Se as sondagens estão certas, vêm quatro anos de instabilidade política

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/03/2019)

Daniel Oliveira

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O que a ÚLTIMA SONDAGEM do Expresso nos diz é que o PS está em primeiro, bastante destacado. Mas que não só a maioria absoluta é praticamente impossível como está cada vez mais distante. Dizem também que Bloco de Esquerda e PCP não terão sofrido grande desgaste com esta experiência governativa mas, ao contrário do PS, também não terão capitalizado grande coisa. Ficarão mais ou menos na mesma. Quanto ao PSD, continua a sua queda livre. E o CDS, surpreendentemente, não será, ao contrário do que prometeu Assunção Cistas, líder da oposição. Acho que as sondagens estão a subvalorizar os pequenos e novos partidos, mas não tenho, para além da minha intuição, qualquer base para o afirmar.

Olhando para a sondagem, é evidente que não há condições para se fazer um bloco central. Ele exige o mínimo de paridade entre partidos. A enorme diferença entre o PS e o PSD torna totalmente inviável essa possibilidade. Com aquele resultado, dificilmente Rui Rio sobreviverá. E qualquer novo líder terá de se afirmar na oposição. Se, mesmo assim, Rio ficasse, nunca teria, com esta votação, força interna para impor um acordo com o Partido Socialista. A tendência, depois de um resultado destes, seria para o PSD radicalizar o discurso.

Se as sondagens estiverem certas há duas coisas inevitáveis: terá de haver um qualquer tipo de reedição da “geringonça” e isso será muito mais difícil de fazer do que nestes quatro anos. E o bloco central, com a hecatombe no PSD, é altamente improvável. Serão anos mais instáveis do que nos parecem à partida

Mas à esquerda as coisas também não são fáceis. O Partido Socialista, mesmo longe da maioria absoluta, aparece demasiado forte para que o Bloco de Esquerda e o PCP aumentem ou sequer mantenham a influência que tiveram no Governo. Se quiserem aprofundar a “geringonça” e não ficar como mero suporte de um governo do PS, os partidos à sua esquerda têm os próximos meses para roubar votos aos socialistas. Talvez só o consigam se o fizerem em nome da “geringonça”. O que implica valorizarem, mesmo com as suas insuficiências, estes quatro anos e o papel que tiveram neles. Fazer o que estão a tentar com a redução do preço dos passes sociais ou querem fazer na Lei de Bases de Saúde e, ao mesmo tempo, o que fizeram com o Novo Banco.

Mas acresce outro problema político causado pela matemática. Um dos segredos da “geringonça”, que se deveu aos resultados eleitorais de 2014, era o Partido Socialista precisar dos deputados do BE e do PCP em simultâneo. Isso obrigava a que todas as medidas tivessem de ter um apoio tripartido, vencendo o bloqueio na relação entre os dois partidos mais à esquerda. Nenhuma sondagem repete essa situação. E com a vitória do PS, que agora passa para primeiro lugar, dificilmente repetirá.

Por fim, há um problema político mais profundo. Um próximo governo não será de mera reposição de rendimentos. Teria de ser um governo com um programa mais profundo, sendo até possível que tenha de vir a lidar com uma situação económica europeia – e por isso também portuguesa – bem mais difícil. Não sabemos como acabará o Brexit, não sabemos que cenário político sairá das próximas europeias. Sabemos que as coisas deverão piorar, não melhorar. Tudo bem diferente do cenário de 2014.

A situação é paradoxal. Por um lado, o cenário político é muitíssimo negro para a direita, que deverá atravessar um deserto penoso com resultados especialmente maus. Por outro, a aritmética dos resultados à esquerda, seja por um peso relativo maior do PS, seja pelo facto de os socialistas deixarem de precisar de comunistas e bloquistas em simultâneo, será menos favorável aos equilíbrios instáveis destes quatro anos.

