Na Universidade, também parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo…

(André Carmo, In AbrilAbril, 17/02/2026)


…do que o fim do capitalismo. A já velha máxima de origem incerta parece fazer hoje especial sentido. E não pode deixar de causar perplexidade quando é também assim no lugar onde a noção de que tudo deve ser questionado até à raiz – a Universidade – devia ser inegociável.


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O exemplo máximo é o modo como se tem desenrolado a recepção dos mais recentes avanços na IA generativa que, por ignorância e comodidade analítica, irei circunscrever apenas e só aos chatbots e grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT, o Gemini, o Claude, o Grok, outros que tais. Aqueles que permitem deixar de ler e escrever, como se estas atividades humanas não fossem elementos fundacionais da construção de sujeitos pensantes, críticos e lúcidos, num tempo em que quase todos são prisioneiros da «tirania da aceleração» e do produtivismo exacerbado.

Quando se trata de problematizar, questionar ou contestar o modo como estas tecnologias têm entrado na arquitetura das Universidades, e o verdadeiro alcance deste processo está ainda por compreender, parece haver uma suspensão do juízo crítico ou, na melhor das hipóteses, uma resignada aceitação dos termos do debate tal qual eles são definidos por quem tem maiores interesses na sua difusão por entre todos os interstícios da nossa existência coletiva: as grandes tecnológicas. Quem se deve estar agora a rir é Margaret Thatcher que nunca poderia imaginar que o «argumento» TINA (There is no alternative) viria a ser tão poderoso, mesmo junto de comunidades pagas para não deixar pedra sobre pedra quando se trata de interpelar o real tal qual ele se dá a conhecer.

Então agora a sustentabilidade ambiental, que não há muito tempo era um objetivo primordial da civilização humana, e que até fez de Greta Thunberg uma espécie de Ícaro que só caiu em desgraça quando passou a fazer da luta pela Palestina uma sua bandeira, agora é secundarizada porque se tem de perguntar ao chatbot quantos gramas de farinha leva um panado?

Então esquece-se agora o facto de que os 12 indomáveis patifes que se atropelam no topo da lista e possuem mais riqueza que os mais de 4 mil milhões de pessoas mais pobres, alguns deles destacados líderes das grandes tecnológicas, não passam da expressão absoluta de uma desigualdade obscena que a todos deve indignar e mobilizar?

Ou que quando o ideologicamente enviesado Grok, propriedade de Elon Musk – o sociopata tecnofascista mais rico do planeta –, serve de base para as respostas do ChatGPT isso não as torna nem credíveis nem neutras? Ou que quando se diz que o ChatGPT é como um martelo, uma calculadora ou qualquer outra ferramenta que será sempre aquilo que dela se fizer, se aceita a noção falaciosa de que a tecnologia paira acima e fora de uma realidade social profundamente marcada pela luta de classes? E que foi Warren Buffett quem alertou para o facto de ser a dele – a dos ultra-ricos – que está a ganhar?

Então agora aceita-se de ânimo leve que um elemento de soberania fundamental para qualquer Estado que se preze – o domínio digital – não passe de um serviço prestado por grandes conglomerados privados, mais ricos e poderosos que muitos países? (Até a desnorteada União Europeia parece preocupar-se com a negligente alienação da capacidade de intervenção em sectores estratégicos vitais). Ou que a exigência de transparência e condições para que o povo possa exercer escrutínio democrático sobre os mecanismos algorítmicos é condição sine qua non para que se possa dizer que ainda existem regimes democráticos?

Então agora aceita-se que poderosos interesses económicos entrem de rompante nas salas de aula, colonizando cérebros, mentes e corpos de todos os seres que as habitam? Será que as Big Tech têm interesse na qualidade do ensino e das aprendizagens, inclusive daqueles que podem produzir cidadãos críticos e esclarecidos capazes de pôr em causa a legitimidade da sua existência e rejeitarem a redução da sua condição existencial à de meros consumidores ou carne para canhão no mercado de trabalho?

