Shoshana Zuboff: “O Facebook mata”

(Entrevista a Shoshana Zuboff, in Público, 09/01/2022)

O termóstato “inteligente” ajuda o leitor a regular a temperatura da sua casa, de forma eficiente, à distância. Equipado com sensores de movimento e capacidades de computação, aprende os hábitos de quem lá mora. Os dados são enviados para um gigante tecnológico e circulam num ecossistema de apps e equipamentos, desde fornos a monitores de fitness — conhecer até onde vai esta “casa inteligente” envolveria ler centenas de contratos de privacidade.

Entretanto, um aspirador “inteligente” anda às voltas pela casa, munido de sensores e uma câmara. É capaz de produzir uma planta da habitação, informação valiosa para o mercado imobiliário. Durante o dia, o leitor circula num carro “inteligente”, cujo seguro está associado à forma como conduz, monitorizada em tempo real — se gostar de acelerar, verá o prémio do seguro agravar-se. À noite, põe o filho a jogar com um brinquedo que grava as “conversas” com a criança (transcritas de forma automática e enviadas para uma empresa).

Segue-se um descanso merecido numa cama “inteligente”, que mede a qualidade e a quantidade do seu sono. O termóstato, o aspirador, o carro, o brinquedo e a cama estão ligados ao seu telefone “inteligente”, que sabe onde está, como e com quem dorme, o que partilha nas redes sociais, o que desabafa por mensagem, como é a sua cara, em quem vota.

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A descrição está entre os desejos de várias empresas, revelados nos últimos anos, e a realidade dos nossos dias, que, para Shoshana Zuboff, é cada vez mais distópica. Baseia-se em dados que a professora emérita da Harvard Business School e uma das maiores vozes na luta pela privacidade online reuniu em A Era do Capitalismo da Vigilância, editado originalmente em 2019 e publicado em 26 países, entre os quais Portugal, no ano passado. O jornal britânico The Guardian considerou-o um dos cem melhores livros do século XXI.

Shoshana Zuboff em Berlim, em Novembro de 2019, durante uma sessão de perguntas e respostas a propósito do lançamento de A Era do Capitalismo da Vigilância Till Rimmele/Getty Images

O que é o capitalismo da vigilância? “Uma nova ordem económica”, que recorre às tecnologias digitais para se apropriar da “experiência humana” e a usar “de forma encoberta como matéria-prima em práticas comerciais de extracção, previsão e venda”, define o livro. Os dados extraídos aos consumidores são matéria-prima para melhores previsões sobre o seu comportamento perante uma mensagem publicitária. Quanto mais se conhece um consumidor, mais vendas se conseguem e menor é o risco do anunciante.

Em conversa com o PÚBLICO, a investigadora norte-americana diz que empresas como a Google e o Facebook — e muitas outras que lhes seguiram os passos — perceberam o enorme valor económico dos dados e metadados dos utilizadores que lhes extraem mais ou menos secretamente. Não é só o que pesquisamos na Net, mas como e quando pesquisamos, que conversas temos, que expressões faciais produzimos, entre outros dados recolhidos por GPS, câmaras e microfones, entre outras tecnologias. Com essa informação pormenorizada sobre nós — recolhida em doses cada vez maiores, nas redes sociais, mas também por apps, smartwatches e outros equipamentos “inteligentes” —, estas empresas podem entregar-nos o anúncio certo à hora certa.

Através da tecnologia de reconhecimento facial é possível identificar emoções — e através delas influenciar ou tentar vender produtos

Para Zuboff, que estuda o efeito social das tecnologias digitais há mais de 30 anos, o projecto vai mais longe e é profundamente antidemocrático: os capitalistas da vigilância querem manipular o nosso comportamento para que ele se ajuste às suas previsões – uma coerção invisível. O sonho dos anunciantes e dos gurus das empresas tecnológicas é um pesadelo para a sociedade e as democracias, conclui a socióloga, que acede à Internet por Virtual Private Network (VPN), usa bloqueadores de trackers que guardam os nossos passos na rede e aplicações que impedem o reconhecimento facial e disfarçam a voz.

A pergunta surge no livro: “Se o capitalismo industrial comprometeu a natureza de forma perigosa, que catástrofe desencadeará o capitalismo da vigilância na natureza humana?”

O motor de pesquisa do “eu”

Segundo Zuboff, o capitalismo da vigilância começou em 2000, quando, em pleno crash das empresas tecnológicas, a Google enfrentou a pressão dos investidores para conseguir receitas. O produto da Google era o seu poder de pesquisa, que licenciava a outras entidades. A verdadeira riqueza estava, porém, por descobrir: além das palavras pesquisadas, havia uma “onda de dados colaterais”, como o volume e o padrão de termos de pesquisa, o modo como se faz uma pergunta ao Google, a ortografia, a pontuação, os tempos de pausa, os padrões de cliques e a localização.

Estes “produtos residuais do comportamento” (ou “excedente comportamental”) foram inicialmente ignorados, mas depois usados para melhorar o produto — com inovações como verificação da ortografia. Até que a Google descobriu que estava ali a sua mina de ouro: analisando o excedente comportamental, os cientistas de dados da empresa “podiam começar a prever onde e quando as pessoas iam pesquisar, em que tipo de coisas iam clicar, etc. Podiam prever comportamentos”, diz a socióloga ao PÚBLICO. Com melhores previsões, conseguiram mais cliques nos anúncios e, portanto, mais receitas, o que salvou a Google do crash. Em vez de escolherem palavras-chave e onde pôr os anúncios, as marcas só tinham de confiar na “caixa negra” da Google.

