Uma certa pedofilia eleitoral

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 02/09/2024)


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Este governo pendurado por arames luta como pode para se manter de pé. É o seu papel e está no seu direito. Sendo o seu papel, podia recorrer a truques novos. Mas não. Utiliza velhas taras. E o extraordinário é que, de tão entontecida, a sociedade ziguezagueie e tome estes truques de velhos engatatões decadentes como propostas de negócio sério.

Quando um governo anda aos Z o mais certo é andar ao engate de jovens. A pedofilia deste tipo de governos tem história. Assim de repente lembro-me dos jovens agricultores, que foram engatados com os jipes a que foi dado o cognome de IFADAP, dos jovens empresários de elevado potencial, os JEEP, o Crédito Jovem, a Habitação Jovem, e agora chegámos ao IRS jovem! IRS, segundo a definição do Ministério das Finanças, é uma sigla que significa Imposto Sobre os Rendimentos das Pessoas Singulares. Para este governo a Pessoa Singular com plenos direitos e deveres só existe depois dos 36 anos. Jesus Cristo que morreu aos 32 por esta ordem de Montenegro e do seu ensimesmado ministro das Finanças estaria ao abrigo do IRS jovem.

Segundo percebi, e sou um especialista em impostos, como a maioria dos portugueses que não têm um conselheiro gabarito do doutor Ventura, o atual governo pretende engatar jovens até aos 36 anos com uma tabela de favor sobre os seus rendimentos e apresenta esta oferta com o sorriso de chico esperto à esquina de uma rua de trottoir que o doutor Montenegro exibe a imitar algumas capas da Bomba H, ou do Cara Alegre, revistas do grande Vilhena.

Os 36 anos são um dado sem qualquer base. 36 anos porquê? No tempo da tração animal a definição da idade dos animais a engatar era feita pela observação dos dentes, presumindo-se que os mais novos eram mais aptos para o trabalho. À falta de uma tabela de IRS construída tendo por base a curvatura da dentadura e o número de dentes, a nova justificação para marca definidora de benefícios fiscais é a de que até aos 36 anos a nova geração de portugueses precisa de carinho.

A lógica da proposta do IRS jovem do governo conduz a conclusões como as seguintes: um comandante de linha aérea, que aufere mais de 10 mil euros mensais, ou um cirurgião que opera entre publico e privado, um CEO de uma multinacional, um futebolista ou atleta profissional, um consultor financeiro de um banco de investimentos, desde que tenham menos de 36 anos têm direito a uma tabela bonificada em igualdade de condições com um mestre de uma pequena embarcação de pesca, um camionista de TIR, um capitão piloto de um helicóptero, um professor, um operador de grua, um faroleiro, um pasteleiro.

A título de exemplo, Bill Gates fundou a Microsoft com 19 anos, pelo que, segundo a proposta de Montenegro, teria direito a dezassete anos de IRS jovem para poder iniciar a sua vida!

Como para este governo, os 36 anos são a idade da razão, seria então lógico que a maioridade fosse aos 36 anos. Também a idade do primeiro voto. Da saída de casa. Da responsabilidade civil por acidentes. A idade de tirar a carta de condução, de poder beber álcool, de responder por crimes. A idade em que os pais diriam: então filho estás um homem, ou, filha estás uma mulher. Toma lá as chaves de casa!

O mais extraordinário nesta extraordinária proposta é que a sociedade não se desmonta a rir e pelas TVs passam enxames de louva-a-deus a discutir o mérito desta nova burla de engate. Também tenho apreciado a aparvalhada aceitação dos meninos e das meninas de 36 anos que frequentam as universidades jovens dos partidos. Muito concordantes.

O próximo passo, será, presumo, o de instaurar o IRS jovem para os frequentadores dos lares, para aquisição de cadeiras de rodas, andarilhos e algálias, objetos típicos da juventude.

Como é que para falar do 25 de Abril eu vou para 24?

(Pacheco Pereira, in Público, 25/05/2024)

Presos Políticos, gravura de José Dias Coelho

Uso um artifício, mais ou menos cénico, mas tão verdadeiro que se percebe pelo silêncio que resulta.


