Golpe em curso no Brasil: nota da embaixada dos EUA revela algo além das taxas de Trump

(Por Eduardo Vasco, in Diálogos do Sul, 11/07/2025)


O imperialismo quer uma mudança de regime no Brasil e vai executá-la até as eleições de 2026; prova disso é a inédita postura da embaixada dos EUA, mais significativa e alarmante que as próprias tarifas anunciadas por Trump.


O Brasil entrou definitivamente no radar dos Estados Unidos. Em um único dia, três ações acenderam o sinal vermelho para o governo brasileiro. Primeiro, novas declarações de Donald Trump em apoio a Jair Bolsonaro e contra as instituições brasileiras; em seguida, manifestação no mesmo sentido da embaixada dos EUA em Brasília; finalmente, o anúncio de tarifas de 50% para todos os produtos brasileiros, com os mesmos argumentos políticos contrários ao atual governo brasileiro.

Embora esquecida, sobretudo diante do anúncio tarifário, a ação que mais me preocupa é a emissão de uma nota oficial da embaixada. Esta é a primeira vez em toda a história das relações bilaterais que a embaixada dos EUA critica aberta e duramente o governo e as autoridades brasileiras e defende um opositor. O comunicado repete as falas de Trump, dizendo que o ex-presidente Bolsonaro e seus familiares “têm sido fortes parceiros dos Estados Unidos” e que eles e seus apoiadores sofrem uma perseguição “vergonhosa”.

Não há nenhuma necessidade de uma embaixada se pronunciar apenas porque a Casa Branca se manifestou sobre a política local. O gesto da embaixada dos EUA é uma interferência maior na política brasileira do que os comentários proferidos por Trump. Mais do que isso: se uma embaixada emite uma nota como essa, tendo a certeza de gerar uma crise diplomática com acusações de interferência nos assuntos internos, é porque o governo americano já está trabalhando nos bastidores para interferir concretamente na política interna do Brasil. Ou melhor, já está interferindo de forma concreta.

De fato, no final de 2024 os esforços desestabilizadores contra o governo de Lula foram redobrados e 2025 começou com uma breve guerra especulativa para forçar a administração a adotar um ajuste fiscal em benefício dos grandes bancos e do conjunto do capital financeiro internacional. A pressão não surtiu o efeito esperado. Os setores imperialistas e a burguesia brasileira – sócia minoritária da dominação estrangeira sobre o país – perceberam que a única saída seria derrubar o atual governo. O processo golpista foi iniciado.

Os partidos da direita com os quais o PT se aliou, como sempre, desde o começo do governo já o estavam sabotando internamente, mas nos últimos meses passaram a debandar gradualmente. No Congresso, esses partidos estão em guerra contra Lula. A imprensa ecoa diuturnamente as exigências dos grandes capitalistas: o corte de programas sociais, o congelamento do salário mínimo, as privatizações e o afastamento dos “autocratas” (Putin e Xi Jinping) de quem Lula está se aproximando. O governo, por seu lado, está perdido, limitado pela política de colaboração de classes que o faz seguir parcialmente a cartilha estabelecida pelo Consenso de Washington, especialmente através do Ministério da Fazenda e do presidente do Banco Central.

A desestabilização causada pelas instituições da burguesia (bancos, latifúndio, multinacionais, Congresso, imprensa, institutos de pesquisa, etc), somada às alianças com seus inimigos e à manutenção das estruturas fiscais e econômicas erguidas a partir da década de 1980, transformaram o governo em uma vítima vulnerável à mudança de regime pretendida pelo imperialismo americano. O governo Lula é extremamente débil.

União de interesses

“O Brasil não tem sido bom para nós”, declarou Trump. O conjunto do capital internacional pensa da mesma forma, assim como os seus sócios minoritários dentro do Brasil. Nesse sentido, há um ponto essencial de convergência entre o trumpismo e os setores tradicionais do imperialismo: a necessidade da derrubada do governo Lula. E o alvo central disso tudo é justamente o presidente Lula, embora muitos digam que seja a Corte Suprema e o ministro Alexandre de Moraes – estes, na verdade, com sua atuação absolutamente arbitrária, estão trabalhando contra os interesses do Brasil e do próprio governo Lula. O presidente e seu partido pagarão caro pelas ações de Moraes e do STF, ainda que não sejam responsáveis por elas.

