Em defesa de um Portugal melhor

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 04/12/2025, Revisão da Estátua)


Caros Amigos

Este texto é apresentado por força de estar anunciada uma próxima greve geral dos trabalhadores portugueses, a qual já está a ser criticada e mimoseada com os piores epítetos pelos saudosistas do anterior regime, malandragem e carpideiras do costume.

Assim – e porque a minha condição de militar reformado não me permite aderir -, aqui manifesto deste modo a minha solidariedade com os grevistas porque creio que todos nós desejamos um Portugal melhor, porque também não queremos ter vergonha do nosso país e porque estou convicto de que não queremos que nos afundem na barbárie e no fascismo.

Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para não comprometer o futuro de Portugal, porque o presente e o passado recente não podem ser mudados com novas leis iníquas, por mais que haja alguns para quem isso não esteja bem claro. E, embora os Militares de Abril antifascistas tenham escrito os capítulos mais importantes desse passado recente, temos agora de nos recusar a ficar reféns daqueles para quem a saudade do Estado Novo nunca acaba. Hoje, cinquenta e um anos após o 25 de Abril estamos quase a ficar reféns dos que verdadeiramente odeiam a nossa Pátria e que aproveitam as crises sociais, para semear o ódio e pregar mentiras e falácias – arruaceiros e vendidos que estão a exercer esse mister criminoso.

Temos presente todos aqueles que ainda defendem a nossa Pátria das falsidades com as suas ações – operários, comerciantes, agricultores, artistas, comentadores, intelectuais, escritores, cientistas, militares e jornalistas -, mas que os neofascistas querem mandar para o exílio e/ou transformá-los em marginais no seu próprio país. Fazemos parte da cultura viva deste país, somos a herança do século XXI. E ninguém tem o direito de nos dizer que não temos a razão e a justiça do nosso lado.

Nenhum de nós escolheu os seus antepassados, mas escolhemos quem fomos, somos e seremos. Os filhos e netos não são culpados nem obrigados a continuar as ações dos seus antepassados, mas todos somos extremamente responsáveis pelas nossas ações de hoje.

Assim, é de assinalar e louvar todas as mães e pais que ensinaram os seus filhos a não dividir e odiar as pessoas com base na origem, religião, etnia, cor da pele ou orientação sexual. Quem assim fez concedeu aos seus filhos o melhor dos sentimentos – o respeito pelo próximo.

 Pelo menos, esses descendentes não vão aterrorizar, intimidar e agredir os seus pares só porque são diferentes deles.

Saudamos todos os cidadãos deste país que não são culpados nem podem ser condicionados nos seus destinos e que sentem o que significa ser membro de uma qualquer minoria nacional; os cidadãos portugueses de raça negra ou ciganos que alguns desejam proibir de respirar. Este país tem tanto orgulho de Eusébio e Quaresma, como de vários outros atletas, artistas e cientistas portugueses de outras raças. Vós sois nossos amigos, vizinhos, colegas e parentes e nós não desistimos de vocês! Vós sois Portugal!

Alguns portugueses, de mau carácter, reclamam que as minorias nacionais e os migrantes ainda mais pobres não querem trabalhar e só vivem das ajudas do Estado, mas a realidade é que a maioria deles fica com os empregos que aqueles rejeitam por serem menos dignos. E é, graças a eles, que as nossas ruas e casas são limpas, a comida e géneros nos são trazidos, e somos transportados aonde pedimos, etc. assim contribuindo para o nosso bem-estar e para o orçamento nacional.

Não são as minorias nacionais nem os migrantes que nos tornam pobres, mas sim os maus e venais políticos neoliberais e neofascistas e os criminosos empresários ao serviço dos grandes grupos económicos, numa busca incessante de prebendas, regalias e riquezas imerecidas.

Veja-se a miserável lei que gerou a revolta de quase todos os trabalhadores e levou a esta greve geral. A nossa sociedade deveria responsabilizar esses políticos pois eles é que são os verdadeiros culpados pelas condições em que estamos a viver agora e que eles querem agravar. Deveriam ser penalizados fortemente em próximas eleições, já que em termos criminais conseguem ficar isentos, devido às muitas deficiências de um sistema judicial lento e tolhido pela prática malévola de alguns dos seus agentes.

Nós apenas queremos viver em paz e liberdade em vez de vivermos no meio de conflitos, insegurança e agitação permanentes na sociedade: a segurança no trabalho, o conforto, a paz e a liberdade não devem ser um privilégio para alguns escolhidos.

Não ficaremos calados enquanto houver desigualdades e injustiças a serem cometidas no nosso país pelos corruptos e criminosos neoliberais e neofascistas. Não ficaremos em silêncio enquanto houver a possibilidade de falar e escrever, e se não houver, iremos inventá-la. Não serão necessárias grandes frases e tiradas brilhantes para esse efeito, apenas uma pena afiada, honestidade e nada temer!

