O Irão e a Armadilha de Tucídides

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 31/03/2026)


O preconceito e a sobranceria ideológica impediram os responsáveis militares norte-americanos e israelitas de perceberem o grau de preparação de Teerão para a guerra. Só isso explica a ingénua convicção numa derrota fácil e rápida do Irão.


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O comportamento do presidente Donald Trump no seu segundo mandato traz-nos à memória a Armadilha de Tucídides, um conceito geopolítico desenvolvido por Graham Allison, em 2015, que descrevia o risco estrutural de uma guerra ocorrer quando uma potência emergente ameaça superar a potência consolidada. O receio da potência dominante ser suplantada pela potência desafiadora da Ordem gera tensões que descambam muitas vezes em guerras, algo que Allison observou em 12 dos 16 casos por ele estudados.

Na altura, Allison questionava se a China e os Estados Unidos conseguiriam escapar à Armadilha de Tucídides. Segundo ele, “tendo em conta a trajetória atual, uma guerra entre os EUA e a China nas próximas décadas não é apenas possível, como é muito mais provável do que se possa neste momento imaginar.”

Em 2012, durante a Administração Obama, a então secretária de estado Hillary Clinton veio falar, pela primeira vez, no “pivô para a Ásia” passando a considerar a China como a principal ameaça securitária dos EUA, e, como tal, a prioridade da política externa das Administrações que se lhe seguiram, travestida de várias nuances discursivas.

Em 2017, a RAND Corporation publicou um relatório sobre uma guerra entre os EUA e a China, atribuindo a vitória aos primeiros, assumindo que esta não evoluiria para o patamar estratégico nuclear. Há 10 anos o resultado poderia, eventualmente, ser esse, hoje seguramente que não o será, mesmo contando Washington com a preciosa ajuda dos aliados no sudoeste asiático. Os EUA seriam incapazes de manter uma guerra de alta intensidade prolongada, no Pacífico ocidental, um Teatro de Operações a mais de 10 mil quilómetros da sua costa oeste.

Os estrategos norte-americanos sabem que foi perdida a oportunidade de os EUA infligirem uma derrota militar à China. A forma de a submeterem à sua vontade tinha de ser agora revista. A ameaça sistemática do uso da força para obrigar à genuflexão de Pequim tinha-se tornado anacrónica. A nova estratégia passava por quebrar a entretanto formada coligação anti hegemónica russo-chinesa degradando, em primeiro lugar, as capacidades do seu elo mais fraco, o que exigia uma mudança de regime em Moscovo, e colocar no poder segmentos da elite russa favoráveis a novas alianças e parceiros estratégicos.

Essa operação desenvolveu-se em três frentes, com a Ucrânia a desempenhar um papel crucial nesse projeto. É, segundo este prisma, que se devem interpretar os acontecimentos instigados por Washington na Ucrânia, no século XXI – a revolução laranja, em 2004, e o golpe de estado de Maidan, em 2014, que derrubou um presidente democraticamente eleito –, para colocar no poder atores hostis a Moscovo.

Esses desenvolvimentos criaram as condições objetivas e subjetivas para a invasão, primeiro da Crimeia, ainda em 2014, e da própria Ucrânia, em fevereiro de 2022, empurrando a Rússia para uma guerra de atrito indesejada. Passados quatro anos de guerra, Washington ainda não conseguiu exaurir a Rússia nem colocar uma “Delcy Rodriguez” no Kremlin. Em vez de criar brechas nessa coligação, as ações de Washington reforçaram-na, transformando-a numa parceria estratégica.

A execução desse projeto hegemónico não corria bem a Washington. No seu primeiro mandato, Trump adotou políticas comerciais agressivas contra a China, que o seu sucessor Joe Biden não revogou. No seu segundo mandato, Trump voltou à carga de um modo muito mais assertivo, tentando sem sucesso dobrar a China recorrendo a uma ofensiva tarifária sem precedentes.

Mas havia ainda uma modalidade de ação por explorar. Frustrada a hipótese de provocar uma divisão entre a China e a Rússia e bater os seus opositores por partes, restava ainda a Washington a possibilidade de jogar a cartada iraniana. Em colaboração com Israel, podia atuar sobre o terceiro pilar da aliança anti hegemónica, tremendamente fustigado por décadas de sanções.

