2015, dez anos depois

(Pedro Nuno Santos, in P+ublico, 26/11/2025)


Não correu tudo bem, cometeram-se erros e houve várias insuficiências que devem servir de reflexão para toda a esquerda.


Em 2015, depois de quatro anos duros, de desesperança e angústia, abriu-se um raio de esperança com a formação de um Governo apoiado por uma maioria absoluta, constituída por todos os partidos de esquerda representados no parlamento: PS, PCP, BE e PEV. Eram muito poucos os que acreditavam na sua viabilidade, mesmo dentro do PS. A verdade é que não só foi possível chegarmos a acordo, como também foi possível garantirmos que a legislatura chegasse ao fim, com estabilidade e com grande apoio popular.

O Presidente da República da altura, que não acreditava nem um pouco na possibilidade de acordo, acabou por dar um grande contributo para a estabilidade desta solução governativa, ao exigir um acordo escrito, que comprometeu todos os partidos. O atual Presidente da República, pelo contrário, ao não fazer a mesma exigência depois das eleições de 2019, acabou por contribuir para a instabilidade política. Não tenho qualquer dúvida de que a renovação de um acordo escrito, em torno de novas políticas e reformas económicas e sociais, teria garantido mais estabilidade à nova legislatura iniciada em 2019, que infelizmente não chegou ao fim.

Com o acordo entre toda a esquerda, duas novidades enriqueceram a nossa jovem democracia:

Primeiro, no caso de nenhum partido conseguir sozinho maioria absoluta, governaria quem a conseguisse no parlamento. Nada de mais elementar no nosso quadro constitucional (e no da esmagadora maioria das democracias avançadas), mas que, mesmo hoje, é contestado por muitos. Porém, é possível, que dentro de poucos anos, alguns destes também passem a defender este tipo de solução, constitucionalmente consagrada.

Segundo, o PS, que até 2015, com exceção da maioria absoluta em 2005, dependeu sempre da direita para governar, alargou o seu quadro de autonomia estratégica, e pôde governar sem necessitar do apoio do PSD ou de deputados do CDS.

No entanto, o mais importante desta inédita solução governativa esteve mesmo nas políticas e nos seus resultados. A maior e a mais importante foi que se provou, na prática, aquilo que a esquerda vinha há anos a dizer — o equilíbrio nas contas públicas não se atinge com austeridade. Pelo contrário, a estratégia austeritária é uma corrida para o fundo, que destrói empresas e encolhe a economia.

A decisão de acelerar a reposição dos cortes nos rendimentos e de vários direitos que tinham sido suspensos durante a troika permitiu acelerar a recuperação económica e, pasme-se, facilitar o equilíbrio das contas públicas. Parece contraintuitivo, mas é mesmo assim que funciona a economia de um país, de forma bem diferente da economia de uma família. E aquele Governo não se ficou apenas pela reposição de direitos e rendimentos que tinham sido cortados, uns por imposição da troika e outros porque Passos Coelho quis ir além da troika.

O Governo apoiado pelo PS, PCP, BE e PEV aumentou o salário mínimo nacional como nunca tinha sido aumentado em Portugal, debaixo das críticas do atual ministro das Finanças, que advertia para o risco de aumento do desemprego. Este foi, aliás, mais um mito que destronámos —​ o salário mínimo bateu recordes de crescimento, mas o nível de emprego também.

Para além de termos descongelado o mecanismo legal de atualização anual das pensões, fizemos sucessivos aumentos extraordinários. Congelámos e reduzimos as propinas; acabámos com a maioria das taxas moderadoras no SNS e garantimos a gratuitidade das creches e dos manuais escolares.

Estes avanços sociais muito importantes, grande parte deles para lá da mera reversão das medidas da troika, não teriam existido sem a constituição de um Governo apoiado pela maioria de esquerda no parlamento, ainda que tenha sido mais fácil ao PS a capitalização destas medidas e dos seus resultados, porque era o partido que estava a governar.

A direita tem-se esforçado muito por vilipendiar esta experiência governativa, mas a verdade é que aqueles anos foram os anos em que a confiança dos portugueses nas instituições políticas foi mais alta. Uma experiência extraordinária, de discussão permanente, intensa e difícil entre os parceiros parlamentares e o Governo que trouxe ânimo, esperança e resultados ao país.