Larry Page, à esquerda, e Sergey Brin, fundadores do Google, na sede da empresa em Mountain View, Califórnia, em 2004, ano em que o motor de pesquisa entrou na bolsa

A firma “tornou-se uma empresa de pesquisa, mas não da forma que todos julgavam que era”: a Google estava, sim, “a pesquisar os seus utilizadores através dos metadados”. O motor de pesquisa tornava-se um espelho de um só lado — a Google sabia muito sobre nós e nós nada sabíamos sobre o processo de extracção dessas informações, que foi crescendo, com novos produtos (do Gmail ao Android), cookies e outros métodos.

A operação tinha de ser secreta, argumenta Shoshana Zuboff. Quando eram conhecidos pormenores que indiciavam que a Google fazia da recolha de dados pessoais o seu trunfo perante os anunciantes, a empresa pedia desculpa (como quando se descobriu que os carros do Street View recolhiam em segredo dados pessoais de redes de wi-fi privadas) ou fazia uma fuga para a frente, integrando a funcionalidade que estava a gerar polémica num novo produto. “Decidiram manter tudo escondido”, porque “perceberam desde cedo que o que estavam a fazer seria visto como uma violação da privacidade”. Se todos soubessem, haveria “rebelião e resistência dos utilizadores” e na América “teria sido tornado ilegal”.

Este secretismo, “essencial” para a manutenção do capitalismo da vigilância, permanece e explica o tempo que “legisladores e cidadãos” estão a levar para compreender as “ameaças aos indivíduos”, à “sociedade e à democracia”. “É distópico e estamos numa trajectória distópica — em dez anos será ainda mais distópico. A Internet das Coisas [objectos do dia-a-dia, como electrodomésticos, capazes de enviar e receber dados] será muito mais institucionalizada, a quantidade de dados recolhidos terá aumentado exponencialmente. Podemos ser uma sociedade de vigilância, e estamos nessa estrada, ou podemos ser uma democracia, mas não podemos ser as duas coisas em simultâneo.”

Biliões de dados

Com a vigilância a alimentar o negócio, as receitas publicitárias da Google aumentaram 3590% (sim, 3590%) entre 2000 e 2004. “Todos andavam à procura da forma de monetizar dados, a Google encontrou-a”, conta. Em 2008, o Facebook contrata a executiva Sheryl Sandberg à Google e segue os passos do gigante da pesquisa. Sandberg viu na teia de relações sociais dos utilizadores do Facebook uma fonte extremamente generosa de excedente comportamental.

Agora, denuncia Zuboff, o capitalismo da vigilância está em todo o lado: na Apple e na Microsoft, que vendem hardware e software, mas também querem comer do bolo publicitário; e na “economia normal”: “seguros, cuidados de saúde, educação, imobiliário, comércio, todos os domínios estão à caça” do “dividendo da vigilância”. Está também num jogo como Pokémon Go, que, usando tecnologias como o GPS e a realidade aumentada, estimula quem o joga a deslocar-se até espaços, como restaurantes ou lojas, que pagaram para figurar naquele mundo virtual.

Jogador de Pokémon Go no Japão, onde a cadeia de restaurantes de comida rápida McDonald’s se associou à app

“Compra um produto smart, estamos a falar de capitalismo da vigilância; compra um serviço personalizado, estamos a falar de capitalismo da vigilância. Neste momento, todas as apps são concebidas para recolherem dados ao máximo — as apps são as mulas da economia da vigilância e transportam dados dos telefones e computadores, esvaziando os alforges com dados nos servidores da Google, do Facebook, de ad tech [tecnologia de anúncios online] e tudo o resto.” Os accionistas têm recompensado esta postura: em A Era do Capitalismo da Vigilância conta-se que os donos do aspirador “inteligente” Roomba viram as acções da empresa triplicarem o seu valor em apenas um ano, depois de, em 2017, ter sido anunciado que os dados recolhidos pelos robôs seriam usados para produzir plantas de casas, que seriam vendidas (a empresa garantiu depois que nunca venderia dados dos clientes).

“Todas estas operações são projectadas para nos manter ignorantes do que estão mesmo a fazer. (…) Faço um post, procuro alguns produtos, ‘eu sei o que lhes estou a dar’, sinto que estou a controlar esta troca. Dou-lhes um bocadinho de dados, recebo esta funcionalidade ou serviço de forma gratuita, supostamente, e isso é uma troca razoável que estou disposta a fazer”, explica. Mas o que verdadeiramente acontece, avisa, vai muito mais longe. “Não se trata do que publicamos, mas da forma como o fazemos. Usa pontos de exclamação? Usa uma lista por pontos? Se está a organizar um jantar com amigos, escreve ‘Vejo-te mais logo’, ‘vejo-te logo à noite’ ou ‘vejo-te às 20h30’? Isso são os metadados. Quando conseguem apanhar as suas fotografias no Facebook, não é simplesmente para etiquetar ‘Este é o Pedro’. Não, eles querem apanhar as microexpressões da sua cara. As microexpressões são formadas por centenas de pequenos músculos faciais. Se conseguirem apanhar as suas microexpressões, conseguem prever o seu estado emocional. E o seu estado emocional é o melhor preditor do seu comportamento.”