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Eu tenho andado de escola em escola em escola, por todo o país, a falar do 25 de Abril, por iniciativa do Arquivo Ephemera. Nas escolas secundárias encontra-se talvez o público mais difícil que se pode ter nestes dias de 2024, adolescentes muito mais interessados no telemóvel ou em troca de gracinhas com o outro/a adolescente ao lado. Uns são de turmas mais novas, dos primeiros anos, outros são do 11.º e 12 .º ano, mais velhos, mas ainda completa e absolutamente adolescentes, estado em que, tudo indica, hoje se fica muitos anos.

Nestes públicos a grande diferença vem dos locais e das escolas, e é a óbvia diferença social. Não é a mesma coisa falar numa escola da Moita ou num colégio católico de Lisboa, basta olhar ou fazer uma pergunta qualquer. A que costumo fazer é quem leu a Alice no País das Maravilhas. Nos subúrbios de Lisboa, a norte ou a sul do Tejo, um ou dois ou leram ou sabem o que é, num colégio “fino”, dez ou 12. Estamos a falar de assistências entre 80 e 300 alunos, mas a percentagem de respostas não tem a ver com o número de presentes, mas com as condições sociais e já testei esta questão a milhares. Pode não ser a melhor pergunta, mas resulta. A pergunta é, aliás, desnecessária, porque basta olhar para as salas cheias e ver a sua composição, roupa, postura e compostura, fala ou silêncio, maneira de sentar, os que estão à frente e os que querem ir para trás e o estado geral de sonolência ou de interesse à partida.

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Salvo raras excepções, os alunos estão lá por obrigação, não têm outro remédio senão ir como se fossem para uma aula. As escolas estão cheias de desenhos, instalações, frases, cartazes sobre o 25 de Abril e percebe-se o esforço dos professores para dar sentido a uma data em que muitos deles ainda não eram nascidos, mas apanharam o “vento” da revolução nos seus primeiros anos. Os alunos nem “vento” nem brisa, para eles cabe bem a frase “o passado é um país estrangeiro”. A minha função é completar a frase de L. P. Hartley, explicando-lhes que “lá as coisas faziam-se de forma diferente”.

O “lá” é o 24 de Abril de 1974 e não o 25, porque falar da força e valor da liberdade a quem sempre a teve não é fácil. Para eles, a liberdade é como o ar que se respira e, como não têm falta de ar, não dão por ela.

Uso então um artifício, mais ou menos cénico, mas tão verdadeiro que se percebe pelo silêncio que resulta. Peço um voluntário “para ser torturado” e, passado o espanto inicial e ultrapassada a diferença entre estar com gracinhas e levantar-se e dizer “vou eu”, lá aparece um mais afoito empurrado pelos colegas do lado, aquele a que a riqueza vocabular do português, em risco nos dias de hoje, chama “reguila”.

Coloco-o ao meu lado e mando-o encostar os pés, como se fosse uma “estátua”, o nome técnico da tortura a que o vou sujeitar. Explico-lhe que à frente tem uma secretária e um inspector que o interroga e atrás dois agentes da PIDE um de cada lado. Nem sempre era esta a configuração, mas não se afasta do essencial. As faces à minha frente perguntam em silêncio, mas como é que isso é tortura? E eu respondo: “Aqui o Rafael (o meu último torturado de há dois dias) vai ficar assim uma hora, duas horas, seis, um dia, dois dias, quatro dias, até ‘falar’ ou a PIDE desistir.”

Não é preciso explicar muito mais, nem ir aos detalhes, nem falar de grandes espancamentos, eles percebem muito bem o que acontece, nem querem saber se o homem ou a mulher estava algemado. Percebem também muito bem o que faziam os agentes atrás, sabem que eles se revezam e que o preso que estava ao lado seria espancado se se tentasse sentar. Sabem também que esses “pides” vão voltar para suas casas, comer a comida que as mulheres lhes fizeram, brincar com os filhos, ver o jogo na televisão e, se regressarem ao serviço na manhã seguinte, podem perguntar: “Então o tipo já falou ou vou ter que ir lá para cima pô-lo na ordem?…”

Não é preciso dizer mais nada, o 24 de Abril está explicado e o 25 de Abril também.