No entanto, não correu tudo bem, cometeram-se erros e houve várias insuficiências que devem servir de reflexão para toda a esquerda. Podíamos e devíamos ter feito mais no que ao investimento público diz respeito. Invertemos a estratégia austeritária que vinha sendo implementada em Portugal, mas podíamos ter ido mais longe. Não fomos além da troika, mas fomos além do que as regras orçamentais europeias exigiam.

Podíamos e devíamos ter feito um ajustamento mais lento, para resolvermos alguns problemas mais depressa: investirmos mais nos serviços públicos e aumentarmos mais os salários na administração pública, porque era justo, porque era necessário e porque havia capacidade financeira para o fazer. Na habitação, devíamos ter começado a construir mais cedo e muito mais casas, mas, mesmo assim, nunca teria sido suficiente. Quando a habitação passa a ser procurada (também) como ativo financeiro e não apenas para cumprir a sua função residencial, não há construção e aumento da oferta que nos valha. Era preciso intervir e regular o mercado, de forma a restringirmos a procura que não era dirigida a comprar ou arrendar casas para viver, o que só começámos a fazer em 2023, ainda que de forma insuficiente.

Nas políticas migratórias também não estivemos bem. Bem sei que, à esquerda, a maioria entende que as alterações à lei dos estrangeiros foram boas e necessárias, mas eu tenho uma opinião diferente. A economia precisava e conseguiu integrar no mercado de trabalho a esmagadora maioria dos estrangeiros que entraram em Portugal, mas o país não estava preparado, nem se preparou, para receber mais de um milhão de pessoas em cerca de meia dúzia de anos.

Há quem considere que a intervenção do Estado é irrelevante e absolutamente ineficaz na regulação dos fluxos migratórios, mas isso é mais próprio de liberais do que de socialistas. A cedência excessiva às dinâmicas do mercado e a setores dependentes de mão-de-obra intensiva, indiferenciada e pouco qualificada permitiu à economia e ao emprego crescerem um pouco mais e trouxe mais receita fiscal e contributiva, sim. Mas os fluxos migratórios não têm apenas impactos económicos e orçamentais, de que um discurso tecnocrático tende a ficar refém. Quando, em larga escala, esses fluxos podem gerar problemas e tensões de cariz social, cultural e político (como se tem visto um pouco por toda a Europa), a esquerda tem a obrigação de não desvalorizar, sob pena de perder as pessoas e, em particular, aquelas que primeiro pretende representar.

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Vejamos, por exemplo, o caso das creches e da ausência de vagas para todas as crianças que delas necessitam — tornámos gratuito o acesso às creches, mas não cuidámos de garantir vagas suficientes para todas as crianças que delas precisavam e ficámos com um problema em mãos: crianças sem vagas na creche e milhares de jovens famílias revoltadas. E a esquerda também não pode fazer de conta que a entrada massiva de trabalhadores estrangeiros em situação de extrema necessidade e disponíveis para trabalhar mais por menos salário não veio facilitar a vida a muitos empregadores que não queriam aumentar os salários dos seus trabalhadores.

A solução governativa, constituída em 2015, foi de uma riqueza imensa e merece ser celebrada; mas tão ou mais importante é sermos capazes de retirar desse período e dessa experiência governativa os ensinamentos que nos permitirão recuperar a confiança dos portugueses.

Ao fim de 50 anos de democracia, e de avanços sociais e económicos extraordinários, a maioria da população, apesar do seu trabalho, luta diariamente para que o seu salário chegue ao fim do mês, enquanto apenas uma minoria consegue acumular e viver de forma desafogada. É preciso recuperar a confiança para vencermos eleições, mas vencermos eleições para transformarmos estruturalmente a forma como a maioria dos portugueses vive e como se distribui o fruto do seu trabalho.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990.

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Afinal, quem deu cabo da Geringonça?

(Carlos Marques, in Estátua de Sal, 24/11/2023)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Alfredo Barroso ver aqui, mormente a critica ao seguinte excerto:

“Alguns anos depois, quando o BE e o PCP deram cabo daquilo a que a direita e o jornalismo malcriados designavam por “geringonça”.

Pelo seu carácter de quase manifesto, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 25/11/2023)


Pode-se tirar um palerma do PS, mas o PS nunca sai completamente do palerma.

