: ou seja, todos os países concluíram ganhar mais em cooperar, apoiando a candidatura de Guterres, qualquer que fosse a decisão dos restantes, do que em a hostilizar e sujeitar-se a ter que vir a aceitar uma outra bem pior, já que nenhum deles se viu com força suficiente para impor o seu candidato.

Como em todos os processos, também aqui há ganhadores e perdedores. Guterres, Portugal e todos o que o apoiaram, a própria ONU enquanto organização mundial cuja face pública e poderes de influência saem reforçados, são grandes vencedores. A Alemanha, a Comissão Europeia, Juncker, Barroso e comandita, e os grandes interesses financeiros que giram à volta do PPE, saem nitidamente de rastos.

Sobretudo Merkel. Quis dar um passo maior que a própria perna. Julgou que conseguia impor ao mundo uma candidata de última hora tal como consegue impor à Europa e aos frouxos líderes europeus a sua agenda e o seu programa castigador. É preocupante a Europa estar entregue a alguém com uma capacidade de julgamento político e de avaliação das situações e das forças em presença tão limitada e tão canhestra. Merkel saiu derrotada e falhou em toda a linha.

Tal como está a falhar na política financeira, no Euro, nas perspectivas de crescimento das economias europeias, sacrificando uma geração à desesperança e aos extremismos consequentes. Tal como falhou na gestão da crise das dívidas soberanas, mormente no caso da Grécia. Tal como falhou na questão dos resgates e das troikas à Grécia, a Portugal e à Irlanda. Tal como falhou na crise dos refugiados e que culminou com o vergonhoso e caro acordo que veio a fazer com a Turquia. Tal como falhou no processo que levou ao Brexit. Tal como falha, aceitando a política xenófoba e racista da Hungria agora sufragada em referendo. Tal como irá falhar, provavelmente, na gestão do dossier do Deutch Bank, que lhe irá rebentar nas mãos e espalhar estilhaços letais pelo mundo fora, e em primeira linha pela Europa adentro.

De derrota em derrota até à derrota final, assim vai a chanceler. Só é pena que leve consigo para o abismo o seu país e, por tabela, todos os outros países europeus, o presente e o futuro de milhões de cidadãos. Parece que a Alemanha não tem jeito para negociar e dialogar com ninguém. A História isso mesmo nos diz. Está-lhe na genética, nas práticas e nos cometimentos, e até nos filósofos. Relembro uma frase de Friedrich Nietzsche: “Ser independente é apanágio de uma pequena minoria, é um privilégio dos fortes”.

Enquanto na Europa a Alemanha é forte, e quer sempre subalternizar os restantes países, no mundo a Alemanha não é assim tão forte, e acabou por provar do seu próprio veneno. Se a D. Merkel fosse uma grande estadista sabê-lo-ia seguramente e teria evitado sujeitar o seu país e as instituições europeias, que é suposto liderar, a mais uma humilhação.