Lembremo-nos do que escreveu Brzezinski: a maior ameaça à hegemonia norte-americana é a criação de uma aliança anti hegemónica China-Rússia-Irão, que, por sinal, se encontrava em fase de consolidação. Seria uma tremenda vitória estratégica para Washington colocar o Irão na sua área de influência, um país decisivo para as estratégias chinesa e russa. Uma mudança de regime em Teerão constituiria uma estocada demolidora nessa aliança anti hegemónica. Se conseguisse isso, não só infligiria uma derrota estratégica à China e à Rússia, como Washington se colocaria numa posição de extrema vantagem na competição pelo lugar cimeiro na Ordem Mundial. Abriria as portas ao regresso à unipolaridade com um centro a decidir tudo, como aconteceu após a implosão da União Soviética.

Os EUA tinham agora pela frente uma aliança desafiadora da sua posição dominante cujas partes, com diferentes capacidades estratégicas, representavam isoladamente desafios distintos. Se no caso da China as ferramentas empregues pelos EUA não tinham até agora passado pela confrontação militar direta – o uso da força contra a China tinha-se tornado algo razoavelmente impensável –, já o mesmo não se poderia dizer relativamente à Rússia, sujeita a confrontação militar indireta através do proxy ucraniano, que apoiavam e apoiam militarmente, e direta contra o Irão.

O futuro do conflito militar com o Irão é cada vez mais incerto, encontrando-se a vitória militar de Washington cada vez mais distante. Os ataques do Irão obrigaram as forças norte-americanas a abandonar as suas bases no Médio Oriente. O preconceito e a sobranceria ideológica impediram os responsáveis militares norte-americanos e israelitas de perceberem o grau de preparação de Teerão para a guerra. Só isso explica a ingénua convicção numa derrota fácil e rápida do Irão.

O Irão iniciou a preparação para o embate em curso há quatro décadas. Começou em 1984, ainda durante a guerra com o Iraque, quando enviou treze oficiais à Síria aprenderem sobre algo que ninguém lhes iria vender, dando início à criação, a partir do zero, de uma capacidade balística própria, recorrendo primeiro à reversão tecnológica para posteriormente se lançar em programas de investigação e desenvolvimento envolvendo as universidades.

Os desenvolvimentos no campo de batalha após quatro semanas de guerra, cada vez mais desfavoráveis à aliança israelo-americana, levantam duas interrogações incontornáveis. Qual será a reação de Trump quando, sem espaço para recuar, não lhe for mais possível escamotear a derrota estratégica e a sua ambição hegemónica ficar irremediavelmente comprometida pela aventura militar contra o Irão? Qual será a resposta de Netanyahu quando se convencer de que vai sair derrotado desta confrontação, tendo em conta que não é um ator político racional e que guia a sua ação por princípios escatológicos?

A conjugação de um decisor pueril e imaturo, em Washington, com outro motivado pela inspiração divina, em Telavive, cria um caldo explosivo propício a uma confrontação generalizada. Não será por acaso que já surgem no espaço público comentadores associados à embaixada de Israel a advogarem abertamente o bombardeamento nuclear do Irão.

Se analisada de um outro prisma, a Armadilha de Tucídides pode ajudar-nos a entender melhor o momento em que nos encontramos, não da confrontação direta entre a potência dominante e a potência desafiadora, mas da sua antecâmara. A dimensão dos danos reputacionais e geoestratégicos da previsível derrota norte-americana poderá ser inaceitável para Washington e, por acréscimo, para Telavive. Esta situação e a conhecida ausência de racionalidade destes dois atores coloca em cima da mesa a probabilidade de apostarem numa solução de soma negativa. Perante a ameaça que isso colocará à humanidade, não deixa de surpreender a passividade de certos atores internacionais face à eventualidade de um desfecho dramático para todos.