Parece que meras 9 propostas PEDIDAS pelo BE e outras pelo PCP para, por favor, poderem justificar a aprovação do orçamento, até então SÓ DO PS, eram uma “intransigência” (palavras do traidor Rui Tavares), uma exigência de “extrema-esquerda” (palavras de vários boys de Direita dentro do PS), ou um “dar cabo da Geringonça” (palavra do ex-PS, aqui comentador, Alfredo Barroso).

Imagine-se só o “escândalo” que seria ter um SNS bem financiado, sem greves e sem urgências fechadas (consequência positiva das 3 medidas do BE para a saúde), ter os trabalhadores portugueses menos empobrecidos, em especial nos tempos de inflação que se seguiriam (consequência positiva das 3 medidas do BE para o trabalho), ou ter os pensionistas menos desgraçados com pensões um pouco menos de miséria. Isso é que não podia ser, isso era “dar cabo da Geringonça”.

Car*lhos f*dam estes atrasados mentais que ainda apoiam o PS desta maneira. Portugal é ultraneoliberal, tudo se privatiza, a desigualdade é pornográfica e crescente, e mesmo assim esta gentinha vota no principal culpado, chama-o de “esquerda” e de “moderado”, eterniza-o no poder, impede soluções da real esquerda – que até existem com naturalidade noutros países do Centro e Norte da Europa, e chama-lhes “extremistas”. Até apoiam uma lei eleitoral de batota, que viola a Constituição, por transformar 41% de votos numa maioria “absoluta” de 52% de deputados, fazem tudo para destruir a real esquerda, para f*der o país, e no final garantir que a alternância se faz com o PS laranja, i.e. o PSD.

E nem um colapso iminente deste esquema, com os fascistas do Chega a dispararem nas sondagens, e um mais que provável governo do PSD mais Passista com os Pinochetistas da IL, nem mesmo isso os faz colocar a mão na consciência e dizer: “- Se calhar fomos longe demais, devíamos ao menos ter negociado meia dúzia de medidas simbólicas com a real Esquerda, em vez de termos ido com a nossa ganância até ao fundo do pote tentar a maioria absoluta, com uma campanha porca e desonesta para destruir a real Esquerda”.

Alfredo Barroso e companhia, se a real Esquerda “deu cabo da Geringonça”, então quem é que deu cabo do país sozinho? Após uma p*ta duma maioria “absoluta” ilegítima e inconstitucional, com desgovernação, casos e mais casos, descontentamento popular, austeridade, perda real do poder de compra como não se via desde a troika, e até um apoio descarado a nazis, a vossa desonestidade intelectual ainda vos faz em 2023/2024 repetir a treta rosa de que se há algum mal, a culpa só pode ser da “extrema-esquerda” que “quer coisas a mais” e não aceita a “responsabilidade” do PS de ter “as contas certas”?

P*ta que pariu isto tudo, pá. Este país não aprende.

Controlo de rendas, fim dos Vistos Gold, limite ao alojamento local, proibição de estrangeiros comprarem casas para especular, fim das borlas fiscais aos expatriados, mais habitação do Estado? Não. Isso (coisas que existem na Alemanha, Áustria, e em todos os países nórdico) é “intransigência” da Esquerda, é “dar cabo da Geringonça”. É melhor a especulação e a bolha no imobiliário, ter famílias despejadas, bullying a moradores idosos, segregação nas cidades com base no tamanho da carteira e, depois de culpar a real Esquerda, entregar o país à Direita ainda mais à direita, com o apoio de salazaristas e pinochetistas, para acabarem o trabalhinho iniciado pelo PS.

Salários reais com poder de compra que acompanhe a inflação? Nem pensar…
Leis laborais que acabem com a precariedade? Blasfémia… Promoção do sindicalismo (como o sistema Ghent dos belgas e dos nórdicos)? Ui, que escândalo…

Fechar o offshore da Madeira? Isso seria ser inimigo das empresas…
Medidas reais de apoio aos jovens trabalhadores? Não, o que é preciso é menos IRS para os bodes ricos…

Empresas estratégicas ou monopólios naturais nas mãos de um Estado soberano? Ora essa, o que é preciso é a Vinci ser dona da ANA, a Three Gorges ser dona da EDP, a Lufthansa ser dona da TAP, etc.