Rubens Ricupero, ministro da Fazenda e embaixador em Washington em parte do período de ascensão neoliberal e submissão completa aos EUA, acredita que as declarações de Trump são um “presente eleitoral” para Lula, porque reforçam o discurso nacionalista do líder brasileiro. Mas ele não percebe que a interferência dos Estados Unidos na política brasileira vai muito além da retórica de Trump nas redes sociais. Lula só poderia aproveitar essa oportunidade – aberta não agora, mas desde que Trump foi eleito presidente dos EUA – se ele agisse na prática, e não só no discurso, contra o avanço imperialista sobre o Brasil e a favor de uma verdadeira independência do país.

A atual política econômica de Lula não é uma proteção da soberania do Brasil. Suas alianças políticas, tampouco. As classes dominantes brasileiras, que fizeram o governo de refém desde a farsa do 8 de janeiro, não se interessam por um confronto com os Estados Unidos. Seu instinto de classe fala mais alto. A burguesia nacional brasileira é muito pouco nacional.

Os produtos industriais vendidos pelo Brasil aos Estados Unidos, como peças de tratores e de automóveis, são fabricados pelas empresas americanas no Brasil, e daqui vendidos para lá. A produção “nacional” de aço é controlada por uma empresa indiana (Arcelor Mittal) e outra ítalo-argentina (Rocca) e a maior parte é exportada. As siderúrgicas “brasileiras” possuem fábricas em outros países e podem facilmente exportar de lá para os EUA para contornar as tarifas, realizando uma migração em massa da produção para garantir os seus lucros. Isso afetaria os empregos e a indústria no Brasil? Claro que sim, mas quem se importa, já que há outros países com uma mão de obra mais barata e onde as tarifas não funcionariam!

Donald Trump disse que as empresas “brasileiras” podem evitar as tarifas ao transferirem a sua produção para os Estados Unidos, onde seu governo já está aplicando uma série de incentivos. Para permanecerem no Brasil, as companhias “brasileiras” podem muito bem exigir mais incentivos fiscais do governo brasileiro. E, como já estão fazendo durante toda essa campanha de desestabilização, exigir garantias com reformas neoliberais, desregulamentações, redução do salário dos trabalhadores e menos direitos trabalhistas. Afinal, como gosta de pregar a burguesia “nacional”, o custo de se produzir e operar no Brasil é muito alto…

Essas mensagens já haviam sido transmitidas na primeira rodada de tarifas de Trump contra o Brasil. Os órgãos da burguesia sugeriram que o governo brasileiro agradasse Trump para que ele reduzisse as tarifas. Como? Eliminando “tarifas elevadas, burocracias regulatórias, exigências de conteúdo local, subsídios”, indicou o jornal O Estado de S. Paulo. “Além de facilitar acesso ao mercado dos EUA, a medida beneficiaria o consumidor brasileiro com importados mais baratos”, concordou o jornal O Globo. Que bela manifestação de burguesia “nacional” que tem o Brasil! Esses jornais são os mesmos que defenderam abertamente o golpe militar promovido pelos Estados Unidos em 1964.

As convergências com o trumpismo são muito maiores do que as suas divergências, apesar da aparência “antifascista”. As tarifas de Trump irão gerar desemprego no Brasil – o que os ditos empregadores exigem há muito tempo, para reduzir os salários. Elas vão desacelerar a economia, que é criticada por estar aquecida, devido ao aumento do consumo. O capital financeiro internacional, através de seus funcionários no Banco Central, trabalha incessantemente para reduzir a inflação com uma das maiores taxas de juros do mundo. Logo após o novo anúncio tarifário de Trump, a bolsa de valores caiu e o dólar subiu, o que levará ao aumento da inflação e do preço dos combustíveis e alimentos, se a tendência persistir. A especulação financeira, que domina a economia brasileira, agradece.