Dubai, cidade fantasma com a guerra no irão – o mundo da fantasia evaporou-se

(In Página Fórum da Escolha, in Facebook, 30/03/2026, Revisão da Estátua)


As evidências visuais são inegáveis. Supercarros de luxo abandonados no Aeroporto do Dubai. Mansões de 10 milhões de libras vazias, piscinas a ficarem verdes. Arranha-céus no centro da cidade com 30% de desocupação, visível até à noite. Isto não é propaganda. Esta é a realidade de março de 2026:

  • 15.000 carros de luxo abandonados nos parques de apreensão de Sharjah
  • Mansões vazias à venda em Emirates Hills Palm
  • Centro do Dubai com 30% de desocupação e luzes apagadas
  • Tarifas com 70% de desconto no Atlantis Burj Al Arab
  • Lojas do Dubai Mall a fechar, fluxo de visitantes semanalmente a cair 40%
  • Passageiros no aeroporto a cair 45%
  • Chegada de turistas a cair 60%

Os números: Turismo em queda de 8 mil milhões de libras. Ocupação hoteleira abaixo dos 30%. Mercado imobiliário em queda de 30-40%. 85.000 empregos perdidos no primeiro trimestre de 2026. Os preços dos alimentos aumentaram 45%. 47.000 britânicos abandonaram o país. Empregos caíram 70%. 2,8 mil milhões de libras voaram para o Reino Unido.

Porque é que o dia 28 de fevereiro mudou tudo: Os ataques EUA-Israel no Irão desencadearam um êxodo em massa. O Estreito de Ormuz fechou, reduzindo 20% do fornecimento global de petróleo. A Embaixada britânica evacuou famílias pela primeira vez na história. Escolas registaram 25% de desistências de britânicos. Os seguros não cobrem o Médio Oriente. A perceção de segurança foi destruída.

O Cemitério de Carros de Luxo: Ferrari, Lamborghini e Porsche deixaram os parques de estacionamento dos aeroportos. Os expatriados fugiram sem conseguir vender os seus carros. O mercado caiu a pique 40% a 50% em algumas semanas. A lei dos Emirados Árabes Unidos reteve os carros até que os empréstimos sejam pagos. Concessionárias recusaram-se a recomprá-los. Há um vídeo viral no Instagram. Símbolo visual do pânico e do êxodo.

A realidade das mansões vazias: Mansões de 5 a 10 milhões de libras à venda por toda a parte. Cidades fantasma em Emirates Hills. Propriedades em Palm Jumeirah sem compradores. Piscinas a ficarem verdes, funcionários despedidos. Perdas enormes para os proprietários britânicos. Mercado congelado, sem transações. Os anúncios de imóveis aumentaram 300%. Oferecem um ano de renda grátis. Ninguém compra, apenas aluga.

Quem partiu: 47.000 britânicos deixaram o Dubai entre 2024 e 2025. 1.200 pedidos de emergência por mês. Famílias a dar prioridade à segurança em vez do dinheiro. Escolas a fechar. WhatsApp a coordenar partidas. 2,8 mil milhões de libras de volta para o Reino Unido. O sonho britânico do Dubai acabou.

Morte do Turismo: Turistas do Médio Oriente SUMIRAM. Sauditas e emiratis a evitar a cidade. Chineses cancelaram viagens. Indianos desapareceram. Europeus a optar pelo Mediterrâneo. Britânicos a alegar segurança. Americanos a evitar a cidade. Companhias aéreas a cortar rotas. Base principal perdida.

Queda Livre dos Hotéis: Desconto de 70% no Atlantis. Disponibilidade sem precedentes no Burj Al Arab. Jumeirah com menos de 30% de ocupação. Cadeias de hotéis económicos a fechar. Despedimentos de 40%. Construção paralisada. Investimentos retirados. Ski Dubai vazio. Global Village reduzido para metade. A pior crise de sempre.

Apocalipse do Retalho: Encerramento semanal do Dubai Mall. Emirates vazia durante a semana. Fantasma de Ibn Battuta. City Walk parcialmente encerrada. Marcas de luxo vazias. Souk do Ouro silencioso. Compras mortas. Restaurantes desertos. Michelin a fechar.

Armadilha da Dívida: Incumprimento disparando. Atrasos nos pagamentos a aumentar. Ameaça de prisão por dívidas. Bancos a exigir o pagamento de empréstimos. Expatriados a fugir das dívidas. Processos judiciais a forçar a saída.

