Bruno Carvalho na lista da morte da Ucrânia

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 21/10/2025)

Através da página Myrotvorets, a Ucrânia acusa-me de “tentativa de subverter a soberania e a integridade territorial da Ucrânia”, “violação deliberada da fronteira estatal da Ucrânia com o objetivo de infiltrar o território ucraniano” e “apoio à agressão russa e ao assassinato de cidadãos ucranianos”. Nesse sentido, considera que violei os artigos 110.º e 332-1.º do Código Penal da Ucrânia e divulga o meu nome com informações pessoais, como “inimigo da Ucrânia”, incluindo dados do meu passaporte. Naturalmente, isso põe não só em perigo o meu trabalho enquanto jornalista como deixa em evidência, uma vez mais, que as autoridades ucranianas não têm pudor em perseguir, prender ou matar jornalistas.

Importa recordar o que é o site Myrotvorets e como surgiu. Em Maio de 2014, morreu o primeiro jornalista na guerra civil que se começava a desenrolar na Ucrânia. Então com 30 anos, Andrea Rocchelli foi morto com o seu fixer, Andrei Mironov, pelas forças ucranianas em Sukhanivka, perto de Slaviansk, no Donbass. O nome do repórter fotográfico italiano apareceu então numa estranha página que emergia na internet pelas mãos dos ucranianos George Tuka e Anton Herashchenko, mais tarde conselheiro do Ministério da Administração Interna.

Com a autorização do ministro Arsen Avakov, a página Myrotvorets passou a listar de forma macabra os “inimigos da Ucrânia” e de cada vez que eram encontrados mortos a fotografia dos assassinados aparecia no site com a palavra “eliminado”. É dessa forma que está, ainda hoje, a fotografia de Andrea Rocchelli. O mesmo aconteceu no ano seguinte com o jornalista Oles Buzina e o deputado Oleh Kalashnikov mortos com um dia de diferença, em Kiev, na Ucrânia.

Arsen Avakov, um dos líderes do golpe de Estado que derrubou o presidente Viktor Yanukovych em 2014, tornou-se ministro da Administração Interna e anunciou que pela primeira vez este ministério passaria a contar com extremistas neonazis do Sector Direito. Durante os mais de sete anos que durou a sua experiência no governo ucraniano, a página Myrotvorets tornou-se numa verdadeira lista negra, quando não uma lista de morte, usada pelos serviços secretos ucranianos e outras forças militares ou paramilitares para dar caça aos seus integrantes.

Apesar de não aparecer com estatuto oficial, uma reportagem do The Times, em Janeiro de 2022, mostrava que a página é consultada com regularidade nos checkpoints e fronteiras ucranianas. Até esse momento, de acordo com George Tuka, na mesma peça jornalística, já tinham sido presas cerca de mil pessoas graças ao Myrotvorets.

No ano anterior, em 2021, sobre a aplicação do acordo de associação da União Europeia com a Ucrânia, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que, no seu ponto 73, lamentava “o agravamento do clima político no país, com o recurso generalizado à intimidação, ao discurso de ódio e à pressão política para fins políticos” e instava as autoridades ucranianas a condenarem “firmemente” e a proibirem “as atividades de grupos e sítios web extremistas que incitam ao ódio, como o Myrotvorets, que fomentam tensões na sociedade e utilizam indevidamente os dados pessoais de centenas de pessoas, incluindo jornalistas, políticos e membros de grupos minoritários”.

Em 2018, no mesmo ano em que entrei pela primeira vez no Donbass, a Alemanha exigia à Ucrânia que tirasse do ar o Myrotvorets, depois de o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder ter aparecido na lista. Então, o Ministério alemão dos Negócios Estrangeiros disse que “condenava veementemente a lista”, denunciando o ministro ucraniano Arsen Avakov de ter ligações aos administradores do site.

A verdade é que o Myrotvorets, onde estão também alguns portugueses, continua online com o amparo das autoridades ucranianas, pondo alvos em milhares e milhares de pessoas, muitos deles jornalistas, sem que a União Europeia e os restantes países que financiam a Ucrânia se tenham alguma vez preocupado em obrigar Kiev a tirar esta página do ar. Longe vai a resolução aprovada em 2021. Para Bruxelas, a palavra democracia é um conceito tão vazio como os valores europeus que apenas servem em função dos interesses de cada momento.

Se mais de duas centenas de jornalistas assassinados por Israel importam pouco ou nada, por que havia de importar uma lista negra montada pela extrema-direita ucraniana com o apoio de sucessivos governos de Kiev? A estratégia como sempre é uma: silenciar quem ousa mostrar o que há nos subterrâneos da mentira.

