Quando o direito à greve entra em conflito com o juramento de Hipócrates

(Isabel Prado Castro, médica, 12/12/2018)

IPC

1. RAZÕES

As razões que fundamentam a insatisfação dos enfermeiros e legitimam o exercício de um direito conquistado há muito pelos trabalhadores nas sociedades ditas democráticas ( em Portugal o direito à greve foi proibido durante o fascismo e recuperado após o 25 de Abril de 1974), são, no essencial, justas. Falta de enfermeiros no SNS, excesso de trabalho, períodos insuficientes de descanso, remunerações baixas, numa profissão de grande exigência humana e longos períodos presenciais Também a questão das carreiras e outras ainda não abordadas, tais como a discussão do eventual novo perfil funcional dos enfermeiros, são pontos importantes para uma reorganização e otimização dos recursos técnicos dos profissionais de saúde.

2. DA GREVE ATUAL

A presente “greve cirúrgica” dos enfermeiros, programada para ser de longa duração, inicialmente um mês e sustentada por um fundo que permite o pagamento de 1200 Euros a cada enfermeiro, sem que exista qualquer restrição ao seu trabalho em contexto privado, o que nas atuais condições promete ser reforçado, vem agora propor-se continuar, por tempo ainda não determinado, até à satisfação das suas reivindicações, já com milhares de cirurgias adiadas, caso consigam angariar um novo fundo de 400 mil euros.

3. DAS DECLARAÇÕES E AGENDAS POLÍTICAS

Ontem, no jornal das 19h, ouvi Marcelo Rebelo de Sousa apelar à ponderação dos grevistas, na medida em que o impacto e consequências sobre a saúde das pessoas exigem uma avaliação permanente num processo tão longo. Ouvi também a srª Cristas chamar ao 1º ministro “contador de histórias” , na medida em que “porventura fez promessas que nunca porventura pensou cumprir” ; e também o deputado Negrão do PSD, chamar o governo de incompetente nas negociações com os sindicatos. A srª. ministra da saúde veio dizer que o governo está sereno e a negociar com quem deve e a tentar resolver os problemas criados por esta greve.

Catarina Martins recordou ao deputado F. Negrão a contribuição que o seu partido deu há um mês para este estado de coisas, sublinhando que não precisava de invocar o tempo de há 4 anos atrás e Jerónimo de Sousa declarou estar solidário com os enfermeiros, mas alertou para as necessidades dos doentes e o risco acrescido para o SNS assim como o reforço dos interesse dos privados.

Finalmente, A. Costa disse que o PSD está ao serviço da bastonária da ordem dos enfermeiros, que o governo está a trabalhar para resolver as coisas, não necessariamente aceitando tudo o que os srs. enfermeiros pretendem.

4. O CONFLITO DE VALORES

O direito a fazer greve não é da mesma natureza valorativa do direito à saúde e vida das pessoas que são afetadas por essa greve. No caso presente, e dada a forma, temporalidade e propósitos dos enfermeiros, manifestados publicamente em termos de relação entre trabalhadores e patronato, lucros perdidos para o Estado e etc, o conflito assume dimensões deontológicas e éticas cada vez mais graves.

A questão da garantia dos serviços mínimos, definidos legalmente e no código ético, no respeito pelo princípio das necessidades, da adequação e da proporcionalidade, não é, no caso presente, fácil de aplicar pois, como já alguns disseram, a temporalidade altera a condição física e psicológica dos doentes e, não raras vezes, os danos são difíceis de calcular e colmatar. É importante realçar que, para além dos serviços de urgência e outros de risco, programados, os serviços mínimos incluem todos os cuidados que são regularmente dispensados aos doentes durante 24 horas, aos domingos e feriados.

5. EU, MÉDICA

Tenho um claro conflito entre os direitos que os enfermeiros dizem ter, profissionais com quem trabalhei bem durante muitos anos, e os direitos dos doentes, assim como um conflito de valores, como médica, decorrente das responsabilidades a que perante os doentes me sinto vinculada.

Frequentemente a realidade profissional informal organiza-se numa entreajuda e num esbatimento de fronteiras em algumas ações que podem ser feitas por vários profissionais, de que podem ser exemplos os psiquiatras e os psicólogos ou os médicos e os enfermeiros. Pode ainda surgir, em situações de exceção, um funcionamento contingente e paralelo ao enquadramento formal que regula as atividades dos grupos profissionais, tornando, na prática, as fronteiras mais fluídas, sobretudo quando é necessário adotar soluções que permitam contornar as perturbações ocasionais.

No entanto, os profissionais não podem éticamente substiutir as funções daqueles que se encontram em greve e daí eu não poder concordar com a proposta de realização de cirurgias que dispensem os enfermeiros do bloco operatório e do acompanhamento nos cuidados pós-operatórios.

Assim, a não existir uma solução negociada ou alternativas que resolvam a breve prazo a grave situação a que se encontram sujeitos os doentes e seus familiares, serão necessárias medidas drásticas.