2008, só que pior: Padrões semelhantes. Burj Khalifa vazio. A recuperação demorou 6 a 7 anos. Mas 2008 era financeiro. 2026, segurança existencial. Fora de controlo. Mais longo, mais profundo e permanente.

Concorrência Saudita: Lançamento da Visão 2030. Qiddiya do Mar Vermelho em curso. Investimentos a fluir para a Arábia Saudita. Pacotes competitivos. Trabalhadores a migrar. Mudança de poder. Dubai a perder para sempre.

Propaganda vs. Verdade: O Governo alega normalidade. As estatísticas contradizem as evidências. Comunicação social estatal com imagens antigas. Mas o TikTok, o Instagram e o YouTube mostram a realidade. Carros abandonados, centros comerciais vazios. Conteúdo do utilizador permanente. Não se pode esconder a verdade visível.

O que vem a seguir: Melhor cenário: Recuperação entre 2028 e 2030, Se o conflito terminar. Provável: Estagnação durante 5 a 10 anos. Pior cenário: Declínio permanente. Redução da população para metade. O turismo jamais se recuperará. Valores 40-50% mais baixos. Fim da era dourada.

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Hoje é ontem: do Suez a Ormuz, da Hungria a Taiwan

(Por Cem Gürdeniz, in Reseau International, 29/03/2026, Trad. Estátua)


O ano de 1956 marca uma viragem decisiva na geopolítica moderna. A crise do Suez teve início a 19 de julho de 1956, quando os Estados Unidos retiraram o financiamento à barragem de Assuão, no Egito. A situação agravou-se a 26 de julho, quando o líder revolucionário egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal do Suez. A Grã-Bretanha e a França perceberam esta decisão como uma ameaça direta aos seus interesses. Na realidade, foi o capital financeiro que entrou em pânico, pois o canal é uma via de comunicação essencial para o comércio mundial.

Israel foi o elemento que desencadeou a intervenção no Suez em 1956. Após a chegada de Nasser ao poder em 1954, a marinha britânica retirou-se do Egito, reservando-se, no entanto, o direito de regressar em caso de crise. A Grã-Bretanha não aceitava uma perda total de controlo. Consequentemente, a decisão de Nasser foi vista como uma ameaça tanto estratégica como simbólica.

Os esforços diplomáticos realizados entre agosto e outubro de 1956 fracassaram. Entre 22 e 24 de outubro, a Grã-Bretanha, a França e Israel chegaram a acordo sobre um plano anfíbio secreto em Sèvres, perto de Paris. Israel não era um interveniente secundário, mas sim a ponta de lança das operações. Como a Grã-Bretanha e a França não dispunham da legitimidade internacional necessária para atacar diretamente o Egito, Israel desencadeou a guerra ao atacar a península do Sinai a 29 de outubro de 1956. Posteriormente, a Grã-Bretanha e a França intervieram sob o pretexto de separar as partes beligerantes e de proteger o canal.

Convém igualmente notar que Israel se tornou, de facto, uma potência nuclear por volta de 1967, embora nunca o tenha reconhecido oficialmente. As bases desta capacidade foram lançadas no final da década de 1950, imediatamente após a crise do Suez de 1956. Esta crise favoreceu uma aliança estratégica entre Israel e a França. Preocupada em contrariar a influência de Gamal Abdel Nasser na Argélia, a França aceitou fornecer a Israel uma ajuda nuclear crucial, nomeadamente o reator de Dimona e as tecnologias necessárias à produção de plutónio. Paralelamente, Israel retirou uma lição fundamental desta crise: não podia contar com as grandes potências, incluindo os Estados Unidos, para a sua segurança absoluta. Esta conjunção — a transferência de tecnologia francesa e um sentimento acrescido de isolamento estratégico — levou Israel a desenvolver uma capacidade de dissuasão nuclear independente. Nesse sentido, a crise do Suez não foi apenas um conflito regional; constituiu o ponto de viragem decisivo que permitiu a Israel alcançar o estatuto de potência nuclear.

Estudos académicos e memórias demonstram claramente que Israel assumiu conscientemente o papel de primeiro agressor e desencadeou a operação militar de 1956. A crise não foi um conflito tripartido espontâneo, mas uma intervenção coordenada, cujo cerne era a geopolítica israelita. Israel entrou no Sinai a 29 de outubro, a Grã-Bretanha e a França lançaram ataques aéreos a 31 de outubro e os desembarques ocorreram em Port Said entre 5 e 6 de novembro.