A Câmara de Comércio dos Estados Unidos no Brasil pediu que haja uma “solução negociada” entre os dois países, a mesma posição dos empresários brasileiros. Isso significa que o Brasil terá de ceder para que os EUA reduzam as tarifas. Mas ceder em quê, se o Brasil não adotou nenhuma medida contra os EUA? Ceder exatamente no que atende aos interesses de maior abertura do mercado interno, com as reformas neoliberais apregoadas há tempos dentro do país.

Pelo andar da carruagem, está sendo selada a aliança entre o trumpismo, protetor do bolsonarismo, e os agentes dos setores tradicionais do imperialismo no Brasil, os partidos do “centrão”, a imprensa tradicional e as instituições estatais. Os bolsonaristas ganham um maior poder de barganha, a partir do apoio do governo mais poderoso do mundo, em suas negociações com o “centrão”. Este, por sua vez, ainda tem a vantagem da inelegibilidade de Bolsonaro e do apoio dos setores mais importantes do empresariado norte-americano (BlackRock, Bank of America, Citigroup deram tapinhas nas costas de Tarcísio de Freitas na Brazil Week, em Nova Iorque). Como concluiu o The Economist recentemente: “[se Bolsonaro nomear um sucessor] e a direita se unir em torno desse candidato antes das eleições de 2026, a presidência estará nas mãos deles.”

É absolutamente previsível que, para tentar anular o movimento de aliança entre o bolsonarismo e o “centrão”, Lula e seu partido buscarão um acordo com este último, apelando para o pretenso nacionalismo das oligarquias locais. No entanto, a campanha de desestabilização conhecida por todos tem como motor justamente o “centrão”.

Já era perceptível que uma campanha golpista semelhante à que acometeu o governo de Dilma Rousseff estava em andamento. Daquela vez, o “centrão” derrubou a então presidenta petista e Michel Temer praticamente privatizou a Petrobras, realizou as reformas trabalhista e previdenciária (parcialmente), favoreceu as terceirizações e estabeleceu o Teto de Gastos, entre outras medidas neoliberais das mais severas em quase 20 anos. Mas o “centrão” já estava alinhado com o bolsonarismo, e, de fato, foi aquela campanha que fez a extrema-direita crescer – até chegar ao governo graças à prisão de Lula pelo mesmo Poder Judiciário que hoje é seu suposto aliado. Bolsonaro deu continuidade ao choque neoliberal de Temer, privatizando a Eletrobras e outras empresas, entregando o Banco Central e consolidando a reforma da previdência.

Portanto, Lula não poderá se apoiar no “centrão” para se defender desse golpe de Estado em andamento. Em quem ele irá se apoiar, senão no próprio povo? Mas as medidas de Lula, de seu ministro da Fazenda e de seu governo de “frente ampla” com os inimigos nada fazem para atrair o apoio ativo do povo brasileiro. A única coisa que resta a Lula e ao PT é o rompimento definitivo com aqueles setores, a implementação de medidas emergenciais que revoguem as principais reformas neoliberais e a concessão de direitos trabalhistas e sociais para as grandes massas do povo, golpeando seus inimigos e fortalecendo a própria organização popular, a única capaz de ir a seu resgate.

O imperialismo quer uma mudança de regime no Brasil e vai executá-la até as eleições de 2026. Os interesses distintos dentro do imperialismo internacional estão se unindo a partir dessa necessidade. Após um primeiro semestre de política externa ambígua, Donald Trump parece ter se dobrado ante as pressões dos falcões dentro e fora da Casa Branca ao atacar o Irã e dar uma guinada intervencionista na guerra contra a Rússia na Ucrânia. A situação do regime imperialista é muito delicada e a corrida armamentista indica a preparação de uma guerra em escala mundial para os grandes capitalistas se salvarem do declínio completo. Os Estados Unidos precisam garantir sua retaguarda no Hemisfério Ocidental, não podem permitir nenhum foco de instabilidade a partir do crescimento da China na América Latina – e o Brasil é a grande nação latino-americana, parceira da China. Daí a assunção de regimes abertamente pró-americanos na Argentina, no Equador, no Paraguai e em El Salvador. Daí a trama para derrubar os governos incômodos, como o do Brasil.