Acabar com a miséria das pensões baixas de forma a todos terem dignidade na velhice? Nah, o que é preciso é aumentos de 700€/mês para os juízes, essa classe recordista da produtividade…

E que tal transportes públicos gratuitos para todos os portugueses (em vez de só passes sociais para os das cidades)? Era o que faltava, ainda vamos mas é aumentar o IUC para quem tem carros velhos… Comprem Ferraris novos, se quiserem…

E pronto, fico-me por aqui no desabafo de hoje. E a última frase é o “Não têm pão? Comam brioches” das Marias Antonietas rosas. Como é que trastes destes algum dia podiam gostar do que quer que seja defendido pela real Esquerda? Só gostava de ter uma máquina do tempo para levar estes trastes para o meio da rua no pós-25 de Abril. Seriam os próprios socialistas de então a dar-lhes uma lição e a chamar-lhes fascistas. Ou, dito de outra maneira, se estes pêesses de hoje fossem levados para o Parlamento em 1979, teriam votado contra a Lei de Bases da criação do SNS ao lado da direita reacionária.

E algo me diz que estes “socialistas” de agora, tão amigos de UkraNazis e naZionistas, teriam estado também presentes na base das Lages ao lado de Barroso e da corja do império genocida ocidental (o imperador Bush, o sub-imperador Blair, e o vassalo Aznar), para apoiar a “operação militar especial” contra os “terroristas” do Iraque…

E um dia destes o querido líder A. Costa ainda acaba no tacho da Leyen ou no do Stoltenberg, ou o Centeno no tacho da Lagarde, a repetir a mesmíssima cartilha belicista NeoCon e fascista NeoLib a troco de uns bons dólares…

Mas, hei, não se esqueçam que a Esquerda real é que “deu cabo da Geringonça”… Onde é que já se viu, partidos pedirem meia dúzia das suas próprias medidas, a troco do seu voto no orçamento dos outros… Que “intransigência”, pá. O que é normal é um partido minoritário ter o direito divino a aprovar o seu, e só seu, orçamento sem negociar nada com ninguém… Democracia é o PS mandar e não se fala mais nisso, pá.

Realmente, Alfredo Borroso e Rui Tavares e companhia: “abaixo a Esquerda” e “abaixo a paz”, “viva a oligarquia, viva o batalhão Azov, vivam as IDF”, e “em nome dos EUA, da NATO, e do N€oLiberalismo, Amén”.

Noutra nota, é giro (sem ter graça nenhuma) ver que nem mesmo após uma prostituta (Isabel Pires) do BE ter ido a Kiev apoiar a ditadura UkraNazi e a genocida NATO, nem mesmo após a outra prostituta (Marisa Matias) ter dito sim às armas e mais armas, nem mesmo assim os do costume dão descanso ao BE. Pensavam o quê? Que iam ficar eternamente gratos ao BE e passar a tratá-lo como um dos colaboradores do regime? Passar a tratá-lo de forma mais positiva do que tratam os “malvados” do PCP? Se pensaram, enganaram-se redondamente. Vocês até podiam abrir sede permanente do BE em Kiev, que mesmo assim iam continuar a ser a “extrema-esquerda” “intransigente” e “irresponsável” que “deu cabo da Geringonça”, e que é melhor os portugueses substituírem-na pelo Livre. Isso, sim, é a “esquerda” que o regime gosta e que a NED financia. Mesmo que haja austeridade, fascismo, nazismo, guerra, etc, lá estão eles, prontos a ficar com o eleitorado do BE e a usar esses votos para aprovar orçamentos do PS a troco de nada.

Tudo o que descrevi é a morte do 25 de Abril, e Alfredo Barroso faz parte do grupo dos assassinos. Não é dos que dispararam os tiros, mas é dos que ficaram ao lado a ver.

E bastou-me uma só expressão “deu cabo da Geringonça” para saber isto tudo, pois revela tudo: 23 anos de €uro-ditadura, 4.5 milhões de pobres antes de apoios sociais, salários que não dão para arrendar uma casa em Lisboa. Abram as garrafas de champanhe! O objetivo foi atingido. A riqueza está toda novamente nas mãos só de alguns. Que se lixe o 25 de Abril, viva antes o 25 de Novembro. Que se lixe o Dia da Vitória a 9 de Maio, viva antes o Dia da Europa. E viva a CIA, viva o Bilderberg, viva Davos! Viva a Raytheon e viva a Lockeed Martin! Viva a BlackRock e viva o FMI…

E, nem um dia de luto, para os heróis da liberdade que derrotaram o Salazarismo. Pois claro, fizeram o que não estava nos planos. Sabe Deus o que tem custado aos rosas e laranjas andarem com os cravos na lapela a fazer de conta todos os anos…Tudo isto é o que eu vejo quando leio que a Esquerda real é que “deu cabo da Geringonça”.

