Começou a guerra entre a Apple e o Facebook?

(Francisco Louçã, in Expresso, 24/12/2020)

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No seu notável livro sobre “A Era do Capitalismo da Vigilância”, Shoshana Zuboff lembra o Édito de 1513 dos reis de Espanha, que determinava que, ao chegarem, os soldados teriam que ler um “Requerimiento” aos indígenas das Américas, perguntando-lhes se aceitavam submeter-se: “Declaramos ser do conhecimento de todos que Deus é uno e indivisível, há uma só esperança, um só Rei de Castela, dono destas terras: manifestai-vos sem demora, e jurai lealdade ao rei espanhol, como seus vassalos.” O silêncio de quem ignorava a língua destes estranhos soldados vestidos de ferro era tomado como assentimento e autorização para a posse, ou como recusa e sinal para a destruição, o que aliás era o mesmo. Assim, o genocídio reclamou o fundamento jurídico de uma autorização contratual.

Zuboff sugere que as grandes empresas da internet procedem como os conquistadores espanhóis, lendo-nos um “Requerimiento” que é escrito numa língua desconhecida e invoca uma magia inexpugnável. Calando-nos, aceitamos ceder os nossos dados, deixando vigiar a nossa vida e embrulhando-nos em bolhas comunicacionais que constituem colmeias humanas, submetidas às leis da acumulação. Não somos o produto desse comércio, somos os criadores de um excedente informativo que é transformado em lucro por máquinas de manipulação. Se assim for, a guerra entre a Apple e o Facebook é uma salva de canhão contra a tecnologia do controlo.

MARAVILHOSA PANDEMIA

As cinco maiores empresas de comunicação cresceram 46% em 2020. Valem hoje 7,2 biliões de dólares. Essa abundância culmina uma senda de sucesso: a Apple é a maior empresa do mundo e, desde há quatro anos, mais de 90% do aumento da publicidade está nas mãos da Google e do Facebook. Estes gigantes estão a reformatar a sociedade, criando tecnologias de informação baseadas nos dados sobre a nossa vida, acessos, consumos, viagens e conversas. Usam imagens, mails, localizações, registo de compras, para saberem que somos do FC Porto ou admiradores dos Simpsons, e para criarem os gostos segundo padrões instrumentais que vão sendo apurados.

Como na Conquista, isto é facilitado pela concessão a leis permissivas, a cookies autorizados ou a formulários incompreensíveis que subscrevemos com o engodo de os serviços serem gratuitos.

Por isso, a decisão da Apple de permitir a partir de 2021 que os utilizadores bloqueiem o trânsito de dados enfureceu o Facebook que, com a Google, tem constituído o motor desta Conquista. É certo que uns e outros recorrem a práticas semelhantes: o FB comprou o WhatsApp e o Instagram para impedir potenciais concorrentes (e por isso há um processo para separar as empresas); a Apple aplica taxas predatórias a fornecedores de aplicações (e por isso entrou em choque com os criadores do jogo “Fortnite”, a Epic Games). Mas a Apple depende da venda de dispositivos e está mais atrasada nesta indústria de extração de informação, ao passo que os seus rivais precisam dela. Por esta razão, o FB quer impedir que possamos bloquear o seu negócio de pilhagem dos dados: Zuckerberg, não por acaso um aliado de Trump, lançou uma campanha para “dar voz aos pequenos negócios”, na realidade para proteger o seu acesso maximizado à tecnologia de controlo.

MAD

Durante a Guerra Fria, a ameaça de holocausto nuclear era desvalorizada pelo seu potencial MAD (destruição mutuamente assegurada, no acrónimo inglês). Também nesta guerra entre a Apple e o FB existe uma fronteira MAD, pois estas empresas estão ligadas entre si. A Google paga anualmente mais de 10 mil milhões de dólares à Apple para poder operar nos seus telemóveis e computadores; o FB também precisa deles. Ainda não temos um único fornecedor de aparelhos, serviços e redes. Há portanto entre eles um acordo que sobrevive à concorrência, querem a internet como o maior mercado do mundo. Não há inocentes nesta guerra, todas estas empresas querem dominar. Mas há também os índios descontentes.

Por isso, talvez este conflito Apple-FB seja um sinal dos tempos, há uma opinião pública que faz exigências de proteção contra a Conquista. Os índios começaram a traduzir o “Requerimiento” e não gostam do que está escrito.


O regresso de Passos Coelho

A sincronização entre a entrevista de Cavaco Silva e o discurso seguinte de Passos Coelho é reveladora de uma fraqueza e de uma ameaça — e se a fraqueza foi ignorada pela direita, em contrapartida a ameaça empolgou-a, exibindo, aliás, outra fragilidade mais funda.