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As raízes nazis da NATO

(GABRIEL ROCKHILL, in Observatoriocrisis, 28/12/2024, Trad. da Estátua)

Que a NATO seja na verdade NAFO, a Organização Fascista do Atlântico Norte, não é brincadeira. É uma realidade mortalmente séria e precisa de ser mudada. A luta contra a NAFO é uma parte essencial da luta contra o fascismo e o imperialismo.


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Os historiadores burgueses descrevem frequentemente o nascimento da NATO como uma organização de defesa do Atlântico Norte necessária para conter a chamada ameaça soviética. O que os historiadores burgueses não mencionam é que a ideia de uma aliança militar anticomunista entre a Europa Ocidental e os EUA foi fortemente apoiada por uma figura importante na política alemã e que a NATO tem sido por vezes considerada uma criação sua. Este homem era Heinrich Himmler, famoso pelo seu papel como líder das SS e um dos principais arquitetos do Holocausto nazi.

O coração da Segunda Guerra Mundial estava no Leste, onde Hitler, com o apoio financeiro dos principais capitalistas ocidentais, prometeu destruir o que catorze estados capitalistas não conseguiram erradicar na sequência de 1917: o socialismo realmente existente.

Assim que se tornou claro para Himmler que esta guerra tinha falhado, começando com a Batalha de Estalinegrado em 1943, ele começou a fazer propostas secretas ao Ocidente para formar uma aliança que lhes permitisse, coletivamente, fazer o que os nazis (bem como os fascistas japoneses) eram incapazes de fazer sozinhos.

Esta ideia atraiu sectores da elite ocidental e figuras poderosas dos principais países imperialistas partilharam a opinião de Himmler. Allen Dulles, o futuro diretor da CIA, queixou-se de que o seu país estava a combater o inimigo errado porque os nazis eram cristãos arianos pró-capitalistas, enquanto o verdadeiro adversário era o comunismo ateu.

Dulles, que trabalhava na altura na instituição antecessora da CIA, o Gabinete de Serviços Estratégicos, foi um dos interlocutores de Himmler para a planeada aliança anticomunista do Atlântico Norte. O general Karl Wolff, antigo braço direito de Himmler, ofereceu a Dulles, em troca de uma amnistia pós-guerra, o desenvolvimento, com os seus aliados nazis, de uma rede de inteligência contra Estaline.

Foi exatamente isso que aconteceu, e Dulles integrou muitos outros nazis e fascistas nas fileiras de uma internacional anticomunista. Isto incluiu o chefe dos serviços de inteligência nazis centrados na URSS, Reinhard Gehlen, que foi nomeado pela CIA para chefiar a inteligência da Alemanha Ocidental após a guerra, onde passou a contratar muitos dos seus colaboradores nazis.

Também incluiu, como parte da Operação Italian Dawn, Valerio Borghese, o homem conhecido como o Príncipe Negro e um dos principais líderes do fascismo do pós-guerra, que foi salvo de cair nas mãos soviéticas pelo OSS e mais tarde trabalhou para a CIA.

O oficial japonês que assinou a declaração de guerra contra os Estados Unidos, Nobusuke Kishi, conhecido como o “Diabo de Shōwa” pelo seu governo brutal de uma colónia japonesa no nordeste da China, também foi reabilitado pela infame Agência, que financiou a sua ascensão a Primeiro-ministro do Japão. Contudo, estes exemplos são apenas a ponta do iceberg, uma vez que um número incontável de fascistas foi reabilitado após a Segunda Guerra Mundial, sendo que, pelo menos 10.000 foram trazidos diretamente para os Estados Unidos.

Quando a NATO foi oficialmente criada em 1949, Portugal foi um dos seus membros fundadores. Naquela altura, Portugal era uma ditadura fascista, o que só prova o facto: a NATO foi, desde a sua fundação, uma aliança militar das potências imperialistas (fossem democracias burguesas ou estados fascistas) contra o comunismo, que era precisamente o que Himmler tinha em mente. .