Então agora espera-se que, a reboque de uma chantagem social-darwinista, se tenha de aceitar que o uso de novas ferramentas digitais é o futuro e que com meia dúzia de horas de formação, seguramente preparadas com todo o empenho e boa intenção de colegas, é possível passar a ser especialista encartado?

E que quem contesta este modus operandi está necessariamente a desvalorizar a inovação pedagógica e o ensino (que, de resto, nas universidades, foi sempre o parente pobre do trabalho académico, atividade muito menos prestigiada que a investigação)?

Ou que a instalação de um clima de grande imodéstia e bazófia – tudo muito macho-tech-bro-style – liderado por tão magníficos quanto incautos reitores, impede que se possa reconhecer e admitir, com humildade intelectual, que se é ignorante e apenas se é levado no fluxo torrencial do dilúvio digital? E que isso não é um problema, antes o primeiro passo para a construção de conhecimento verdadeiramente significativo e transformador do real?

Então agora, quando se corre o risco de ver filhos e netos serem enviados para uma guerra que é socialmente fabricada pelos crapulosos poderes que tudo desgovernam, aceita-se que, sem mais, existam 5% do PIB que passam a ser desviados de funções sociais como a educação e a saúde para a defesa? E que a extinta FCT desvie uma parte do seu já parco financiamento-lotaria para esta área? E que se diga sempre que não há dinheiro quando ele parece sempre aparecer quando há vontade política?

E que fazer questões, mais do que cuspir papers e patentes ou angariar financiamento competitivo, é o motivo pelo qual existem Universidades? E que estas só perduraram porque mesmo habitando um tempo que, naturalmente, sempre foi o seu, nunca deixaram de se atrever a pensar o impensado e a contestar aquilo que, a cada momento, era dado como natural, inevitável ou demasiado poderoso para ser travado? E que ceder ao argumento das inevitabilidades é a maior demonstração de empobrecimento e indigência intelectual que pode haver, uma enorme traição à liberdade académica? E que é isso que converte as Universidades em fábricas de encher chouriços onde a adopção do inglês como língua franca é vista como marcador de distinção e cosmopolitismo?

E que apesar de mais de um século de impressionantes desenvolvimentos tecnológicos – da descodificação do genoma humano, ao pisar da lua, da impressão 3D ao computador portátil, da world wide web ao GPS, da pílula contraceptiva aos motores a jacto, dos telefones sem fios às camisolas térmicas, etc. – continuam a existir jornadas de trabalho de oito ou mais horas diárias, com ritmos de trabalho que são indissociáveis da doença mental e física que se vai generalizando? E que de cada vez que alguém declara, com fé inabalável, que os avanços tecnológicos vão substituir todo o trabalho rotineiro, burocrático e mecânico subjacente ao exercício das funções académicas, só se pode esboçar um sorriso irónico porque, na realidade, se tem caminhado no sentido inverso, isto é, no da esgotante saturação do dia-a-dia com tarefas de micro-gestão permanente? E que isto se encontra intimamente ligado ao desinvestimento público que vai erodindo as Universidades até ao osso, tornando-as esquálidas manifestações do que já foram e do que podem voltar a ser?

E que nem sequer é preciso estar atento aos vários estudos que demonstram que a formação bruta de capital fixo é há décadas inferior às amortizações, fazendo do desinvestimento público a regra de ouro do funcionamento do sistema, para ter consciência de que, um dia, ao chegar aos locais de trabalho, os académicos vão ter o balde com a esfregona à porta, porque se passará a assumir que essa função, por se tratar de um custo desnecessário para as instituições, deve por eles ser assumida?

Por tudo isto, não será demais lembrar que o cepticismo e a dúvida são o alfa e o ómega do pensamento, não a credulidade, o consentimento ou o deslumbramento acrítico e que disso não se devia esquecer a Universidade se quer ter algum futuro enquanto tal. Caso contrário, e até porque parece ser mais fácil, pode já começar a construir o melhor itinerário para o fim do mundo.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

O Desafio da Tecnologia à Deontologia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 15/12/2024, revisão Estátua de Sal)


Discutir o papel da inteligência é discutir o tipo de sociedade em que queremos viver. É discutir a democracia. É discutir a responsabilidade individual e coletiva, é discutir os limites dos mandatos que delegamos nos nossos representantes.