Começo pela primeira fraqueza. Pouca gente tomou as palavras de Cavaco Silva como mais do que uma recordação longínqua ou um oráculo misterioso. O problema é que essas invocações só reverberaram quando foram milimetricamente relançadas dois dias depois pelo ex-primeiro-ministro. Percebe-se a diferença entre dois discursos iguais. Passos Coelho tem uma patine que falta a Cavaco Silva: o ex-Presidente tenta anunciar que ainda está, mesmo que já não esteja, e o ex-primeiro-ministro lembra que esteve mas quer voltar. Foi essa ameaça que empolgou os saudosistas. Um afinado coro passista veio logo incensar o herói, anunciando que a esquerda fica “em pânico” mal a voz cava do amado líder, a abrir o seu discurso profético, anuncia um “boa-noite” cheio de mensagem, ou que os dias de Rui Rio e António Costa estão contados, ou que agora é que o grande entendimento histórico com o Chega se torna possível, porque um PSD tonitruante reunificará todas as direitas. Mas tanto entusiasmo é uma fraqueza, baseia-se numa cândida ilusão, a de que o país aspira por austeridade. Por isso o herói da direita saudosa tenta erguer-se a um patamar sebastiânico que dispense a pergunta sobre o que conseguiu em Alcácer-Quibir e que diabo pretende fazer depois de tão grossa calamidade.

Agora, que Passos Coelho “regressará” é uma evidência escrita nas estrelas. Em política, há duas certezas que se aplicam a (quase) toda a gente: (quase) todos se vingam e (quase) todos querem regressar. E o ex-primeiro-ministro, como tantos outros, fervilha com o pressentimento de que o país precisa dele e que a sua peregrinação pelo poder é um dever. Assim, a fraqueza mais funda da direita revela-se nesta busca de quimeras salvíficas. Concluo, portanto, que a ameaça de Passos Coelho é uma excelente notícia: mostra tudo o que a direita quer, mas não faz, deseja, mas não consegue. E quando se aproximar desse seu futuro encontrará demasiado passado. Convenhamos que não é entusiasmante.


Se, afinal, é para a Lufthansa

A história da privatização da TAP ainda está muito mal contada. O mesmo se deve dizer de algumas das anteriores decisões da empresa, como a tentativa de venda à Swissair em 2000 ou a espantosa compra da VEM, no Brasil, em 2006 (tudo com Governos PS), que arruinou a TAP. Mas foi a corrida recente para a privatização que tem vindo a criar mais nevoeiro, primeiro pela tentativa de associação, em 2012, a um empresário cujos pergaminhos eram por demais conhecidos, Germán Efromovich, depois pela venda a outro, David Neeleman (tudo com Governos PSD-CDS), um benfeitor que na primeira hora difícil anunciou que ou o Governo pagava o que ele não queria gastar ou vendia à Lufthansa, ou, de preferência, tudo ao mesmo tempo. Convenha-se, então, que a ideia mágica de que a privatização garantia a empresa e poupava dinheiro ao Estado, o que tem sido agora repetido por Rio, Cavaco e Passos, tem escasso fundamento e, como qualquer pensamento mágico, apresenta uma solução que nunca passou pela cabeça, e menos ainda pela carteira, dos acionistas privados, que esperavam lucros mas não toleram investimento.

Depois de tudo isto, a decisão do Governo de intervir na TAP era a única alternativa para a salvar. Mas se, como afirma o Expresso da semana passada, o Governo dá esse passo admitindo depois vendê-la à Lufthansa, à fatia ou pelo bolo inteiro, a operação ganha outros contornos. Gente do Governo diz-me que a hipótese só é apresentada para amaciar a resposta de Bruxelas ao plano de reestruturação, e que depois logo se vê. Seja como for, o país merece saber se isto será como o Novo Banco, o Estado paga para depois entregar à Lone Star e continuar a pagar, ou se é para ter uma transportadora nacional segundo uma estratégia nacional. Não vejo como se possa admitir pagar para ficarmos com um fantasma no armário.


Big Google is watching you 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/04/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Dylan Curran passou semanas a pesquisar o que o Facebook e a Google guardavam sobre si mesmo. Sem acesso a nada de secreto, mas apenas a informação que cada um de nós tem disponível, percebeu até que ponto estas duas multinacionais armazenam tudo o que ele faz, pesquisa, compra, viaja, passeia, conversa. Estas empresas sabem mais sobre ele do que os seus próprios amigos ou familiares. E isto é apenas a parte visível do que fazem.