A Grécia aderiu à NATO em 1953, depois de os comunistas, que desempenharam um papel de liderança na libertação do país dos nazis, terem perdido uma guerra brutal contra os novos ocupantes anticomunistas: o Reino Unido e os Estados Unidos. Tendo sido reintegrado o rei pró-fascista e depois estabelecido um governo fantoche de direita, as potências imperialistas ocidentais acolheram a Grécia na NATO assim que esta se tornou num Estado cliente anticomunista fiável. Estes padrões são visíveis ao longo da longa história da NATO, e a Ucrânia é apenas uma das versões mais recentes de um Estado cliente neofascista

A Alemanha Ocidental aderiu à NATO em 1955, o mesmo ano em que o rearmamento da República Federal da Alemanha foi autorizado através dos Acordos de Paris. O governo da Alemanha Ocidental selecionou os voluntários e admitiu 61 generais e almirantes nazis da Wehrmacht no seu novo exército, bem como muitos mais em escalões inferiores.

Entre os oficiais nazis de mais alta patente que se juntaram ao exército da Alemanha Ocidental estavam Hans Speidel e Adolf Heusinger, que foram empossados ​​como os seus dois primeiros tenentes-generais. Speidel tornou-se “chefe do Departamento de Forças Combinadas do Ministério da Defesa” e serviu como um dos principais conselheiros militares do Chanceler Konrad Adenauer (posição posteriormente ocupada por Heusinger). Heusinger, a quem Hitler se referiu como “meu fiel e leal colaborador”, tornou-se o oficial militar de mais alta patente da Alemanha Ocidental, o equivalente ao presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos. Ele também atuou como avaliador-chefe da Organização Gehlen da CIA, desempenhando sua tarefa tão bem que a Agência o “considerou seriamente” para o cargo de Gehlen, de acordo com documentos internos. Heusinger, foi também como agente da CIA, que “continuou a consultar e a confiar nos representantes da CIA”, que relataram que “consideravam que as opiniões políticas de Heusinger favoreciam claramente os interesses dos EUA”. Estes dois líderes nazis foram promovidos e tornaram-se os primeiros generais de quatro estrelas da Alemanha Ocidental.

Ambos aqueles dois altos oficiais nazis desempenharam papéis importantes na NATO. Em 1954, Speidel foi nomeado o principal “negociador sobre a questão da entrada da Alemanha na NATO”. Supervisionou a integração das forças armadas da Alemanha Ocidental na NATO e foi nomeado chefe das Forças Terrestres Aliadas na Europa Central. Isto significava que Speidel era “o comandante operacional sénior de todas as divisões alemãs, americanas, francesas e britânicas atribuídas à Região Central da NATO”. E Heusinger, um oficial nazi de alta patente diretamente envolvido na guerra genocida contra a URSS, teria sido o principal comandante terrestre da NATO se a guerra eclodisse com os países do Pacto de Varsóvia. Esta figura tornou-se “oficial militar superior e principal conselheiro militar do secretário-geral” da NATO, servindo como presidente do Comité Militar da NATO, “o posto mais alto no ramo não civil da organização”.

Speidel e Heusinger, como muitos outros que aderiram à NATO, não eram nazis de baixa patente. Speidel foi promovido a tenente-general em janeiro de 1944 e condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro pelos seus serviços na guerra de eliminação antissoviética.

De acordo com um folheto informativo de 1961 do senador Wayne Morse, Heusinger tornou-se “chefe de operações do estado-maior de Hitler” em 1941 e foi “responsável pelo planeamento militar de todas as invasões nazis depois disso”. Ele chefiou os esquadrões especiais de extermínio (Einsatzgruppen) que tinham a tarefa de liquidar “todos os judeus e outros grupos”.

Heusinger explicou a sua opinião sobre estas questões com notável franqueza: “Sempre foi minha opinião pessoal que o tratamento da população civil e os métodos de guerra anti partidária (extermínio) apresentavam aos líderes políticos e militares uma oportunidade de levar a cabo os seus planos, nomeadamente, o extermínio sistemático do eslavismo e do judaísmo.”

Speidel e Heusinger não foram os únicos alemães a seguir o caminho dos nazis rumo à NATO, mas as suas posições de liderança revelam quão descarada tem sido a NATO no que diz respeito aos seus laços com o fascismo. Ambos também estiveram envolvidos na criação de exércitos “restantes”, que eram milícias fascistas secretas cujo suposto propósito original era servir como forças militares que permaneceriam atrás das linhas inimigas para realizar atos de sabotagem, espionagem, no caso de uma invasão soviética.