Muito menos para fazer reformas à esquerda ou lidar como uma possível crise económica europeia. Por fim, o bloco central, com a hecatombe no PSD, é altamente improvável. Serão anos mais instáveis do que nos parecem à partida.


Sondagem: PS destacado, mas longe da maioria. Portugueses gostam do Governo

(In Expresso Diário, 08/03/2019)


António Costa vê o seu partido com mais 12 pontos que o PSD de Rui, que está perto do pior resultado de sempre

Em ano de várias eleições, o Expresso tem novas sondagens. Esta semana começam os inquéritos feitos para o Expresso e a SIC pelo ICS e o ISCTE, com o trabalho de campo a ser realizado pela GfK Metris. Intenção de voto e avaliação do Governo são dois dos tópicos perguntados aos portugueses. Confira os resultados.


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Qual o partido melhor colocado para vencer as legislativas? Poderá haver maioria absoluta? Das novas forças presentes na competição eleitoral, qual está melhor colocada nesta altura?

Estas são algumas das questões a que procuramos responder no lançamento dos novos estudos e sondagem para o Expresso e a SIC, que resultam de uma parceria com o Instituto de Ciências Sociais e o ISCTE, e que contam com o trabalho de campo feito pela GfK Metris.

Mas esta primeira sondagem conta com outros pontos de interesse: perguntamos aos inquiridos o que pensam do Governo de António Costa e como o comparam com o executivo anterior, de Passos Coelho. Olhamos para a popularidade dos nossos políticos aos olhos dos portugueses. Tentando por exemplo perceber se Marcelo é mais popular à esquerda ou à direita. E fomos saber qual a avaliação que os portugueses fazem da situação económica – um dado absolutamente decisivo e influente no comportamento dos eleitores no dia de irem às urnas votar.

Este estudo foi coordenado por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTEIUL), tendo o trabalho de campo sido realizado pela GfK Metris. O responsável pela equipa é Pedro Magalhães, e dela fazem parte nomes como os de Marina Costa Lobo e Pedro Adão e Silva. Os três assinam textos de análise sobre pontos da sondagem na edição do Expresso desta semana.

PS DESTACADO, MAS LONGE DA MAIORIA

O gráfico mostra que o PS dispõe de vantagem sobre o PSD, mas que CDU, CDS e BE estão, para todos os efeitos, empatados. Mais abaixo, PAN e Aliança obtêm, respetivamente, 3% e 2% das intenções de voto.

Os socialistas têm 12 pontos de vantagem sobre o PSD. Uma folga confortável para pensarem em vencer eleições. Mas o resultado do partido de António Costa deixa-o bem longe da meta da maioria absoluta dos deputados no Parlamento. Os restantes partidos da geringonça aparecem com oito por cento das intenções de voto cada.

À direita, o partido de Rio arrisca nesta altura vir a ter um dos piores resultados do PSD na urnas. E a soma com o CDS é semelhante à obtida pelo PS em 2015.

Quanto aos pequenos e sobretudo aos novos partidos, uma da curiosidade deste ano, apenas a Aliança de Santana Lopes consegue um resultado que merece registo.

QUANTO VALE ESTE GOVERNO?

Há mais inquiridos a fazerem uma apreciação positiva do desempenho do Governo do que uma apreciação negativa. Pouco mais de metade dos inquiridos consideram que o Governo está a fazer um “Bom” trabalho, com as opiniões positivas a totalizarem 54% nesta amostra.Cerca de um em cada três inquiridos acha que o Governo está a fazer um trabalho “Mau”ou “Muito mau”. Cerca de um em cada dez inquiridos não exprimiu opinião, e as posições extremas foram escolhidas por uma percentagem reduzida de inquiridos.

