Lisboa, cidade perdida

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/06/2024)

Primeiro são os lisboetas expulsos da sua própria cidade. Depois, vai ser preciso inventar outro país para onde os portugueses possam fugir.


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Cada um sabe do que gosta, pelo que muitos discordarão do que se segue. Fui um lisboeta de adopção desde a infância, mas só aprendi a gostar de Lisboa já na idade adulta e terminado o sufoco do Estado Novo: sem dúvida que uma e outra coisa estavam ligadas, pelo que não posso culpar a cidade disso. Quando era pequeno, em casa dos meus avós, numa das colinas da cidade, subia a um terraço e de binóculos em punho ficava fascinado a ver os paquetes que acostavam ao cais da Rocha do Conde de Óbidos e depois partiam, rebocados Tejo fora, soltando um apito de despedida da cidade, um apito triste. Eram os italianos “Saturno” e “Vulcano”, o inglês “Queen Mary I”, o francês “France”, elegantes, misteriosos, desembarcando passageiros silenciosos e discretos. Hoje vejo os paquetes encostados em frente à Casa dos Bicos, monstruosos, grandes como urbanizações, os maiores poluidores da cidade, despejando nela 700 mil passageiros por ano e por algumas horas, para o circuito da beira-rio e dos pastéis de nata, ruidosos e absolutamente alheios à “Lisboa e Tejo e tudo” de que falava Pessoa. Mas isso, os novos paquetes, de que Barcelona e Veneza já se vão livrando, é apenas uma das coisas que num ápice, mas à vista de todos, vêm paulatinamente fazendo de Lisboa uma cidade prostituída ao turismo e roubada aos seus habitantes.

Lisboa recebe 19 milhões de turistas por ano, 40 novos hotéis apenas em 2023. Não é muito, para Carlos Moedas. Em Junho passado, ele declarava a “O Globo” que “ainda estamos muito longe do excesso de turismo. Muito longe da situação de Veneza ou Barcelona. Devemos continuar a apostar no turismo”. Em contrapartida, nos últimos dez anos, a cidade perdeu 30% dos seus habitantes, sobretudo no centro histórico: os turistas expulsaram-nos. Quem não perdeu a sua casa para a especulação imobiliária, quem deixou de poder pagar arrendamentos que são os segundos mais caros da Europa, perdeu o prazer de viver numa cidade onde todas as lojas históricas, o pequeno comércio de bairro, os restaurantes e tascas de rua foram cilindrados pelas lojas de souvenirs e ‘CR7’, e toda a zona histórica, do Castelo até à Torre de Belém, toda a beira-rio onde durante tanto tempo esperámos pacientemente por obras de requalificação, hoje é autódromo de tuk-tuks, pradaria de trotinetas à solta, território comanche onde um lisboeta se sente em terra alheia.

De há uns anos para cá, também eu me tornei um dos desertores de Lisboa, um dos que desistiram de continuar a perseguir um amor impossível. De que me servia a luz de Lisboa se as esquinas estão tapadas de turistas ou da tenebrosa silhueta dos paquetes que hoje se chamam “Icon of the Seas” ou “Spectrum of the Seas”?

De que me servem os jacarandás de Maio se estão pejados de trotinetas abandonadas aos pés? De que me serve o cheiro a sardinhas se nem consigo chegar perto de Alfama? De que me servem as esplanadas se não consigo abstrair-me da poluição visual dos horríveis guarda-sóis e cadeiras de plástico da Super Bock ou da Sagres? De que me servem o Terreiro do Paço ou a Ribeira das Naus lindos de morrer se não consigo lá chegar nem sair de lá a não ser de tuk-tuk e em cada metro está um camone a fazer selfies? Hoje sou um lisboeta de toca e foge, vou a Lisboa uma vez por semana por razões profissionais, circulo à volta da cidade para fugir à confusão e, talvez porque já me habituei à tranquilidade e doçura da vida na província, sinto, mesmo fugindo do centro, uma urgência hostil à flor da pele, no trânsito, nas pessoas, nos ruídos, e tudo me conta que esta não é uma cidade de gente feliz. E com razões para isso.