Sou militar — ou fui no tempo em que os comandantes se encontravam nos campos de batalha e tinham de conduzir os seus comandados. Conheci grandes comandantes. O que os distinguia? A arte de representar a coragem, a arte de representar a incerteza da decisão com a maior convicção, como se fossem o resultado da resposta de um computador que resolvia a angustia do guarda-redes antes do pênalti? (Peter Handle) Ou a do marcador do pênalti.

Dir-me-ão que uma das vantagens da decisão baseada em inteligência artificial é a ausência das emoções. Aparentemente assim é: o robot humanoide que pilota um F35 sobre Gaza não sente qualquer emoção ao lançar uma bomba. Mas as centenas ou milhares de seres humanos que sofrem os seus efeitos sentem e, mais, os milhões de outros seres humanos espalhados pelo planeta que veem as imagens também sentem, emocionam-se e formam opinião. A robotização do piloto — a inteligência artificial que o conduz desde a descolagem até ao alvo — provoca consequências políticas e sociais. Robotizar um ser humano para o transformar num assassino desresponsabiliza quem? O autor da desumanização do humano? O humano torna-se inimputável a partir do momento em que cumpre o seu programa de inteligência artificial? O capacete de um piloto de um caça, de um carro de combate, de um drone, contem inteligência artificial? Quem ou o que está dentro de um capacete de um piloto de bombardeiro ou de um Carro de Combate, ou até na cabeça de um general de cinco estrelas?

Os capacetes que vemos na cabeça dos soldados não servem para lhes proteger a cabeça, mas para determinar o que ele deve realizar, servem para lhe retirar a consciência da consequência dos seus atos.

O que define a essência da inteligência não é de modo algum o de ela ser natural ou artificial, mas o que Maquiavel designou como a virtú, que era, como se sabia desde Cicero, indissociável da vida pública. Ou seja, o homem que almeja a virtude não pode perder de vista a noção de dever para com os outros.

Mas este dever para com os outros é inerente a todos os seres vivos — das abelhas aos lobos, das formigas aos golfinhos. Quando um gnu fica para trás para servir de presa a um predador e aumentar a possibilidade de sobrevivência do seu grupo essa atitude não poderá ser considerada ética? Por isso a inteligência dos humanos deve ser compatível com a dos outros seres e com o respeito pelo ambiente. A Inteligência artificial integra estes fatores nas suas elaboradas computações?

A deontologia é definida como um forte sentido de serviço comunitário, realizada com um profissional com profundo sentido da responsabilidade. Como se atribui sentido de responsabilidade a um artefacto obra de um ser humano distinto do sentido de responsabilidade dos interesses do seu criador?

O Manual de Deontologia Militar que constava do currículo na Academia Militar — não sei se a disciplina ainda existe nos curricula das Academias Militares portuguesas ou estrangeiras, ou das modern schools of business or technology — apresentava-a como o estudo da finalidade das Forças Armadas e dos princípios que devem reger os seus membros tanto em tempo de guerra como em paz, a identificação da moral, ou do comportamento moral, que deve orientar os militares na sua vida, por forma a que, sem faltarem ao cumprimento dos seus deveres para com os camaradas, (subordinados e superiores), os cumpram também e igualmente para com o inimigo, para com a sua Nação e, acima de tudo, para com a comunidade nacional e internacional, as suas leis universais, caso da Carta dos Direitos Humanos da ONU ou da defesa dos bens considerados património da Humanidade.

A Inteligência Artificial anula a Deontologia do ser que está no cockpit de uma aeronave, na ponte de comando de um navio, na torre de um Carro de Combate? Retira-lhe a qualidade de ser cidadão? De ser julgado? De ser politicamente avaliado? Os tribunais internacionais, marciais, de honra julgam quem age predeterminado, programado, ou quem determinada e programa?