A mera publicação no “The Guardian”  de informação que está disponível para qualquer um levou a Google a pedir uma entrevista (AQUI) com Curran, em Dublin. O medo que estes gigantes têm de nos apercebermos do acesso que lhes damos à nossa vida é justificado. Se todos começarmos a exigir privacidade acaba a mina de ouro. Porque a informação que acumulam sobre nós é o seu verdadeiro negócio.

Estamos a dar a multinacionais uma quantidade de informação detalhada sobre nós próprios que nem o regime norte-coreano consegue acumular sobre os pobres desgraçados que vivem debaixo do seu jugo. A Google conhece os nossos amigos, os nossos familiares, os nossos amantes, as nossas opiniões políticas, as nossas taras sexuais, a nossa intimidade, a nossa rotina, o nosso consumo. E guarda tudo

Faço um resumo rápido, dando-lhe acesso ao que a Google sabe sobre si. Aqui pode verificar os lugares onde se ligou através do telemóvel no último ano – em que dia, a que horas, todos os movimentos. A Google registou e guardou como nunca nenhuma polícia conseguiu fazer. Aqui tem todas as pesquisas que fez, mesmo tendo apagado o histórico. Dylan Curran tinha quase nove anos de pesquisas. Aqui tem todas as aplicações que usa. A Google sabe quando as usa, onde as usa e com quem as usa. O que quer dizer que sabe com quem fala, quando vai dormir, quando acorda. Aqui pode ver o histórico que a Google guarda de tudo o que viu e pesquisou no Youtube.

Se fizer uma descarga de toda a informação que a Google guarda sobre si (AQUI) encontrará todos os contactos, todas as fotos tiradas pelo seu telemóvel, tudo o que comprou na Net e os dados de pagamento, toda a informação de calendário, todas as conversas no Google Chat e Hangout, todos os grupos em que participou, todos os sites que criou, partilhou ou visitou, os telefones que usou… Tudo. A informação que a Google tinha sobre Dylan correspondia a 5,5 gigabytes. Três milhões de documentos Word. Mesmo o que foi apagado. Nenhuma polícia política alguma vez teve tanta informação sobre algum cidadão. A Google tem sobre milhões. Se se virarem para o Facebook acontece o mesmo: mensagens, ficheiros, contactos, logins com horas e local… Pode descarregar aqui.

No seu Patreon (AQUI), Dylan Curran fez vídeos para lhe mostrar como pode desfazer parte do acesso que damos sem sequer pensar à Google. Porque a solução não é apagar o Facebook ou abandonar a Google. É protegermo-nos e obrigarmos os Estados a protegerem-nos.

Voluntariamente, estamos a dar a multinacionais uma quantidade de informação detalhada sobre nós próprios que nem o regime norte-coreano consegue acumular sobre os pobres desgraçados que vivem debaixo do seu jugo.

Uma multinacional que não controlamos tem acesso aos nossos movimentos, às horas em que nos deitamos e acordamos, para onde viajamos, a todos os nossos interesses e manias, com quem falamos e do que falamos, aos contactos que temos, às fotos que tiramos, aos mails e mensagens de chat que enviamos e recebemos, aos sites que visitamos, às aplicações que usamos, ao que compramos e como compramos. Conhece os nossos amigos, os nossos familiares, os nossos amantes, as nossas opiniões políticas, as nossas taras sexuais, a nossa intimidade, a nossa rotina, o nosso consumo.

Claro que cabe a cada um descobrir a forma de se proteger no meio das letras pequenas e nos “Termos e Condições” a que dizemos automaticamente que sim. Mas não chega. Porque o problema já não é apenas individual. É coletivo. Já não é apenas uma questão de privacidade, é uma questão de segurança e de democracia. Não podemos permitir que meia dúzia de empresas tenham tamanho poder nas suas mãos. Cabe aos Estados ou às estruturas multilaterais em que os Estados se organizam criar legislação que não permita a estas empresas acumular tanta informação. Que as obrigue a ter autorização expressa e discriminada para guardar alguma e pura e simplesmente impedi-las de guardar outra, mesmo que haja autorização. E cabe as Estados e às estruturas multilaterais multar, fechar e punir estas empresas sempre que ponham o pé em ramo verde.

Mas o dever dos Estados agirem não nos isenta de responsabilidades. Estamos a criar o mundo imaginado por Orwell. Só que, em vez do Estado são empresas, em vez da ideologia é o negócio, em vez do comunismo é o capitalismo global. O controlo social, a manipulação e a omnipresença do poder estão lá. Numa dimensão e com uma profundidade nunca vistas. Leiam o artigo de Dylan Curran, sigam os links onde podem ver tudo o que a Google tem sobre vocês e percebam para onde nos estamos a encaminhar. No que toca à recolha de informação, a Stasi era aprendiz.