Quando mando voltar ao seu lugar, o Rafael (o meu último torturado) e todos os outros param de ser “reguilas”, há uma certa gravidade que se instala e tenho a presunção de que o grau de adolescência natural diminui para incluir um maior respeito pela coragem, uma maior atenção à liberdade, um repúdio pela violência da ditadura, um asco ao inspector e aos agentes na sala que só faz bem ter. Ontem e hoje.

O autor é colunista do PÚBLICO


Por que o Chega representa um novo fascismo?

(Raquel Varela, in Facebook, 08/03/2024)


Um jovem perguntou-me: por que, afinal, o Chega é um Partido neofascista? E o que isso significará para um jovem como eu?

Eu, como todos por aqui, estou também farta: farta de salários miseráveis, casas a meio milhão de euros e empregos da treta, pessoas que vão para o trabalho às 6 da manhã e regressam a casa às 9 da noite e não conseguem pagar as contas todas. Também estou farta de temas em pauta que não discutem nada do que é fundamental, desde logo a autodeterminação social e sexual, ou seja, sem emprego e casa não há liberdade social sexual de qualquer tipo. Hoje um jovem, de qualquer sexo ou orientação sexual, a menos que seja rico e tenha casas ou garagens e jardins dos pais para festas, não tem um lugar onde possa namorar, sair, conviver com amigos, e muito menos a perspetiva de uma casa própria, casar ou ter filhos.

Não é que não haja escolha na classificação da casa de banho, é que não há casa de banho de todo. De género algum, porque não há casa própria, de cada um, nem espaço público para todos. Todo o espaço — tirando a praia — é privado e inacessível. Qualquer convívio custa dezenas de euros, desporto custa centenas de euros. Viajar é impossível. Um jovem não pode ir a uma discoteca, restaurante, conviver. Está preso à casa dos pais.

Emigrar é uma tristeza, não uma solução — manda-nos para longe de quem amamos, da família e dos amigos, e deixa-nos a viver sem afetos. E, é claro, sem direitos cívicos plenos.

A tudo isto acho que é preciso dar uma resposta a sério, e não me revejo em nenhum dos partidos políticos do arco da governação parlamentar. O PS e o PSD vão continuar a fazer o mesmo; é preciso mudar radicalmente, sem medo de ser radical — ser radical é resolver os problemas, ir à raiz. Por isso eu devolvo a pergunta ao jovem? E o Chega, vai mudar alguma coisa? Como? Porquê?

Só há uma forma — uma única, não há duas — de mudar: é ir buscar o dinheiro onde ele existe, o dinheiro de quem trabalha das 6 às 9 alimentando os lucros dos bancos e casas para especulação. Como é que o Chega vai buscar esse dinheiro se ele é financiado por empresários e capitalistas que pagam os salários miseráveis, os empregos da treta, e guardam religiosamente o resultado desse trabalho em bancos e casas para especular, onde brincam a vender ações, ativos ou “bitcoins”?

Não fugi da questão. Por que o Chega representa um novo fascismo? O fascismo histórico surgiu há 100 anos, quando empresários começaram a financiar pessoas violentas para impedir revoltas sociais contra os empregos da treta, na Alemanha em 1920. No passado o fascismo financiava, às claras, milícias, desempregados e pessoas que saíam do exército, com raiva do mundo, desesperadas portanto, que “aceitavam” ser funcionários (ou mercenários) do partido e das milícias para combater os que vinham para as ruas fazer greves contra salários miseráveis. São os capatazes que matavam grevistas no século XIX. Não passou despercebido a ninguém que o Partido irmão do Chega, o “Ergue-te”, propôs em público a proibição das greves.

Hoje, como é ilegal organizar milícias, estas organizam-se, segundo os estudos vários publicados, e relatórios de segurança das próprias polícias, através de grupos sociais violentos, de claques de futebol e artes marciais, nas polícias e movimentos de seguranças privados, ou até associações que visam “ajudar” a sociedade, fazendo dos seus corpos armas, ou usarem diretamente armas, para amedrontar quem luta contra salários miseráveis, e empregos da treta.

Mas o Chega não é isso, dir-me-á o jovem? A partir dos 15 anos de idade temos que perceber o que é a verdade e a mentira, usando a nossa própria cabeça. Ninguém pode fazer isso por nós.