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Reflexão sobre a Guerra na Ucrânia (2)

( José Manuel Neto Simões, in Diário de Notícias, 20/02/2025)

Imagem gerada por IA

(Tendo a primeira parte do ensaio suscitado aqui um debate intenso sob a forma de comentários, segue-se a a segunda parte. Serão 6 partes, e só no fim ficarão visíveis (ou não) as omissões do autor. E tenha-se em atenção a data em que os textos foram escritos e publicados.

Parte 1 aqui.

Estátua de Sal, 21/10/2025)


A encruzilhada e os dilemas

O mundo está numa grave encruzilhada com o confronto geopolítico entre a Rússia e o Ocidente, utilizando a Ucrânia como palco da disputa de interesses, geoestratégicos, geoeconómicos e energéticos. Uma longa guerra impossível de vencer, ligada à conflitualidade disruptiva do Médio Oriente, onde se projeta as novas dinâmicas de poder de múltiplos atores globais. 

Por sua vez, a Ucrânia também tem estado numa encruzilhada multicultural, dividida entre a Europa e os laços históricos, culturais, económicos e até políticos com a Rússia. Os ucranianos veem seu futuro na UE, apesar do país ainda não cumprir os critérios de adesão. O conflito é também visto como parte da rivalidade geopolítica das grandes potências em perigosa deriva de soluções condenadas pela história.

O maior país com território exclusivamente europeu e importantes recursos naturais é um dos “estados-tampão” do espaço de influência geopolítica da Rússia, que a doutrina Primakov considera vital na fronteira de interesses para a sua segurança nacional. E é um pivô geoestratégico para os EUA pela localização do Mar Negro entre a Europa e a Ásia, no âmbito da negação da frota russa ao Mediterrâneo. 

Brzezinskiincentivava os EUA a dominarem a Eurásia com base na teoria do Heartland de Mackinder, mantendo a Ucrânia longe da Rússia. E foi profético em relação à crise na Ucrânia. Na linguagem geopolítica esses estados, entre duas potências, devem manter a neutralidade para garantir o equilíbrio estratégico. 

Contudo, os conceitos de fronteiras de segurança e fronteiras de interesses foram desvalorizados numa depreciação cínica das preocupações securitárias russas. Preocupações seletivas como se constata em outras geografias. A este propósito, Angela Stent que é muito critica de Putin, sublinha serem tão legítimos os interesses da Rússia quanto os do Ocidente e tem direito a uma esfera de interesses privilegiados. Aliás, como os EUA, cuja doutrina Monroe ainda não foi revogada como se viu com as intensões expansionistas de Trump.

Convém sinalizar, que o cientista político Mearsheimer foi apoucado pelos falsos moralistas, quando analisou as causas que levaram Putin – subestimado pelos EUA e UE -a desencadear uma guerra preventiva para manter a Ucrânia afastada da esfera de influência do Ocidente, tendo em conta as preocupações securitárias. 

A sucessão de erros de avaliação estratégica, refletiu-se na rejeição da abordagem racional dos EUA/NATO na gestão do dilema de segurança relativo à deficiente percepção das ameaças, do risco e paradoxos de segurança com falência do instrumento político-diplomático. Houve, de facto, avanço contínuo da NATO, apesar de garantias em contrário, como revelam documentos desclassificados “cascata de garantias”. O insuspeitoKennan, alertava que o erro fatídico da expansão da NATO para Leste conduzia à agressão da Rússia.

A política hostil em relação à Rússia não só a tornou inimiga dos EUA e aliados, mas também a levou para os braços da China com novos alinhamentos geopolíticos a desafiar a atual ordem mundial. Henry Kissinger dizia que diabolizar Putin e a Rússia revelava o fracasso da estratégia ocidental, tendo também alertado que os EUA deviam evitar a aliança entre a Rússia e a China. E o mesmo Kennan, referia, que a Rússia devia ser contida, sem ser excluída, como acabou por acontecer em relação à segurança europeia.

A deriva da Ucrânia para o Ocidente remonta às “revoluções coloridas”. A UE atraiu a Ucrânia para a sua esfera de influência através de um acordo de associação, em 2007, depois do regime ucraniano ter considerado a adesão à União Económica Eurasiática, promovida pela Rússia. Além disso, a Ucrânia recebeu um convite para integrar a NATO na Cimeira de Bucareste em 2008, tendo sido iniciado muito antes um Plano de Acção (2002), sem à data a Ucrânia abdicar da neutralidade, prevista na Declaração de soberania (1990) e na Constituição. Esta situação provocou profundas divergências na UE com forte impacto das relações entre a Rússia e Ucrânia.