O que distingue os seres humanos não é a capacidade técnica, é a sujeição a leis — a julgamento. O que distingue os seres humanos dos outros seres não é a inteligência, mas a capacidade de entenderem a sociedade, como um todo, a capacidade de escolher e julgar.

Com a admissão de que a inteligência artificial é um acrescento novo na história do mundo — e não da humanidade — Esopo não escreveria as fábulas onde os animais falam e pensam, porque nos programas apenas os humanos são inteligentes. Nem teríamos o Triunfo dos Porcos, de Orwell.

Uma definição de artificial é a de algo produzido pela humanidade. É uma definição arrogante: um ninho de uma ave é uma obra mais natural que uma cabana de um hominídeo? Um formigueiro é uma obra natural? Uma teia de aranha? A minha questão não é a da existência de uma inteligência natural, mas sim da não existência de uma inteligência que não seja artificial. E mais, que a inteligência não é um exclusivo dos humanos. E é o facto de existirem inteligências compatíveis entre espécies que permitem o diálogo entre elas, entre humanos e cães, golfinhos, corvos, serpentes, de cavalos com cães e com aves.

Aquilo a que temos dado o nome de Inteligência Artificial é, na realidade um ensimesmamento. Uma vida de clausura como a da gruta de Platão. Um onanismo. Um ser humano interroga uma máquina e esta responde. Pura mistificação: o homem apenas obtém as respostas que já se encontram dentro do mundo descoberto, e, mais perigoso, descoberto por outro que o quer explorar. Aquilo que Elon Musk, para citar uma personagem conhecida, apresenta como inteligência artificial é a velha técnica do alquimista: vender como ouro o pechisbeque, por novo o que é velho.

A utilização de super computadores, agora os computadores quânticos, com cada vez maiores capacidades de resolução não altera as duas questões fundamentais: estamos perante um produto conhecido e temos de nos concentrar na utilização que é dada a essa renovada velharia. E a renovada velharia é descendente dos velhos astrónomos e adivinhos, de curandeiros e feiticeiros, dos ditadores, dos profetas, dos salvadores, dos pregadores de cruzadas. Os campos de concentração, os mais atrozes instrumentos de tortura foram e são obra da inteligência humana. Importante, pois, é que o sistema político que os gerou seja dominado por aqueles a quem repugnam e náo por aqueles a quem servem. E os campos de concentração e tortura criados com o apoio da Inteligência Artificial não são distintos dos seus antecessores, apenas com o acrescento da perversidade que os faz parecer mais aceitáveis.

Uma experiência pessoal. No início dos anos 90 fui nomeado para uma comissão técnica que iria aconselhar o Exército a adquirir um simulador de tiro e tática para carros de combate. Entre as companhias concorrentes encontrava-se uma israelo-americana e fui a Israel apreciar o desempenho dos aparelhos. Conhecia os CC da geração da II GM e da Coreia — M47 e 48 — os novos CC eram um painel de computadores quer na torre quer no compartimento de condução. Os CC atuavam coordenadamente com helicópteros e isso exigia um controlo que apenas podia ser executado por computadores. E as imagens eram sempre a verde ou a preto e branco, independentemente ser de dia ou de noite e os inimigos eram apenas um ponto luminoso onde o apontador colocava uma cruz e fazia desaparecer. Não havia restos de corpos, nem ruídos, apenas a voz dos auscultadores, nice shot.

Nos anos 90, a voar a cerca de 30 km da marginal de Beirute, o ecrã do painel de instrumentos de um helicóptero israelita lia as matriculas das viaturas com um instrumento designado FLIR e uma arma podia ser apontada através do eixo de visão do apontador.

Os modernos sistemas de há 20 anos já tinham um dispositivo designado IFF — Identificação amigo — inimigo — com um código de reconhecimento e regras estritas de emprego. Vi a filmagem de um incidente causado pela tecnologia, dois helicópteros dos EUA, um do Exército e outro dos Marines a voarem no mesmo campo de batalha, cumprindo missões diferentes interrogam-se através do IFF, são visíveis as silhuetas dos helicópteros, ainda hoje em utilização os Black Hawk e os Sea Hawk, americanos, do mesmo fabricante, a Sikorsky. A resposta do helicóptero dos marines não foi reconhecida pelo do Exército e este disparou sobre ele automaticamente.