Na Alemanha, o coronel nazi Albert Schnez criou uma rede de cerca de 2.000 oficiais nazis e 10.000 soldados, alegando ser capaz de mobilizar 40.000 combatentes em caso de guerra. Eles tinham apoio financeiro do mundo dos negócios e compartilhavam regularmente informações com a Organização Gehlen. O próprio Gehlen era “o pai espiritual do Stay Behind na Alemanha”. A organização de Schnez também tinha contactos com duas outras redes nazis, ambas financiadas secretamente pelos EUA: o Technischer Dienst (Serviço Técnico) e a Liga da Juventude Alemã.

Os exércitos de retaguarda que estes líderes nazis estabeleceram na Alemanha Ocidental faziam parte de uma rede da Europa Ocidental de milícias fascistas secretas criadas pela CIA, MI6 e NATO.

Estas organizações recrutaram nazis, fascistas e outros anticomunistas de extrema-direita, forneceram-lhes armas e munições e equiparam-nos totalmente para travar a guerra. Foram ativados para cometer ataques terroristas de bandeira falsa contra a população civil, que foram atribuídos aos comunistas para justificar a repressão e obter apoio para os chamados governos da lei e da ordem.

Esta estratégia anticomunista de tensão foi extremamente letal: matou centenas de pessoas e feriu milhares. A NATO esteve por detrás destes ataques terroristas de bandeira falsa e os nazis da NATO estiveram, no mínimo, envolvidos na criação das organizações que os cometeram.

A conhecida piada de que a NATO é na verdade NAFO, a Organização Fascista do Atlântico Norte, não é brincadeira. É uma realidade mortalmente séria e precisa de ser mudada. A luta contra a NAFO é uma parte essencial da luta contra o fascismo e o imperialismo.

(*) O autor é professor de Filosofia na Universidade de Vilanova.

Fonte aqui.


 

“Caixa de Pandora”: 3ª Guerra Mundial é aposta do Imperialismo para tentar sobreviver

(Eduardo Vasco, in Diálogos do Sul, 26/11/2024)


Em toda a história, nenhum sistema em declínio (principalmente os impérios) aceitou o seu triste destino.


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Após Olaf Scholz telefonar a Vladimir Putin (algo que nenhum líder ocidental havia feito em cerca de dois anos), sinalizando uma rara disposição ao diálogo com os russos, Vladimir Zelensky acusou o chanceler alemão de abrir a “caixa de Pandora”.

A ação de Berlim certamente não foi sem motivos. Os alemães – os grandes prejudicados pelo confronto com Moscou – perceberam que recairão sobre eles todas as consequências de um possível afastamento dos Estados Unidos da guerra na Ucrânia quando Donald Trump tomar posse.

E a ligação de Scholz para Putin (em 15/11) se deu uma semana após a eleição de Trump (em 06/11). Dois dias depois da chamada entre os dois líderes, no dia 17 foi revelado que Joe Biden autorizou a Ucrânia a utilizar os mísseis de longo alcance ATACMS contra o território russo. Em seguida, os britânicos também autorizaram o uso dos Storm Shadow por Kiev.

Os ATACMS e os Storm Shadow, finalmente, foram assim disparados desde a Ucrânia contra as regiões russas de Bryansk e Kursk em 19 de novembro.

Cutucou-se o urso com uma vara curta.

A Rússia mostrou que não está para brincadeira. No dia 21, ela revelou ao mundo o seu poderoso míssil hipersônico de médio alcance Oreshnik, que atingiu a cidade ucraniana de Dnipropetrovsk. O Oreshnik viaja a uma velocidade de Mach 10, voando nada menos do que 3 km por segundo, e pode atingir qualquer capital europeia em poucos minutos.

Essa ameaça se tornou ainda mais perigosa depois que Putin anunciou uma revisão da doutrina militar russa, que agora permite o ataque a instalações militares de países que autorizem o uso de suas armas para atacar a Rússia. É precisamente o caso de EUA e Reino Unido.

