O problema são vocês, senhor Oettinger 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 01/06/2018) 

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(Pode um país – ou uma união de países -, ser soberano quando a sua moeda é ela própria dependente de terceiros? Não pode. É o caso do Euro. O facto de o BCE ser um banco central de poderes amputados torna o Euro uma moeda coxa. O BCE não pode exercer a função de “prestamista em última instância” que está sempre associada à entidade que emite moeda num país soberano. Essa função está, na zona Euro, entregue aos “mercados”, por vontade da Alemanha. Logo, quem manda na Europa, mais que Merkel, são os ditos “mercados”. E são sempre eles que são invocados quando os eleitores se “portam mal”…

Comentário da Estátua de Sal, 01/06/2018)


Ainda o fogo de Itália não estava extinto e já uma nova frente, em Espanha, está em chamas. Como não tenho reforços para tudo, fico-me, por agora, pelo incêndio italiano. Sobre Espanha, sabemos que desligaram a máquina a Mariano Rajoy para dar lugar lugar a um governo de um PSOE igualmente comatoso que por sua vez dará lugar a eleições que por sua vez deverão dar o poder ao Macron espanhol que tentará reconstruir a direita, dando-lhe um ar mais moderno para fazer a mesma coisa. O destino espanhol deverá ser o que temos visto pela Europa fora: o esvaziamento de um centro-esquerda incapaz de se afirmar com um discurso verdadeiramente alternativo. Mas ainda estrebucha para matar um moribundo.

Em Itália isso tudo é passado. É ali que funciona o laboratório político da Europa. Nem todas as maluqueiras que por lá são testadas vingam, mas se alguma coisa acontece por essa Europa fora já aconteceu ou esteve quase a acontecer em Itália. A implosão do centro e da esquerda é coisa requentada em Roma, com a transformação do mais heterodoxo, democrático e poderoso partido comunista da Europa ocidental numa coisa em forma de assim-assim que junta ex-comunistas e democratas-cristãos, num albergue italiano onde a única coisa que os une é o apego ao poder, a mediocridade dos seus líderes e um europeísmo acrítico.

As vitórias do Movimento 5 Estrelas e da Liga (que já foi do Norte) são resultado das razias sucessivas do sistema partidário italiano, que começou com a operação “Mãos Limpas” e acabou em Mario Monti, um primeiro-ministro tecnocrata escolhido pela Comissão Europeia e que, quando foi às urnas, menos de dois anos depois, valia 10%.

Nas últimas eleições chegou-se ao refinamento final. Delas nasceu um acordo de governo entre o 5 Estrelas e a Liga. Um casamento entre um partido de extrema-direita e um movimento “pós-ideológico” que é legitimo à luz dos resultados eleitorais. No uso dos seus poderes constitucionais (apesar de não ser, ao contrário do que acontece em Portugal, diretamente eleito), o Presidente italiano Sergio Mattarella não deu posse à primeira versão do governo. A razão apresentada, e entretanto resolvida, foi a escolha de Paolo Savona, um eurocético assumido, para ministro da Economia e Finanças. Tendo em conta as posições dos dois partidos sobre o euro e a União Europeia estranho seria que a sua primeira escolha fosse um euroentusiasta.

Em Itália, onde foi possível ser primeiro-ministro e acusado de todo o género de crimes de corrupção, onde se pode concentrar quase todos os meios de comunicação social e governar ao mesmo tempo, não se pode ser contra o euro e ministro. Perante um governo que tem como ministro do Interior um líder de extrema-direita que defende deportações em massa de imigrantes (Matteo Salvini, da Liga), o problema era um ministro das Finanças eurocético. Acho que estamos conversados sobre as prioridades políticas do nosso tempo. Não é por acaso que a Grécia foi vergada e a Hungria continua viçosamente fascista.

Perante o impasse italiano, o risco era, se Liga e 5 Estrelas não cedessem, haver novas eleições e os dois partidos crescerem mais um pouco. A não ser, claro, que se instalasse o pânico nos mercados e os italianos se assustassem. É nisso que apostavam os eurocratas.

