Quadros sociais da ignorância: a questão escolar

(Joseph Praetorius, 01/08/2018)
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Joseph Praetorius

(Excelente texto para começar o mês de Agosto. A refletir sobre o ensino, a Universidade, a vida política, as elites, ou melhor a ausência delas, que sejam esclarecidas. Em síntese, um esboço analítico que em muito explica, “a causa das coisas”.

Comentário da Estátua, 02/08/2018)

Na sequência do medonho conflito de 14/18 do século anterior, os jovens regressados da frente de combate alteraram radicalmente o panorama político das suas terras. Fizeram-no com base na mais intensa experiência organizacional que tinham conhecido. A militar.
Foi assim à esquerda e à direita. Visavam o regime censitário e o estado que lhes remetia a maioridade para os vinte e cinco anos (e ainda assim admitia protestos quanto à imaturidade da idade em que a maioridade era concedida). Venceram esse estado. Generalizadamente. À esquerda e à direita. De Lisboa a Moscovo.
Isto é evidentemente assim, embora os historiadores tenham nisto sido menos claros que as testemunhas e protagonistas desta era. Eu tive isto esclarecido num texto de Rolão Preto, que mo explicou muito melhor do que qualquer historiador.
Hoje porém o serviço militar obrigatório foi afastado. O exército tem menos atiradores do que qualquer polícia tem agentes. Não há pois lugar para a primeira experiência do comando e obediência. Acabou a longa era em que um homem maduro olhava como uma maravilha a juventude “que se doira com as primeiras armas e dá as primeiras ordens”, como a Yourcenar fez pensar ao seu Adriano.
A experiência organizacional marcante é portanto a escola superior, uma escola que perdeu as características da Universidade e se remete à formação profissinal, sobretudo,
As pessoas frequentam-na para aprenderem a fazer alguma coisa.
Não já propriamente para responderem à curiosidade intelectual, que arrastava a passo de mula os medievos tocados pelas ânsias da vocação nas estradas de meia Europa.
Não já para imporem ao corpo docente que lhes responda, imposição que se fez em revolta e exigiu, em Paris, as respostas às questões “quod libet”, questões a cujas respostas, com liberdade a partir de então admitida, os estudantes podiam submeter os mestres e que o Estatuto Manuelino da Universidade ampliou e a um tempo restringiu. Restringiu porque tirou tais questões da aula, ordenando ao lente que permanecesse meia hora à porta da cátedra para responder às dúvidas dos que passassem. Ampliou, parece, porque não fez exigências de estatuto a quem passava. Não era preciso ser estudante para ir a Coímbra matar dúvidas.
Na Universidade que resta perdeu-se até a livre disposição de si próprio quanto às matérias a estudar. O mestrando ou doutorando pode estar, por exemplo, interessado no Direito Internacional dos Direitos do Homem, mas ser remetido para o Estudo comparado da regionalização administrativa, porque isso dá mais jeito ao orientador, que ,aliás, estaria mesmo a precisar que alguém lhe organizasse o último material saído sobre tal tema…
É um pouco o prolongamento dos efeitos disparatados do menosprezo pela orientação vocacional no acesso ao ensino superior. O miúdo queria ir para Biologia mas ia para Germânicas porque veio da África do Sul e sabia bem Inglês. (Vi um caso assim, salvo por um casamento norueguês que devolveu a viabilidade à vocação). O miúdo queria ir para História mas foi para Comunicação Social ter aulas com a Judite (e equivalentes), experiência pela certa inolvidável, e, por tudo, encontramos engenheiros informáticos e enfermeiros como agentes imobiliários. Há uns vinte por cento (talvez um pouco mais) de pessoas a trabalharem nas suas áreas de formação superior.
Um desperdício , em síntese. E um desprezo pelas gerações mais novas que não deve esquercer-se e deveria estudar-se.
Ora sendo isto a grande experiência organizacional que se tem até aos vinte e cinco anos, receio que comecemos a notar as influências respectivas.