Nesta amostra, a avaliação do Governo piora ligeiramente à medida que aumenta a instrução, mas a avaliação é globalmente positiva mesmo entre o segmento mais escolarizado. A relação entre as predisposições partidárias e ideológicas dos inquiridos e a sua apreciação do desempenho do Governo é forte: a percentagem dos simpatizantes do PS que faz uma apreciação positiva é mais de três vezes superior à que se encontra entre os simpatizantes do PSD. Uma disparidade semelhante — se bem que não tão expressiva — encontra-se entre os inquiridos que se posicionam à esquerda e os que se posicionam à direita.

QUAL É O MELHOR GOVERNO?

Comparado o trabalho do atual governo com o do governo anterior, apenas 15% consideram que o atual governo está a fazer um “Pior” ou “Muito pior” trabalho, contra 49% que defendem a ideia oposta. Contudo, cerca de um em cada três inquiridos não deteta diferenças entre este governo e o anterior.

PROJEÇÃO DA INTENÇÃO DE VOTO

COMO VOTARIA SE HOUVESSE HOJE ELEIÇÕES LEGISLATIVAS?

Projeção excluindo abstencionistas (9%) e após imputação de indecisos (17%) e recusas (0,2%). Entre parêntesis, % em relação ao total da amostra.










FICHA TÉCNICA

ESTE ESTUDO FOI COORDENADO POR UMA EQUIPA DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (ICS-ULISBOA) E DO ISCTE – INSTITUTO UNIVERSITÁRIO DE LISBOA (ISCTEIUL), TENDO O TRABALHO DE CAMPO SIDO REALIZADO PELA GFK METRIS. O UNIVERSO DO ESTUDO É CONSTITUÍDO PELOS INDIVÍDUOS, DE AMBOS OS SEXOS, COM IDADE IGUAL OU SUPERIOR A 18 ANOS RESIDENTES EM PORTUGAL CONTINENTAL. OS RESPONDENTES FORAM SELECIONADOS ATRAVÉS DO MÉTODO DE QUOTAS, COM BASE NUMA MATRIZ QUE CRUZA AS VARIÁVEIS SEXO, IDADE (7 GRUPOS), INSTRUÇÃO (3 GRUPOS), OCUPAÇÃO (2 GRUPOS), REGIÃO (7 REGIÕES GFK METRIS) E HABITAT/DIMENSÃO DOS AGREGADOS POPULACIONAIS (5 GRUPOS). A PARTIR DE UMA MATRIZ INICIAL DE REGIÃO E HABITAT, FORAM SELECCIONADOS ALEATORIAMENTE 83 PONTOS DE AMOSTRAGEM ONDE FORAM REALIZADAS AS ENTREVISTAS, DE ACORDO COM AS QUOTAS ACIMA REFERIDAS. A INFORMAÇÃO FOI RECOLHIDA ATRAVÉS DE ENTREVISTA DIRECTA E PESSOAL NA RESIDÊNCIA DOS INQUIRIDOS, EM SISTEMA CAPI. A INTENÇÃO DE VOTO FOI RECOLHIDA RECORRENDO A SIMULAÇÃO DE VOTO EM URNA. O TRABALHO DE CAMPO DECORREU ENTRE OS DIAS 9 E 21 DE FEVEREIRO DE 2019 E FOI REALIZADO POR 45 ENTREVISTADORES, QUE RECEBERAM FORMAÇÃO ADEQUADA ÀS ESPECIFICIDADES DO ESTUDO. FORAM CONTACTADOS 2541 LARES ELEGÍVEIS (COM MEMBROS DO AGREGADO PERTENCENTES AO UNIVERSO), TENDO SIDO OBTIDAS 801 ENTREVISTAS VÁLIDAS (TAXA DE RESPOSTA DE 32%). TODOS OS RESULTADOS FORAM SUJEITOS A PONDERAÇÃO POR PÓS-ESTRATIFICAÇÃO DE ACORDO COM A FREQUÊNCIA DE PRÁTICA RELIGIOSA DOS CIDADÃOS PORTUGUESES RESIDENTES NO CONTINENTE COM 18 OU MAIS ANOS, A PARTIR DOS DADOS DA VAGA MAIS RECENTE DO INQUÉRITO SOCIAL EUROPEU. A MARGEM DE ERRO MÁXIMA ASSOCIADA A UMA AMOSTRA ALEATÓRIA SIMPLES DE 801 INQUIRIDOS É DE +/- 3,5%, COM UM NÍVEL DE CONFIANÇA DE 95%.