Aquela condição imposta à Ucrânia para aderir à NATO impunha denunciar o Acordo de Kharkiv, entre a Ucrânia e a Rússia (2010) ratificado pelos Parlamentos. Esse Acordo vinha no seguimento do Tratado da frota do Mar Negro assinado em 1997entre Rússia e Ucrânia. Afinal quem violou o Direito Internacional?

Na opinião pública por desconhecimento ou incúria não são debatidos os factos ocorridos antes da anexação da Crimeia e as motivações relacionadas com a guerra civil no Donbass, que também estão na origem do conflito. A liderança russa nunca aceitou a mudança de regime e um governo hostil em Kiev, que impusesse a retirada da sua frota de Sebastopol e, consequentemente, do acesso ao Mar Negro e ao Mediterrâneo. 

Nas manifestações do Euromaidan promovidas com o apoio dos EUA e UE, estiveram muito activos o senador John McCain, o embaixador Geoffrey Pyatt e a subsecretária de Estado Vitoria Nuland. Os protestos geraram manifestações violentas, cuja investigação Ivan Katchanovski prova o envolvimento directo da extrema-direita ucraniana, que conduziu a um golpe de estado derrubando o presidente Viktor Yanukovych por ser pró-russo. Porém, os observadores (OSCE) atestaram a eleição justa e sem fraude e demonstração de democracia.

Convém dar nota, que as diferentes narrativas do massacre de Maidan e da mudança de regime na Ucrânia alimentaram a “agenda própria dos EUA contra a Rússia”, assumida pelo ex-director da CIA Leon Panetta. E complicaram a resolução pacífica dos conflitos na Crimeia, da guerra civil no Donbas. 

Entre as diversas fases dos conflito importa destacar o período conturbado da presidência de Zelensky, entre 2019 e 2021, com aumento das tensões com Moscovo, provocado pelos seguintes factos: não cumpriu a promessa de renegociar os Acordos de Minsk por pressão da ala militar com ligações à extrema-direita; ilegalizou partidos de esquerda. E promulgou decretos polémicos: supressão da língua russa e drones para atacar o Donbass. A UE manteve o silêncio cúmplice perante os atropelos à democracia e as purgas em Kiev.

É, pois, legitimo concluir que a complexa combinação de factores e manifesta incapacidade das lideranças ocidentais em lidarem com a Rússia como é, e não como gostariam que fosse, conduziu à encruzilhada em que se encontra a Ucrânia e a Europa. Isto aconteceu, porque a Europa tem sido a extensão do domínio dos EUA assente na sua política externa com base na doutrina da primazia global do excepcionalismo, que influenciou o quadro mental dos presidentes americanos desde a Guerra Fria. 

Biden é acusado de transformar o conflito na Ucrânia numa guerra de procuração, que pode “escalar para um conflito nuclear” ou guerra mundial, usando os ucranianos para enfraquecer e derrotar a Rússia. A fantasia dos que têm alimentado falsas expectativas à Ucrânia, que foi enganada ao abdicar do seu arsenal nuclear, pelos mesmos que a incentivaram a continuar a guerra com “as long as it takes. Zelensky corre contra o tempo que o tempo não tem, favorável a Putin que continua a explorar as fragilidades e desafiar o Ocidente.

A situação para a Ucrânia é terrível ao nível político-diplomático, estratégico e operacional, tendo perdido seis vezes mais território que em 2023. As suas forças armadas estão exauridas com uma nítida fadiga de guerra e até indiferença e falta de coesão dos governos ocidentais. O actual impasse pode conduzir a negociações ou ainda evoluir para o dilema estratégico de uma guerra existencial impossível de vencer entre os EUA que querem o fim da guerra, a Ucrânia apoiada pela Europa não aceita a derrota e a Rússia que não pode perder. 

Isto é, a Europa tem de pagar um preço muito elevado à Rússia pela invasão, mas sem a encurralar num perigoso beco sem saída, que o leve Putin à escalada. Talvez, por isso, alguns líderes europeus refiram que o conflito está a assumir proporções dramáticas e que se aproxima o desconhecido. O imprevisto espreita!

Em síntese, a tragédia ucraniana é o resultado da intensa disputa geopolítica entre a Rússia e o Ocidente. E traduz a forma negligente e ostensiva como os beligerantes e as coligações que os apoiam encaram as dimensões política, doutrinária, estratégica, informacional, legal e ética. 