A primeira – e talvez não a mais infeliz – vem dada pela batota nos curricula. Um qualquer homem apresenta um grau que não tem, em universidade onde ninguém ouviu falar dele, ou plagiou a tese, ou comprou a tese, ou deram-lhe equivalências, ou qualquer desgraça dessas. São coisas do domínio do anedotário. Não parecem ter grande relevância em plano geral, a não ser como sintoma.
A outra influência vem dada pelos directórios políticos. Quando examinam uma posição, uma candidatura, ou um projecto, organizam um júri de exame escolar. Onde as pessoas são aprovadas ou chumbam, nas propostas que apresentam. É caricatural. E deve provocar rombos assinaláveis nas motivações militantes.
A terceira influência é ilustrável por esta notícia: uma pascácia judicante brasileira, mas igualzinha a várias (e vários) que aqui tenho visto, armada de uma estupidez assassina, mas, pensa ela, teoricamente ilustrada, – como se parece pretender no CEJ a piorar todos os anos – impede o Presidente Lula de dar entrevistas no cárcere, porque a lei “não embasa” (sic) essa pretensão.
As deficiências de preparação técnica vêm dadas pelo completo desconhecimento das obrigações internacionais do Estado Federal em matéria de Direitos Humanos, decorrentes da ratificação do texto e protocolos da Convenção Americana dos Direitos do Homem (Ver aqui). A triste criatura não tem sequer a noção da natureza da pena (que é a privação da liberdade ambulatória, mas de mais nenhuma, a menos que sanções assessórias tenham estabelecido outras privações).
A estupidez vem dada pela insensibilidade grotesca perante a injustiça (até os animais revelam sentido de justiça, limitado embora, e reagem mal à frustração de expectativas geradas no cumprimento de tarefas). A estupidez é o embotamento da sensibilidade daquele a quem a injustiça não faz reagir, como ensinou S. Isidoro de Sevilha. E é sempre tendencialmente assassina, o que está claro desde a Alegoria da Caverna. (Estamos portanto longe de quaisquer “modernices”).
Daqui decorre que a assunção pessoal deste modelo referencial de organização traz a consequência de cada funcionário entender a sebenta, o compêndio, ou manual, como horizonte máximo do conhecimento possível.
Recordo o sarcasmo de Rolão Preto diante de Salazar – “um professor entre professores”. Ele notava-o como uma anomalia, um desajuste, quase um disparate. De resto, deixou escrito noutro lado que “o catedrático não pensa, adopta”. Os homens de laboratório terão dificuldade em perceber isto, mas, aos mais velhos, pelo menos, aponto como exemplo os livros de Filosofia do Saraiva, no liceu, e a sua batidíssima “posição adoptada”. Aquilo era um livro de instruções para matar perguntas fundamentais. Um culturicídio. E o inteiro salazarismo, sendo coisa nenhuma, traduz-se simplesmente num conjunto de sucessivas posições adoptadas, em quadro de exigido vazio de convicções gerais, a suprir, quando conveniente, pela “doutrina social da igreja” (coisa infinitamente mais sinistra do que qualquer vacuidade).
É preciso começar a combater o desvirtuamento da Escola como fonte de gravíssimo desvirtuamento da vida pública, em todos os quadrantes. Trata-se, portanto, de um quadro social de ignorância nefastíssima e assim deve ser combatido. Pelo menos em Direito isso é gritante. Mas em todo o campo das Ciências Sociais e Humanas não se andará longe (e não o digo com alegria).
Em Medicina – cuja orgânica universitária não conheço do interior – intuo que a autoridade do mestre, assente na experiência clínica própria e na técnica que ali maturou, possa também conhecer desvirtuamentos nefastos. Tenho encontrado (embora tenha visto médicos de outro recorte) gente de quase cretina aplicação escolar nas enfermarias hospitalares. Agarradinha aos protocolos e sem nada de pessoal a acrescentar-lhes. Nem a habilidade de mãos sensíveis e treinadas. Nem a atenção centrada no que se faz e não na figura que se está a fazer. Estão no mesmo estado do polícia de trânsito que agrava o engarrafamento por querer moralizar os automobilistas, de acordo com o que lhe ensinaram na escola. Tímidos e portanto vaidosos e violentos. Ineptos, também, o que agrava tudo. (Não tiveram professores, instrutores e formadores decentes, portanto).
Pareceram-me circunstâncias todas similares.
E há coisas que não podem consentir-se.