Till Rimmele/Getty Images

Se o capitalismo industrial comprometeu a natureza de forma perigosa, que catástrofe desencadeará o capitalismo da vigilância na natureza humana? Shoshana Zuboff

Um documento interno do Facebook pormenorizou como o seu sistema de inteligência artificial “recebe biliões de dados todos os dias, tirados da nossa experiência, para computar seis milhões de previsões de comportamento de pessoas por segundo. Estas previsões são agrupadas em produtos preditivos e vendidos a clientes em mercados publicitários e outros — saúde, seguros, entre outros”.

Em 2019, a Amazon anunciou que o seu software de reconhecimento facial conseguia reconhecer o medo — uma emoção que se junta a outras sete que o Rekognition conseguia então identificar. A professora de Harvard indigna-se: “Digo isto à Amazon: não vos dou o direito de conhecer o meu medo ou a minha felicidade, raiva, depressão ou qualquer coisa que consigam ler na minha cara. Não vos dou esse direito.”

Como manipular

Outro documento interno do Facebook, produzido por executivos da rede social na Austrália e divulgado pelo jornal Australian, em 2017, mostrou que a empresa de Mark Zuckerberg comunicou a anunciantes ter a capacidade de identificar quando os adolescentes se sentem “inseguros”, “sem valor” ou a “precisar de uma injecção de confiança”. Como? Monitorizando posts e fotografias em tempo real para determinar se os jovens se sentem “stressados”, “derrotados”, “patetas” ou um “falhanço”, entre outros estados emocionais. “Os jovens passam por ciclos. Tornam-se mais ansiosos antes do fim-de-semana por causa da pressão social” e essa pode ser a altura ideal para vender, por exemplo, um casaco de pele preto, uma roupa “sexy que aumenta a confiança”. O Facebook negou a notícia do Australian, classificando-a como sensacionalista. Mas um ex-gestor de produto do Facebook escreveu no Guardian que estas práticas são rotina, acusando a empresa de “mentir com quantos dentes tem na boca”.

Esta transformação em “arma” do gigantesco manancial de dados sobre nós pode ter repercussões políticas e sociais de grande dimensão. Assim terá sido com o uso do Facebook por parte da campanha de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016. Uma investigação do canal de televisão britânico Channel 4 revelou que a campanha do republicano comprou dados de quase 200 milhões de utilizadores do Facebook. “Puderam analisar perfis políticos, sexuais, de personalidade, interesses, preocupações, vulnerabilidades, medos”, critica Zuboff. A mesma reportagem do Channel 4 mostrou uma eleitora do estado do Wisconsin a reagir à quantidade de informação que o Facebook reunira sobre ela. “Quem sabe isto?”, espantou-se.

Sheryl Sandberg, a número dois do Facebook, durante o Facebook Community Boost, em Miami, Florida, em 2018

Com estes dados, a campanha de Trump conseguiu segmentar 3,5 milhões de afro-americanos como eleitores que importava dissuadir de votar em Hillary Clinton, através de publicações personalizadas no Facebook. Não era preciso votar Trump, bastava não votar. “Para quem fazia parte da intelligentsia, diziam: ‘Os líderes negros afirmam que a melhor forma de mostrar resistência nesta eleição é não votar.’ Se alguém estava preocupado com a juventude negra, mostravam um vídeo falso de Hillary Clinton a dizer coisas horríveis sobre a juventude negra”, exemplifica.

O algoritmo, a lógica e as capacidades de recolha de dados do Facebook poderão ter contribuído para que o voto negro tivesse a maior queda já registada, cerca de 7%. “Cidadãos americanos desistiram voluntariamente do seu poder mais sagrado, o direito ao voto, e fizeram-no sem que ninguém apontasse uma arma às suas cabeças. Fizeram-no sem qualquer ameaça de serem enviados para o gulag ou um campo de concentração. Fizeram-no apenas sendo bombardeados pela banalidade das comunicações digitais.”

A campanha de Trump (e outras, como a pró-“Brexit”) teve sucesso, porque explorou o modo de funcionar do Facebook. Para Zuboff, o mal é estrutural e reproduz-se diariamente, a cada post inflamado, a cada mentira, a cada partilha — no Facebook e noutras “estradas” digitais. “As nossas vidas são cada vez mais — e neste momento quase inteiramente — mediadas por informação. Todas as estradas para a participação social e económica levam-nos para espaços de informação e comunicação totalmente detidos e operados por capitalistas da vigilância”, descreve. Nestes espaços, notícias verdadeiras competem com desinformação e os posts polarizadores têm fortes hipóteses de sucesso. Em suma, “quanto mais corrupta a informação, maior o fluxo de receitas”. E “nenhuma democracia pode sobreviver num mundo onde a integridade da informação é sistematicamente diminuída”. Não é por acaso, tem argumentado, que as duas décadas de capitalismo da vigilância sejam marcadas por retrocessos da democracia em vários países.

Como foi possível?

No livro, Shoshana Zuboff pergunta: como foi possível que os capitalistas da vigilância “tenham agido impunemente?” Replicar o sucesso da Google — recorde-se do crescimento de 3590% nas receitas publicitárias em quatro anos — inspirou outras tecnológicas. Do lado dos consumidores misturaram-se a “ausência de precedentes” numa “invasão” tão grande da sua privacidade, a dependência destes serviços, muitos deles gratuitos, e a sensação de que não há alternativas à morte da privacidade na era digital.