O direito à greve não é ilimitado. Este, tal como outros direitos, começam a ser usados contra valores maiores, como o da luta pelo direito à saúde, do combate à doença, sobretudo e sempre, dos mais desfavorecidos e contra a liberdade.

MANUS

Na imagem, manuscrito Bizantino do séc XI no qual o juramento de Hipócrates está escrito em forma de cruz

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A agitação social e as suas motivações

(Carlos Esperança, 07/12/2018)

esperancax

Não discuto o direito à greve ou a legitimidade das que estão em curso e se multiplicam, às vezes sem assegurar sequer os serviços mínimos. Faltam-me elementos para julgar cada uma delas, e ninguém melhor do que os profissionais para as avaliarem.

Há aspirações legítimas para as quais pode não haver recursos e certamente outras cuja satisfação aumentaria as desigualdades e injustiças sociais. Não tenho ideias definitivas sobre o frenesim da agitação social nos mais variados sectores de atividade da função pública, a dez meses das eleições legislativas.

Temo, isso sim, as greves que não são mediadas pelos sindicatos e as movimentações sociais alheias aos partidos políticos. O ambiente é demasiado complexo para rotular as reivindicações, mas é suficientemente claro que há um efeito tóxico que pode contaminar as mais justas e urgentes, o efeito que causam na opinião pública e cujas consequência cabe aos sindicalistas avaliar.

Quem viaja nos transportes públicos frequentados por populações suburbanas, menos contidas nas emoções e mais exuberantes na sua exteriorização, não pode deixar de se arrepiar com a raiva e violência verbal que qualquer demagogo pode transformar em votos.

Sou apoiante deste governo e, sobretudo, da fórmula que o sustenta, o que raramente me sucedeu com outros, e temo menos a queda deste do que a chegada do próximo. Nunca apoiarei um governo de que não possa ser opositor nem um outro que, embora aceitando eleições livres, não respeite os direitos humanos.

A vida está difícil para quem deseja conciliar a independência de espírito, num ambiente que encerra inúmeras contradições e demasiadas incógnitas, e não prescinde de exprimir as suas opiniões e exercer a participação cívica a que se julga obrigado.

A viagem no autocarro 16, que entra na cidade de Coimbra e sai de volta aos arredores, onde se misturam pessoas de diversas faixas económicas e sociais, revela bem o rancor que cresce nas camadas mais desfavorecidas. É o efeito tóxico das reivindicações, ainda que justas, nas camadas mais desfavorecidas e despolitizadas.

É neste húmus que pescam os demagogos e populistas. Dá que pensar.

O anjo da morte

(Dieter Dellinger, 04/12/2018)

enfermeiro

 O enfermeiro assassino Niels Hoeger que até era tido como um excelente profissional durante os 10 anos que trabalhou em vários hospitais, deixando atrás de si um rasto de morte.

O enfermeiro alemão Niels Holger tinha as mesmas ideias dos grevistas de cá e andava chateado com excesso de trabalho. Pois resolveu o problema, matou 450 idosos.

Escolhia os turnos da noite e injetava um medicamento com ajmalina que é um alcalóide antiarrítmico que causava uma fibrilação ventricular e depois quando soavam as campainhas ele acudia com os desfibrilador, salvando a pessoa que acabava sempre por morrer passadas uma a três horas.

Todos os médicos sabiam que no turno dele morria muitos mais idosos que nos de outros enfermeiros/as. As colegas sabiam disso e brincavam com o assunto.

Agora foi condenado a prisão perpétua e os/as colegas, médicos e diretores de hospital estão a ser julgados por conivência negligente. Um dos médicos diretor de serviço já levou 10 anos e as famílias das vítimas acham pouco e a farmcêutica que lhe dispensava o medicamento já foi condenada a cinco anos de prisão por não se dar conta que para aquele enfermeiro iam 10 vezes mais embalagens que para outros.

Hoje, um enfermeiro disse na SIC que até ao fim do ano, as cirurgias anuladas deveriam ser mais de 5 mil. Isto faz de todos os grevistas aos blocos operatórios verdadeiros ASSASSINOS como o alemão Niels Holger. Pois devem morrer mais 10% das pessoas que não foram intervencionadas e que serão para cima de 500 doentes.

Eu já fui intervencionado para colocar uns stents nas coronárias e se tivesse havido greve não estava aqui a escrever.

Não concebo greves para matar pessoas que não têm culpa e já publiquei aqui a lista dos salários dos enfermeiros com desconto e adicional de refeição. São muitos escalões e o primeiro é de quase mil euros, subindo até chegar aos mais 3 mil.

Não é muito, mas não vejo razão alguma para ASSASSINAR, tanto mais que o trabalho mais “sujo” e cansativo é feito pelas auxiliares de enfermagem que andam com as arrastadeiras, dão a comida, lavam os paciente, mudam a roupa da cama, etc.

Quando estive nos cuidados intensivos, as enfermeiras vinham só ler os aparelhos e tomar nota nos papéis que estavam junto à cama. Quando da intervenção no bloco operatório só vi os médicos. Parece que estava uma enfermeira a ver e só para ajudar a qualquer coisa que não foi necessário. Claro, cada cirurgia é diferente.