Entre zero e 100%

(Tiago Franco, in Facebook, 12/12/2025, Revisão da Estátua)


Começo por elogiar e dar o crédito a esta maravilhosa fotografia do Egidio Santos (foto à direita). Porque resume numa imagem (e é por isso que ele é brilhante) a luta que esta geração tem a obrigação de fazer. O país que neste momento se vai formando e que entregaremos aos nossos filhos é, consideravelmente, pior do que aquele que recebemos.

O povo saiu à rua e o país tremeu. Até na minha estimada Autoeuropa a linha de montagem parou. Algo impensável nos 5 anos que por lá passei. Miguel Sousa Tavares foi a uma pastelaria e, portanto, concluiu que estava tudo normal, para lá dos “habituais professores que gostam de greves encostadas aos fins de semana“. Ai Miguel, Miguel, Miguel…sou um fã de tempos longínquos mas de vez em quando deixas o digestivo tomar conta da análise. Toca a todos. No próximo texto já levas um elogio.

O ministro Leitão Amaro ganhou, muito justamente, o prémio “Mohammed Saeed al-Sahhaf” do dia, com a frase “a adesão à greve está entre os 0 e 10%“. Há imagens de milhares de pessoas nas ruas em várias cidades, hospitais em serviços mínimos (incluindo os privados da CUF), escolas fechadas, transportes parados, gente que nem de casa conseguiu sair e alguns analistas, como o Luís Rosa, da CNN, a dizer que isto era apenas uma greve da função pública (a Autoeuropa já é “nossa”?). E, já agora, mesmo que fosse só da função pública, como é que isso encaixava nos “0 a 10% de paralisação” quando quase 1/5 dos trabalhadores são funcionários públicos? O que eu recomendo, vivamente, é um briefing entre o governo e os “pés de microfone” antes de debitarem propaganda. Como na anedota da orgia, organizem-se amigos, organizem-se.

A alternativa é, para a próxima, o amigo Leitão dizer que isto foi qualquer coisa entre os 0 e 100%. Aí não há forma de se enganar.

Para perceberem o efeito desta greve precisam apenas de dois indicadores. O primeiro é que a UGT se propõe a nova greve. A UGT, amigos. Onde militam os sindicatos do PS e do PSD. E o segundo é que durante o dia, o cata-vento Ventura, percebendo a dimensão da coisa, correu a meter-se ao lado dos trabalhadores e a criticar o governo. Ainda o idiota do Frazão fazia TikToks nas janelas da Assembleia da República a chamar comunistas aos manifestantes e já o Andrezito controlava os danos mudando de opinião para ir na onda do protesto. O Frazão tem que seguir o Ventura nas redes mas quando a conversa é sobre pacotes o homem fica, visivelmente, baralhado.

Espero que esta paragem tenha sido a primeira de muitas e que, de certa forma, seja inspiradora para que mais trabalhadores se juntem a esta luta. Até que este ataque sem quartel aos trabalhadores seja repelido, a união nas ruas não deve parar.

E não nos falem em custos da greve para a economia do país. Com 0% de adesão, como disse o nosso Mohammed da Temu, isto deve ter ficado ao custo de dois secretários de estado, uma comissão e três subsídios de deslocação para deputados com casa não declarada em Lisboa.

Querem flexibilizar o pacote? Façam ioga no glúteo. Diz ela e diz muito bem.

A luta continua.

Canalhices contra a greve geral

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 10/12/2025)


Ao longo das últimas semanas, desde que foi convocada a greve geral pelas centrais sindicais, temos ouvido todo o tipo de canalhices. De um primeiro-ministro que diz ter sido escolhido para governar todos os que vivem em Portugal, a imagem tem sido tudo menos democrática. Tanto ele como os seus ministros dedicam-se a fazer pouco de quem ganha a vida a trabalhar.  Ou seja, a maioria da população. Agem como mordomos dos grandes grupos económicos e financeiros e usam agências de comunicação, e jornalistas que se prestam a esse serviço, para tentar convencer-nos de que flexibilizar os despedimentos é bom, de que os jovens gostam de precariedade e de que modernidade é aprovar cem alterações à legislação laboral em que não existe uma única que favoreça os trabalhadores e que não constava no programa eleitoral da AD.