O contexto político fez o resto: o arranque do capitalismo da vigilância coincidiu com o rescaldo dos atentados de 11 de Setembro de 2001 e os governos dos Estados Unidos e de outros países viram nos dados recolhidos pelas empresas de Internet uma oportunidade para vigiar potenciais terroristas e evitar outros ataques.

George Peters/Getty Images

As microexpressões são formadas por centenas de pequenos músculos faciais. Se conseguirem apanhar as suas microexpressões, conseguem prever o seu estado emocional. E o seu estado emocional é o melhor preditor do seu comportamento. Shoshana Zuboff

Essa “excepção da vigilância”, diz a professora ao PÚBLICO, “criou um vazio: quando entrámos no século digital, as democracias deviam ter pensado como criar uma visão, quais eram as cartas de direitos de que precisávamos, que leis e novos tipos de instituições públicas eram necessários para garantir que as capacidades de vigilância do digital eram restringidas ou proibidas em prol da democratização, das oportunidades de aprendizagem e de todas as formas em que o conhecimento desenvolvido pelos meios digitais pode melhorar as nossas vidas e sociedades, ajudando-nos a resolver problemas globais partilhados — das doenças ao clima”.

“Um mundo sem escapatórias”

As democracias não o fizeram. Mas ainda há tempo, acredita Zuboff. Os últimos anos deram razões aos activistas para sorrirem — ela fala numa “viragem”. Os cidadãos acordaram, os governos também; os abusos da recolha de dados pessoais e os malefícios das redes sociais tornaram-se assuntos quotidianos. O primeiro grande golpe foi o escândalo Cambridge Analytica. O papel do Facebook nas eleições que fizeram de Trump Presidente dos EUA ajudou ao que Zuboff classifica como a “completa ruptura da fé” nestas empresas. No ano passado, as revelações de denunciantes como Frances Haugen, ex-gestora de produto do grupo Facebook (agora Meta), só aumentaram a desconfiança em Zuckerberg e companhia.

“A Europa está na liderança, mas vemos agora os legisladores americanos a mudar [de opinião sobre estas empresas]. Parte disso deve-se ao facto de o público americano ter começado a mudar [de opinião]”, observa. Acredita que a pandemia só piorou esse divórcio: “Nos confinamentos, tornámo-nos mais e mais dependentes dos serviços destas empresas e ficámos mais zangados, revoltados e indignados, mais chocados com o quão audaciosos eles foram a invadir as nossas vidas, a vigiar-nos, a tirar os nossos dados para seu benefício.”

Till Rimmele/Getty Images

As apps são as mulas da economia da vigilância e transportam dados dos telefones e computadores, esvaziando os alforges com dados nos servidores da Google, do Facebook, de ad tech e tudo o resto Shoshana Zuboff

Para Shoshana Zuboff, o Metaverse do Facebook, anunciado em 2021, um ano difícil para Zuckerberg devido a Haugen e a vários outros problemas, é uma “fuga para a frente”, algo que ainda não é muito bem compreendido e que talvez possa escapar ao controlo dos legisladores. O Metaverse promete usar realidades aumentada e virtual para fundir ainda mais a vida de carne e osso com a Internet, algo que Zuboff lê como mais um passo no sentido de extrair dados aos utilizadores “24 horas por dia, sete dias por semana”. Na verdade, argumenta, os capitalistas da vigilância “querem tudo, em todo o lado. E o que querem agora queriam há cinco anos e há dez anos. O que muda é a sua capacidade tecnológica para, de facto, conseguirem apreender tudo, em todo o lado”.

Nos últimos anos, o Facebook investiu, por exemplo, numa interface que transforma sinais do cérebro em instruções num computador. “Isso seria uma função-chave no Metaverse. Com os wearables [roupas ou acessórios ligados à Net, como smartwatches com GPS ou óculos de sol com câmaras integradas] usados por toda a gente, serão capazes de ler movimentos dos dedos, que dão intencionalidade, e sinais cerebrais, que dão linguagem. Conseguirão conhecer-nos ainda mais profundamente do que já conhecem, colonizar os nossos espaços interiores, onde ainda conseguimos um pouco de refúgio”, critica.

Eis a distopia, segundo Zuboff: “Um mundo sem escapatórias”, nem sequer “a privacidade das nossas mentes e pensamentos”, que sempre foi um “santuário”. Eis “a fronteira final: deixar de haver interior”.

Estudos sobre a relação entre redes sociais e saúde mental, nomeadamente dos adolescentes, apontam nesse sentido, alerta. Ao estarem sempre online, os jovens nunca deixam as suas personas — nem no quarto, que antes era um espaço inviolável, um “santuário”. Ao estarem sempre a olhar para o espelho (nos seus posts) ou para o espelho dos outros (nos posts dos colegas), “retardam” a entrada na idade adulta. “Estar nas redes sociais é mau para a saúde dos jovens, especialmente a mental, porque não os deixa pôr fim à fome pelo reconhecimento e pela aprovação dos outros”, sublinha.

Em 2021, documentos relevados por Frances Haugen mostraram que o grupo Facebook conhecia o impacto do Instagram na saúde mental dos adolescentes, mas não tomou medidas substanciais para o reduzir ou evitar. “Claro que sabia! Sempre soube!”, critica Zuboff, mas “a saúde mental dos jovens é má para o negócio”.