Reação de Eisenhower

O presidente americano Dwight Eisenhower opôs-se firmemente à intervenção, levada a cabo sem o informar. Considerava que esta enfraquecia o bloco ocidental e aproximava os novos Estados independentes da União Soviética. O primeiro-ministro Anthony Eden, confiante na vitória militar, resistiu inicialmente.

Os Estados Unidos exerceram pressões financeiras, restringindo o fornecimento de petróleo e bloqueando o apoio do FMI. A libra esterlina foi fortemente afetada. Consequentemente, foi declarado um cessar-fogo a 6 de novembro. A Grã-Bretanha e a França retiraram-se em dezembro, e Israel abandonou o Sinai em março de 1957. Em poucos dias, o poder imperial britânico desmoronou-se, não militarmente, mas financeiramente, sob a pressão americana.

A oportunidade húngara e soviética

Paralelamente, a revolta anticomunista na Hungria, que teve início a 23 de outubro de 1956, ofereceu uma oportunidade estratégica à União Soviética. O primeiro-ministro Imre Nagy iniciou reformas, orientou-se para um sistema multipartidário e anunciou a retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia.

A 4 de novembro, pouco antes do desembarque franco-britânico em Port-Saïd, as forças soviéticas entraram em Budapeste com uma força esmagadora e reprimiram a revolta. Nagy foi posteriormente executado. Enquanto as Nações Unidas se concentravam no Suez, a crise húngara passou para segundo plano. O Ocidente, dividido, foi incapaz de reagir eficazmente.

Este acontecimento simultâneo revelou uma verdade geopolítica fundamental: as fraturas num domínio criam oportunidades noutro. Eisenhower ficou particularmente indignado com esta situação. A Grã-Bretanha dispunha das capacidades militares necessárias para prosseguir o esforço de guerra, mas não os recursos financeiros. A 9 de janeiro de 1957, Eden demitiu-se.

O declínio da Grã-Bretanha

O declínio da Grã-Bretanha foi progressivo. No século XIX, a libra esterlina dominava o comércio mundial. No início do século XX, os Estados Unidos tinham ultrapassado a Grã-Bretanha em termos de produção. Duas guerras mundiais deixaram Londres fortemente endividada.

Embora a Marinha Real Britânica ainda fosse poderosa em 1945, a sua força declinou rapidamente devido a restrições económicas e à sua dependência dos Estados Unidos. Já em 1956, já não conseguia operar de forma independente. Em 1971, a Grã-Bretanha retirou-se para leste do Canal do Suez, cedendo posições estratégicas à Marinha americana e pondo assim fim ao seu domínio marítimo mundial.

Hoje é ontem: a crise de Ormuz

Setenta anos depois, uma rutura sistémica semelhante ocorre durante a crise de março de 2026, centrada no estreito de Ormuz. Enquanto a Guerra do Golfo entra na sua quarta semana, o estreito de Ormuz está praticamente bloqueado. O custo desta guerra para os Estados Unidos ultrapassa os 30 mil milhões de dólares.

Normalmente, cerca de 140 navios transitam diariamente por este ponto. Agora, apenas alguns conseguem passar. Este ponto estratégico gere cerca de 20% do comércio mundial de petróleo. Estas perturbações provocaram uma escassez do abastecimento físico.

O forte aumento dos preços da energia tem repercussões na produção de fertilizantes, na agricultura, na indústria e na fabricação de semicondutores. Os riscos para a segurança alimentar multiplicam-se rapidamente.

A 15 de março, os Estados Unidos retiraram 172 milhões de barris das suas reservas estratégicas de petróleo, reduzindo os seus stocks para cerca de 243 milhões de barris. Com um consumo diário de cerca de 20 milhões de barris, esta quantidade cobre apenas cerca de doze dias. Em 2009, os stocks ascendiam a 727 milhões de barris.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos enfrentam crises orçamentais e uma dívida crescente que ultrapassa os 40 biliões de dólares. Os juros anuais rondam os mil milhões de dólares. Um pedido adicional de 200 mil milhões de dólares para a defesa sublinha o caráter insustentável desta trajetória. A incapacidade de aprovar orçamentos internos ao mesmo tempo que se aumentam os compromissos militares externos revela um profundo desequilíbrio institucional.