Alfredo Barroso, a mim não me enganam mais. Destruam o país tanto quanto quiserem. Com morte lenta ou acelerada.

Ponham 90% do povo a pão e água.

Privatizem tudo. Mudem o nome para Portug-all S.A

Ilegalizem os sindicatos e as greves.

Censurem a TeleSur e o Avante.

Ponham o IRC a zero.

Reabram bairros da lata nas periferias das cidades.

E gastem 2 ou 3% do PIB a financiar a máquina de guerra genocida.

Chamem “intransigente” a quem pede salário para pagar as contas ao final do mês.

Chamem “moderado” a quem apoia Nazis.

Tirem a quem é pobre para dar a quem é banqueiro.

E se PS e PSD descerem ainda mais, deem a maioria absoluta a quem só tem 25% dos votos. Façam o que quiserem. F*odei-vos uns aos outros que a mim não me f*deis mais. Emigrei e não volto.


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Em torno das eleições e da perspetiva do que delas se pode esperar

(Júlio Marques Mota, in Blog in a Viagem dos Argonautas, 03/02/2022)

Houve eleições em Portugal. O centro político ganhou, o PS teve a maioria absoluta, o PSD aumentou o seu número de votos mas ao contrário do que previam as sondagens, sente-se derrotado porque na sua mira estava a vitória e esta fugiu-lhe redondamente. À esquerda do centro político, com este a ser definido por PS+PSD, a derrota foi total, o que, do meu ponto de vista, fragiliza e em muito o próprio PS, digam os militantes deste partido o que disserem. A derrota desta esquerda pode acelerar a marcha do PS para se transformar num PSD de gente maioritariamente mais culta. À direita desse centro político temos um partido que mais cedo ou mais tarde será uma réplica do PSD, a Iniciativa Liberal, e temos ainda essa monstruosidade que dá pelo nome CHEGA. Pelo meio disto, entre a esquerda e o PS temos o PAN e o Livre, por agora de muito pouco significado.

Olhemos para os votos das legislativas de agora contra os resultados anteriores:

  1. Centrão
 20222019
PS2 224 6371 866 511
PSD1 498 6051 420 644
Total3 723 2423 286 155

2. Esquerda Real

 20222019
CDU236 635 329 241
BE240 265 492 505
Totais476  900 821 746

À Direita do Centrão

 20222019
CDS  87 578216 454
CHEGA385 559  66 448
Iniciativa Liberal268 414  65 545
Totais741 551348 447

As duas variantes do que estará lateral ao Centrão, é o Livre e o PAN. O Livre representa a variante  culta e humanista da social-democracia no contexto dos Tratados europeus  e estará disponível à “fusão” com a componente mais polida do Centrão,  o PS, e gira em torno da gente mais à esquerda deste partido. A segunda  versão, o PAN, está mais virada para os direitos dos animais não humanos que queriam colocados na nossa Constituição e disponível para a fusão com qualquer uma das componentes do Centrão. Uma variante a perder votos da juventude a favor da Iniciativa  Liberal e do  Livre, penso eu.

 20222019
PAN82 250166 858
LIVRE68 975  55 660
Totais151 225222 418

Não vamos fazer nenhum artigo sobre as eleições. Apenas faremos esta breve nota. Sobre as eleições de agora escrevemos no final de Outubro e nada temos a acrescentar. Sublinhemos apenas um pormenor. Continuamos a admitir que a queda do governo foi um erro para a esquerda real que terá caído na ratoeira armada e isso viu-se. Tal como se previa, a campanha foi polarizada e com um certo ódio de Costa à esquerda. Na última semana a polarização foi extrema e as sondagens NÃO fabricadas aceleraram essa polarização com um  empate técnico. Curiosamente, mas muito curiosamente, Costa muda de agulha e mostra-se disposto a uma eventual geringonça que poderia ter o nome de geringonça ecológica, nome bem arranjado pelo LIVRE.