O comissário europeu Günther Oettinger expressou o seu desejo: que os mercados ensinem os italianos a votar. Responsáveis europeus engasgaram-se, a ministra francesa dos Negócios Estrangeiros abanou o leque nervoso, Juncker acordou num sobressalto. Esta mania que os alemães têm de abrir o jogo e dizer em público o que eles pensam em privado. A verdade é que a gestão do euro é incompatível com as democracias nacionais.

Por isso, os responsáveis do governo da União têm, na forma como olham para os Estados-membros, um pensamento automaticamente antidemocrático. Consideram as eleições uma formalidade aborrecida que, caso não corra como está no guião, deve ser corrigida por uma ação punitiva. E é nessa ação punitiva que repousa a estabilidade da União. O problema dos eurocratas é que, ao contrário do que aconteceu com a Grécia, com o Chipre ou com Portugal, é impossível vergar Itália. É uma economia demasiado importante para brincarem com ela. A chantagem não pode chegar a vias de facto.

Claro que as palavras de Oettinger têm, ao mostrar o total desprezo pela vontade democraticamente expressa pelos italianos , o problema de colocar a extrema-direita e o 5 Estrelas do lado da defesa da democracia e da representação do povo contra a chantagem de quem atiça os mercados contra ele. Entregam a quem nunca esteve do lado da democracia a defesa da democracia. Não há nada que legitime mais Salvini, Le Pen ou Farage do que a sinceridade desastrada de gente como Oettinger. Como estar contra eles quando um tipo que não foi eleito por ninguém, mas manda mais do que todos os eleitos, deseja que um povo seja punido pelo seu voto?

A União Europeia é, hoje, uma máquina de vitórias eleitorais de demagogos e extremistas. E vai continuar a ser até que Bruxelas se afogue no seu próprio autismo político. Podemos todos continuar a fingir que o problema são os eleitores italianos, gregos, franceses, holandeses, polacos, ingleses… o problema, caro Oettinger, são vocês.

E só quando deixar de ser sinónimo de “populismo” dizer que deixámos de controlar este Frankenstein e deixar de ser “radical” a recusa em ser governado por quem não depende do nosso voto é que travaremos esta correria trôpega para o precipício. Não sei se ainda é possível salvar União. Mas a prioridade é salvar as democracias. E desde que a UE começou a contribui de forma tão evidente para a sua degradação passou a fazer parte do problema, não da solução.

A Europa e o abismo

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 30/05/2018)

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(Esta é a discussão que, por cá, ninguém quer fazer, pelo menos os partidos maioritários, PS e PSD. Mas, como chega sempre o dia da nossa morte – não se sabe é quando -, assim também lá chegará o dia em que teremos que enfrentar a realidade. Por enquanto, como bem diz o povo, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. No caso de Portugal, em vez de “pau”, talvez seja melhor dizer turismo, juros baixos, etc.

Comentário da Estátua, 30/05/2018)


Itália é apenas o último episódio na degradação contínua de um aspeto central da construção Europeia e da moeda única: a sua compatibilidade com o funcionamento das Democracias.

Diz muito do monumental falhanço que é a arquitetura do Euro que, por estes dias, entre a proteção da ortodoxia financeira inerente às regras e a garantia do direito dos povos a decidirem o seu futuro, faz com que prevaleça em muitas cabeças a segunda.

Como se já não bastasse que, pela segunda vez desde 2011, em Itália se vá nomear um Governo “tecnocrático”, que é uma palavra simpática para dizer que se vai nomear alguém sem legitimidade democrática, Bruxelas decidiu piorar as coisas com o habitual tom paternalista e ameaçador e as subsequentes retratações mais ou menos tíbias.

O guião é já bem conhecido, os (ir)responsáveis europeus de um lado, e os mercados do outro, num ciclo mutuamente alimentado, com tal grau de sincronia que nos podemos interrogar se ainda sabemos onde começa o poder económico e acabam as instituições europeias, ou se a sua fusão é já completa, criam a própria realidade para a qual avisam: Instabilidade nos mercados. Juros mais altos. Bolsas em queda.