Há várias reportagens de jornalistas publicadas em Portugal e relatórios de segurança que indiciam que sim, as ligações da nova extrema-direita aos grupos sociais violentos, envolvendo apoiantes do Chega. Na Grécia ficou provado e o Partido de extrema-direita foi proibido em democracia. Em Portugal, só alguns jornalistas tornaram isso público, nunca o Ministério Público investigou (por que será?).

Mas não precisamos de uma prova da ligação do Chega a milícias: o que o Chega tem sido até hoje se não pura violência verbal? Como é que o Ventura debate? Com interrupção do debate, ruído intencional, falar mais alto que o adversário, dizer mentiras ou verdades, mas elevando a voz e repetindo três vezes, gozando, rindo, ofendendo, insultando a esmo, fez até algo que só os fascistas fazem — falar da vida privada dos outros candidatos.

Não sou do Livre, Rui Tavares apoiou a invasão da Líbia, não tem qualquer programa distinto do PS, mas a sua vida privada é sagrada. Para os fascistas não — não existe diferença entre vida pública e privada. Hitler colocou filhos a denunciar na escola conversas dos pais em casa — não havia fronteira entre a vida de cada um e a vida pública, é isso um tipo de totalitarismo.

Olhando as câmaras com muita convicção e dizendo frases batidas, murros em forma de palavra, toda a sua visão totalitária do mundo está ali — “Calem-se!” é o nome verdadeiro do Chega.

Toda a comunicação do Chega é fascista, como nos anos 1920, porque não visa diálogo algum, contraditório, visa calar, silenciar, matar a voz do outro, é isso historicamente o fascismo.

Por isso Ricardo Araújo Pereira merece a nossa admiração, não só porque nos faz rir e pensar, mas porque foi ele, mais ninguém com microfone e poder de decisão, que colocou um verdadeiro cordão sanitário (que os jornalistas na sua maioria não colocaram, e muito menos o Tribunal Constitucional) e disse — com fascistas não se discute, não há democracia quando somos silenciados –, foi o único a aprender com as lições da História.

Na verdade uma democracia a sério deve dar toda a liberdade a todos; e não dar rigorosamente liberdade nenhuma a quem quer silenciar, calar, amedrontar, ameaçar, usar da violência contra os outros. No limite matar, porque é isso que faz a extrema-direita ao longo da História — usa os fascistas para matar quem luta por salários e empregos decentes. A responsabilidade é toda destes partidos e do Estado, que o permite e, às vezes, incentiva.

Este fascismo, justamente porque o Estado é conivente, não se combate com votos, claro, combate-se com organização social e política, greves, muitas manifestações, com democracia real e participativa de facto. Domingo se o Chega tiver 40 deputados vai ter rios de dinheiro para assessores, dinheiro nosso para a violência verbal com que nos tem tratado — e daí, segue-se o quê? Não vão mudar em nada as condições dos jovens, nem os salários, nem a emigração, isso só se faz lutando pela liberdade e pela igualdade, contra as empresas que financiam o Chega. E isso só se faz com fraternidade entre nós, mesmo com diferenças. Fraternidade e não gritos e medo, é a palavra-chave.

Outra coisa que se aprende a partir dos 15 anos de idade: só nós mudamos a nossa vida, ninguém faz isso por nós, os jovens têm que voltar a fazer parte das lutas políticas e sociais, sair à rua, lutar pelo que têm direito: ficar cá, ter casa, conquistar emprego, desfrutar lazer, ser felizes, ser, verdadeiramente, e a sério, livres.

Os tambores do militarismo, aliás, ameaçam a vida destes jovens não só com este lixo da História, o fascismo, mas com os mais respeitáveis senhores do comércio, da indústria e das finanças a impor decisões de guerra e economia de guerra, decisão que tem as cores dos dirigentes da União Europeia. Os partidos verdadeiramente democráticos devem por isso não só dizer não ao novo fascismo, mas exigir nem mais um euro para a guerra na Ucrânia e parar a máquina de guerra em Israel. Senão, ainda por cima, os jovens vão ser, outra vez, carne de canhão dos lucros.

Votar com os pés contra o militarismo e a violência como política, aqui, na Europa e no mundo inteiro, sempre! Contra o Chega a Fraternidade; contra a ameaça e o medo a liberdade; contra a pobreza trabalho digno para todos.

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