Proibir o capitalismo da vigilância

As big tech movem-se rapidamente. Um dos lemas do Facebook é “avançar rapidamente e partir coisas”. Em 2011, Eric Schmidt, da Google, prometeu: “Andaremos mais rapidamente do que qualquer governo.”

Zuboff acredita, porém, que algo mudou nos últimos anos. Foca-se em Mark Zuckerberg, que tem sido o seu principal alvo. O fundador do Facebook vive um momento “muito complicado”. Na União Europeia, nos Estados Unidos e noutros países, os políticos despertaram para o assunto e preparam legislação que proteja os cidadãos. A Apple tornou-se “uma ameaça existencial” para o Facebook: em Abril de 2021, o sistema operativo iOS passou a impedir que apps recolham dados sem pedir autorização aos utilizadores. Segundo o Financial Times, esta funcionalidade terá custado ao Facebook, YouTube, Twitter e outras apps qualquer coisa como 9 mil milhões de euros em receitas na segunda metade de 2021.

Já depois do anúncio do Metaverse e das revelações de Frances Haugen, os utilizadores do Yahoo Finance elegeram a Facebook como a pior empresa de 2021. “A única coisa na América menos popular do que Mark Zuckerberg é a indústria do tabaco. Ambas matam pessoas. O Facebook mata, a indústria do tabaco também.”

“Estou muito entusiasmada com o ponto em que a União Europeia se encontra agora, porque está a avançar com dois grandes programas legislativos: a Lei dos Serviços Digitais e a Lei dos Mercados Digitais”, diz. “Não são as soluções para tudo o que falámos, mas são um início muito importante, porque afirmam que o digital existe num Estado de direito e sob a governança da democracia”, elogia.

Till Rimmele/Getty Images

Todas as estradas para a participação social e económica levam-nos para espaços de informação e comunicação totalmente detidos e operados por capitalistas da vigilância. Shoshana Zuboff

A Comissão Europeia avançou com regras que proíbem a publicidade política personalizada, o que permitirá impedir práticas como as que foram usadas pelas campanhas de Trump e do “Brexit”. Esta semana, em França, a Comissão Nacional de Informática e das Liberdades multou a Google e o Facebook em 150 e 60 milhões de euros, respectivamente, pelas suas práticas de cookies, usados para publicidade dirigida ao utilizador. Google, Facebook e YouTube não permitem recusar cookies “de forma tão simples” como aceitá-los, o que “viola a liberdade de consentimento”, justificou aquela entidade.

Zuboff acredita que é possível proibir totalmente o capitalismo da vigilância. “Foi montado por pessoas, pode ser desmontado por pessoas”, lembra. Como? Tornando ilegal a maquinaria que sorve e processa os nossos dados para fins comerciais. “Houve um tempo, há 100 anos, em que os donos das indústrias tinham todos os direitos e os trabalhadores nenhum. Pessoas como eu e você estavam a ter estas conversas: como vamos conseguir que os trabalhadores tenham direitos? Mas conseguimos! Houve um tempo em que achámos que era inevitável, que eles teriam todo o poder e nós nenhum, que o seu poder era tão grande que não poderia ser contestado. Dizia-se que as fábricas tinham de estar sempre a funcionar, porque essa era a única forma de o capitalismo ser bem sucedido, mas, afinal, isso não era verdade. Podia haver leis e regras que protegiam os trabalhadores, fixavam quanto tempo trabalhavam, que previam o pagamento de horas extraordinárias, a definição de condições de trabalho, o direito a juntar-se a um sindicato, o direito à acção colectiva. Criou-se legislação e direitos para isso, criaram-se instituições de supervisão. Já estivemos neste sítio, quando sentíamos que não havia esperança, e, ainda assim, triunfámos.”


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Não há como moderar o Império de Zuckerberg

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/10/2021)

Daniel Oliveira

Numa só semana, o mundo confrontou-se com dois dos maiores perigos do poder concentrado em alguém: ser tão intensivo que pode destruir pessoas e regimes, ser tão extensivo que pode parar o planeta.

A entrevista de Frances Haugen, uma denunciante que vem de dentro do Império de Mark Zuckerberg, ao “60 Minutes”, assim como o seu depoimento no Senado norte-americano, veio confirmar o que já se sabia. Que os responsáveis do Facebook não tomaram qualquer medida efetiva de controlo do discurso de ódio e as que anunciaram, em 2018, com a entrada em funcionamento de um novo algoritmo, acabaram por ter o efeito contrário, destacando ainda mais os discursos extremistas ou negacionistas.

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Anunciado pelo próprio Zuckerberg, para tentar estancar o escândalo causado pela influência do Facebook na eleição de Trump, o novo algoritmo foi apresentado como uma nova fase na vida da plataforma, doravante mais virada para destacar a interação familiar e entre amigos. O resultado foi precisamente o inverso e a empresa sabe-o há muito, como revelou o “Wall Street Journal” numa excelente série de investigação há poucas semanas.