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Reflexão sobre a Guerra na Ucrânia (1)

( José Manuel Neto Simões, in Diário de Notícias, 13/02/2025)

Refletindo sobre a guerra – Imagem gerada por IA

(Este é o primeiro de 6 textos que constituem um ensaio sobre a Guerra na Ucrânia. Um trabalho sério que trancende ambos os consabidos maniqueísmos quanto à justeza dos contendores: de um lado diz-se que houve um invasor e um invadido; do outro lado que houve um provocador e um provocado. Na verdade, são duas simplificações adequadas para os coros das claques das ambas as partes.

Estátua de Sal, 20/10/2025)


Caracterização do conflito

Este é o primeiro texto de um ensaio sobre a guerra na Ucrânia com uma reflexão critica e análise integrada – ferramentas do Intelligence- que procura ultrapassar as simplificações maniqueístas e minimizar o efeito das percepções inerente à “guerra de informação” dos conflitos, que alimentam a infobesidade mediática. E que vai além do campo de batalha não sendo possível abraçar o pensamento imposto dos detentores das verdades.

A lógica empregue pelas partes em conflito e a indústria da propaganda dos oráculos de sabedoria são uma perversão da “nobre mentira” como dizia Platão. Enquanto em Moscovo há omissão e desinformação, Washington procura, de forma subtil, influenciar as mentes, através de campanhas que impõem, por vezes, uma realidade apoiada por operações de informação e psicológicas clandestinas. Com efeito, há discursos que padronizam a opinião e disciplinam os alinhamentos sobre a guerra que está a destruir a Ucrânia.

A maior guerra, desde 1945, tem a sua génese no fim da Guerra Fria mal resolvido e resulta de uma longa crise de segurança na Europa, que envolve também a NATO, devido às péssimas opções de política externa dos EUA, à frágil política de defesa da UE e às imponderadas lideranças. Os EUA retiraram em fuga desordenada de Cabul, porque o aparelho militar do Afeganistão era necessário na Ucrânia.

As suas origens mais profundas, em rigor, são anteriores à chegada de Putin ao poder. Um conflito multidimensional com motivações existenciais e ondas de choque a nível internacional, tendo sido destruído um dos pilares do equilíbrio das potências nucleares ancorado no Tratado de Budapeste, violado com a inaceitável cumplicidade das potências que o subscreveram.

Esta guerra é uma aberração perigosa que podia ter sido evitada e representa um caso clássico de guerra por procuração, sendo crucial ter presente que o slogan “injustificada e não provocada” foi utilizado à exaustão como pilar da estratégia de comunicação dos EUA. Uma campanha sustentada em queixas -injustificadas na perspectiva do Ocidente-, que o Kremlin viu como provocação para iniciar a guerra contra a Ucrânia.

Há uma evidente ligação entre a invasão da Ucrânia e as condições do passado que ajudam a explicar a complexidade do conflito. E fazer um exercício racional para perceber as teses relativas às causas, com origem em múltiplas dimensões, que se interligam designadamente histórica, cultural, étnica, linguística, religiosa, geoestratégica, geoeconómica e energética. É inegável que há um invasor e nada justifica a violação do Direito Internacional. No entanto, não podemos ignorar a responsabilidade dos EUA/NATO e UE no conflito.

Para Moscovo a intervenção militar na Ucrânia é um desígnio identitário da defesa da comunidade Russkiy mir de milhões de russos deslocalizados com a implosão da União Soviética, cuja rutura cultural e etnolinguística não foi absorvida nos países do espaço pós-soviético. A complexidade da sociedade ucraniana, com divisões culturais e lealdades políticas fragmentadas, foram exploradas pelos projectos nacionalistas concorrentes.

reportagem revela a ampla parceria de Kiev com a CIA, que culminou com a instalação de um governo pró-ocidental na Ucrânia e mostra como Washington alimentou os receios de Moscovo. Complementando, a Newsweek detalha as operações clandestinas e abordagem incoerente dos EUA, que associado ao relatório de 2009 esclarecem o nível de manipulação na política interna ucraniana que viola a Carta da ONU.

A guerra evitável revela enormes desafios geopolíticos e fortes pressões sobre a segurança internacional e regional na Eurásia. E expõe a péssima gestão dos EUA/NATO do dilema de segurança relacionado com a instalação do sistema de mísseis balísticos (Aegis) no leste europeu e com a expansão da NATO até às fronteiras de segurança e fronteira de interesses da Rússia. Eisenhower alertou que, sem a retirada dos EUA da Europa, a NATO enfrentaria o risco de fracasso. Além disso, a democratização, vista pelo Ocidente como uma oportunidade geopolítica, é encarada pelo regime russo como uma ameaça direta.

