O problema da Europa não se chama Rússia – chama-se Trump

(João Gomes, in Facebook, 06/01/2026)


Durante anos disseram-nos que o grande perigo para a Europa vinha do Leste. Um perigo frio, previsível, com fronteiras claras, tanques visíveis e discursos conhecidos. Chamava-se Rússia. E, de facto, a Rússia não é o problema. A Rússia não esconde no seu discurso sério, histórico e nada despiciendo aquilo que pretende. Não ser acossada!

Enquanto a Europa olha fixamente com medo de Moscovo, alguém do outro lado do Atlântico resolveu virar o tabuleiro, atirar as peças ao chão e declarar que o jogo agora é outro. Esse alguém chama-se Donald Trump. E o seu problema não é a Rússia, nem a China, nem o Irão. O problema de Trump é simples: as regras.

Trump não governa por tratados, governa por impulsos. Não acredita em alianças; acredita em negócios. Não respeita equilíbrios; respeita vantagens. Para ele, a política internacional não é um sistema de cooperação imperfeita – é um leilão permanente onde ganha quem ameaça melhor.

Começou com tarifas. Depois recuou. Depois avançou outra vez. Fez da economia uma arma e da instabilidade uma estratégia. Olhou para a NATO e viu um clube caro, não uma aliança defensiva, mesmo sabendo as vezes que foi usada para atacar outros. Olhou para a Ucrânia e viu uma fatura. Olhou para a Europa e viu um cliente obrigado a comprar armas americanas para resolver um problema que os EUA ajudam a prolongar.

No Médio Oriente, Trump ajudou a incendiar o que já ardia. Fez da Palestina um detalhe, de Israel um cheque em branco e do Irão um inimigo conveniente. Paz não era o objetivo; alinhamento era. O direito internacional? Um incómodo retórico, bom para discursos da ONU e pouco mais.

Depois fingiu aproximar-se da Rússia. Um acordo aqui, um aceno ali, uma conversa sobre divisões territoriais que nunca se resolve mas nunca desaparece. A Rússia já não se interessa de conversas ocas: avança com método e paciência clássica. Trump observa, negocia, ameaça – e deixa no ar a sensação de que tudo é transacionável, de fronteiras até terras raras.

E quando a Europa ainda tentava perceber se devia temer mais Moscovo ou Kiev, Trump apontou para a Gronelândia. Um território de um aliado da NATO. Falou como se fosse um imóvel à venda. Não era provocação: era coerência. Na lógica trumpista, aliados são úteis enquanto não atrapalham.

Virou-se para a Venezuela? Uma velha desculpa com nome novo: “controlo da droga”. O argumento é frágil, quase insultuoso. O objetivo é óbvio: petróleo, influência, sinal para outros. Cuba e Colômbia entram no discurso como ameaças a silenciar, não como parceiros a ouvir. O direito internacional transforma-se em ruído de fundo.

Olhou para a China como um adversário que tinha que abater com respeito? Mas a China faz o que potências pacientes fazem: observa. Sabe que quando um império começa a rasgar as próprias regras, não precisa de ser empurrado – cai sozinho, ou pelo menos enfraquece-se.

É aqui que a Europa e principalmente os dirigentes da União Europeia deviam parar de repetir slogans e começar a pensar. O verdadeiro risco para a segurança europeia não é um tanque russo a atravessar uma fronteira. É a possibilidade de o principal garante da ordem atlântica deixar de acreditar nela. É a política americana que substitui previsibilidade por chantagem, alianças por contratos, direito por força.

A Europa não precisa de mais armas. Precisa de autonomia política, coerência estratégica e, sobretudo, de se proteger de um “aliado” que já não se comporta como tal. Porque quando a potência que escreveu grande parte das regras decide ignorá-las, o sistema inteiro entra em colapso.

O problema da Europa não se chama Rússia. A Rússia é uma nação que serviu a Europa com a sua energia e que recebia pelo que vendia. Deixou de vender porque foi impedida pelas politicas que a sancionaram por pressão de quem – hoje – se exclui dos acordos. O problema da Europa chama-se Trump – ou, mais exatamente, o “trumpismo”: a ideia de que o mundo funciona melhor sem regras, sem compromissos e sem memória histórica.

E quando isso acontece, não é apenas a Europa que fica em perigo. É a própria ideia de ordem internacional que começa a desfazer-se – nó a nó.

Se a Europa não acordar deste pesadelo, poderá cair definitivamente da sua “cama” de conforto politico e encontrar-se num labirinto sem saída.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

As próximas 72 horas serão críticas para o mundo

(Ibrahim Majed, In canal do Telegram, Camille Moscow, 03/01/2026, Trad. Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Se os Estados Unidos conseguirem impor um controlo sobre a Venezuela e, por extensão, sobre as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, isso marcará uma viragem importante no equilíbrio das potências mundiais.

Tal medida não teria como objetivo restaurar a democracia ou proteger os direitos humanos, mas sim reafirmar o domínio estratégico sobre a energia, as rotas comerciais e as alianças regionais.