Em condições normais, um post publicado no Facebook fica visível apenas para uma ínfima minoria dos seguidores. A forma de contornar esse torniquete, montado pela empresa de acordo com os seus interesses comerciais, é pagar publicidade ou ter conteúdos bombásticos e que gerem reações. Quanto maior o número de comentários, “gostos” e partilhas, mais o Facebook aligeira o torniquete e mais pessoas acedem a esse conteúdo, resultando numa crescente promoção de conteúdos extremistas ou com teorias mirabolantes sobre as eleições ou vacinas.

Os algoritmos estão pensados para fomentar o choque de opiniões e a reação emotiva, garantindo assim a viralidade que oferece receitas através da inclusão de anúncios. Sobre esta parte das revelações de Haugen, não há rigorosamente nada que não tenha sido dito, redito, dito de novo sobre o que esta empresa está a fazer à democracia e ao espaço público, com plena consciência e intencionalidade dos seus proprietários.

Frances Haugen também disse que, no Facebook, sabiam dos efeitos nefastos para a saúde mental dos internautas, sobretudo a ansiedade e a insegurança criadas entre os adolescentes, alimentando a autoimagem negativa, distúrbios alimentares, bullying online. Segundo documentos internos da empresa, 32% das jovens dizem que, quando se sentem mal com o seu corpo, o Instagram piora a sensação. Mais uma vez, nenhuma novidade. Desde 2019 que se sabe que cerca de 13% dos adolescentes no Reino Unido e 6% nos EUA associam pensamentos suicidas à utilização do Instagram.

“Por que nos preocupamos com os pré-adolescentes? Eles são um público valioso, mas inexplorado”, explicava candidamente um documento interno do Facebook, agora revelado pelo WSJ. Nada escapa à ambição de controlo e de expansão de uma empresa onde todas emoções humanas são para ser usadas e convertidas em transações convertíveis em lucro, mesmo as de crianças protegidas legalmente. Acreditar que o Facebook se autorregula faz tanto sentido como os seus posts mais populares, associando a vacina para a COVID a uma mirabolante teoria conspirativa. O design do Facebook é feito para ser aditivo, causando depressões e aligeirando do código moral.

Depois destas “revelações”, que ameaçam abrir os olhos do legislador norte-americano (da União Europeia podemos continuar a esperar sentados), somada a uma desvalorização em setembro, Zuckerberg caiu um degrau no clube dos mais ricos. Ainda não refeito deste revés, veio o “apagão”, na última segunda-feira. Metade da humanidade ficou sem Facebook, WhatsApp, Instagram, Messenger e Oculus. O erro foi da empresa – diz que “fecharam o carro com as chaves lá dentro” –, mas é indiferente para o debate que interessa.

A ONG NetBlocks, que se dedica à cibersegurança, estima que a economia mundial terá perdido mais de 950 milhões de dólares em apenas seis horas. E só se mede aqui o efeito em negócios de empresas que dependem destas redes sociais. Milhares de milhões ficaram sem acesso a informação, sem conseguir contactar com aqueles que lhe são queridos, sem capacidade de interagir em grupos de trabalho ou de amigos. Claro que há alternativas, mas a esmagadora maioria das pessoas está presa a estas plataformas e a liberdade de escolha, existindo teoricamente, é impraticável para quem não tenha os instrumentos culturais e tecnológicos para sair do único mundo que conhece.

Para uma boa parte da população mundial, a Internet são as plataformas detidas por Zuckerberg. E mesmo para quem tenha a capacidade de escolher, a escolha é quase uma falácia. O Facebook e o Instagram correspondem a 70% do mercado das redes. O Twitter, concorrente mais próximo, corresponde a 14%. O mesmo se aplica ao WhatsApp em relação a concorrentes como o Signal ou o Telegram. Ao contrário do que muitos pensam, a lógica da rede tende para a concentração. Quem tem a maioria dos clientes tenderá a ter quase todos, porque a função da plataforma é conectar pessoas e organizações e quanto maior for o seu universo mais eficaz é o seu funcionamento. Mudar de fornecedor é não só desistir da informação acumulada – conexões sociais, memórias, imagens e vídeos –, mas perder eficácia no serviço que se recebe.

E a estratégia do Facebook tem sido a de comprar a concorrência antes que ela se torne uma ameaça séria, para acelerar o processo de controlo de toda a rede. Nisso, como em tudo o resto, não tem encontrado resistência firme dos reguladores. O litígio com a Comissão de Comércio Federal dos EUA promete prolongar-se, apesar da evidência do monopólio. Na União Europeia, a Comissão está demasiado ocupada a controlar os apoios de Estados a empresas e a trabalhar para concentração empresarial nos países mais poderosos para se dedicar a estas minudências.

Mas sejamos pragmáticos: se a ideia da pedagogia digital é totalmente desadequada para lidar com um grupo com este poder abissal – é como ensinar a usar um chapéu de chuva contra o ataque nuclear –, a da regulação começa a aproximar-se disso mesmo. A regulação de quase monopólios só pode ser uma: impedir que sejam quase monopólios. Tudo o resto é fantasia.

Com 15 anos de experiência em algoritmos, Frances Haugen propôs a alteração dos feeds de notícias para se tornarem cronológicos e não dependentes de algoritmos sem controlo humano de supervisão e curadoria. E criar um órgão governamental para supervisão de tecnologia. Mas basta acompanhar o debate que coisas bem menos intrusivas provocaram para perceber como há muita gente a acreditar que tem poder ou capacidade de escolha na rede.