Para terminar, deixo-vos com o conhecido poema de Bertold Brecht, que nos adverte sobre o que acontece a quem fica em silêncio:

Primeiro levaram os negros.

Mas não me importei com isso. Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários.

mas não me importei com isso. Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis.

mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados.

mas como tenho o meu emprego, também não me importei.

Agora estão a levar-me, mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.

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Aula de liberalismo dada às crianças da Iniciativa (I)liberal

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 30/11/2025, Revisão da Estátua)


O que mais impressiona no discurso recente da Iniciativa Liberal é a forma como tentam convencer o país de que “regular” greves ou transformá-las em actos simbólicos é uma posição liberal.

É aqui que vale a pena recordar o que é, historicamente, o liberalismo — não o marketing político low-cost que a IL faz, mas a tradição intelectual séria, de Locke a Mill, passando por Tocqueville, Stuart Mill, T. H. Marshall, Beveridge, Hayek e até Friedman.

Porque nenhum liberal sério alguma vez defendeu que um trabalhador é obrigado a vender o seu trabalho em condições impostas unilateralmente. Nenhum.

A base do liberalismo é simples: ninguém deve ser forçado a trabalhar contra a sua vontade. Se eu trabalho numa padaria e não quero fazer pão naquele dia, naquela condição ou por aquele salário, tenho o direito de não o fazer. Não devo ser OBRIGADO a trabalhar só para satisfazer o patrão ou o cliente. Um sistema onde uma pessoa é forçada a trabalhar sem aceitar as condições — e onde a recusa é punida — não se chama trabalho.

Chama-se escravatura. E o liberalismo nasceu precisamente para impedir que um ser humano seja tratado como propriedade.

Para o liberalismo clássico, a liberdade de associação é tão fundamental como a liberdade de expressão — e dela decorre inevitavelmente o direito de se recusar a trabalhar.

Alexis de Tocqueville escreveu, em A Democracia na América, que a força das sociedades livres depende da capacidade dos indivíduos se unirem para equilibrar o poder dos mais fortes.

John Stuart Mill, em On Liberty, lembra que a liberdade individual nada vale quando existe “despotismo económico” e quando uma das partes numa relação contratual tem força esmagadora. Friedrich Hayek — sim, até Hayek! — admitia em The Constitution of Liberty que a negociação colectiva e a liberdade sindical são instrumentos necessários num mercado onde o poder não está distribuído de forma simétrica.

E Milton Friedman, na sua defesa extrema dos mercados, reconhecia que nada é mais liberal do que permitir que um trabalhador diga: “não vendo o meu trabalho nestas condições”.

A greve, na lógica económica liberal, não é mais do que isso: a expressão da liberdade contratual.

Não é socialismo. Não é marxismo.

É um corolário lógico do próprio mercado: se o capital pode retirar-se (desinvestir, deslocalizar), o trabalho também pode retirar-se. Quer lhe chamem “greve”, quer lhe chamem “liberdade de não aceitar o contrato”.

Agora compare-se esta tradição com a prática da Iniciativa Liberal.

Enquanto os liberais clássicos defendiam o direito dos trabalhadores a organizarem-se para equilibrar poder, a IL quer “serviços mínimos reais”, “limites à greve” e uma revisão constitucional para “não impedir o direito ao trabalho dos outros”.

Parece inofensivo, mas na realidade destrói a greve enquanto instrumento eficaz. Uma greve que não interrompe nada não é uma greve — é um desfile.

É o mesmo tipo de lógica que, no século XIX, levou a Lei Le Chapelier a proibir sindicatos e greves em nome da “livre iniciativa”: uma visão profundamente reaccionária, que usava a palavra “liberdade” para concentrar poder económico num só lado.

O que a IL defende hoje não é liberalismo: é uma direita económica autoritária, elegante no discurso mas brutal na prática. É a mesma lógica do Chega, só que com gravata, PowerPoint e vocabulário anglófilo.

Um finge que defende a “Pátria”; o outro finge que defende a “liberdade”. Mas ambos têm o mesmo objetivo: tirar poder a quem trabalha e entregá-lo a quem já o tem de sobra.

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Entre o “respeito” e o “dar-se ao respeito”

(Pacheco Pereira, in Público, 21/01/2023)

Pacheco Pereira

Muitos professores já foram “educados” na mesma ecologia que torna os seus alunos impossíveis de educar. O problema complementar é que muitos pais são exactamente iguais.


A palavra “respeito” tem tido um papel relevante no protesto dos professores, representando um pedido e um protesto que está muito para além das reivindicações salariais e de carreira. É provável que seja essa componente existencial a mais significativa na mobilização destes últimos meses que, em bom rigor, parece ter sido uma surpresa para todos, ministério e mesmo os professores e, certamente, para o sindicalismo tradicionalmente dominante da Fenprof.