Nunca compreendi as causas da derrota autárquica de Fernando Medina. Parece, mas é uma explicação curta, que terá sido por causa da questão das faixas para ciclistas na Almirante Reis, cuja revolta local lhe retirou o número de votos suficientes para a inesperada vitória de Carlos Moedas. Por ironia democrática e ao contrário do prometido, nem isso, porém, Moedas resolveu. E digo nem isso, porque não vejo que tenha resolvido mais o que quer que seja. Peço desculpa se por acaso estou mal-informado ou observo mal, nas minhas rápidas incursões semanais à capital, mas, de facto, não vejo uma rua melhorada, um piso renovado, um espaço verde a mais, uma praça reconfigurada, um novo estacionamento, uma árvore plantada: apenas radares de velocidade por todo o lado, num exercício abusivo de autoritarismo e confisco que muito deve contribuir também para a irritação dos lisboetas ao volante. Medina requalificou a frente do rio, a Avenida da República, a 24 de Julho, o Martim Moniz, deu uma praça a cada bairro, um novo parque à cidade, inúmeros espaços verdes novos e licenciou centenas de esplanadas. O que fez Moedas em três anos? Vejo-o constantemente no combate político ao PS e ao anterior Governo, sempre a reclamar louros de coisas não vistas, mas sempre também a recorrer ao governo quando se vê à rasca — seja na Jornada Mundial da Juventude, na construção de residências estudantis ou em instalações para os sem-abrigo. Graças ao turismo e à especulação imobiliária, tem receitas que nunca a Câmara tinha tido e ainda duplicou as célebres ‘taxas e taxinhas’ que o PSD tanto criticava e mesmo assim conseguiu levar o superavit recebido de Medina a um inexplicável défice. Mas talvez, repito, eu esteja mal-informado ou esteja a ver mal.

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Mas o que eu não vejo com certeza é que Carlos Moedas tenha, ou consiga explicar, caso tenha, uma ideia de futuro para Lisboa. Vejo-o debitar vagos pensamentos sobre atrair talentos e empresas internacionais para a cidade, mas nem sequer esclarece como conseguiria conciliar isso com uma cidade que aposta tudo, e com o seu apoio, na exploração do filão turístico até ao infinito. Por exemplo: o que pensa Moedas quando ouve as associações empresariais do sector turístico reclamarem um aeroporto que possa trazer até 60 milhões de turistas por ano para Lisboa? A mim, apetece-me puxar da pistola; e a ele? O que pensa Moedas sobre o artigo saído na última edição de domingo do “El País”, onde se procede a um requiem da cidade, prostituída de alma e coração ao turismo? Tem orgulho no que está a fazer, no que vai continuar a ser feito?

Eu sei que Lisboa não é caso único. Portugal inteiro está à venda a troco de €25 mil milhões, 9,5% do PIB, o valor do turismo no ano passado. Veja-se o pesadelo planeado para a costa alentejana, de Tróia a Melides, descrito no último Expresso, ou as 100 mil camas ainda para serem construídas no Algarve. Tudo isto num país ameaçado por faltas de água contínuas e cada vez mais severas, com arribas a desabarem pelo excesso de construção, praias saturadas, hospitais públicos sem capacidade de resposta, mão-de-obra estrangeira amontoada em contentores ou pardieiros e os serviços públicos inoperacionais. Eu não defendo o fim do turismo, eu defendo, desde há muito, o que todos prometem e logo esquecem: menos turistas, mais qualidade, mais respeito pela paisagem e pelos recursos naturais, e, como resultado, iguais ou maiores receitas. Mas em Portugal, quando um negócio dá dinheiro, não há limites que não a ambição e a ganância de todos e de cada um. Ninguém estuda, ninguém planeia, ninguém mede as consequências adiante, apenas os lucros a curto prazo. Por isso, primeiro vemos os lisboetas expulsos da sua própria cidade. Depois, vai ser preciso inventar outro país para onde os portugueses possam fugir.