A invasão da Ucrânia revela ainda o fracasso da estratégia de dissuasão ocidental. E a impotência do Ocidente para lidar com o conflito não é por ausência de capacidade militar ou económica. Reside em erros de avaliação estratégica e vários factores interligados: o envolvimento das maires potências nucleares; a fragilidade da defesa europeia; o deficiente diálogo estratégico; as dissensões nas lideranças políticas e a estratégia de comunicação incoerente. A questão difícil, nesta guerra insana, é como travar a escalada e encontrar o caminho da paz duradoura, que não seja a rendição da Ucrânia.

Importa sublinhar, que as regras da ordem liberal têm sido defendidas com hipocrisia e argumentação moral pervertida, consoante os interesses das grandes potências! Na verdade, já tinham sido violadas no ataque da NATO à Jugoslávia, sem mandato da ONU, que revelou não ser uma aliança defensiva assinalando o início do colapso da ordem internacional consumado em 2022. O Ocidente fragilizado deu argumentos à liderança russa.

Pela lente de Moscovo e da Igreja Ortodoxa, a Rússia não faz sentido sem a Ucrânia. Esta dimensão religiosa-ideológica é crucial para avaliarmos as motivações de Moscovo numa guerra que consideram existencial. E há ainda um carácter civilizacional na recuperação da esfera de influência, que visa recuperar o estatuto internacional. Os impérios nunca caem em silêncio e as potências derrotadas desenvolvem o revanchismo.

Na realidade, os documentos estratégicos e discursos de Putin enfatizam a necessidade do estatuto de grande potência, que na sua perspectiva foi humilhada pelo Ocidente. E a tentativa de recriar uma nova Rússia imperial reflecte o ressentimento russo à implosão soviética.

Assistimos, há duas décadas, ao confronto geopolítico pelo domínio da Eurásia por duas vias antagónicas – o atlantismo e o eurasianismo -, através de áreas de influência entre a Rússia e os EUA e pela reemergência da Rússia como potência eurasiática. A aproximação da NATO à Ucrânia e tentativa de negação ao Mar Negro, regiões estratégicas para a Rússia, agravaram os conflitos de interesses, ignorando alertas de reputados cientistas políticos, investigadores e historiadores.

Neste contexto, o confronto reflecte a disputa pelo reordenamento no antigo espaço soviético – a Rússia prossegue e o Ocidente contesta –, desafiando a ordem euro-atlântica estabelecida com o fim da hegemonia soviética sobre a Europa de Leste. O erro histórico residiu em ignorar a Rússia enquanto potência que se quer afirmar e a geografia lhe confere, mantendo a independência estratégica nuclear que limita o poder de Washington com a Europa resignada como palco preferencial das disputas entre as grandes potencias.

A guerra na Ucrânia é uma tragédia evitável que resultou de sucessivos erros de avaliação estratégica e dividiu lideranças dos EUA e europeias, com sério impacto na estabilidade europeia e global. E de sistemáticos bloqueios ao funcionamento da diplomacia. Os inúmeros avisos sobre os riscos da arrogância em relação à Rússia e da expansão da NATO, foram ignorados, tendo Fiona Hill alertado para acção militar russa preventiva.

A intervenção dos EUA e aliados na Ucrânia não pode ser dissociada das acções indirectas, que duram há duas décadas, desde a mudança de regime em Kiev à ajuda militar controlada com restrição gradual do uso do armamento. A forma como tem sido assegurado a ajuda pode ser considerada uma estratégia com táticas de salame. Isto é, um método de alcançar objectivos estratégicos com factos consumados, expandindo a influência através de acções calibradas para punir, mas evitar uma escalada maior.

As indecisões e debates com retórica incoerente, a falta de coesão entre aliados -em tempos tão apregoada- e a fragmentação política estão na origem da ausência de uma estratégia única da coligação internacional para a ajuda militar à Ucrânia, que enfraqueceu a eficácia. Isto acontece entre outros factores, porque há percepções divergentes sobre a ameaça em relação à Rússia e se a Ucrânia pode prevalecer.

Em síntese, o conflito é definidor das relações entre todos os actores do espaço euro-atlântico, numa nova (des) ordem mundial entre blocos assimétricos, constituindo o mais importante desafio estratégico das últimas décadas, cuja resposta só poderá ser político-diplomática.

Fonte aqui

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