A solução política não agrada ao binómio Bruxelas/mercados e, mesmo sem um único ato real de governação, a mera possibilidade da sua existência, lança a instabilidade nos mercados, como se alguma coisa de substantivo tivesse mudado.

Os mercados são instrumento de Bruxelas, ou Bruxelas é o instrumento dos mercados. Nenhuma das duas é uma coisa boa. E, infelizmente, parecem cada vez mais verdadeiras.

Hoje é Itália, ontem foi a Grécia. Até nós tivemos direito a uma pressão elevadíssima aquando da formação do atual Governo. Eu ainda me lembro dos avisos de que teríamos um segundo resgate, sanções, orçamentos “chumbados” em Bruxelas. Porque a nossa solução de Governo não agradava. Também me lembro de o Presidente da República à data ter “ameaçado” com o fim do Mundo e/ou um Governo de gestão de Passos Coelho, mesmo se chumbado (como foi) por uma maioria no Parlamento, que duraria meses ou mesmo um ano. Há sempre colaboracionistas oportunos nestas coisas.

É assim que se têm plantado e regado as sementes dos populismos e dos autoritarismos que vão despontando por aí: o mais provável resultado desta última incursão pelo disparate europeu é que Itália venha a ser governada por uma maioria agora reforçada de uma mescla de extrema-direita e populistas. Quem desconhece a história pode não se lembrar, mas quando Hitler chegou ao poder já Mussolini governava desde 1922, e Itália já era uma ditadura desde 1925. Vai fazer um século. Já tínhamos tido tempo de o aprender.

Vamos cortar a conversa a direito: se a União Europeia e o Euro não são compatíveis com a Democracia, o projeto europeu matou-se a si próprio. Porque a Europa nasce das Democracias. Nasce da vontade de partilhar valores, de afirmar a liberdade, de garantir a paz. Se não serve para isso, não serve para nada.

Para onde vai a Itália?

(Dieter Dellinger, 18/05/2018)

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As eleições na Itália decorreram a 4 de Março e até hoje os partidos ainda não conseguiram formar governo. O sistema de voto proporcional e uninominal não funcionou na Itália. Muitos socialistas devem estudá-lo para verificar se pode alguma vez ser melhor que o português.

Itália entrou numa longa crise de ingovernabilidade. Na Câmara dos Deputados, venceu a coligação de “Legga, Força Itália, etc., de Pier Luigi Bersani e Berlusconi com uma diferença muito pequena: 29,5% dos votos e 29,1% para o partido de Beppe Grilo “Movimento Cinco Estrelas”.
No Senado, a situação é dramática: a coligação de Legga, FI obteve 31,6% dos votos. O “M5S” 30,7%. Sem maioria no Senado, é impossível governar.

A coligação de esquerda que governava a Itália com Mateo Renzi teve um resultado péssimo por causa das exigências europeias e do tremendo afluxo de refugiados africanos e sírios que a Europa não quer receber, mas que chegam diariamente ao Sul da Itália.

A maior novidade destas eleições foi o comediante Beppe Grillo. O seu Movimento 5 Estrelas tornou-se o primeiro partido da Itália, com mais de 25% dos votos, um resultado extraordinário. O comediante usou apenas as praças do país e nenhum canal de TV.

Berlusconi com a sua “Força Itália” mais vários pequenos partidos permitiu depois de muitas hesitações as negociações entre a Liga e o M5E, que ainda se devem entender sobre quem vai chefiar o governo, bem como sobre o programa deste, mas o afastamento do político multimilionário Sílvio Berlusconi, que dirigiu a direita italiana durante 25 anos, fez desaparecer o principal obstáculo.

Os eleitos do partido Forza Italia (FI) não darão a confiança ao M5E do ex-palhaço Bebe Grillo, que “não tem maturidade política para assumir esta responsabilidade”, mas um acordo entre a Liga e o M5E “não marcará o fim da aliança entre a FI e a Liga, em particular nas regiões que dirigem em conjunto”, garantiu.