Paralelamente, a China e os países do Golfo estão a reduzir as suas reservas de obrigações americanas, sinal de uma erosão do estatuto do dólar como moeda de reserva, à semelhança do declínio observado anteriormente na Grã-Bretanha.

A Marinha dos EUA em declínio

O verdadeiro poder dos Estados Unidos reside no dólar e na sua marinha. No entanto, estes dois trunfos estão enfraquecidos. As suas forças terrestres são insuficientes para inverter a situação no estreito de Ormuz. Embora os dois grupos aeronavais tenham um impacto psicológico, carecem de poder concreto. O grupo aeronaval do porta-aviões USS Abraham Lincoln não pode aproximar-se da costa devido à intensa ameaça representada pelos mísseis e drones de combate iranianos. Os problemas não terminam aí para o USS Gerald R. Ford, que permanece longe da costa saudita devido à ameaça que representam os houthis em Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho. O incêndio a bordo, que durou 30 horas, foi mantido em segredo. O navio regressa a Creta, onde tinha feito escala para inspeção e reparações.

No Pacífico, o porta-aviões USS Ronald Reagan encontra-se em manutenção, o USS Tripoli e a sua unidade de reabastecimento, a 31.ª Unidade Expedicionária dos Fuzileiros Navais (MEU), abandonaram a zona, e pelo menos quatro contratorpedeiros foram redirecionados para outras zonas de missão. Consequentemente, o número de navios de superfície norte-americanos a operar permanentemente no Pacífico caiu para um nível crítico. Este quadro mostra claramente que os Estados Unidos, que dispõem de 292 navios (dos quais 233 navios de combate), mas apenas 104 navios (dos quais 75 navios de combate) operacionais em 2026, são incapazes de mobilizar forças suficientes em duas frentes simultaneamente. O Corpo de Fuzileiros Navais, com cerca de 2500 homens, está longe de garantir a dissuasão face a um país como o Irão, que conta com cerca de 85 milhões de habitantes e um vasto território. Além disso, o 11.º Corpo de Fuzileiros Navais, que partiu de San Diego a 20 de março de 2026, chegará ao Golfo três semanas mais tarde. Mesmo que estes dois grupos de fuzileiros navais unissem as suas forças, o impacto militar seria mínimo. Pelo contrário, as baixas americanas seriam mais elevadas do que o previsto.

Por outro lado, a ausência de uma reação firme ao apelo de Washington, solicitando à NATO e aos seus aliados asiáticos que enviassem navios para o Golfo e abrissem o estreito de Ormuz, demonstra que essa transformação já está em curso. Assim, uma verdade fundamental das relações internacionais revela-se mais uma vez: os Estados não têm amigos permanentes, mas interesses permanentes. Todos estes acontecimentos confirmam o aviso lançado por Colin Powell ao Iraque em 2002, aplicado à escala mundial: «Quem quebra a ordem é responsável por ela». Se uma ordem é perturbada pela força bruta, a responsabilidade pelo caos resultante deve também ser assumida. A atual crise em Ormuz demonstra que este princípio se aplica agora à escala planetária.

Risco de crise no Pacífico Ocidental e em Taiwan

A crise do Estreito de Ormuz afeta particularmente a região indo-pacífica. Os países importadores de energia, como a Austrália, o Japão e a Coreia do Sul, serão fortemente afetados, enquanto os exportadores, como a Rússia, beneficiarão de preços mais elevados. A crise gera um lucro de 150 milhões de dólares por dia para a Rússia desde o levantamento das sanções de Trump. Paralelamente, os países cuja segurança energética está ameaçada procurarão rapidamente estabelecer novas alianças.