Quando me perguntavam a profissão, mesmo quando era deputado, sempre respondi que era professor. Na verdade, fui professor de todos os graus de ensino menos o básico, e conheci muito daquilo que era a instabilidade da vida de professor “provisório”. Dei aulas em Boticas, Espinho, Coimbra, Vila Nova de Gaia, Porto e Lisboa. Em Espinho dei aulas na Escola Preparatória Sá Couto conhecida como “o Triciclo”, porque estava sediada em três edifícios em locais diferentes e era possível ter uma aula às 9h num, às 10h no outro, e às 11h de novo no primeiro, ou seja, não havia intervalos.

Para se chegar a Boticas, quando lá estive, a viagem a partir do Porto demorava cerca de cinco horas e qualquer trajecto era péssimo, difícil e, nalgumas alturas do ano, perigoso, para se atravessar as serras, o Marão, o Alvão ou o Barroso a seguir às barragens. Tenho as melhores recordações de Boticas, mas compreendia muito bem o mal-estar dos meus colegas que não viviam em Chaves, uma das quais vinha de Coimbra e que ansiava por se ir embora logo que podia. Mas à distância, tendo em conta o que é dar aulas hoje, tudo isto era um paraíso.

Estamos obviamente a falar da escola pública, aquela que não pode escolher os seus alunos. Na altura, há poucas décadas, a escola competia com a família na socialização dos alunos e, nalgumas áreas mais pobres, competia com a rua. A droga ainda estava longe de ser o problema que é hoje, e não havia a epidemia do “défice de atenção”, nem dos factores que o explicam. É certo que nos subúrbios de Lisboa e Porto os estudos já revelavam o enfraquecimento da socialização familiar, com crianças de idade pré-escolar a já estarem muito pouco tempo com os pais e, quando estavam com eles, estavam a ver televisão, que acabava por ter um papel crescente na sua socialização.

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Havia nas escolas o que sempre houve, uma considerável violência e, também como sempre, não era a mesma coisa viver numa casa com livros, com espaço e razoável conforto, ou num bairro degradado, pobres no meio de pobres. A educação reproduzia as desigualdades sociais, embora fosse ela própria um dos raros mecanismos de elevador social num país muito desigual. Tudo isto era tão antigo e tão denso como era o nosso atraso nacional, e, se a democracia, o fim da guerra e a entrada para a Europa mitigaram esse fundo de atraso, estão longe de o diminuir de forma significativa.

Sobre este fundo veio a “tempestade perfeita” que ameaça seriamente o papel da escola, incapaz de competir com uma ecologia social cada vez mais hostil, que põe em causa a capacidade da escola de ser um factor eficaz de socialização, já para não falar de aprendizagem. A droga, as novas formas de violência a que chamamos “bullying”, a destruição da capacidade de atenção pela rapidez da imagem dos jogos desde a infância, a deseducação do valor do tempo lento, do silêncio, do saber, da leitura, a ignorância agressiva das redes sociais, a substituição da privacidade pela exibição fácil do corpo, quer como chantagem, quer como vingança, quer como vaidade e sedução fácil, a presentificação absoluta no mundo das mensagens, do Instagram, do Facebook, do Tik-Tok, a utilização de devices como os telemóveis como instrumentos de controlo, a construção de uma sexualidade perversa ou imatura, entre a pornografia e a moda das identidades da moda, a obsessão pela explicação psicologista, a completa inadequação de programas de há muito oscilando entre o facilitismo “para não assustar os meninos”, ou um saber abstracto inadequado à realidade actual, tudo isto torna as escolas, principalmente no secundário, um dos sítios de pior viver nas sociedades contemporâneas. Ninguém sabe disso melhor do que os professores.

Por isso, têm razão em pedir “respeito”, se o sentido desse pedido implicar a enorme dificuldade que hoje é ser professor e o reconhecimento que a sociedade lhes deve, permitindo-lhes melhores condições materiais, menos burocracia, estabilidade e uma carreira com regras.

Mas para se ter respeito é preciso “dar-se ao respeito” e muitos professores já foram “educados” na mesma ecologia que torna os seus alunos impossíveis de educar. Já estão demasiado dentro da mesma “tempestade perfeita”, lêem pouco, vivem dependurados nas mesmas redes sociais, com os mesmos maus hábitos de desleixo pela verdade, de facilitismo, de exibição, de opiniões ligeiras para não lhes chamar outras coisas, de superficialidade e por aí adiante.

O problema complementar é que muitos pais são exactamente iguais, ou seja, há muito poucos factores qualitativos a “puxar para cima”, mesmo que fosse pouco, o que já seria uma enorme vantagem.

Este é o retrato de uma crise profunda. Infelizmente, mesmo que este retrato incomode muita gente, pela generalizada cumplicidade, é pura verdade.

O autor é colunista do PÚBLICO


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