Ao fim de mais de dois meses de discussões infrutíferas entre as diversas forças políticas, a situação parece tender a desbloquear-se entre a coligação de direita, que tem 37% dos votos, com a Liga à cabeça, e o M5S, que é o partido mais votado, com mais de 32%, e o Partido Democrata, que caiu para os 19%.

Luigi Di Maio, líder do M5S, e Matteo Salvini, dirigente da Liga, declararam-se prontos a governar em conjunto, mas as discussões bloquearam quando se tratou de discutir o lugar de Berlusconi, símbolo de todos os males da Itália, aos olhos de Di Maio, mas um precioso aliado para Salvini.

Todos são mais ou menos antieuropeístas, mas no programa de governo parece que o referendo sobre a permanência da Itália na União Europeia fica, para já, congelado.

O que não fica é o desconto exigido pela Itália ao BCE de 250 mil milhões de euros para evitar a saída da Itália do Euro, o que tornaria a gigantesca dívida italiana mais acessível a uma regularização dos seus défices e contas públicas em geral.

Os italianos não se entendem desde que os magistrados destruíram os partidos tradicionais, nomeadamente o líder Andreotti da democracia-cristã que fez vários governos de coligação com os comunistas que passaram depois a serem sociais-democratas.

Andreotti foi acusado de ser financiado pela Máfia que na Itália é apenas sinónimo de muitas organizações de crime organizado de extorsão e outras coisas mais, tendo existido mais no sul e na Calábria que no norte. O líder Andreotti foi condenado, absolvido e novamente condenado por reabertura quase ilegal do processo e perto do fim da sua vida absolvido.

Os juízes politiqueiros com os longos anos que levaram a tentar matar politicamente a democracia-cristã e o partido socialista acabaram por dar origem ao ridículo de um partido fundado por um palhaço ser o mais votado na Itália. A Itália tornou-se uma palhaçada e já tinha sido com Berlusconi. Tudo o que veio depois foi pior e as máfias chegaram ao norte ao mesmo tempo que a “Legga Norte” muda para “Legga”, abandonando a ideia de separar o Norte da Itália do Sul, passando a partido nacional de centro quase esquerda.

Hoje, organizam-se já diversas máfias no norte da Itália, podendo citar-se como um exemplo curioso a vila de Brescello de 5.600 habitantes, que não tem Presidente da Câmara há dois anos, porque a máfia local não deixa e prefere ou não pode impedir que a autarquia esteja sob o controle do Ministério do Interior. Também quase não tem votantes, pois quase todos os habitantes são estrangeiros. Os chineses nas lojas e restaurantes, os do Bangla-Desh e da África nos campos de arroz e no cultivo de pastagens e criação de gado. Sem os estrangeiros não haveria mais o queijo de Parma, cidade para a qual uma parte da população emigrou para serem professores, médicos, funcionários públicos e gerentes de empresas. Na Itália, onde imperam as Máfias, que os juízes nunca foram capazes de combater eficazmente, a população educada foge para as grandes cidades e vêm os africanos. Os partidos esperam unirem-se todos e fazer eleger uma candidata à presidência da autarquia.

Brescello situa-se nas margens pantanosas do rio Pó e para as pessoas com uma certa idade tem um significado especial. A vila com um presidente comunista e um pároco cristão-democrata inspirou a obra do escritor Giovanni Guareschi e alguns filmes feitos há, talvez, uns 60 anos atrás. Foram os célebres “Don Camillo e Peppone”. Também aí perto foi rodado em 1949 o célebre filme “Arroz Amargo” de Guiseppe de Santis com a célebre Silvana Mangano.

Isto nos bons tempos da cinematografia realista italiana que tanto gostei até ser destruída pelas fantasias de Fellini que deram cabo do cinema italiano em conjunto com a conquista monopolista em toda a Europa da distribuição dos filmes americanos que hoje já ninguém quer ver. Capitalismo sem concorrência é suicídio dos próprios.