(António Gil, in Substack.com, 09/02/2025, Revisão da Estátua)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Durante décadas, os burocratas europeus nunca se queixaram por os EUA interferirem nas eleições europeias, até gostavam e aplaudiam tais interferências. O caso mais recente, a anulação das eleições presidenciais na Roménia é só mais um numa longa lista de casos, embora seja um dos mais descarados.
Então por que razão a Europa se zanga agora com a investida de Musk no panorama político europeu, apoiando a AfD, o Partido da Reforma de Farage e previsivelmente, num futuro próximo, a Assembleia Nacional de Marine Le Pen? todos sabemos a resposta: desta vez os beneficiários dessa interferência não são os mesmos do costume.
O extremismo centrista, que dominou desde sempre o poder na Europa, também graças ao compadrio neoliberal americano não viu isto chegar apenas porque se recusou a ler o que está escrito na parede.
Macron, Scholz, Starmer, nenhum deles quis aceitar sequer a possibilidade da derrota do liberalismo, todos eles se afirmaram seguros que isso jamais aconteceria.
Na verdade, foram mais longe na recusa dessa probabilidade que se revelou de certa forma previsível: interferiram claramente na eleição americana lançando todo o seu peso na candidatura de Kamala Harris.
Fizeram-no de forma bastante aberta, aliás, nem tentaram escondê-lo. Starmer foi o que mais arriscou, enviando delegações de seu partido aos comícios da candidata agora derrotada. Macron e Scholz não fizeram isso mas certamente desqualificaram e insultaram Trump e o seu MAGA.
De resto a não eleita Comissão Europeia já tinha várias vezes tentado interferir nas eleições nacionais da própria Europa. Ursula disse, por ocasião das últimas presidenciais italianas, tentando impedir a vitória de Giórgia Meloni: nós temos ferramentas para impedir os Partidos Populistas de tomar o poder.
Bom, nesse caso as ferramentas falharam mas coagiram a actual presidente italiana a não desafiar em demasia a máquina burocrática Europeia. Portanto toda a gritaria sobre os EUA interferindo nas eleições europeias soa a hipócrita.
O que falta saber é até que ponto a nova administração americana vai interferir porque há diversas formas (e ferramentas, como Ursula o afirmou) de interferir, umas mais subtis, outras mais descaradas.
Até agora tudo se resumiu a alguns tweets de Musk mas as reacções a esse acto propagandístico de Musk têm sido tão descabeladas que a parada pode subir, do outro lado do Atlântico.
A recente criação do Escudo Digital Europeu, anunciada recentemente pela comissão Europeia, será vista por aquilo que é: uma medida pensada e executada contra a administração Trump.
A escalada pode começar a qualquer momento e envolver ameaças, retaliações económicas e talvez mesmo ajuda financeira aos adversários do liberalismo na Europa. Tudo coisas que já foram feitas no passado e com assinalável sucesso, só que a favor de quem agora se queixa de interferência.
Os receios dos neoliberais europeus fazem sentido: eles sabem bem a quem ficaram a dever os seus cargos e mordomias num passado recente. Mas ao baterem no peito e jurarem luta, talvez estejam apenas a atrair tudo o que dizem querer evitar.
Que parte do carácter retaliador de Trump é que eles e elas ainda não perceberam?
Fonte aqui.