2 No Expresso online, Henrique Raposo escreveu uma das suas recorrentes crónicas de propaganda de Israel, desta vez ultrapassando os próprios mentores. Diz ele que os miúdos palestinianos, a partir dos 7 anos, “são educados a usar com orgulho as AK-47, logo na primária, ao mesmo tempo que lêem propaganda igual à dos nazis sobre os judeus”. Enquanto que “as meninas palestinianas são obrigadas a casar aos 15 e, se recusarem, são deserdadas, espancadas ou assassinadas”. Não sei se tão vívida descrição lhe virá de conhecimento in loco ou de excesso de imaginação militante. Mas considerando que desde o 7 de Outubro, Israel já matou 15 mil crianças palestinianas em prédios habitacionais, escolas, hospitais e campos de refugiados e que reduziu Gaza a um horizonte de ruínas, não me parece que seja preciso propaganda igual à dos nazis para levar os miúdos palestinianos a odiar os israelitas nem que as meninas palestinianas tenham alguma coisa de que possam ser deserdadas se recusarem casar-se — se é que ainda encontrarão, entre os sobreviventes, maridos disponíveis ou pais com vontade de as assassinarem em caso de recusa, como assegura Henrique Raposo. Mas talvez Raposo não fizesse mal — apenas por uma questão de honestidade intelectual — em estender a sua dissertação daquilo a que chama “a masculinidade tóxica palestiniana e a raiz patriarcal da cultura muçulmana” aos comportamentos familiares e sociais do mundo submerso dos judeus ortodoxos. Esperem sentados.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Moedas, ou regresso do popó

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 28/09/2021)


Passamos de um autarca que queria limitar a circulação automóvel no centro para outro que anunciou descontos no estacionamento em toda a capital e vilipendiou as ciclovias enquanto diz querer “uma cidade mais sustentável” – é talvez isso que “as pessoas querem”, slogans sem dor. Mas então talvez seja de aprender a não respirar.


Já pouca gente se lembrará – foi naquele tempo muito longínquo antes da pandemia – mas fez à época correr rios de tinta. Fernando Medina anunciou, no início de 2020, a ZER – Zona de Emissões Reduzidas – para o centro da cidade, com forte limitação de circulação e estacionamento de automóveis particulares na Baixa/Chiado. Foi dura e exaustivamente debatido com moradores e comerciantes em várias sessões públicas (sei, participei), levando a algumas alterações do projeto inicial, e deveria ter sido aplicada a partir de junho de 2020.

Com o confinamento decretado em março, porém, a Câmara adiou a entrada em vigor da ZER. Foi, no meu entender, uma péssima decisão.

Uma vez que a ZER implicava várias obras – alargamento de passeios, colocação de traçados de elétricos, etc -, não teria existido melhor altura que o confinamento, com lojas e demais negócios fechados e quase nenhuma circulação automóvel ou pressão de estacionamento para além da dos moradores (que poderiam por exemplo usar, excepcionalmente a título gratuito e enquanto os trabalhos durassem, os lugares deixados livres nos parques da zona), para avançar com elas, com toda a calma. Seria também a altura ideal para uma habituação progressiva, sem choque, às novas regras, por parte de moradores, polícia e transportes públicos.

Perdeu-se a oportunidade. E com o resultado das eleições de domingo pode-se ter mesmo perdido tudo. Senão, leia-se o programa de Carlos MoedasÉ certo que proclama serem “as alterações climáticas e a degradação ambiental uma das maiores ameaças que o planeta e a humanidade enfrentam na atualidade”, e “as cidades geradoras de uma parte significativa desses impactos”; que “a resposta política ambiental de Lisboa requer uma ação urgente, transversal, concertada e assertiva” e é preciso tornar a “cidade sustentável”. Mais à frente, assegura-se que “Lisboa precisa de uma governação que saiba conduzir, com equilíbrio, a transição de um modelo de cidade baseado no carro e nos transportes, promovido nas últimas décadas, para um modelo de cidade baseado na proximidade.”

Ao arrepio do que é a tendência nas grandes cidades europeias e da ideia de sustentabilidade, propõe medidas de promoção da circulação automóvel. O slogan “restituir a rua aos lisboetas” significa na verdade, pasme-se, restituí-la aos carros dos lisboetas.

Toda esta conversa (que se prende com a famosa “cidade dos 15 minutos”, ou seja, a ideia de Moedas de que tudo o que as pessoas precisam na sua vida deve estar no máximo a 15 minutos de distância da morada – o que é muito interessante mas obviamente inconcretizável no espaço de um ou dois mandatos, se de todo) não se traduz, porém, em qualquer medida concreta de limitação de circulação e estacionamento. Pelo contrário: ao arrepio do que é a tendência nas grandes cidades europeias e da ideia de sustentabilidade, propõe medidas de promoção da circulação automóvel. O slogan “restituir a rua aos lisboetas” significa na verdade, pasme-se (é verificar, está na página 13), restituí-la aos carros dos lisboetas: quer que, para eles (presume-se que se referirá a quem mora em Lisboa), os 20 primeiros minutos de estacionamento sejam gratuitos em toda a cidade e paguem menos 50% em todos os parquímetros.