A responsabilidade legal das empresas pelo conteúdo gerado pelos usuários das redes, única forma de obrigar o grupo a gastar o correspondente à sua dimensão estratosférica e proteger as vítimas, tem sido outra proposta, que me parece indispensável. Trata-se de assumir que as redes não são como linhas telefónicas, mas plataformas com responsabilidades editoriais. Tanto o são, que já assumem o poder de retirar conteúdos por violarem as suas regras. Esta é a charada de que temos de sair: não há lei sem responsabilização. Não há democracia sem mediadores. As redes sociais são mediadoras. Isto não tem nada de novo se impedirmos que sejam elas a determinar as linhas com que nos cosemos.

O senador democrata Ed Markey, que se tem concentrado nesta luta, deixou uma mensagem forte a Mark Zuckerberg: “O seu tempo de invadir nossa privacidade, promover conteúdo tóxico e predar crianças e adolescentes acabou. O Congresso vai agir. Não permitiremos mais que sua empresa prejudique nossos filhos, nossas famílias e nossa democracia.” Talvez estas palavras animem muitos. Deixam-me na mesma. O tempo de regular o monstro também já acabou. Ele não tem dimensão para ser regulado e já deu todas as provas que não o aceitará.

Mark Zuckerberg tem, sozinho, metade da humanidade na mão, parte da economia global por um fio e a sobrevivência das democracias dependentes de algoritmos que ninguém controla ou fiscaliza. Alguém com este poder nunca o entrega de livre vontade. E nem o mais poderoso dos imperadores teve tanto poder. Mas, mostrando a fragilidade de um capitalismo global desregulado, ele não encontra uma resistência semelhante à do passado, que levou a guerras com milhões de mortos.

Hoje, nem uma lei decente se consegue produzir para contrariar este poder imenso. Somos Chamberlain a brincar ao gato e ao rato com a figura mais perigosa para a democracia que conhecemos desde que um austríaco com um bigode ridículo deu um tiro nos miolos. Zuckerberg não terá a crueldade de Hitler, mas tem mais poder. Estranhamente, há quem julgue que pode ter a sua colaboração para o moderar.


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Começou a guerra entre a Apple e o Facebook?

(Francisco Louçã, in Expresso, 24/12/2020)

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No seu notável livro sobre “A Era do Capitalismo da Vigilância”, Shoshana Zuboff lembra o Édito de 1513 dos reis de Espanha, que determinava que, ao chegarem, os soldados teriam que ler um “Requerimiento” aos indígenas das Américas, perguntando-lhes se aceitavam submeter-se: “Declaramos ser do conhecimento de todos que Deus é uno e indivisível, há uma só esperança, um só Rei de Castela, dono destas terras: manifestai-vos sem demora, e jurai lealdade ao rei espanhol, como seus vassalos.” O silêncio de quem ignorava a língua destes estranhos soldados vestidos de ferro era tomado como assentimento e autorização para a posse, ou como recusa e sinal para a destruição, o que aliás era o mesmo. Assim, o genocídio reclamou o fundamento jurídico de uma autorização contratual.

Zuboff sugere que as grandes empresas da internet procedem como os conquistadores espanhóis, lendo-nos um “Requerimiento” que é escrito numa língua desconhecida e invoca uma magia inexpugnável. Calando-nos, aceitamos ceder os nossos dados, deixando vigiar a nossa vida e embrulhando-nos em bolhas comunicacionais que constituem colmeias humanas, submetidas às leis da acumulação. Não somos o produto desse comércio, somos os criadores de um excedente informativo que é transformado em lucro por máquinas de manipulação. Se assim for, a guerra entre a Apple e o Facebook é uma salva de canhão contra a tecnologia do controlo.

MARAVILHOSA PANDEMIA

As cinco maiores empresas de comunicação cresceram 46% em 2020. Valem hoje 7,2 biliões de dólares. Essa abundância culmina uma senda de sucesso: a Apple é a maior empresa do mundo e, desde há quatro anos, mais de 90% do aumento da publicidade está nas mãos da Google e do Facebook. Estes gigantes estão a reformatar a sociedade, criando tecnologias de informação baseadas nos dados sobre a nossa vida, acessos, consumos, viagens e conversas. Usam imagens, mails, localizações, registo de compras, para saberem que somos do FC Porto ou admiradores dos Simpsons, e para criarem os gostos segundo padrões instrumentais que vão sendo apurados.

Como na Conquista, isto é facilitado pela concessão a leis permissivas, a cookies autorizados ou a formulários incompreensíveis que subscrevemos com o engodo de os serviços serem gratuitos.

Por isso, a decisão da Apple de permitir a partir de 2021 que os utilizadores bloqueiem o trânsito de dados enfureceu o Facebook que, com a Google, tem constituído o motor desta Conquista. É certo que uns e outros recorrem a práticas semelhantes: o FB comprou o WhatsApp e o Instagram para impedir potenciais concorrentes (e por isso há um processo para separar as empresas); a Apple aplica taxas predatórias a fornecedores de aplicações (e por isso entrou em choque com os criadores do jogo “Fortnite”, a Epic Games). Mas a Apple depende da venda de dispositivos e está mais atrasada nesta indústria de extração de informação, ao passo que os seus rivais precisam dela. Por esta razão, o FB quer impedir que possamos bloquear o seu negócio de pilhagem dos dados: Zuckerberg, não por acaso um aliado de Trump, lançou uma campanha para “dar voz aos pequenos negócios”, na realidade para proteger o seu acesso maximizado à tecnologia de controlo.