A situação deteriora-se ainda mais na península coreana. Enquanto os Estados Unidos transferem elementos dos sistemas THAAD e Patriot da Coreia do Sul para o Médio Oriente, a Coreia do Norte realizou na semana passada novos testes com mísseis balísticos. Além disso, parece que os mísseis de cruzeiro lançados a partir de contratorpedeiros recentemente colocados em serviço são capazes de transportar ogivas nucleares. Estes desenvolvimentos indicam um enfraquecimento do sistema de defesa antimíssil americano no Pacífico e uma fragilidade da arquitetura de dissuasão regional. De acordo com um artigo do Financial Times publicado a 21 de março de 2026, o recurso intensivo aos mísseis de cruzeiro Tomahawk e aos intercetores de defesa aérea Patriot SM durante operações na Ásia Ocidental é igualmente necessário para defender Taiwan e enfrentar as forças chinesas logo no início de um conflito. O artigo salienta, no entanto, que as capacidades de produção americanas são limitadas e que o fabrico destas munições poderá demorar meses, ou mesmo anos.

Por isso, a pressão exercida pela China sobre Taiwan não decorre apenas das suas próprias capacidades, mas também da falta de atenção e de recursos por parte dos Estados Unidos. Estes últimos esforçam-se por manter um equilíbrio em várias frentes simultaneamente. Enquanto a administração Trump tenta obter resultados positivos com Cuba, a China aumenta progressivamente a sua pressão militar em torno de Taiwan. Durante a segunda semana de março de 2026, mais de 40 caças e mais de 10 navios de guerra operaram em torno de Taiwan em apenas 24 horas. Não se trata de um exercício temporário, mas de uma doutrina de contenção permanente. Quando os soviéticos intervieram na Hungria em 1956, o Ocidente viu-se incapaz de reagir.

O modelo que a China está a implementar hoje em torno de Taiwan poderá conduzir a um resultado semelhante. No entanto, desta vez, a diferença é mais acentuada. A China não é apenas uma potência militar, mas também um ator chave na construção de sistemas de produção, comércio e finanças. Até 2025, possuirá a maior força militar do mundo, e o seu peso na produção mundial acelera esta transformação. Em 1956, os Estados Unidos eram a potência hegemónica em ascensão, a Grã-Bretanha uma potência em declínio e a União Soviética a potência regional dominante. Em 2026, a China é uma potência hegemónica emergente, os Estados Unidos são a potência hegemónica atual e Taiwan é a nova Hungria. No entanto, desta vez, a hegemonia não será transmitida entre duas potências afins. A crise de Suez fez tocar o sino da morte da Grã-Bretanha.

A crise de Ormuz poderá desencadear uma rutura semelhante para os Estados Unidos. Pois, desta vez, uma potência está pronta para assumir o controlo do sistema não só militarmente, mas também económica e financeiramente. Em 1956, os Estados Unidos estavam preparados; hoje, é a China que o está. Consequentemente, Suez marcou o fim de uma era, e Ormuz poderá ser o início de uma nova.

Por isso, o mundo está a atravessar uma nova fase. A energia, a segurança, os corredores de transporte e os equilíbrios económicos estão a ser simultaneamente abalados. Israel e os Estados Unidos surgem como os instigadores deste processo. Já não é possível falar do sonho americano-indiano-israelita, do corredor económico IMEC, dos acordos de Abraão ou do Comité de Paz de Gaza. Os capitais fogem de uma guerra descontrolada. A região afastar-se-á rapidamente dos investimentos e da prosperidade. Pôr fim à guerra não será possível apenas com a resistência iraniana. O que será decisivo é a pressão que os Estados racionais exercerão sobre os Estados Unidos e Israel.

Na realidade, a cautela da Europa, do Japão e da Coreia do Sul, bem como a sua recusa ao pedido de navios de guerra formulado por Trump, demonstram que esta crise tem dificuldade em obter legitimidade internacional. Se o processo não for travado, este período ficará na história como uma sucessão de perturbações económicas e sociais mundiais, em vez de como uma guerra regional prolongada. Pôr fim à escalada orquestrada pela administração Trump já não é uma opção, mas uma necessidade para a estabilidade mundial.

Israel, com os seus 9 milhões de habitantes, desencadeou um processo que afetará o destino de 8 mil milhões de pessoas ao recorrer a uma potência como os Estados Unidos. Infelizmente, são raras as pessoas sensatas nos Estados Unidos que estão conscientes desta situação.

Fonte aqui

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