São exemplos de há mais de um quarto de século. Hoje interrogo-me a que ponto de desumanização chegámos quando o jovem piloto israelita, aos comandos do mais avançado caça um F35, superprotegido por toda a tecnologia, toca com um dedo num ecrã e sabe que duas toneladas de explosivos vão destruir uma escola, um hospital, um campo de refugiados. E o que pensam os dirigentes políticos que foram eleitos quando investem os recursos da inteligência humana a preparar seres robotizados que executam estas ações?

A associação da guerra à tecnologia, sendo o motor da civilização, é também o detonador da destruição. E todos nós conhecemos, mesmo que seja do cinema, o que é um explosor– um aparelho (antigo) com um manípulo e que apenas um especialista manejava à ordem de fogo.

Hoje existem nuvens de explosores comandados por sistemas de que os cidadãos não conhecem a lógica de disparo. Não há democracia, nem cidadania. Os cidadãos regressaram à condição servil.

A tecnologia pode e está a destruir os valores que considerávamos basilares para a sociedade: a capacidade de alterar comportamentos nos decisores de todos os níveis dos mais altos aos mais baixos. De seleção de decisores e operadores de sistemas programados para tomarem determinadas decisões possibilidades reais. Não há Deontologia que possa ser ensinada porque há meios tecnológicos para cortar o acesso a essas áreas do cérebro, como se cortava e corta com vesicante os tendões dos cavalos para eles não sentirem dor ao galopar e ao saltar.

Inteligência Artificial e Perversidade Natural (1)

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 15/12/2024, revisão Estátua de Sal)


Aquilo que para efeitos de propaganda passou a ter a designação de Inteligência Artificial nada mais é que a aplicação de uma tecnologia para impor um domínio. Os nossos antepassados também utilizaram as suas capacidades físicas e intelectuais para afiar pedras de sílex porque estas lhes garantiam vantagens na luta contra os inimigos. Não por acaso, ao longo da história, os departamentos de guerra dedicaram tantos recursos a desenvolver meios tecnológicos que lhes permitissem ganhar vantagem sobre o inimigo. Um mero exemplo: o GPS é gerido pelo Departamento de Defesa dos EUA; não é a voz de Inteligência Artificial que nos diz para viráramos à esquerda e direita num cruzamento é um instrumento de domínio político e social. É uma arma real, operada por dirigentes políticos reais, para atingir objetivos políticos reais pela força.

No caso dos seres humanos, que têm a perversidade como o pilar da ação para impor um domínio, o que atualmente se designa por inteligência artificial, é a versão atual da perversidade natural do homem que o leva a cumprir o seu desígnio: dominar, seja os seres da sua espécie, os das outras e o meio onde existem.

A descoberta da pólvora, da roda, do ábaco, da escrita, da bussola, do radar e do computador resultam de expansões das capacidades humanas. A fissão nuclear é uma expansão de capacidades existentes e coloca à humanidade o mesmo tipo de questão que já constava em quase todas as grandes religiões — os sistemas ideológicos: o Dilúvio, o Fogo devorador e destruidor, o Apocalipse, o Julgamento Final colocam, desde o início da sua história, como os humanos – enquanto espécie distinguível dos outros seres vivos -, se confrontam com os fenómenos naturais e que respostas lhes dão.

Darwin encontrou uma resposta para a questão: os seres humanos resultaram da evolução de outros que procuraram melhores soluções de sobrevivência e domínio. Melhores defesas, melhores locais de ataque. Houve seres que voaram para as alturas, outros que mergulharam nas profundezas das grutas ou dos oceanos. Uns protegeram-se com carapaças, outros com venenos, outros com a agilidade e a velocidade. Em todo o caso, a inteligência enquanto condição de sobrevivência.

