Quem não tem Pedrógão caça com Monchique

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

O número de vítimas mortais, mais do que qualquer outra coisa, tornou os fogos de Pedrógão e de outubro na principal notícia de 2017. Foi um acontecimento traumático que, apesar de se dispensar a orgia de sensacionalismo telegénico, merecia um tratamento prolongado. Tentando ser simpático, talvez alguns excessos mediáticos até fizessem parte do luto. Com Monchique as coisas são diferentes. Percebemos que havia um batalhão de televisões em crise de audiências e de políticos em crise de votos, mortinhos para que houvesse um incêndio. Não tendo havido mortes (não por milagre mas por ação das autoridades, que até por isso foram criticadas), restou, para além do espanto com o facto de ainda haver incêndios depois de Pedrógão, a frase maldita de António Costa: Monchique foi “a exceção que confirmou a regra do sucesso da operação que decorreu ao longo de todos estes dias”.

Depois da indignação forçada, o primeiro-ministro veio dizer que a frase foi descontextualizada. O que ele disse foi isto: “Porque é que o incêndio não foi apagado no primeiro minuto? De facto este incêndio poderia ter sido apagado como os outros 25. Como poderia ter ocorrido como com as 581 outras ignições que aconteceram. Mas por circunstâncias próprias, que têm a ver com a dificuldade do terreno, com as condições climatéricas específicas, com a composição da floresta que temos no local e certamente por outros fatores que no final desta ocorrência poderão ser apurados, foi a exceção que confirmou a regra do sucesso da operação que decorreu ao longo de todos estes dias”.

A frase não foi descontextualizada. E, com ou sem contexto, está certa.

Todo o debate que se fez depois disto, da acusação de “saloiíce” no tempo de antena partidário de Marques Mendes à conferência de imprensa do PSD, apenas demonstra que o que aconteceu em Monchique é a menor das preocupações da oposição. O que interessa é manter o assunto vivo e o primeiro-ministro envolvido. Quem não tem Pedrógão caça com Monchique.

A frase de Costa é objetivamente verdadeira porque assistimos a um dos verões com temperaturas mais altas desde que há registo. Porque houve incêndios de enormes dimensões em várias partes da Europa, em países menos secos e que chegaram a temperaturas mais baixas. Porque qualquer pessoa razoável esperou, naqueles dias, notícias de muitos incêndios. Porque 25 incêndios foram travados antes de ganharem dimensões mais perigosas. Porque se evitou que 580 ignições se transformassem em incêndios. E nenhuma das coisas aconteceu por força da natureza. Porque, tirando todos estes factos, houve uma ignição que se transformou em incêndio e ganhou grandes proporções. Na análise fria dos factos, temos um padrão em que a prevenção e o combate resultaram e uma exceção em que tal não aconteceu. Perante essa exceção, num país que tem os mesmos problemas de desordenamento do território e da floresta e as mesmas debilidades estruturais que tinha há um ano, conseguiu-se evitar a perda de qualquer vida humana.

Pode falar-se de “vitória”? Tendo em conta que houve um enorme fogo com perdas materiais e na floresta, não. Havendo incêndios, como sempre haverá, nunca se poderá fazer um balanço positivo. O que torna toda esta conversa um pouco absurda. Certo é que nada do que Costa disse é mentira. Resta a insensibilidade de o ter dito. Do que se conclui que, apesar de todos dizerem que o Governo deve fazer balanços rigorosos do que se fez e falta fazer, ninguém quer realmente balanços rigorosos. O que se quer é uma comunicação política mais polida.

Concordo que a sensibilidade com que se transmite um facto não é um pormenor em política. Mas não deixa de ser interessante ver os mesmos que se queixaram de um excesso de preocupação com as vidas humanas lamentarem a insensibilidade do primeiro-ministro. Eu diria que a maior das insensibilidades é usar o sofrimento das pessoas para horas de diretos emocionais que garantam boas audiências. Mas isto sou seu, que acho que as qualidades humanas e morais não têm de ser um exclusivo da classe política.

A polícia não serve para salvar vidas?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

É interessante verificar que foi dos que mais violentamente costumam reagir a qualquer critica às forças policiais que vieram as reações mais indignadas com o comportamento da GNR em Monchique. Uma parte desta reação tem motivações políticas. A morte de uma única pessoa nos incêndios teria, depois de Pedrógão e de outubro, enormes efeitos políticos.

Há quem ache que terá sido o receio por esses efeitos a principal motivação para o Governo ter dado toda a prioridade à preservação de vidas humanas, mesmo que isso correspondesse a perderem-se casas e terras. Ainda que isso fosse verdade, ela não deixa de estar certa por isso. E parece haver entre alguns dos críticos uma indisfarçável amargura por essa opção lhes ter retirado um fortíssimo instrumento de oposição ao Governo. Uma amargura que é, convenhamos, um pouco sinistra.

Mas há outra razão para quem não hesita em defender a polícia sempre que há um espancamento numa esquadra ou na rua, uma carga sobre uma manifestação ou um tiro sobre uma viatura que não pára numa “operação stop” a rasgar agora as vestes pelos direitos dos cidadãos. A divisão que fazem do mundo é entre bandidos, moradores de bairros sociais, arruaceiros e todos os suspeitos do costume, por um lado, e cidadãos comuns, “como todos nós”, por outro. E é com base nesta dicotomia entre normalidade e margens que avaliam a atuação policial. Só por isso se chocaram, aliás, com o espancamento de um adepto do Benfica, em Guimarães, em 2015. E os donos das propriedades de Monchique eram “pessoas como nós”, que apenas queriam salvar o que tinham.

Nas avaliação da ação policial, estas pessoas não aplicam os critérios relevantes para um Estado de Direito ou de necessidade no uso da força, mas critérios que dividem as vítimas da violência policial entre bons e maus, culpados ou inocentes. Pois eu acho que o uso da força pela polícia se mede pela sua necessidade e proporcionalidade. Porque o uso da força não serve para punir – isso só os tribunais podem fazer –, serve para proteger um bem maior do que aquele que, com a sua utilização, é posto em causa.

O uso da força dentro de uma esquadra perante alguém que, mesmo que seja um criminoso, não representa um perigo iminente para si e para os outros é inaceitável e tem de ser tratado como um crime. O uso da força para retirar alguém de uma situação de perigo de vida é não só aceitável como um dever de qualquer força policial.

Estranho é haver quem defenda que a polícia pode pôr em perigo a vida de alguém para defender um bem material mas não deve usar a força para salvar quem, num momento de desespero, se está a entregar à morte para defender a sua casa ou a sua terra. É uma inversão total de valores.

Marcelo – os incêndios e pulsão por dar bicadas ao Governo. Pergunto: com intervenções destas o seu público alvo são as meninas das nails?

(In Blog, Um Jeito Manso, 12/08/2018)

No outro dia fui à cabeleireira. Enquanto esperava a minha vez, estive sentada perto da bancada onde a técnica de nails, uma jovem com ar de teenager e que vim a saber, no decurso da conversa, que tem vinte e seis anos, produzia a sua arte nas unhas de uma outra, idêntica, com vinte e oito anos. Conheciam-se, não sei se apenas dali, e tratavam-se por tu e por ‘amiga’….


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