Hoje, o Público dedicou-se a esmiuçar a alegada fraqueza do movimento sindical, sem que se perceba muito bem porque é que o governo quer restringir a entrada dos sindicatos nas empresas se afinal a sua força é pírrica. Simultaneamente, o governo desdobra-se em avisos de que pretende os serviços mínimos cumpridos pelos sindicatos e entre as propostas de alteração à reforma laboral quer alargar os serviços mínimos a outros sectores da economia. Também não se percebe. Se os sindicatos não têm força e se Luís Montenegro está tão ciente de que o Pacote Laboral favorece também os trabalhadores, o governo nada teria a temer com esta greve.

Mas tem. Tem tanto a temer que, com toda a desfaçatez, o primeiro-ministro veio anunciar que o Pacote Laboral pode levar a subidas nos salários que nunca a direita se atreveu a mencionar. Sem qualquer pudor, lança promessas que não vai cumprir porque o seu único objectivo é ludibriar os trabalhadores para que não façam greve. Este governo não é mais do que um conselho de representantes dos homens mais ricos do país.

Ontem, Cecília Meireles, dirigente de um dos partidos do governo, bradava aos céus pelo facto de ser mais fácil o divórcio em Portugal do que despedir um trabalhador. Como se arrancar alguém do seu local de trabalho e fazê-lo perder o seu sustento devesse ser algo fácil. Eles querem-nos descartáveis, mão de obra barata num país de baixos salários a trabalhar para reformados franceses e norte-americanos ou nómadas digitais alemães. É para isso que nós, portugueses e trabalhadores imigrantes, servimos. Para servirmos às mesas dos turistas à procura de sol. E o Pacote Laboral serve para que cumpramos a nossa função sem grandes atrevimentos. É comer e calar.

Como escrevi há dias, não há um pingo de modernidade na chamada liberalização do mercado de trabalho. A única liberdade que defendem é a liberdade de despedir, de pagar baixos salários, de alargar a precariedade a todos os trabalhadores, a liberdade de encher contas em paraísos fiscais com o nosso suor.

O Pacote Laboral é, na verdade, uma declaração de guerra a quem trabalha. Ao longo dos séculos, aprendemos que só unidos conseguimos avançar. O património de direitos que, hoje, urge defender foi conquistado a pulso por muitas gerações de trabalhadores. Cabe-nos ir ao combate com a mesma coragem e dignidade. Façamos greve, mostremos a nossa força.

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Em defesa de um Portugal melhor

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 04/12/2025, Revisão da Estátua)


Caros Amigos

Este texto é apresentado por força de estar anunciada uma próxima greve geral dos trabalhadores portugueses, a qual já está a ser criticada e mimoseada com os piores epítetos pelos saudosistas do anterior regime, malandragem e carpideiras do costume.

Assim – e porque a minha condição de militar reformado não me permite aderir -, aqui manifesto deste modo a minha solidariedade com os grevistas porque creio que todos nós desejamos um Portugal melhor, porque também não queremos ter vergonha do nosso país e porque estou convicto de que não queremos que nos afundem na barbárie e no fascismo.

Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para não comprometer o futuro de Portugal, porque o presente e o passado recente não podem ser mudados com novas leis iníquas, por mais que haja alguns para quem isso não esteja bem claro. E, embora os Militares de Abril antifascistas tenham escrito os capítulos mais importantes desse passado recente, temos agora de nos recusar a ficar reféns daqueles para quem a saudade do Estado Novo nunca acaba. Hoje, cinquenta e um anos após o 25 de Abril estamos quase a ficar reféns dos que verdadeiramente odeiam a nossa Pátria e que aproveitam as crises sociais, para semear o ódio e pregar mentiras e falácias – arruaceiros e vendidos que estão a exercer esse mister criminoso.