Estes dois dados levam à maioria absoluta de Costa, mas mais ainda, mostram que nada está perdido para a esquerda real. No quadro do medo instalado e da disponibilidade de Costa para a geringonça, levaram o povo de esquerda a votar conscientemente com os dados que tinha. Do meu ponto de vista isto foi mais uma armadilha. E, de resto, Costa não teve a dignidade política que teve Boris Johnson quando ganhou e reconheceu que ganhou com votos que não eram dele, eram do seu opositor, o Partido Trabalhista, eram votos de circunstância que ele tudo iria fazer para os conservar. A seguir, veio a mentira, não agiu em conformidade com o que disse. Dirá o povo, registe-se a intenção,. uma intenção que desta forma não foi vista em António Costa. A acreditar na esperança de Rui Tavares, talvez Costa tenha alguma simetria com Boris Jonhson, ou seja, não se ouve nas palavras mas vai-se ouvir nos factos, ao contrário de Boris Johnson que se ouviu nas palavras mas faltou no plano dos factos.

Pessoalmente, face a Rui Tavares, sou um descrente.

E porque sou um descrente, penso que se a esquerda real se mantiver no plano da defesa dos que trabalham e compensações não têm, dos que querem trabalhar e não têm, dos que têm direito a uma vida de trabalho decente e não têm, recuperará rapidamente os votos supostamente perdidos de vez nestas eleições.

Não alinho no discurso do meu antigo colega e amigo  Boaventura Sousa Santos e  de outros com posições equivalentes, bem fiéis à lógica seguida oficialmente pelo governo, que achava que a esquerda real se devia apagar para abrir a autoestrada da maioria absoluta ao PS e, agora, com o resultado na mão entende que a Catarina Martins se deve demitir. Não entendo, a não ser que se queira, por obscuros desígnios, a eliminação de quem mais fez frente à política de compromisso seguida pelo PS, o PC e o BE.

O centrão em eleições polarizadas como estas foram, tanto à direita como à esquerda, aumentou cerca de 437 mil votos, o que não me parece muito significativo, a não ser numa coisa: as pessoas têm medo da instabilidade e com PSD no poder sozinho poderia haver muita. Basta pensar que houve um acréscimo de eleitores ao nível global na casa dos 300 mil.

O que nestes valores é relevante é:

– a subida da direita racista e da direita ultraliberal, por um lado,

– e, por outro lado, o facto de que a esquerda real na situação de pânico criada deslocou cerca se 345 000 votos, teoricamente para o PS, e este partido aumentou o número de votos em cerca de 358.000 votos.

As contas feitas são simples de ver. Foi a esquerda real que deu a maioria absoluta ao PS! Que algumas pessoas de esquerda queiram agora a cabeça de Catarina Martins, depois de alcançarem a autoestrada da maioria absoluta que tanto desejavam, é coisa que não consigo entender.

Aliás, confirmou-se uma regra, já verificada noutros países, a de que em eleições polarizadas entre dois grandes partidos, perdem sempre os pequenos partidos que lhes estão mais próximos. O exemplo mais emblemático verificou-se no Reino Unido, em que o Partido Liberal fazia coligação com David Cameron. Houve depois eleições com uma disputa acérrima com os trabalhistas de Corbyn. Deu-se a polarização e os Liberais simplesmente desapareceram. Os seus eleitores deram o voto a Cameron com o medo dele perder. Aqui, em Portugal  aconteceu exatamente o mesmo. À esquerda do PS, BE e CDU são sacrificados porque muitos eleitores têm medo que ganhe a direita e passaram a votar útil no PS, deslocando o seu voto, e quanto a isto os números são significativos. À direita do PS, temos apenas o CDS como parceiro de apoio do PSD, uma vez que Chega e Iniciativa Liberal são assumidos intencionalmente como adversários. O CDS desapareceu e possivelmente com muitos dos seus votos a irem para o Rui Rio. De resto, nem é por acaso que Rui Rio não quis fazer coligação com o CDS, à espera disto mesmo!. Os militantes do CDS teriam medo que Rio não ganhasse com os “comunistas” do PS e terão deslocado o seu voto. Em contrapartida os outros dois partidos, o Chega de extrema-direita e Iniciativa Liberal de direita, tiveram dinâmicas diferentes. Por um lado, o Chega não tem nada a ver com o PSD que queria conquistar o centro, exatamente como o PS, e só tinha uma saída: manifestar-se ruidosamente contra o sistema político. Foi o que fez e resultou. A Iniciativa Liberal, gente de um outro nível, estaria disposta a negociar com o PSD , o que se viu no debate com Rui Rio, mas só depois de ter poder para negociar e para isso precisava de ter muitos mais votos. Dito de outra maneira, do ponto de vista de coligações e de que em eleições polarizadas perdem sempre os partidos que servem de apoio aos partidos candidatos ao poder, o Iniciativa Liberal e o Chega não faziam  parte dos partidos próximos do PSD.