Aristóteles defendia que as coisas naturais podiam produzir mudanças dentro de si mesmas, enquanto as coisas artificiais não se podiam autoproduzir, nem existencialmente nem em mudanças, porque apenas o natural possui uma essência; o artificial apenas possui apenas matéria da qual é feito. A propriedade gerativa do artificial está na alma do artesão. Não existe inteligência artificial. Ou então somos criaturas artificiais!

Decisivo, na história do mundo que conhecemos, é saber quem controla o saber que permite impor um poder. As religiões, com os seus Criadores do Universo, foram o mais poderoso e eficaz meio de domínio da humanidade com a crença na existência (artificial) de um ente super inteligente. O computador absoluto e omnipotente. O computador que se criou a si mesmo.

Cabe interrogar se os Dez Mandamentos, que segundo a narrativa bíblica foram entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai, são obra de inteligência dita natural ou artificial? Que razões levaram Deus a criar os Mandamentos, a não ser a ameaça da desobediência, ou do desprezo, ou da troca pelo Bezerro de Oiro? Deus, pela voz dos seus sacerdotes, recorreu à inteligência artificial para vencer uma ameaça e impor o seu domínio? Ou ao medo natural para obter a aceitação do seu domínio? Ou à perversidade para converter os infiéis, isto é, os que não o reconhecem?

O bem de maior valor no interior de um computador é o poder que a informação confere. Trata-se do domínio político do saber. Tão velho como o controlo do Oráculo de Delfos. Quem estava por detrás dele? Ou do espião que descobriu a brecha nas ameias do castelo, ou de Josué que com o seu exército conquistou toda a região do Negueve, da área das planícies costeiras e das montanhas escarpadas. Liquidaram toda a gente da terra, segundo a ordem do Senhor, Deus de Israel; desde Cades-Barneia até Gaza e desde a terra de Gosen até Gibeão. Tudo realizado numa só campanha, porque o Senhor, o Deus de Israel, estava a lutar pelo seu povo. Só depois disso é que as tropas de Israel, sob a chefia de Josué, regressaram ao seu acampamento em Gilgal.

Quando os atuais manipuladores da opinião colocam a metade da humanidade mais informada a discutir se existe uma inteligência natural dentro das caixas cranianas e uma artificial no interior de uma caixa de computador estão a desviar a atenção do essencial e que é o poder político e económico que a informação contida nas bases de dados confere.

O que se encontra por detrás do que o marketing designou como IA é o poder, é a essência da política: que grupo domina a sociedade. Todos os artefatos produzidos pela inteligência são artificiais e todos servem a imposição de um poder. Tecnologia ao serviço do poder. Política em estado puro. Nada mais do que a tecnologia resultado da inteligência se encontra embarcada num bombardeiro F35, mas também nada mais que inteligência se encontra na manobra da águia que leva o corvo até uma altitude em que ele não consegue respirar em vez de gastar energia a sacudi-lo.

A IA coloca em causa a nossa civilização. A Inteligência Artificial tem e deve ser tomada pelos cidadãos, pelos políticos e pelos atores sociais como um negócio sujeito às mesmas regras que podemos encontrar em qualquer outro em que um detentor de uma posição dominante corrompe um decisor para manter os seus privilégios. Elon Musk não é um génio da inteligência — seja natural ou artificial — é apenas um pirata que se estabeleceu num ponto dominante e o defende. Tal como George Rooke, um inglês, fez ao ocupar Gibraltar com forças anglo-holandesas em 1704. Ou como fez Afonso de Albuquerque com a estratégia de ocupação de estreitos no Índico.

Os construtores de opinião forçam-nos a acreditar que existe uma inteligência natural e uma outra artificial. A inteligência de Elon Musk ou do falecido Kissinger é natural ou artificial, e a de Trump, ou de Biden, ou de Putin, ou de Netanyahou ou de Xi Ji Ping? E que importância tem essa discussão a não ser a de nos cegar para o essencial que eles pretendem dos cidadãos: obediência e fé. Regressamos ao fundamentalismo da Idade Média.

E é obediência e fé que os humanos do século XXI pretendem que os seus sistemas políticos lhes ofereçam enquanto seres dotados de inteligência? É? Fica a interrogação para os eleitores e devoradores de telejornais.