Trata-se de uma escalada sem precedentes desde o início da intervenção russa na Ucrânia, há quase três anos. Levando em consideração que agora se abriu plenamente a possibilidade de um confronto direto entre Moscou e a Otan com o bombardeio de outros países, há quem fale até mesmo no início eventual de uma 3ª Guerra Mundial. Desse ponto de vista, as tensões são comparáveis apenas à da Crise dos Mísseis de 1962.

O fato de a situação ter escalado tanto menos de duas semanas após a vitória de Trump não é coincidência. Os detentores do verdadeiro poder nos EUA, o chamado “Deep State” (Wall Street e o complexo industrial-militar), levam muito a sério as palavras do republicano sobre encerrar a guerra na Ucrânia e retomar as relações com a Rússia. É uma das coisas que eles mais temem.

Motivo de “um grande negócio”

E o motivo disso foi explicado com muita honestidade recentemente na MSNBC. Com a maior naturalidade do mundo, o almirante reformado James Stavridis recordou que os Estados Unidos investem cerca de 40 bilhões de dólares por ano no financiamento da guerra na Ucrânia.

“Todo esse dinheiro é pago para os contratistas de defesa dos EUA, fazendo nossa base industrial de defesa mais forte”, disse. E completou: “essa é uma alavancagem fantástica. Você investe uma pequena quantia de dinheiro e obtém um efeito enorme. É um grande negócio para os EUA”.

Mais: a manutenção da guerra na Ucrânia é fundamental para a sobrevivência do sistema imperialista apodrecido que é liderado por Washington. Há décadas que ele vem experimentando um declínio acentuado, declínio este que se mostrou ainda mais irreversível nos últimos anos, com os vexames no Afeganistão, na própria Ucrânia e na Palestina.

Esse declínio é acompanhado de um lento despertar das nações oprimidas pelo sistema imperialista, expresso atualmente nas fenomenais (porém, aparentemente, irrefreáveis) articulações entre os chamados países emergentes – dos quais a Rússia é a grande líder, junto com a China – e seus anseios por uma nova ordem mundial “multipolar”.

Deep State quer se manter no poder

Já tendo perdido a mais importante disputa presidencial da história americana, o Deep State (o coração da máquina política do sistema imperialista) agora não quer perder nem um pouco de seu poder. Por isso busca uma aliança com o trumpismo, que já foi observada nas aproximações a Trump de setores empresariais teoricamente hostis ao então candidato. E agora, a tentativa de aliança – uma busca por controlar os instintos mais isolacionistas e prejudiciais ao domínio dos EUA – fica nítida a partir da composição do novo governo, que está sendo montado.

A maioria dos membros do alto escalão que foram nomeados por Trump é formada por elementos vinculados ao establishment neoconservador, sejam eles próprios falcões imperialistas ou ao menos palatáveis à máquina de dominação do Estado americano. Pouquíssimos são aqueles que, como Tulsi Gabbard ou Robert Kennedy Jr., geram uma aversão do Deep State.

Mas, pelo visto, a grande burguesia americana não quer esperar o dia 20 de janeiro e pagar para ver se seus prepostos no novo governo vão trabalhar direito. Ela pressiona desde já, esticando a corda até quase o limite, para obrigar Trump a acompanhá-la por esse caminho tortuoso que a maioria nos EUA, inclusive pessoas próximas a Trump, não quer trilhar.

Em toda a história, nenhum sistema em declínio (principalmente os impérios) aceitou o seu triste destino. As grandes mudanças sempre vieram a partir de enormes convulsões políticas, sociais e econômicas. Aqueles que acreditam em um mundo multipolar harmonioso em que uma superpotência, ou mesmo um sistema inteiro, será substituída através de uma transição indolor, provavelmente estão equivocados.

O mais provável, ainda que possa não vir imediatamente, é a guerra mundial. O lado positivo disso (para quem acredita que sempre há algo positivo nas desgraças) é que, diferente das duas guerras mundiais anteriores, esta não será entre potências imperialistas pela dominação do globo. A superpotência imperialista americana tem sob as suas asas as potências europeias enfraquecidas e subjugadas, suas aliadas de primeira hora na opressão dos países pobres e “emergentes”. A guerra será contra estes.

Essa é a verdadeira caixa de Pandora que pode estar se abrindo.

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