Depois de conhecidos os resultados escrevi a um político experimentado das minhas relações dando-lhe conta dos meus receios dos resultados e escrevi o seguinte:

“Deixem-me dizer-vos que se o CHEGA tiver 4-5 deputados à altura e o mesmo se passar com a INICIATIVA LIBERAL o “barulho” será muito e talvez a Assembleia fique prisioneira da incapacidade da esquerda (com um e minúsculo) responder às necessidades do país. Um passaporte para o crescendo dessa direita nas eleições seguintes e aí o ruído será bem mais assustador. Mas assusta-se quem tem medo de que isso aconteça e eu tenho.

Esta é a minha perspetiva quanto à NOVA Assembleia e no pressuposto considerado destes dois partidos terem deputados de qualidade .

Resposta deste meu conhecido político experimentado:

“Caro Julio Mota

Deixa-me ver se entendi.

Preocupa-te, e assusta-te, o barulho que o CHEGA e a IL possam fazer e o que possam ganhar em eleições seguintes, caso a Assembleia fique prisioneira da sua incapacidade de resolver os problemas do País!

Explica-me o que te preocupa mais. O avanço do CHEGA e da IL ou a incapacidade da esquerda resolver os problemas do país, já que ligas um desenvolvimento ao outro. Isto porque para mim o que é preocupante, é, obviamente, o País e não o CHEGA ou a IL.”

A isto respondi:

“Entendeste. Tenho medo das duas coisas porque ambas estão ligadas, alimentam-se. Simples”

E obtive como resposta:

“Se é assim percebi, mas então comigo é diferente.

Eu não consigo intelectualmente pôr no mesmo plano a falência comprovada da esquerda nacional com o perigo potencial de duas forças políticas com 20 deputados em 230! A esquerda arruinou já a vida da maioria dos portugueses enquanto o CHEGA e a IL tiram o sono sobretudo a bloquistas e equiparados, ao partido mediático, e a intelectuais desligados da realidade!”

E fiquei por aqui. Não tenho dúvidas que a direita pura e dura irá continuar a crescer. Mais, sabemos que com a saída de vários deputados de qualidade, como José Manuel Pureza,  João Almeida, António Filipe  e outros, a qualidade dos tribunos irá, em geral, descer e com ela a qualidade do trabalho parlamentar. Se adicionarmos  que o Chega não terá deputados de qualidade, resta-lhe desencadear mecanismos  possíveis de bloquear o trabalho dos outros, a fazer obstrução sistemática na Assembleia e muito barulho, muito mesmo,  na rua, alimentando as forças de direita.

Esta dinâmica de contestação e de bloqueio funcionará a favor do Chega e não só,  uma vez que esse mal-estar será depois teorizado pela gente inteligente da Iniciativa Liberal e revertido também a seu favor, aumentando a sua atratividade face à juventude. Se levarmos também em conta a incapacidade mais que mostrada do PS em levar a cabo reformas sociais essenciais em termos do mercado de trabalho, saúde, ensino, carreiras profissionais em geral,  assim como em termos da  enorme gangrena que mina fortemente a sociedade portuguesa, podemos também a corrupção, podemos também assistir à forte contestação das classes sociais  vitimas da incapacidade da Administração em satisfazer os seus legítimos interesses,.   estaremos a criar um verdadeiro barril de pólvora. .   

Não vejo o PS capaz de contrariar esta tendência na sociedade portuguesa, vejo-o antes a ser capaz de se moldar a ela, o que é bem pior e que poderá levar à explosão do dito barril, o que acarretará  efeitos  económicos e sociais fortemente devastadores. Contrariar esta tendência  exige muito mais coragem política do que a que tenho visto: a de fraco com os fortes e forte com os fracos. Exige uma outra política que não a defesa sistemática das “regalias” alcançadas pela Troika a favor dos interesses de classe que esta sempre defendeu. Sobre essa outra política começámos hoje a publicar em A Viagem dos Argonautas uma série de artigos, cerca de 50, sobre a política do NEW DEAL e da coragem daqueles que animaram essa política: Nada a ver com o que se passa hoje.