Os donos de Portugal

(Por Estátua de Sal, 31/01/2017)

Este documentário, exibido e realizado para a RTP e disponível na internet deveria ser viral. Mas não é. Foi realizado em 2012 e passou às 23h na RTP2. Passou de novo a 5 de Novembro de 2014 à mesma hora no mesmo canal. E passou no passado dia 27 de Janeiro, no mesmo canal, às 2h da madrugada!!

Nele estão presentes muitas das causas dos males do País. As élites que temos são nele retratadas de forma realista e fria. Como deve ser um bom trabalho jornalístico.

Ver esta peça é fundamental para se perceber como há meia dúzia de famílias que há décadas mandam no país. E continuam, em grande parte a mandar. E, infelizmente para nós, a mandar muito mal.

Pelos vistos, há quem não queira que o Povo saiba disto. No horário nobre das televisões servem-lhe telenovelas e futebol. E mesmo a RTP2, à cautela, só divulga isto pela calada da noite. A verdade servida só aos noctívagos é sempre mais inodora e insípida.

São quarenta e cinco minutos que valem a pena, acreditem.


Esta Nau Catrineta – O Meu País

(António J. Branco, in Blog O Meu País, 29/01/2017)

 

Fundado por Dom Afonso Henriques em meados do século XII, Portugal é um dos poucos, pouquíssimos países (também Nação), com mais de duzentos e cinquenta anos de história. Filho “rebelde”, guerreiro, empreendedor, destemido, Dom Afonso Henriques, O Conquistador, mostrou desde o início uma estratégica eficaz com vista, não só ao alargamento do território, como também ao derrube de barreiras dogmáticas que limitavam (e limitaram) a sua acção enquanto rei, administrador e político. Uma das suas maiores guerras foi a resistência ao poder papal, que viria a ganhar (perdendo dinheiro) em Mil Cento e Setenta Nove, “comprando” a Bula Manifestis Probatum, ao Papa Alexandre III, que reconhecia Portugal como reino independente, mais de cinquenta anos depois de Dom Afonso ter dado os primeiros passos nesse sentido com a vitória na Batalha de São Mamede, em Mil Cento e Vinte e Oito.

Começámos bem, muito bem; com a Nau, esta Nau, a vencer milhas, desbravando territórios e chegando onde nunca antes alguém chegara.Orgulhemo-nos, pois, da nossa história, mas guardemos também a sua memória na qual, para além de fracos reis, “Alguns traidores houve algumas vezes” (Camões).

Mais de oitocentos anos após o sonho do Rei Fundador, Portugal está de novo à procura da sua independência, lutando não só contra os “primos” da actualidade (os reis de Leão e Castela de então) como também contra o poder dogmático de um “papa” que se permite (sendo-lhe permitido) validar bulas probatuns de duvidosos manifestis. Ah! Mas Portugal já passou por isto noutras eras – A Nau já foi saqueada em outras andanças. Pois já. E já enforcou “Távoras”, eliminou “Condes de Andeiros”, defenestrou “Vasconcelos” e “Migueís”, expulsou reis usurpadores e outros tais – “Que os muitos por ser poucos não temamos”.

A Nau, que até há bem pouco tempo navegava em mar alto e sem capitão de navio esteve (opinião pessoal minha), tal como a Catrineta, abandonada, à deriva e com a tripulação a morrer de fome, onde uma grande parte dos “marinheiros” sobreviveram alimentando-se uns dos outros: os que caíram no chão (inertes e impotentes) “comidos” pelos não mortos, mas também pouco vivos.

Premiaram-se os “Vasconcelos”, branquearam-se os “maus reis”, apagou-se a memória e tentou (tentaram alguns) reescrever-se a história, como se todos fossemos imbecis, desmemoriados, incapazes, imberbes e inúteis. Sem Rei, nem “Roque”, nem Timoneiro (ainda que um dos “grandes”, em tempos como tal se tenha afirmado), os Putos (sem parecerem bandos de pardais), oriundos de “Jotas” e outras tais, brincaram ao ajoelha aqui e dobra ali, perante os papas de agora e as papisas de um presente que se julgava extinto em termos de brio, dignidade e hombridade.

Tendo o tempo rodado alguns graus na direção certa e no sentido conveniente, vêm de novo os putos traquinas, de calções pelos joelhos e agrafados em suspensórios à cintura, oriundos de malfeitorias nefastas, pregar sermões ao vento (que aos peixes não conseguem fazer-se ouvir), anunciando a boa nova de velha maneira de pensar, fazendo crer que o povo, mais do que asno e burro, é também jumento apardalado em dia de chuvisco intenso que ao fim de tanto chover acaba mesmo por molhar.

Chamem-me, pois, tudo o que quiserem (“Serei tudo o que disserem”): miserável, pobretanas, invejoso. Mas estúpido, burro, asno, imberbe e inútil (“Poeta castrado”), NÃO!


Fonte: Esta Nau Catrineta – O Meu País