Também quer “redesenhar a rede de ciclovias” da cidade (recorde-se que na campanha garantiu que nelas tinham morrido 26 pessoas em 2019, o que é falso) e acabar com a da avenida Almirante Reis – a qual, lembre-se, fazia parte do plano da ZER. Dir-se-á que anuncia, por exemplo, passes grátis para jovens até aos 18, estudantes e maiores de 65. Mas de que serve isso se diz a toda a gente com carro “usem-no à vontade, ficou mais barato estacionar em qualquer lado”? É que tal medida não se limita a tornar mais atrativo o uso de carro; faz mais penoso o dos transportes públicos de superfície – a Carris – pois quanto mais carros houver a circular menos os transportes públicos são eficazes.

É possível, claro, que a ideia de se poder continuar a usar o transporte individual a bel-prazer e contar, em tese (porque obviamente não será possível – não há lugares para tal), com estacionamento barato à superfície no centro da cidade tenha agradado a uma parte do eleitorado de Moedas. É normal; custa, ao fim de décadas de incremento do paradigma do transporte individual e da ideia de que se pode levar o carro para todo o lado, aceitar que isso não pode continuar a ser possível.

Mas não pode – não há “cidade sustentável” ou sequer mundo sustentável assim, e sabemo-lo há décadas. Só falta usar esse saber para salvar o que é possível – coisa que andamos coletivamente, cidade, país e mundo, a adiar ad aeternum. Não é decerto com slogans vazios que lá vamos; é preciso coragem e capacidade de sacrifício por um bem maior.

A eleição de Moedas – ou, melhor dizendo, a derrota de Fernando Medina – deixa-nos muito mais longe dessa coragem. Malgrado trazer consigo a “aura de viajado” (que deveria impulsioná-lo para soluções como a da ZER, pelo conhecimento daquilo que se faz “lá fora”), o presidente eleito é um homem do lobby do popó. Ou não tivesse na sua lista para a Assembleia Municipal o indescritível Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Club de Portugal e fanático do tubo de escape. Se depender de Moedas e Barbosa, agora que vamos finalmente poder andar na rua sem as máscaras pandémicas teremos de trocá-las pelas antipoluição. Novos tão velhos tempos.


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Moedas num bolso do passado

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/09/2021)

Daniel Oliveira

Quando Carlos Moedas concorreu, parecia que vinha ungido. A imagem de comissário europeu, e parece que fez um bom mandato, muito mais do que a sua passagem pelo governo de Passos Coelho, que só para quem não percebeu o que aconteceu ao país profundo naqueles anos é que é visto como um ativo político, dava-lhe todas as condições para uma boa campanha. Mas, da lista à campanha, tudo foi capturado pelo PSD de Lisboa. Uma estrutura local medíocre que conquistou, há quatro anos, uns miseráveis 11% (28 mil votos). São as mesmíssimas pessoas. Até Daniel Gonçalves, patriarca do clã Gonçalves que tinha sido afastado há quatro anos por decoro (é fazerem uma busca nas notícias de há quatro anos), regressou como candidato à Junta de Freguesia das Avenidas Novas.

A forma como este PSD capturou a lista e a campanha de alguém que ambicionava ser líder do partido exibe a maior fragilidade de Moedas: não é um líder. Toda a descoordenação que vemos na Câmara de Medina seria multiplicada por muito, caso vencesse. Nisso, o atual presidente apanhou-lhe bem o ponto fraco: diz sempre que sim a quem estiver à sua frente. É só mudar a plateia que muda o discurso.

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Perante esta característica, a campanha polarizada não podia ser mais desajustada. Moedas não polariza com ninguém. E quando o faz, sai-lhe mal. E se não polariza, era noutro campeonato que devia ter apostado: o da proposta, da sua boa imagem e de alguém com um estatuto acima de mero perseguidor de Medina. Moedas desceu para o patamar do PSD de Lisboa e de uma direita em crise, que julga que a violência retórica fará com que os eleitores que fazem ganhar eleições se sintonizem com o seu grau de indignação e revolta.

Moedas começou por escolher a corrupção como tema. Se não resulta contra Rui Moreira, diretamente acusado pela justiça e em risco de perda de mandato, como poderia resultar com Medina, que tem um ex-vereador como arguido? Se não resultou há quatro anos, com os mesmíssimos casos, porque resultaria agora? O pior é que Moedas nem escolheu Manuel Salgado como alvo, mas Inês Lobo, uma arquiteta conceituada que venceu um concurso público e que, com a sua candidatura, só perde a oportunidade de acompanhar o que já era seu.