Sozinho em casa

(Daniel Oliveira, in Expresso, 01/12/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

A reação de António Costa às boas sondagens dão-nos um cheirinho do que seria uma maioria absoluta do PS. De cada vez que elas sobem ele afasta-se do espírito da ‘geringonça’. Perante uma empresa que há décadas tem 90% dos trabalhadores com contratos diários e um sindicato que se tinha mostrado disponível a uma integração de apenas 56 dos 90 precários, Costa resolveu esquecer o seu compromisso na luta contra a precariedade e tomar o partido da empresa. Enviando polícia para garantir a substituição de grevistas e repetindo as mentiras do concessionário turco: ao contrário do que disse, a empresa turca não tinha aberto qualquer concurso. Contactou 30 trabalhadores para contratos individuais. E estes recusaram porque queriam ser integrados através de uma negociação coletiva que tivesse em conta a situação de todos. Em vez do desenrasque da sua situação particular, foram solidários e desejaram a concertação social. Se António Costa tem “dificuldade em compreender” estes dois valores é porque não sabe que eles são pilares da social-democracia e do socialismo democrático. Isto é, António Costa quando sente que já não depende dos partidos que o colocaram no Governo.

Um sinal da ilusão de autossuficiência que as sondagens lhe dão foi o apelo para que os deputados não desvirtuassem o Orçamento do Estado. O excesso de cativações pode desvirtuar um orçamento aprovado. As mudanças que a maioria dos deputados resolve fazer na especialidade não. Porque, como o próprio Costa nos explicou quando fez nascer a ‘geringonça’, é do Parlamento que vem a legitimidade para governar. Seria bom que não o esquecesse. E seria bom que não se esquecesse que é o povo, e não ele, que decide quem governa. Quando, cheio de si, nos explica que o BE e o PCP não vão para o próximo governo, Costa comporta-se como um porteiro do poder. Cada partido sabe de si e o povo sabe de todos. O PCP já disse que não queria entrar no Governo e esse é direito seu. O BE já disse que poderia querer entrar no Governo. Apesar de eu não acreditar que o queira fazer sem os comunistas, a escolha é sua e só depende dos votos que cada um tiver. Quando Costa diz que não os quer no Governo está a pôr a carroça à frente dos bois. O BE e o PCP não entraram no Governo porque não quiseram. Se o tivesse querido, ou o PS aceitava ou ia para a oposição. O mesmo acontecerá no futuro. E mesmo que o PSD esteja disponível, Costa sabe que um bloco central é o melhor que pode oferecer às pretensões de crescimento eleitoral do BE e do PCP. Por isso, não o fará.

Costa só pode decidir que governa sozinho se tiver maioria absoluta. E se tal acontecer, ninguém além do PS vai lá querer estar. O que vimos esta semana é apenas o aquecimento. Todos conhecemos a arrogância das maiorias absolutas, sejam do PS ou do PSD.

Este foi, na minha opinião, um dos melhores governos das últimas décadas. Não graças a Costa, Catarina ou Jerónimo, mas graças a uma solução que impediu, mesmo que parcialmente, a habitual cavalgada do PS para o centro.

E que obrigou António Costa, mesmo que apenas parcialmente, a conter a sua arrogância. E que controlou, mesmo que muito parcialmente, o habitual assalto dos boys ao Estado. Quem gostou desta solução sabe bem o que deve evitar. Até os eleitores socialistas sabem como o PS é um adolescente: quando fica sozinho em casa, as suas festas costumam fazer estragos.