Sabias que és de direita?

(Isabel Moreira, in Expresso, 17/12/2016)

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Uma das traves mestras do discurso da direita é a defesa do princípio da liberdade com uma certa configuração. A direita tem no seu património a liberdade como valor absoluto ou, de certeza, como valor que se sobrepõe aos demais, como o da igualdade.

Este discurso tem colonizado a sociedade e até pessoas que se afirmam de esquerda. Pensam que se compartimentarem a defesa do princípio liberdade à questão da liberdade de expressão, à defesa da recusa da não contenção do discurso, não se movem ideologicamente.

É precisamente aqui que está o equívoco. A esquerda, por definição, não absolutiza a liberdade em qualquer dimensão – e por isso também não o faz na liberdade de expressão – porque isso é a base da exploração dos mais fracos, das mulheres, dos pobres, dos negros, da comunidade LGBT, enfim, da parte mais frágil da sociedade, pelos mais fortes, pelos sexistas, pelos racistas, pelos xenófobos, pelos homofóbicos.

Para a esquerda, não há valores absolutos e o princípio da liberdade articula-se com o princípio da igualdade.

Esta premissa concretiza-se em todas as dimensões da nossa vida em sociedade, concretiza-se, portanto, no debate em torno dos limites da liberdade de expressão. A esquerda não defende que se cale quem diz uma frase que desagrada, só se cala o que é crime, mas a esquerda tem por imperativo ético a valorização da linguagem em sentido empático e integrador, ao invés de lhe dar uma função de exclusão do outro ou de perpetuação dos desvalores sociais, como o racismo, o sexismo, a xenofobia ou a homofobia.

Quando decido não perpetuar anedotas sobre deficientes, quando decido parar a cadeia histórica de repetição das palavras que são a tradução dos insultos dirigidos às mulheres ou aos homossexuais, estou a exercer a minha liberdade de expressão negativa, estou a escolher – e aí reside a grandeza da minha liberdade – não contribuir pela linguagem para a desigualdade e para a discriminação.

Estou a ser, na linguagem de agora, politicamente correta, diz-se. Seja, mas antes de mais estou a ser de esquerda. Estou a fazer uma ponderação entre liberdade e igualdade.

Quem faz o contrário está a aderir à tese da lei do mais forte. Diz que está apenas a falar de liberdade de expressão. Mas a tese deriva de uma mais geral e que se aplica a todas as dimensões da vida.

Se achas mesmo que a liberdade de expressão não deve ter limites e que não devemos ceder à autocontenção do discurso, és de direita, sabias?

Tens todo o direito a isso. Só não te apresentes como pertencendo a um campo ideológico incompatível com o que dizes (sem freios), pode ser?

O suicídio do PSD

(Isabel Moreira, 29/10/2016, Expresso Diário)

ISA_MOR

 

Mais uma vez, o PSD mostrou que não sobra nada do que dá nome ao partido – social democracia.

Vem sendo evidente para todas e para todos que o PSD não tem discurso. Podia ter, mas não tem. Escolheu a trincheira de uma nova direita, desconhecida da nossa memória democrática, uma direita que apelida de “bolchevistas” ou produtos “das esquerdas radicais” medidas consensuais à social democracia mediana, como manuais escolares gratuitos para alunos do 1º ciclo básico.

Desta vez, o PSD foi mais longe no suicídio, na destruição do legado de um partido que fez parte da construção da democracia portuguesa.

No debate de quinta-feira, marcado pelo PSD, sobre as consequências das cativações orçamentais nos serviços públicos, a deputada oradora foi Maria Luís Albuquerque. Não vou perder tempo sobre o rosto do governo que cortou, demitiu, degradou, desmotivou e desorganizou em matérias de serviços públicos (tendo mesmo um plano para cortar mais, caso tivesse continuado a governar) teve o desplante de dizer acerca deste orçamento de estado. Foi tudo obsceno. Foi particularmente obsceno por ter sido dito pela deputada com o CV conhecido.

Desplante é uma coisa, destruir o legado de um partido político é outra. Ora, Maria Luís Albuquerque, na sua intervenção, disparou sobre os sindicatos, descobriu que representam interesses obscuros, talvez lóbis, assim, de repente, todo um discurso em nome do PSD que trata o sindicalismo como um obstáculo maldoso, quem sabe endinheirado.

Imagino que na Arrow Global Maria Luís Albuquerque não tenha de perder muito tempo a pensar em direitos dos trabalhadores. Mas no Parlamento fala em nome do PSD e arrasa uma das bases da social-democracia: a defesa do sindicalismo.

O PSD, assim, atira para um lixo cósmico o legado ao qual pertencia, à Europa social que retirou consequências de um conflito histórico entre capital e trabalho. As lutas sociais não foram ignoradas pelos democratas e a necessidade de regular os conflitos foi o berço do triunfo do movimento operário e sindical. Sem este movimento, como o PSD usava saber, pura e simplesmente não haveria Estado social.

A longa história da violação grosseira da dignidade das trabalhadoras e dos trabalhadores na era do capitalismo selvagem, quebrada com o sindicalismo, com a representação dos direitos dos trabalhadores, foi, para os defensores das correntes socialistas e sociais-democratas, uma vitória dos trabalhadores e da sociedade. Não há social-democrata que se preze que admita que uma sociedade é decente se a parte mais fraca da relação laboral – o trabalhador – não tem direito a estar sindicalizado ou que a sociedade é decente se as leis laborais são impostas sem concertação social.

Estamos a viver, ainda, momentos de enormes dificuldades no mundo do trabalho e, concretamente, nos serviços públicos. Há quem, precisamente nesses momentos, recorde a história, e se recuse rasgar o papel dos sindicatos, o mesmo é dizer o contrato social, a certeza de que a precarização laboral e a exploração, para além de indignas, não têm nenhuma relação positiva com o crescimento económico. É o que faz o PS.

Já o PSD, logo pela voz de Maria Luís Albuquerque, aproveita o momento para reduzir o sindicalismo a grupos de interesses, pondo a nu esta nova direita, a que vimos governar durante quatro anos e que assim continuaria se pudesse, avessa a compromisso coletivos alargados, uma direita antissindical, o mesmo é dizer uma direita que matou a social democracia, a que diria necessariamente isto: não há estado social sem sindicalismo; o desemprego e a precariedade reclamam o reforço do movimento sindical.

É este o suicídio do PSD.