Mas não foi nisto que Moedas foi capturado pelo velho e falido PSD de Lisboa. Em relação às ciclovias, agarrou-se à de Avenida Almirante Reis (um calcanhar de Aquiles de Medina), mas é incapaz de assumir o resto do projeto de tornar a capital totalmente ciclável. Mesmo sabendo que essa é a posição da maioria dos lisboetas. Ao seu lado, num dos dias mais importantes da campanha, tivemos Manuela Ferreira Leite a dizer isto: “Para que servem as ciclovias? Não são os velhos que andam de bicicleta, não são os pobres que andam de bicicleta. Os pobres vão ser atropelados pelas ciclovias, porque, como sabem, é um tipo de transporte que não faz barulho, que a pessoa tem de ir atenta e os velhos deixaram de poder andar atentos em Lisboa.” Isto foi dito numa capital europeia, em 2021.

Em vez do Carlos Moedas europeu, que conhece outras cidades e sabe que este é um futuro sem recuo, temos o Moedas que mantém Carlos Barbosa, presidente da ACP que se opôs a todas as perdas de espaço do carro na cidade, na Assembleia Municipal. Um Carlos Moedas que tem como uma das grandes propostas para a mobilidade reduzir o preço do estacionamento para os lisboetas. E um Carlos Moedas amarrado a um PSD local que sempre foi contra as ciclovias, só cedendo quando a vida provou que não tinham razão.

O passado também persegue Carlos Moedas. É verdade que quer distribuir passes gratuitos aos lisboetas com mais de 65 anos e menores. Mas o PSD foi contra a redução do preço dos passes. E governo de que fez parte acrescentou ao memorando, numa negociação com a troika em que Moedas participou pessoalmente, a concessão da Carris a privados. Sem a municipalização da empresa o que propõe era muitíssimo difícil, se não mesmo impossível.

Moedas podia fazer campanha contra a gentrificação da cidade. Alguém que trabalhou para uma grande imobiliária e no setor financeiro pode não ser a pessoa mais indicada – isto não tem de valer só para Ricardo Robles. Mas o seu problema é acima de tudo político: o governo que aprovou a lei das rendas de Assunção Cristas, que promoveu a desregulação do alojamento local e que bramou contra as “taxas e taxinhas” que obrigassem o turismo a contribuir para o seu impacto na cidade não teria grande autoridade para este discurso.

Restava o único caminho acertado, que Moedas até seguiu, mas não conseguiu segurar: a crítica ao fracasso da política de habitação de Medina. Só que, em vez de se basear no exemplo de tantas capitais europeias, algumas bem liberais do ponto de vista económico, que têm mercados públicos de arrendamento pujantes para a classe média, e apontar para o falhanço de Medina nesse objetivo, veio com a proposta de redução do IMT para jovens. Ainda por cima, escolheu com exemplo casas a 250 mil euros, não percebendo que a entrada que se exige é tal que fica evidente o IMT é o menor dos problemas de um jovem normal. Mas, acima de tudo, regressa ao erro de promover a compra, que se mostrou catastrófico para a mobilidade e para o endividamento do país e das famílias. Como em relação as bicicletas, o candidato dos “Novos Tempos” surge como um candidato do passado.

Carlos Moedas deixou fugir todos os temas relevantes para falar do medo que se vive em Lisboa ou da partidarização da Carris, assuntos para jornalistas e malta da campanha. Dizem zero aos lisboetas. Olhando para os resultados da concelhia de Lisboa nos últimos 14 anos, Moedas devia saber uma coisa: é para fazer tudo ao contrário do que eles acham. Mas se nem a eles se conseguiu impor, imaginem à máquina camarárias e aos interesses na cidade.

Carlos Moedas falha porque quiseram fazer dele o candidato que não é. Porque nem a uma estrutural partidária local em ruínas se conseguiu impor. E perante um passado em que a direita esteve sempre contra todas as mudanças modernizadoras, um Moedas com mundo e sem anticorpos deixou-se ofuscar pelas vistas curtas se quem vale menos do que ele. Moedas falha porque foi capturado. E se foi capturado tão cedo, capturado seria se chegasse a presidente.


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