Temos presente todos aqueles que ainda defendem a nossa Pátria das falsidades com as suas ações – operários, comerciantes, agricultores, artistas, comentadores, intelectuais, escritores, cientistas, militares e jornalistas -, mas que os neofascistas querem mandar para o exílio e/ou transformá-los em marginais no seu próprio país. Fazemos parte da cultura viva deste país, somos a herança do século XXI. E ninguém tem o direito de nos dizer que não temos a razão e a justiça do nosso lado.

Nenhum de nós escolheu os seus antepassados, mas escolhemos quem fomos, somos e seremos. Os filhos e netos não são culpados nem obrigados a continuar as ações dos seus antepassados, mas todos somos extremamente responsáveis pelas nossas ações de hoje.

Assim, é de assinalar e louvar todas as mães e pais que ensinaram os seus filhos a não dividir e odiar as pessoas com base na origem, religião, etnia, cor da pele ou orientação sexual. Quem assim fez concedeu aos seus filhos o melhor dos sentimentos – o respeito pelo próximo.

 Pelo menos, esses descendentes não vão aterrorizar, intimidar e agredir os seus pares só porque são diferentes deles.

Saudamos todos os cidadãos deste país que não são culpados nem podem ser condicionados nos seus destinos e que sentem o que significa ser membro de uma qualquer minoria nacional; os cidadãos portugueses de raça negra ou ciganos que alguns desejam proibir de respirar. Este país tem tanto orgulho de Eusébio e Quaresma, como de vários outros atletas, artistas e cientistas portugueses de outras raças. Vós sois nossos amigos, vizinhos, colegas e parentes e nós não desistimos de vocês! Vós sois Portugal!

Alguns portugueses, de mau carácter, reclamam que as minorias nacionais e os migrantes ainda mais pobres não querem trabalhar e só vivem das ajudas do Estado, mas a realidade é que a maioria deles fica com os empregos que aqueles rejeitam por serem menos dignos. E é, graças a eles, que as nossas ruas e casas são limpas, a comida e géneros nos são trazidos, e somos transportados aonde pedimos, etc. assim contribuindo para o nosso bem-estar e para o orçamento nacional.

Não são as minorias nacionais nem os migrantes que nos tornam pobres, mas sim os maus e venais políticos neoliberais e neofascistas e os criminosos empresários ao serviço dos grandes grupos económicos, numa busca incessante de prebendas, regalias e riquezas imerecidas.

Veja-se a miserável lei que gerou a revolta de quase todos os trabalhadores e levou a esta greve geral. A nossa sociedade deveria responsabilizar esses políticos pois eles é que são os verdadeiros culpados pelas condições em que estamos a viver agora e que eles querem agravar. Deveriam ser penalizados fortemente em próximas eleições, já que em termos criminais conseguem ficar isentos, devido às muitas deficiências de um sistema judicial lento e tolhido pela prática malévola de alguns dos seus agentes.

Nós apenas queremos viver em paz e liberdade em vez de vivermos no meio de conflitos, insegurança e agitação permanentes na sociedade: a segurança no trabalho, o conforto, a paz e a liberdade não devem ser um privilégio para alguns escolhidos.

Não ficaremos calados enquanto houver desigualdades e injustiças a serem cometidas no nosso país pelos corruptos e criminosos neoliberais e neofascistas. Não ficaremos em silêncio enquanto houver a possibilidade de falar e escrever, e se não houver, iremos inventá-la. Não serão necessárias grandes frases e tiradas brilhantes para esse efeito, apenas uma pena afiada, honestidade e nada temer!

Para terminar, deixo-vos com o conhecido poema de Bertold Brecht, que nos adverte sobre o que acontece a quem fica em silêncio:

Primeiro levaram os negros.

Mas não me importei com isso. Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários.

mas não me importei com isso. Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis.

mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados.

mas como tenho o meu emprego, também não me importei.

Agora estão a levar-me, mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.

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