Nesse caso, o Irão provavelmente passaria a ser a principal prioridade estratégica de Washington.

Assegurar o controlo sobre o petróleo venezuelano reduziria a vulnerabilidade dos Estados Unidos às perturbações energéticas no Golfo e proporcionaria uma almofada contra os choques de abastecimento em caso de confronto com o Irão.

Com uma fonte alternativa confiável de petróleo pesado sob sua influência, Washington estaria em melhor posição para absorver ou compensar a destruição ou paralisação das infraestruturas energéticas no Golfo Pérsico em tempo de guerra.

Isso reduziria o custo económico da escalada e tornaria a pressão militar contra o Irão mais viável política e economicamente.

Ao mesmo tempo, tal controlo reforçaria a capacidade dos Estados Unidos de moldar os fluxos mundiais de petróleo e os preços, consolidando o papel central do dólar nos mercados energéticos e ajudando a preservar o sistema do petrodólar que sustenta o poder financeiro americano.

A Venezuela tornar-se-ia assim muito mais do que uma questão regional.

Tornar-se-ia um precedente estratégico, uma demonstração de que a pressão económica, a engenharia política e, se necessário, a força podem ser utilizadas para reestruturar Estados soberanos e realinhar o equilíbrio global de poder.

No entanto, se os Estados Unidos se envolverem na Venezuela e enfrentarem uma resistência sustentada, o resultado mudaria radicalmente.

Uma crise prolongada esgotaria o capital político, esticaria os recursos militares e económicos e enfraqueceria a capacidade de Washington de projetar o seu poder noutros locais, incluindo no Médio Oriente.

Isso também complicaria o planeamento estratégico israelita, intimamente ligado à influência regional americana.

O que está a acontecer na Venezuela não ficará restrito à América Latina. Isso moldará o futuro do controlo energético, os limites do poder americano e a orientação dos confrontos geopolíticos muito além de Caracas.

Dia Mundial da Paz – onde anda ela?

(João Gomes, in Facebook, 01/01/2026)


Hoje, 1 de janeiro de 2026, celebra-se o Dia Mundial da Paz. Uma data instituída pela Igreja Católica em 1967 e adotada por muitos como momento de reflexão sobre a harmonia entre povos. No entanto, ao olharmos para o mundo real, a pergunta impõe-se com ironia cruel: onde anda ela, essa paz tão proclamada?

A geopolítica atual expõe, sem pudor, como os interesses económicos e estratégicos alimentam conflitos permanentes. A guerra na Ucrânia continua a sua marcha lenta, com avanços russos mas custo de vidas, sustentada por equilíbrios de poder em que se envolve o ocidente. No Médio Oriente, apesar de cessar-fogo frágeis, as cicatrizes de Gaza permanecem abertas, com reconstruções que se transformam em oportunidades de negócio para empresas de armamento e construção, enquanto milhões vivem em precariedade. O Sudão mergulha numa guerra civil ignorada, onde recursos minerais e influências regionais (Emirados Árabes, Egito) prolongam o sofrimento. Em Myanmar, na Síria pós-Assad, no Sahel, gangs na América Latina – a violência fragmentada multiplica-se.

Estas lutas não são meros acidentes históricos. São, em grande parte, produto de um “estado realista” da natureza humana e das relações internacionais: a visão de que o mundo é uma arena de competição permanente, onde a segurança de uns exige a insegurança de outros. Recursos escassos – petróleo, terras raras, rotas comerciais, água – tornam-se pretextos para dominação. A indústria armamentista lucra com a instabilidade, vendendo armas a todos os lados. Potências emergentes desafiam o status quo não por justiça, mas por quota de poder. E os interesses económicos – contratos de reconstrução, acesso a mercados, controlo de cadeias de abastecimento – disfarçam-se de “estabilidade estratégica”.

Neste realismo cínico, a paz torna-se incómoda. Exige renúncia ao lucro imediato, ao controlo absoluto, à narrativa de inimigo eterno. Exige reconhecer o outro como irmão, não como ameaça. Mas o ser humano, na sua condição caída, inclina-se para o conflito como forma de afirmação. A história repete-se: impérios caem por excesso de ambição, povos sofrem por decisões tomadas em salas distantes.

Contudo devemos recordar que a paz não é ausência de conflito, mas presença ativa de bondade que desarma. Há sentinelas da paz: ativistas que arriscam a vida, diplomatas que tecem acordos frágeis, comunidades que reconstroem em meio às ruínas. A verdadeira questão não é se a paz existe – ela existe onde há perdão, diálogo, partilha. A questão é se estamos dispostos a desarmar os nossos próprios corações para a acolher.

Neste Dia Mundial da Paz, que a contradição nos desperte: enquanto o mundo se arma mais, escolhamos nós o caminho desarmante. Porque, no fim, a paz não se impõe pela força – vence pela persistência humilde de quem acredita que outro mundo é possível.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.