E tomemos um exemplo. Na manhã de terça-feira telefona-me a minha neta a pedir que lhe explicasse a lógica subjacente do que vê nos seus amigos universitários, do que lê a circular nas redes sociais e tendo como autores muitos jovens universitários. E mostra-me vários exemplos do que se pensa na Universidade: Expliquei-lhe como pude. De uma das coisas que lhe falei foi da passagem do ensino gratuito a tendencialmente gratuito com Jorge Sampaio, que de tendencialmente gratuito se tornou ensino proibitivo. E depois da destruição do ensino superior com Bolonha, destruição tornada realidade com o PS.

Na  sequência da reforma de Bolonha, falou-se dos mestrados a vários milhares de euros e para quem? Uma política de classes é o que isto representa, expliquei-lhe,  e isto não tem nada a ver com socialismo. Tem a ver com a hierarquia de classes, a classe social dos que têm e a dos que não têm. E esta política de hierarquia de classes, não a vejo contestada por nenhum movimento estudantil. E sabes porquê, questionei eu? Não, foi a resposta. É simples, banalizas o ensino, a que chamas ensino de massas e, provocação das provocações, chama-se a isso Democratização do ensino.  

Com a reforma de Bolonha criou-se, isso sim, uma ralé universitária. Depois precisas de separar o trigo do joio, mas o trigo e o joio não são aqui o mérito e o demérito. Não, não. O trigo aqui é o dinheiro, o joio é a falta dele. E muitos dos jovens que escrevem o que tu me mostras fazem parte do grupo dos que podem pagar, mas isso para eles só é válido se muitos outros estudantes não puderem pagar. O dinheiro e a falta dele a estabelecerem o que é mérito e demérito. Por isso, estes dinamizadores de massas , não contestam nada disso. Diz-me, por exemplo, perguntei eu, se vês movimentos estudantis a manifestarem-se contra estes preços de ricos para mestrados quando as licenciaturas estão completamente desvalorizadas. De forma ainda mais simples, se vês movimentos estudantis a exigirem bolsas de estudo por mérito que não sejam apenas as propinas para aqueles que as mereçam.. Aliás, nem há já movimentos estudantis, acrescentei. E a rematar disse-lhe: vocês, em vez desse nojo de textos políticos, deveriam lutar por melhores condições de ensino, por um ensino que dignificasse tanto alunos como professores, por uma melhor inserção da juventude na sociedade em vez de serem sujeitos a serem tomados como párias a residirem numa cabana chamada desemprego de longa duração e isto e mesmo, em muitos casos, sem nunca adquirirem o direito a ter uma profissão condigna.

Aqui vão dois dos exemplos que foram com a minha neta analisados:

Exemplo 1.

Exemplo 2.

Temos 6 anos de governação do PS no Ensino Superior e o resultado dessa política sobre o ensino superior e sobre a juventude em geral está em muitos comentários como estes. Traduzem uma triste realidade, por um lado, a incapacidade do PS mudar seja o que for e por outro a incapacidade da nossa juventude em captar as razões de ser dessa imobilidade quanto opta por comentários destes e por ir votar no Chega ou na Iniciativa Liberal. A maioria dos jovens que conheço vota assim.

Por tudo isto, penso que se a esquerda real se mantiver firme e souber tirar as devidas conclusões sobre a dinâmica social que explica estes resultados rapidamente irá ter a força que perdeu neste domingo. O povo ao mudar o voto para o PS fê-lo como povo de esquerda, enganado, é para nós certo, mas terá sido assim. E uma coisa que o nosso povo já mostrou, é que tem memória, e que é capaz de fazer de uma derrota uma vitória. É o que esperamos, é o que desejamos, até porque um PS sem uma esquerda forte à sua esquerda torna-se um partido capturável pelos múltiplos interesses do neoliberalismo.

E em jeito de conclusão relembro aqui a posição de Pacheco Pereira,  que cito de memória, quando António Costa e esquerda “ganharam” contra Passos Coelho e a Troika em que terá escrito mais ou menos isto: foi bom que o PS tenha ganho e ganho com estes resultados, isto é sem maioria absoluta.


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