MAD

Durante a Guerra Fria, a ameaça de holocausto nuclear era desvalorizada pelo seu potencial MAD (destruição mutuamente assegurada, no acrónimo inglês). Também nesta guerra entre a Apple e o FB existe uma fronteira MAD, pois estas empresas estão ligadas entre si. A Google paga anualmente mais de 10 mil milhões de dólares à Apple para poder operar nos seus telemóveis e computadores; o FB também precisa deles. Ainda não temos um único fornecedor de aparelhos, serviços e redes. Há portanto entre eles um acordo que sobrevive à concorrência, querem a internet como o maior mercado do mundo. Não há inocentes nesta guerra, todas estas empresas querem dominar. Mas há também os índios descontentes.

Por isso, talvez este conflito Apple-FB seja um sinal dos tempos, há uma opinião pública que faz exigências de proteção contra a Conquista. Os índios começaram a traduzir o “Requerimiento” e não gostam do que está escrito.


O regresso de Passos Coelho

A sincronização entre a entrevista de Cavaco Silva e o discurso seguinte de Passos Coelho é reveladora de uma fraqueza e de uma ameaça — e se a fraqueza foi ignorada pela direita, em contrapartida a ameaça empolgou-a, exibindo, aliás, outra fragilidade mais funda.

Começo pela primeira fraqueza. Pouca gente tomou as palavras de Cavaco Silva como mais do que uma recordação longínqua ou um oráculo misterioso. O problema é que essas invocações só reverberaram quando foram milimetricamente relançadas dois dias depois pelo ex-primeiro-ministro. Percebe-se a diferença entre dois discursos iguais. Passos Coelho tem uma patine que falta a Cavaco Silva: o ex-Presidente tenta anunciar que ainda está, mesmo que já não esteja, e o ex-primeiro-ministro lembra que esteve mas quer voltar. Foi essa ameaça que empolgou os saudosistas. Um afinado coro passista veio logo incensar o herói, anunciando que a esquerda fica “em pânico” mal a voz cava do amado líder, a abrir o seu discurso profético, anuncia um “boa-noite” cheio de mensagem, ou que os dias de Rui Rio e António Costa estão contados, ou que agora é que o grande entendimento histórico com o Chega se torna possível, porque um PSD tonitruante reunificará todas as direitas. Mas tanto entusiasmo é uma fraqueza, baseia-se numa cândida ilusão, a de que o país aspira por austeridade. Por isso o herói da direita saudosa tenta erguer-se a um patamar sebastiânico que dispense a pergunta sobre o que conseguiu em Alcácer-Quibir e que diabo pretende fazer depois de tão grossa calamidade.

Agora, que Passos Coelho “regressará” é uma evidência escrita nas estrelas. Em política, há duas certezas que se aplicam a (quase) toda a gente: (quase) todos se vingam e (quase) todos querem regressar. E o ex-primeiro-ministro, como tantos outros, fervilha com o pressentimento de que o país precisa dele e que a sua peregrinação pelo poder é um dever. Assim, a fraqueza mais funda da direita revela-se nesta busca de quimeras salvíficas. Concluo, portanto, que a ameaça de Passos Coelho é uma excelente notícia: mostra tudo o que a direita quer, mas não faz, deseja, mas não consegue. E quando se aproximar desse seu futuro encontrará demasiado passado. Convenhamos que não é entusiasmante.


Se, afinal, é para a Lufthansa

A história da privatização da TAP ainda está muito mal contada. O mesmo se deve dizer de algumas das anteriores decisões da empresa, como a tentativa de venda à Swissair em 2000 ou a espantosa compra da VEM, no Brasil, em 2006 (tudo com Governos PS), que arruinou a TAP. Mas foi a corrida recente para a privatização que tem vindo a criar mais nevoeiro, primeiro pela tentativa de associação, em 2012, a um empresário cujos pergaminhos eram por demais conhecidos, Germán Efromovich, depois pela venda a outro, David Neeleman (tudo com Governos PSD-CDS), um benfeitor que na primeira hora difícil anunciou que ou o Governo pagava o que ele não queria gastar ou vendia à Lufthansa, ou, de preferência, tudo ao mesmo tempo. Convenha-se, então, que a ideia mágica de que a privatização garantia a empresa e poupava dinheiro ao Estado, o que tem sido agora repetido por Rio, Cavaco e Passos, tem escasso fundamento e, como qualquer pensamento mágico, apresenta uma solução que nunca passou pela cabeça, e menos ainda pela carteira, dos acionistas privados, que esperavam lucros mas não toleram investimento.

Depois de tudo isto, a decisão do Governo de intervir na TAP era a única alternativa para a salvar. Mas se, como afirma o Expresso da semana passada, o Governo dá esse passo admitindo depois vendê-la à Lufthansa, à fatia ou pelo bolo inteiro, a operação ganha outros contornos. Gente do Governo diz-me que a hipótese só é apresentada para amaciar a resposta de Bruxelas ao plano de reestruturação, e que depois logo se vê. Seja como for, o país merece saber se isto será como o Novo Banco, o Estado paga para depois entregar à Lone Star e continuar a pagar, ou se é para ter uma transportadora nacional segundo uma estratégia nacional. Não vejo como se possa admitir pagar para ficarmos com um fantasma no armário.